II

Draco passou pelas poucas pessoas que freqüentavam o lugar naquela hora. Era uma pequena cafeteria não muito distante do Beco Diagonal.

Caminhou até uma mesa de duas cadeiras e se sentou frente ao seu convidado. Mesmo tendo sido uma iniciativa de sua parte, Harry Potter havia chegado primeiro e o aguardava pacientemente.

Harry por sua vez observou como Malfoy se aproximava chamando a atenção dos que ali também passavam o tempo e se sentou arrastando a cadeira com elegância.

Havia ficado surpreso pelo estranho 'convite' de um 'suposto encontro' para tratar sobre 'coisas importantes' e se perguntou o que de fato ele queria dizer com essas palavras, já que a nota trazida pelo falcão dos Malfoy não lhe dava a mínima pista do que seria além de 'algo importante'.

- Bom dia... – o loiro finalmente se dignou a mirá-lo.

- Bom dia... – Harry já bebia um café com creme então fez questão de sinalizar ao garçom para que viesse anotar o pedido de Malfoy. Esperou que o outro pedisse para então iniciar a conversa – Confesso que me surpreendi ao receber o seu bilhete. Como tem passado?

- Muito bem... – Draco desviou os olhos para fora. A mesa se posicionava em uma das amplas janelas adornadas de flores e permitia que se visse a rua pouco movimentada – Agradeço por ter vindo Potter.

- E... Qual seria o motivo dessa conversa depois de tanto tempo?

Draco voltou a olhá-lo. Sim, de fato não se falaram mais após o julgamento de guerra. Nem quando se cruzaram poucas vezes nos corredores do Ministério da Magia visto que ambos trabalhavam ali.

Também não se falaram quando seus filhos se fizeram amigos e isso já a mais de quatro anos, pelo que se lembrava. Albus Severus freqüentava sua casa nos finais de semana quando estavam em férias escolares e deixava que Scorpius freqüentasse a dele, mas o maior contato entre ambas famílias, ou melhor, entre seu filho e a família Potter foi exatamente nessa semana que acabava de passar.

O garçom voltou com um cappuccino com baunilha e o pôs frente ao loiro enquanto deixava uma pequena travessa contendo cookies tradicionais com gotas de chocolate.

Draco realmente gostava do pequeno Albus e tê-lo em sua casa era divertido tanto para si como para o filho.

- Sei que não deveria, mas... – fez uma pausa, pensando a melhor forma de dizer. Então sorriu fechando os olhos e se sentindo patético – Scorpius não me perdoará se souber disso...

Harry apoiou os braços sobre a mesa vendo o rosto de Malfoy. Ele ficava com o semblante suave quando serrava as pálpebras e sorria dessa forma. Também sorriu.

- Está preocupado com ele?

- Não perdoarei seus filhos se o fizer sofrer...

Harry não deixou de sorrir mesmo após essas palavras. – Draco... – olhos prateados se ergueram para mirá-lo – Se eu pudesse, te juro que faria o possível para não permitir que ele sofra, assim como não quero que meus filhos sofram... – então deixou de sorrir aos poucos – E os vejo machucando um ao outro por causa do seu filho... Por mais que me doa essa situação, eles precisam passar por essa provação e resolverem entre eles. É a vida...

Draco deslizou os dedos pela xícara enquanto pensava no que acabou de ouvir. Harry Potter sempre estaria um passo a sua frente... Desde sempre...

Havia tomado as dores do filho mesmo dizendo a si mesmo que não faria. Não conseguiu evitar. Agora estava ali tentando persuadir o outro a intrometer no meio de seus filhos para poupar Scorpius enquanto Potter se mantinha afastado deixando que eles resolvessem por si mesmo, apenas esperando o momento que o chamassem para dedicar-lhes conforto e apoio paterno.

Não suportava ver o filho tão arrasado como o viu quando voltou da viagem... Apenas não suportava olhar passivamente enquanto ele sofria...

É a vida... É o sentimento deles...

No fundo admirava a Potter...

- Te admiro muito, Draco...

O loiro o olhou surpreso, sem realmente entender. Não era ele quem admirava a Potter?

- Mentira...

Harry chegou a se surpreender com essa palavra. Então suavizou o semblante desviando os olhos para a própria xícara. – Admiro sua reação e a forma apaixonada e determinada em proteger e cuidar de todos aqueles a quem ama... Sem importar o que aconteça consigo mesmo...

Viu sinceridade e respeito nos olhos verdes... Sem dores e nem ressentimentos...

E Draco não soube como foram passar o tempo conversando sobre o trabalho no Ministério e lembrando o passado entre goles de cappuccino e biscoitos adocicados.

Disseram muito sobre os filhos também, o que levou a um assunto mais pessoal como a família e o cotidiano.

- Albus não comenta muito sobre sua vida em Hogwarts, já James é mais aberto comigo nesse ponto. Se eu souber de algo que esteja acontecendo quando eles voltarem ao estudo te aviso – Harry lhe disse quando se despediam.

