Disclaimer: Naruto não me pertence. Naruto pertence a Masashi Kishimoto. E espero muito que ele aproveite o enredo que tem em mãos, sem fazer nenhuma tolice.

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IV – Retribuição

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As luzes piscavam, muito acima dela. Quando finalmente pôde abrir os olhos, Hinata mal reconheceu as paredes que a cercavam, o gesto austero e seguro de quem cuidava dos seus ferimentos. As lembranças chegaram devagar, embotadas a princípio, depois mais e mais nítidas, até ela poder enxergar tudo com precisão, a luta brutal, o sangue, o pó da terra chegado tão perto de sua face, e os azuis que a cobriram logo antes de desmaiar. Sim, era dele a sua última recordação, e a mais querida de todas, a que fizera tudo ter valido a pena.

Ainda guardava, em um canto aquecido de seu coração, onde as dores reprimidas não o poderiam tocar, aquele estranho dom que Naruto lhe dera, como um prêmio cuidadoso, oculto dos olhos de quem o ousaria tragar. Não se permitia sorrir externamente, tal como se, novamente criança, temesse que os mais velhos lhe tomassem o brinquedo favorito, a boneca gasta de tanto manuseio. Por temor, guardava seu tesouro só para ela. Era também vontade e delícia, o prazer absoluto de saber que possuía algo de que o clã nem desconfiava, algo que valia mais do que insígnias brilhantes e adagas de ouro.

Seu corpo se estreitava inteiro só de pensar naquele que lhe dera a força tão necessária, a resposta primeira e fundamental. Aninhada nas lembranças que a acalentavam, Hinata repousou quieta, deixou que o organismo fizesse sua parte, reconstituísse as partes feridas, devolvesse ao tipo frágil de menina toda a sua solidez e força. A sensibilidade aos poucos ia retornando, estimulada pelo sorriso interior que lhe dava carinho, e através de seus olhos brancos podia ver, rodeando-a de modo pleno, a cura.

Enquanto se ia restaurando, tinha consciência de que o mês corria, o relógio devorador tragando primeiro as semanas, depois os dias que faltavam para o início das lutas definitivas na arena principal de Konoha. Hinata pensava em que espécie de treinamentos Naruto se envolvia, estimulado, certeiro, pronto para efetuar a vingança que ela não pedira, mas que ele reclamara. Podia adivinhar no rosto do menino loiro a convicção genuína que jamais o tinha abandonado, mesmo nos momentos de fúria, quando algo dentro dele parecia querer despertar. Sim, ela depositava em Naruto toda a sua confiança, sem medo de vê-la traída.

Aos treinamentos de Neji ela tinha acesso parcial, uma vez que era impossível não encontrá-lo nas dependências do clã Hyuuga. Eventualmente, ele se afastava com algum dos companheiros de time, decidido a treinar em algum recanto das florestas escuras que cercavam a vila; mas, em boa parte das vezes, eram as toras de madeira do clã suas vítimas preferidas para a execução do juuken. Não duvidava de que ele soubesse da sua quase espionagem – afinal, eram dotados dos mesmos olhos inquisidores –, mas, por algum motivo, não se pronunciava.

Talvez ele não tivesse nem pelo que temer. Neji jamais receara expor qualquer dos seus métodos de luta – ele se acreditava imbatível e, na visão dele, Naruto poderia no máximo conquistar uma demora, mas jamais o primeiro lugar do pódio. Aquela certeza, que se alastrava feito pólvora por toda a população de Konoha, não pudera vencer a crença da herdeira Hyuuga. Poderes shinobi pouco podem contra a força de vontade plena; e, além do mais, ela sabia o quanto o seu amado era capaz. Atrapalhado, talvez, mas com uma capacidade superior ao desprezo que por ele sentiam. Hinata não duvidava de que Naruto os surpreenderia.

