Beyblade e os personagens não me pertencem
Um grunhido baixo chega aos seus ouvidos quando o outro sente a fonte de calor, que seu corpo oferecia ao segurá-lo, se afastar. Só quando Tala tem certeza que o outro não emitiria mais nenhum som ele dá a sua atenção ao rapaz de cabelos azulados que o fitava da porta do quarto como se o quisesse matá-lo.
Segurando o meio sorriso que ameaçava escapar ao pensar na reação do amigo, Tala o chama perto com um gesto de cabeça.
Cap. 2
Kai se aproxima devagar, sua mente trabalhando sem parar tentando descobrir em que que o ruivo se metera dessa vez.
Ele congela no lugar quando a pálida mão de seu amigo levanta uma parte da manta revelando o que trouxera. Um rapaz de cabelos negros, preso em um rabo de cavalo baixo, e orelhas levemente pontudas, a pele pálida ainda mostrava o bronzeado natural adquirido por seu povo enquanto dormia enrolado no tecido. Ele parecia estar desconfortável, suas bochechas estavam levemente rosadas, e pequenos cortes eram visíveis no rosto e pescoço.
Seus olhos vermelhos arregalados tentando confirmar que o que via era real, e sem perceber, ele fala, sua voz quase um sussurro.
- Ele ... é ele...
Depois de alguns segundos de silêncio, o qual não recebe uma resposta, ele sai do estupor e ajuda na tarefa de limpar e tratar os ferimentos do neko-jin utilizando o kit de primeiros socorros que Tala trouxe, o qual estava focado exclusivamente em avaliar a situação do chinês.
Meia hora depois, os dois ainda trabalhavam nos ferimentos. Os dois braços do nejo-jin foram enfaixados quase que por completos, dando atenção especial aos feios hematomas presentes nos pulsos. Os hematomas e arranhões localizados no tórax foram tratados rapidamente, apresentando serem ferimentos obtidos de batalhas de Beyblades.
O que mais os preocuparam foram os dois grandes rasgos, um em cada perna, que iam do quadril até a parte interna da coxa. Felizmente eles não apresentavam sinais de infecção, pelo contrário, estavam em processo de cicatrização, mas a pele ainda estava avermelhada e muito sensível o que exigiria mais cuidado e atenção para que movimentos bruscos ou muito amplos não rompessem a pele dificultando a sua recuperação. Tirando os ferimentos o neko-jin apresentava-se bem, seus músculos ainda mais definidos do que a última vez em que os russos o viram.
A voz grave de Kai percorre o cômodo, mantendo seus olhos na pessoa deitada a sua frente.
- ...Qual o motivo disso...? Rei Kon é uma das pessoas mais amigáveis que já conhecemos... O que queriam dele?
Ao pensar nas sessões de tortura que o neko-jin recebera sua garganta se aperta, algumas das marcas eram idênticas aos que eles, os Demolition Boys, receberam no passado em seus treinamentos.
Tala se mantém em silencio, sabendo claramente que seu amigo não esperava respostas para suas perguntas, não agora em que ainda tinha coisas a ser feito.
Mantendo a mente focada na tarefa de limpar o restante das feridas o mais rápido possível aproveitando a inconsciência do rapaz, ele reprime seus sentimentos, inclusive a raiva pela incapacidade de resgatá-lo mais cedo. "Desde quando o Kon conseguiu a minha consideração?" pensa um pouco amargo consigo mesmo por ter permitido algo assim acontecer e por ainda teimar em negar o que era óbvio: Kon conseguira passar por suas barreiras assim como fizera com Kai, ainda que sendo mais superficialmente em seu caso.
Após enfaixarem as pernas, confirmando, para alívio dos dois amigos, que os ferimentos não eram sérios desde que não abrissem, eles cobrem o rapaz que agora usava uma boxer de Kai, e deixam o quarto silenciosamente.
Antes mesmo de fechar a porta Tala pega seu celular, digita um número, e se afasta conversando em inglês com a pessoa que o atendeu.
Decidindo que precisava de algo para mantê-lo ocupado e acalmar os nervos, Kai vai à cozinha e prepara café puro, enchendo duas xícaras. Após alguns segundos, Tala entra, recebe o café agradecendo com a cabeça, e se senta à mesa.
O Fênix toma um gole da bebida, recebendo de bom grado o amargo e a cafeína. Apoiado com as costas na pia, de frente pro ruivo, Kai não teve de esperar muito.
- Eu lhe devo uma explicação- Tala começa calmamente, seus olhos azuis presos a xícara de café, já meio vazia - Como sabe, há três meses verificamos o movimento de qualquer atividade suspeita em que a Abadia possa estar envolvida nessa região da Rússia. Á duas semanas recebi notícias sobre uma nova aquisição deles, um mito vivo que achavam não passar de invenção do antigo povo chinês. Eu sei,- levanta uma das mãos calando o outro antes de o interromper- não lhe falei nada com receio de desconfiarem de algo, e você não estava em condições de lidar com isso- fala apressadamente antes que o outro reclamasse. Satisfeito com o silêncio Tala continua - Após uma procura mais detalhada encontramos o nome de Kon nos arquivos do laboratório subterrâneo recém descoberto. Nós o encontramos lá.- Tala se cala, não sendo preciso explicações para o "nós", Kai sabendo na hora que Spencer e Bryan estavam envolvidos.
- Por quanto tempo vocês sabiam?- o tom era indiferente, mas o ruivo pôde sentir a traição no olhar do outro por omitir algo tão importante. À alguns anos atrás o caso teria mais importância para Kai do que acharia prudente, mas hoje ele sabia o quanto ele é importante para seu amigo, assim como Kai é importante para os Demolition Boys.