Apenas pôde concordar, visto que Scorpius também não comentava quase nada em suas cartas...

Depois desse dia, passaram a conversar não apenas quando se cruzavam nos corredores do Ministério. E a dedicarem um tempo quando por acaso se encontravam no Beco Diagonal...

Sentavam numa mesa como dessa vez e riam de coisas fúteis, mas sempre discutindo sobre a família e a forma de vida bem diferente que levavam.

Draco também não soube como foram ficar tão amigos e em seu escritório no Ministério enquanto repassava o serviço, Harry aparecia para lhe fazer companhia quando não estava em alguma missão de aurores.


Harry estava deitado no sofá, a cabeça apoiada em um dos braços enquanto brincava distraidamente com uma esfera de cristal que apanhou da mesinha de centro passando de uma mão à outra e por vezes a jogando para cima.

Draco estava em sua mesa revirando as pilhas de pergaminhos que a empanturrava em uma modesta desordem. Dedicou um discreto olhar ao moreno e soprou a franja que lhe caía frente aos olhos.

- E como foi o caso daquele grupo que estavam praticando Artes das Trevas? – perguntou como quem não quer nada voltando a mirar o que fazia.

Harry fez uma careta ao se lembrar. Fazia quase duas semanas que tiveram esse caso. – Um saco... Eles eram em maior numero do que havíamos suposto. Deu algum trabalho, inclusive pelos feitiços perigosos que sabiam conjurar tão bem.

Draco parou o que fazia e o olhou novamente. – Foi nessa missão que você se machucou?

- Ah sim. Acertaram-me a perna com um feitiço de perfuração, mas já me sinto bem melhor. Na realidade o feitiço estava direcionado àquela auror novata que não me recordo o nome.

- Os aurores recém-escalados ingressaram faz quase três meses e ainda não gravou os nomes deles?

Harry voltou a fazer uma careta. – Não me lembro o nome, mas me lembro da pessoa em si...

- Espero que também se lembre do relatório dessa missão que ficou de me passar.

- Droga... Pensei que já tinha entregado o relatório... – Harry o olhou pensativo, vendo como voltava a vasculhar entre as pilhas de pergaminhos.

Draco cursou a Academia, mas trabalhava na sessão de Feitiços e Malefícios relacionados às Artes das Trevas. Todos os casos relacionados a este setor era primeiramente encaminhados para ele antes de chegar nas mãos dos aurores em forma de missões, depois tinham que relatar com precisão o ocorrido e o desfecho do serviço para voltar às mãos de Malfoy quem dava o veredicto final e encaminhava para o arquivamento no ultimo piso.

Depois que soube quem era o encarregado dessa divisão que ficou esclarecido porque seus relatórios sempre voltavam rabiscados e com exigências a serem cumpridas. Houve uma vez que recebeu um bilhete junto com seu relatório pedindo que detalhasse melhor os fatos e que fosse o mais claro e objetivo que pudesse.

No início achou que era só consigo, mas soube por outros chefes de aurores que seus relatórios também voltavam. Um deles chegou a dizer-lhe que seu bilhete viera apenas escrito com uma palavra em vermelho: medíocre.

- Porque preferiu essa sala ao invés das missões? – a atenção dos olhos prateados voltou a si – Não entendo. Você sempre preferiu interagir e usar magia ao invés de apenas analisar e repassar ocorrências.

Um amargo sorriso surgiu nos lábios de Draco. – Não se pode confiar num companheiro que pertenceu ao lado oposto e que tem uma marca no antebraço em uma missão que custaria a vida de alguém... – então fechou os olhos se sentindo péssimo. Sabia que seria assim dali em diante, vivendo sob os olhares acusadores e da desconfiança em tudo que fosse fazer. Muitos dos seus sonhos tiveram de ser esquecidos por causa disso. Era algo sem volta...

Dedos desajeitados o retornaram de volta à realidade quando adentraram incertos por seu cabelo. Teve a cabeça puxada de encontro ao corpo de Potter.

- Desculpa Draco... Desculpa... – Pôde ouvir de Harry mesmo ele não tendo pronunciado uma única sílaba. E isso era muito mais gratificante do que seria se o ouvisse dizer em voz alta. Talvez não seria tão verdadeiro...

Harry olhava para os fios platinados que enroscavam em seus dedos e era como se acariciasse sua pele. Então mirou além, para o trecho de pele pálida que se estendia pela curvatura do pescoço de Malfoy até o colarinho da camisa.

Não soube quando e nem como, apenas sentiu calor e maciez de encontro a seus lábios quando pressionou a boca nessa parte vulnerável.

Draco entreabriu os lábios e dentre eles somente escapou sua respiração abrasadora.

Silencio...

Harry agradeceu interiormente que tudo se resumisse em silêncio...