Se ela conhecia alguns dos passos de Neji, os de Naruto lhe eram vedados, pois não tinha como acessá-lo em seus momentos de reclusão, e duvidava se, mesmo quando estivesse recuperada, teria coragem de fazê-lo. Pensava em que jutsus teria aprendido e como. Indagava a si mesma se Kakashi teria tido paciência para ensiná-lo, ou se ele estava treinando por conta própria, talvez ladeado por algum outro mestre. Teria a paciência necessária para aguardar a passagem daquele mês compulsivo e ao mesmo tempo tão lento. Não se desesperava, pois seu coração já havia aprendido a amar à distância.

Entretanto, fora impossível se conter quando o dia fatídico chegou, um sol acolhedor a iluminar os telhados avermelhados ao redor. As lembranças falaram fundo dentro dela, aliadas a um outro sentimento, de agonia e ao mesmo tempo desejo, que ela ainda não conseguia compreender, mas que já intuía. Era impossível apenas ir até a arena, sem recolher, em algum ponto do caminho, qualquer sensação que lhe desse paz e calmaria, que lhe renovasse as memórias de um rosto arranhado e cansado, mas sorrindo para ela.

O campo de treinamentos era o lugar ideal. As três toras eram familiares, o alvo pintado em círculos concêntricos em uma delas. Sabia que Naruto treinara ali; conhecia muitos dos seus passos, quando, oculta pela vegetação, o vira treinar até altas horas, disposto a superar o seu déficit de rendimento. Ele fora tão destemido a vida inteira. Não desistira nos primeiros confrontos que o limitaram. Fizera da solidão um legado e do sorriso um dom, cartão de visitas que ela lera, convite que ansiava por aceitar. Voz que parecia ouvir, chamando ao longe seu nome...

Toda ela ficou alerta em um único instante, ao perceber que a fantasia se concretizara; que aquele grito habitual enchera seus ouvidos de fato; que ele a alcançara. Antes de ir para a luta, decidira passar por ali e lembrar dos seus primeiros passos como gennin, assim disse Naruto, e Hinata sorriu, tímida, da coincidência tão oportuna. Mas certa sombra pairava sobre as sobrancelhas claras, encimando o mar de azuis, e ela percebeu. Uma ruga sutil franzia o semblante em geral alegre, e para ela, que o conhecia de tão perto e de tão longe, a diferença fora óbvia demais.

A tristeza agora parecia querer atingi-la, quando Naruto perguntou sobre os poderes que seu primo possuía. Não podia esconder dele a capacidade e força de Neji, que já era visto como um ninja competente, tendo apenas treze anos de idade, um a mais do que ambos tinham. Na mente de Hinata, um futuro possível para seu quase irmão se projetou: o título chuunin, em seguida o jounin, um possível cargo de confiança dentro da rígida hierarquia de Konoha, vitórias e alianças, a honra. Mas as imagens murchavam diante do rosto sério de Naruto, querendo a resposta daquela que melhor a poderia dar, e ela respondeu, monossilábica. Sim, apenas.

Adivinhou a depressão calcando ainda mais fundo a autoestima daquele que via. E, subitamente, sentiu que aquela dor era extrema demais para que Naruto a suportasse, e injusta, uma vez que ele tinha tanta força, mas tanta, que era capaz de vencer a maior adversidade e o mais incrível dos ditos gênios. Lembrou-se de quando fora ela quem fraquejara, e do quanto as palavras dele a fizeram se erguer sobre as próprias pernas trêmulas, ferida e ao mesmo tempo valente, desejosa de lutar por quem a reconhecia. Hinata não deixaria Naruto pensar que seu caminho era de todo solitário. Ela estava ali, depositária da sua esperança, crédula, convicta. Porque ele perdia, mas sabia como se superar, é que ela o admirava.

Incrivelmente, ele estava se expondo. Confessando todos os medos, dizendo que, por trás do sorriso adorável, havia o pânico da reclusão. Como se os dentes fossem uma armadura, a felicidade falseada ocultando a falta de alternativas. Não era porque ele sempre tentava que perder não o incomodava e muito. Não era porque ele confrontava que o desprezo não lhe atravessava o corpo como estacas de dor lancinante. Ao ouvir uma ofensa, ou uma das muitas frases de descrédito, Hinata abaixava a fronte, ferida; Naruto encarava o agressor, divulgando bem alto os seus sonhos. No entanto, a postura distinta não queria dizer que ambos não sentiam a mesma marca. Era isso o que ela podia perceber, então.