E mesmo após seu amigo ter estragado qualquer chance de ter uma relação com o neko-jin, mesmo que fosse apenas estritamente profissional, e não uma relação entre irmãos, ele sabia que o sentimento não mudara. Kai Hiwatari é uma pessoa arrogante, teimosa e, muitas vezes, parece indiferente com o resto do mundo preferindo manter-se afastado das pessoas, mas a preocupação ainda era bem evidente para quem o conhecia bem.
"...Dois amigos como eles... não achava possível ficarem brigados por três malditos anos..." Tala volta a atenção ao presente, falando com voz firme.
- Quatro dias – responde, encontrando, com um pouco de culpa, os olhos vermelhos. Se havia uma pessoa que o pudesse fazer sentir tal emoção seria Hiwatari – Mesmo Voltaire e os lacaios estarem desaparecidos por muitos anos, o que fizeram é definitivamente coisa deles.... O que fizeram com Rei, não há nenhum traço da pessoa que você conheceu... - "Eu não pude arriscar ter você com a gente" pensou - Só confirmamos a identidade hoje, quando o retiramos de lá.
Olhando sério pro amigo por um bom tempo, Kai repassa o que acabara de ouvir. Há alguns dias completou dois anos desde o desaparecimento de Rei, todos haviam parado de procurá-lo fazia alguns meses, com exceção dele. O simples pensamento de seu amigo estar preso em algum lugar, sozinho, longe das pessoas que o moreno amava, o impedia de parar sua procura, mas a busca sempre acabava em nada.
Agora, ao tê-lo no mesmo teto sabendo o quão perto ele estava e, pela expressão de Tala, por tudo que passou, o faz querer transformar a vida de cada um dos envolvidos em um verdadeiro inferno, com as próprias mãos.
Kai é quebrado de seu transe e observa Tala colocar a xícara vazia na pia e ir ao fogão enquanto pegava uma panela.
- Ele precisa comer. Uma sopa das sobras de ontem deve ser o suficiente, por enquanto. - responde calmamente ao perceber o olhar de Kai. "... Ele vai precisar de todas as forças que conseguir nestes próximos dias."
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Com passos quietos Kai se encaminha pro quarto levando a sopa em uma bandeja. Com facilidade ele abre a porta, apesar de o quarto estar escuro seus olhos logo se acostumam a penumbra. Silenciosamente ele entra deixando um facho de luz iluminar melhor o quarto pela porta aberta, enquanto vê um vulto se mexer na cama.
Atentos olhos dourados o observam com apreensão pela borda do cobertor que cobre o resto do corpo, fazendo seu coração se acelerar ao vê-los.
Colocando a bandeja no criado mudo perto da porta ele dá alguns passos para a cama, mas pára ao perceber o outro se escondendo embaixo do cobertor.
- Rei? – pergunta mantendo a voz indiferente. O outro treme quase que violentamente, apavorado, e tenta se esconder mais, se encolhendo o máximo possível embaixo do cobertor, no lado oposto da cama à porta e ao russo.
- Eu ia lhe informar mais tarde – vem a voz suave de Tala, fazendo Kai o olhar sobre os ombros.
Os olhos azuis pareciam poder ver a pessoa em posição fetal embaixo do cobertor com clareza, tamanha a intensidade do olhar.
Antes que o Fênix pudesse identificar o que se passava na cabeça dele os olhos azuis o fitam não saindo de sua posição na porta.
- Pensei que você conseguiria reverter o estado em que ele entrou, talvez ainda consiga, afinal vocês tinham uma ligação muito peculiar, eu diria até forte, considerando que estou falando de você, Hiwatari – falou em voz baixa, deixando aparecer um meio sorriso satisfeito com a cara de mau humor do amigo pelo comentário. Mas Tala logo volta com o ar sério, se aproximando da cama tomando cuidado para manter sua expressão mais amena caso Rei o olhe.
- Como auto-proteção Rei, o lado consciente que nós conhecemos, se fechou em sua mente. O que nós vemos agora é o subconsciente, o seu lado selvagem, provavelmente um efeito colateral de ser um neko-jin.- Tala olha por cima do ombro pro amigo com a testa franzida – Voltaire não conseguiu nada dele, mas nós sabemos que isso não tornou o tratamento de Kon mais agradável, e sim o contrário.
Soltando um pequeno grunhido de confirmação, Kai relembra o que os dois russos enfrentaram. Assim como os outros da Abadia, eles tinham sofrido várias agressões tanto físicas quanto psicológicas enquanto estavam lá, mas nada se comparava com o que acontecia com as pessoas que não forneciam o que Voltaire e Boris queriam. As pessoas sofriam punições tão cruéis que só de lembrá-las lhe davam arrepios quando era mais jovem.
Ele terá que conversar mais tarde com Tala para saber tudo a respeito do tempo em que Rei permaneceu em custódia do seu "avô". O único pensamento que ajudava a aliviar um pouco o peso que sentia em seu peito pela situação do chinês, além de tê-lo em seus cuidados onde não deixaria mais nada lhe acontecer, é a estrita rotina da Abadia. Seus "cientistas" são obrigados a manterem uma ficha com o progresso e outras informações relevantes de todas as experiências e trabalhos realizados com a pessoa, anotações, que quando achadas, serão extremamente úteis nessa situação.
Kai se tensiona ao observar Tala se aproximar da cama e descobrir a cabeça do neko-jin.