Draco não questionou o que fizera e não houve necessidade de se desculpar. Não tiveram confrontação verbal. Apenas se miraram nos olhos envolto nesse silencio, ensurdecidos pelas batidas do próprio coração...


Certo dia, quando ainda as férias não haviam acabado e passara uma semana depois do acampamento, Harry notou como Albus se mantinha calado e olhando pela janela de seu quarto. Sempre quando passava pelo quarto do filho dedicava um olhar preocupado na esperança de vê-lo fazendo algo que não fosse olhar pela janela enquanto se perdia em si mesmo. Mas sempre ele estava da mesma forma distante...

Nesse dia ele olhava pela janela, porém segurava um pergaminho nas mãos. Seus dedos apertavam tão forte o papel que chegava a amassá-lo entre os dedos.

Sabia que o filho de Malfoy não entrou em contato com ele como costumava fazer nas férias. E isso era doloroso para Al...

Seus olhos então buscaram a figura de James que estava sentado na sala com um livro nas mãos. O mais velho passava as páginas sem ler o conteúdo e por vezes franzia o cenho e mirava a parede, pensativo.

Sentia seu peito apertar ao vê-los dessa forma...

Então suspirava e voltava ao que tinha de fazer. Quando surgia uma oportunidade perguntava para Albus se ele queria conversar mesmo sabendo que ele negaria discretamente e o via voltar ao quarto.

Por vezes também perguntava para James se ele queria falar sobre isso, mas o filho o olhava agradecido e negava com a cabeça, sentido pela situação.

Não podia obrigá-los a dizer-lhe...

E foi assim até o final das férias. Quando o dia de tomarem o Expresso de volta a Hogwarts chegou e estavam na estação para embarcá-los a tensão entre os filhos chegava a ser palpável...

Não sabia quando aconteceu, mas sabia que aconteceu algo entre eles. Não havia mais aquela frieza e distancia, havia um silencio intenso e misterioso entre ambos. Na forma como James olhava para Albus e o menor evitava mirá-lo diretamente aos olhos.

E quando os filhos avistaram ao pequeno Malfoy esse estranho desconforto entre os três pareceu aumentar.

Viu James ser o primeiro a entrar no trem com a desculpa de procurar um vagão enquanto Scorpius esteve ao alcance deles. Então Albus acompanhou o amigo no embarque sem pronunciarem uma palavra.

Quando o Expresso partiu ainda permaneceu na plataforma sentindo-se impotente e um pai que deixava muito a desejar.

E quando ergueu os olhos e mirou a Draco não muito distante de onde estava, o percebeu o olhando com a mesma sensação que sentia.

Ele também se sentia um pai que deixara muito a desejar...


Com os filhos de volta a Hogwarts, Harry percebeu que tinha mais tempo para pensar em si mesmo e em suas próprias coisas.

Na maioria das vezes quando estava em casa, sua mente girava em torno das conversas que tinha com Malfoy no Ministério. Sobre o difícil que era cuidar dos filhos e ministrar uma família...

Lembrava-se também dos conselhos importante e das críticas construtivas que ele lhe dizia.

Talvez devesse conversar com ele sobre um treinamento que pensava fazer para dominar melhor alguns tipos de malefícios poderosos visto que uma de suas missões quase termina em tragédia...

Draco tinha um elevado conhecimento ao respeito por trabalhar justamente nessa sessão...

E quando se deu conta que pensava em demasia em Malfoy, foi quando notou que Ginny o olhava com angustia e mágoa.

- Você está distante...

Apenas um pequeno comentário, mas para Harry foi como um balde de água fria que lhe gelou o corpo inteiro. Por trás destas palavras estava implícita a muda pergunta: "Você está me traindo?" e em seus olhos leu claramente a desconfiança.

Não soube se sentia culpado ou insultado...

Foi apenas um toque...

Mas sentia o calor ainda arder seus lábios quando fechava os olhos e se recordava...

Foi apenas um toque que nunca mais se repetiu... Que nunca mais ia se repetir...


Draco olhava pela janela enquanto Astória dormia.

De braços cruzados frente ao peito e recostado no vidro frio olhava o céu repleto de estrelas enquanto sua mente percorria terrenos proibidos de um sentimento que desconhecia e temia...

Fechou os olhos levando a mão ao pescoço para encobrir a região que lhe queimava, como se seu sangue estivesse em brasa...

Mesmo não querendo tinha que admitir que sentiu prazer com apenas essa pressão de lábios em sua pele. Assim como sentia prazer ao ser envolto pela mirada intensa de Harry...

E sentiu-se péssimo por sentir-se assim...

Levou a outra mão à testa na tentativa de esconder o rosto corado de vergonha, mesmo sabendo que não havia ninguém nesse momento vendo sua luta interior.

Desejava senti-lo novamente... Mas sabia que nunca mais o sentiria dessa forma proibida...

Sorriu com amargura...

Harry Potter sempre estaria um passo distante de seu alcance...

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Continua

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