Mas a consciência da dor não a impediria de dizer a ele tudo o que acreditava. Apostava nele com todas as suas forças, não só porque veria naquelas mãos a justiça reparada de sua dor, mas por fé verídica, convicção inabalável. O sorriso dele não era apenas escudo. Era a fonte que a tornara uma pessoa melhor, uma kunoichi aplicada, qualquer coisa de luminosidade e eterno que a fazia ainda ter fé nos outros e no mundo. Se daquele riso cálido e do brilho do olhar azulado ela pudera extrair todo o acalanto de que necessitava, agora era o momento da retribuição. Ela queria, sim, apontar um caminho melhor e possível para ele.

Hinata então confessou tudo: o quanto ela própria mudara, mesmo que sutilmente, sem a percepção dos que a viam. Tudo graças a ele; e o quase murmúrio com que o disse, carinho e certeza evidentes na voz miúda, não passou despercebido aos ouvidos surpresos de Naruto, que acolheu em seu coração as palavras de um sabor o mais doce possível. Feliz por sua contribuição, sentindo-se importante, realizada, a menina ainda teve tempo de ver a despedida exagerada, ele se esforçando para espantar o último resquício de melancolia. Ao partir, um freio; havia ainda algumas palavras.

E o que ela ouviu aqueceu-a por inteiro. Era uma lembrança que iria se juntar ao primeiro dom, assimilado durante o torneio, e manter sua lucidez nos anos de vazio que viriam depois. Ele a julgara estranha a princípio – ouvi-lo de seus lábios era quase uma rendição a sua própria inabilidade –, mas o complemento da frase a deixou extasiada, encabulada, uma onda de sensações a invadindo por completo, enquanto o choque era refletido nas bochechas gradualmente atingidas pelo vermelho do rubor.

Ele ganharia, e a faria muito feliz. Ele seria reconhecido por todos, e isso a deixaria satisfeita, pelos ideais dele. Ele provavelmente voltaria de uma vitória nos braços dos companheiros e ela o observaria de longe, como sempre fazia, vigilância desconhecida e fiel. Mas agora ela poderia sonhar com a empatia que ele demonstrara pela sua pessoa, exclusivamente. Não pena, não consolo. Também não era reverência ao sobrenome que ela carregava. Ele gostava de pessoas como ela. Pessoas como Hinata, apenas. E aquele conhecimento era assustadoramente delicioso.

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CONTINUA...

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Oi a todos.

Já começo pedindo desculpas pela demora. Sim, foram cerca de três meses longe da fic, e eu lamento muito mesmo. Infelizmente, tempo tem sido algo complicado. E, para piorar minha situação, tive um problema com o computador e perdi vários arquivos, dentre eles esse capítulo de As invisíveis verdades, que estava mais ou menos pela metade. Tive que reescrever tudo, na medida em que me lembrava. Também perdi uma one SasuSaku praticamente concluída – que seria a primeira de um projeto de song-fics que pretendo lançar em breve – e metade do primeiro capítulo de Alguém como você, uma U.A. NaruHina que começarei aqui no FF em breve (fãs do casal, fiquem atentos!). Havia também esboços de outras fics, e ter perdido tantos arquivos me deixou muito desanimada. Enfim, faz parte, e eu começo do zero. =[

Espero mesmo que todos tenham gostado desse capítulo. Críticas, sugestões, comentários e elogios são sempre bem vindos. XD

Respondendo reviews por aqui...

Megume A.: Sim, eu adoro essa cena, e aqui está ela descrita mais uma vez, dessa vez sob o ponto de vista da Hinata. Tomara que você tenha gostado – as partes da Hinata são sempre as mais difíceis de escrever, porque, como ela não está tão em evidência quanto Naruto, que é o protagonista do mangá, fica difícil perceber as nuances da personalidade dela, e eu tenho feito o possível para ser fiel ao mangá, limitando um pouco minha interpretação, inclusive.

Concordo, agora TEM QUE dar NaruHina, ou Kishimoto não sabe aproveitar a trama que ele próprio desenvolve. TUDO converge para a junção do casal. Enfim, quem sabe ele não se inspira com o Dia dos Namorados? XD Beijo!

Hissatomi: Obrigada pelos elogios! Espero que você goste de reler a cena, vista sob a perspectiva da Hinata. E sim, você falou tudo... O casal tem empatia, ela foi a primeira a reconhecer o Naruto, por ela ele libertou a Kyuubi sem nem pensar duas vezes, e mais um monte de evidências. Agora ele voltou a Konoha, e vamos ver como tudo se acerta (confesso que odiei ver o abraço da Sakura... mas acho que os vários momentos em que ele lembrou da Hinata especialmente durante a luta não vão se pulverizar assim). Continue acompanhando, beijo!

Chii-chan s2: Olá, Marin... ops, Chii-chan! =D Seja bem vinda ao FF! Que bom que você gostou, espero que esse capítulo também te agrade. A declaração da Hinata no meio da luta foi algo realmente inesperado – nunca imaginei que o tio Kishi iria fazer com que ela se declarasse nessas circunstâncias –, mas agora eu espero que ele desenvolva o romance nem que seja só um pouquinho. Tudo bem que a parte política da história é muito boa, mas eu quero ver NaruHina! Muáááááá! =D Beijo!

Lust Lotu's: Querida, obrigada por estar SEMPRE presente! Essa cena também é uma das minhas favoritas, especialmente porque é ali que dá pra sentir que surgiu no Naruto algo a mais pela Hinata, percebe? Eu não diria que é amor, assim tão brutal, mas, como eu tinha dito no outro capítulo, é uma semente. Ela desabrochou quando tinha que ser: durante a luta Naruto X Pain, com a Hinata indo lutar pelo que ela julgava o correto.

Espero que você goste do capítulo. Beijos!

.ograa-chan.: Owwww, moça! Quase chorei lendo sua review, de verdade! Fiquei muito lisonjeada, embora eu ache que ainda tenho muito a aprender enquanto uma ficwriter. E saiba que ver todo o seu carinho me deixa ainda mais culpada por ter sumido por tanto tempo assim, algo que eu espero não ter mais que fazer. Me desculpe MESMO e tomara que esse capítulo tenha compensado, nem que seja só um pouquinho, a espera! Beijo!

nanetys: Também acho esse momento da história MUITO fofo! E não estou em casa de manhã, que é quando passa Naruto, então não pude rever... =[ Hoje em dia não vejo o anime – só leio o mangá – e tenho a nítida sensação de que só volto para o anime quando chegar a luta Naruto X Pain, que eu achei muuuuuito boa, além de ter a cena mais NaruHina de TODAS! Espero que agora o tio Kishi não nos decepcione e permaneça investindo no casal.

A grande verdade é que a Hinata fez pelo Naruto tudo o que a Sakura jamais poderia fazer por ele. No entanto, é tudo o que ela certamente faria pelo Sasuke. Cara, os casais já estão tão óbvios que só mesmo com o Kishi aloprando para a coisa não caminhar assim. E ainda tem gente que diz que não é amor, é egoísmo... =p

E quem sou eu pra cobrar demoras – fiquei milênios sem atualizar, e desculpe por isso, tentarei aparecer com maior frequência. Espero que tenha gostado do capítulo, beijos!

Viic Girotto: Também sou fanática por Naruto e Hinata! Yeah! =D Bem, espero que você tenha curtido o capítulo, apesar da minha demora – mil desculpas, mesmo. Ele se baseou na mesma cena do outro capítulo, só que do ponto de vista da Hinata. No próximo, as coisas mudarão um pouco, mas sempre seguindo o ritmo do mangá, que é a minha proposta. Então, acaba ficando difícil ocultar possíveis spoilers... rsrsrsrsrs Beijo!