Kai observa Tala se aproximar da cama e descobrir a cabeça do neko-jin.


Cap. 3

Rei mantinha os olhos fechados, o corpo tenso esperando a dor começar. Mas ela não veio. Abrindo um pouco um dos olhos ele pisca confuso.

Um rapaz de cabelos vermelhos vivos o observava. Mas o que lhe prendeu a atenção foi a outra pessoa logo atrás do ruivo. Os cabelos azuis e principalmente os olhos vermelhos que o olhavam com intensidade lhe eram muito familiares e estranhamente lhe davam a sensação de segurança.

Cerrando os olhos, ele tenta descobrir o porquê desse homem ser tão tranqüilizador se não o conhecia.

Os olhos vermelhos brilham levemente e Kai se aproxima devagar relaxando o rosto, parando logo atrás de Tala que se mantinha em silêncio.

-Você se lembra de mim Rei? - fala com uma voz forte, mas amigável.

Piscando confuso, o neko-jin observa curioso o homem, não conseguindo entender o que falara. Eram palavras conhecidas, no entanto em sua cabeça as palavras não tinham ligação com nada coerente.

- Se você me entendeu mexa a cabeça - Kai fala novamente, não recebendo nenhuma reação diferente do outro.

O Fênix suspira e pensa um pouco irritado, e preocupado, em como iria se comunicar com o moreno, principalmente porque em pouco tempo ele terá que informar Senhor Dickenson e os outros sobre o neko-jin. E fazer com que confiem neles poderá ser difícil caso não consiga entendê-los.

Ele observa de relance o neko-jin "Ao menos ele está menos tenso, é provável que inconscientemente se lembre de mim, mas é melhor agir com calma."

Com uma das mãos começa a massagear uma de suas têmporas tentando aliviar a dor de cabeça que começava, até ouvir um grunhido. Olhando pra cama ele percebe a expressão de dor de Rei. Com a extensão dos ferimentos que possuía e o duro tratamento em que foi submetido durante dois anos o impediriam de se movimentar muito por alguns dias agora que passaria a se sentir menos ameaçado, não tendo mais o efeito da adrenalina como analgésico. Apesar de que Kai só esperaria que isso acontecesse depois de um dia ou dois, quando o outro se acostumaria com eles. Internamente ele dá de ombros, não querendo se aprofundar mais neste assunto.

Pegando a sopa, Tala senta na cama ao lado do moreno, fingindo não perceber quando este se afasta alguns centímetros dele mantendo um bom espaço entre eles. Com um ar indiferente ele enche a colher de sopa e a coloca na frente da boca do chinês, esperando sua reação.

Não sabendo o que fazer o Tigre olha para o rapaz de cabelo-azulado que mostrava surpresa pela atitude do ruivo.

Percebendo olhos dourados e inseguros em sua pessoa, Kai lhe dá um pequeno aceno com a cabeça, tentando assegurá-lo.

Depois de mais uma olhada pro homem de cabelos ruivos a sua frente o neko-jin abre lentamente a boca que é logo preenchida pela colher. Ainda receoso, engole o líquido e timidamente abre novamente a boca logo em seguida.

Tala teve de sorrir, mesmo sendo um sorriso quase imperceptível. O neko-jin continua o encantando com seu jeito de ser e encarar a vida, não que ele algum dia admitirá isso pra alguém, já que não o levaria a nada bom se o fizesse.

Os olhos dourados, antes sem vida e amedrontados agora se apresentavam, felizmente, um pouco mais focados e de uma cor mais próxima a da que lembrava ser. Ele continua a alimentá-lo parando quando uma boa quantidade foi ingerida, não desejando sobrecarregar o estômago dele, sempre consciente da atenção do outro russo em seus gestos.

Pondo a tigela de lado Tala dá um pequeno sorriso pro neko-jin que o olhava com a satisfação de um filhote quando recebe um agrado, mas que ainda se mantem atento esperando a qualquer momento alguém expulsá-lo do lugar com um pontapé.

Kai se aproxima mais da cama e ajeita o no cobertor ao perceber as piscadas mais vagarosas do neko-jin, e em poucos segundos a respiração dele se acalma, caindo em um sono profundo sem apresentar nenhum tipo de resistência.

--X--

Tala senta no sofá, Kai, em uma das cadeiras, a outra sendo ocupado por Spencer. Em pé, encostado na parede perto da lareira acesa, está Bryan. A sala é grande, mas aconchegante e o tapete em frente à lareira com uma mesa baixa no centro tornava o lugar mais acolhedor, mas ainda simples e prático.

-Então?- pergunta Bryan com os braços cruzados sem mudar de posição.

-Fisicamente ele está debilitado, mas os ferimentos não são sérios. - Tala responde observando Kai que está mais carrancudo que de costume.

-Fisicamente. - Spencer não precisou continuar, todos sabiam o que quis dizer. Os danos ao corpo, muitas vezes podiam ser sarados ao contrário dos à mente.

Bryan desencosta da parede e entrega uma pasta cinza à Kai. Instantaneamente o Fênix soube do que se trata, era a pasta de Rei com todas as informações do que ocorreu no tempo de cativeiro.

- Ele vai precisar de tempo – Bryan ainda mantinha a expressão braba, mas o tom era levemente mais brando.

- Enquanto estiver aqui, dentro da casa de vocês – Spencer gesticula pra Kai e Tala – ele estará seguro. Eu e Bryan redobramos a segurança. Ninguém entrará sem sabermos.

Tala consente com a cabeça. Seria mais fácil se toda a equipe os ajudasse. Não foi com espanto que quatro dias atrás, ao descobrirem do possível paradeiro do ex-Bladebreaker Spencer e Bryan se prontificaram a resgatá-lo, apesar do último não se expressar verbalmente.

O lobo observa os amigos. Rei Kon, chinês, morador de uma pequena e arcaica vila, neko-jin, amigável e querido por todos. Características diferentes das deles, algumas, segundo como foram treinados a pensar, até justificariam a raiva e o desprezo que poderiam-, não, que deveriam ter dele. Mas depois que se livraram das garras de Voltaire, eles mudaram. Alguns menos que outros, mas isso permitiu que o respeito que o chinês conseguira plantar neles aparecesse no lugar do ódio que eram obrigados a demonstrar.

Mentalmente ele dá uma risada. No começo ele não entendia o porquê de Kai Hiwatari confiar tanto em alguém como Kon. Mas avaliando com mais cuidado ele pôde descobrir um pouco do que o Hiwatari vê no outro.

Apesar da afeição calma, do sorriso amigável, da paciência inesgotável, uma pessoa bem mais complexa jazia embaixo de uma máscara muito mais eficiente e treinada que a utilizada pelo fênix. Ele só percebeu a aura cuidadosamente camuflada por gestos gentis e atitude amigável por saber o que procurar, sendo treinado em comportamento humano, e por conviver desde a infância com Kai.

Kon era tão bom que mesmo ele, ás vezes, duvidou de sua própria façanha, se perguntando se não tinha se enganado a respeito dele. Mas sua teoria foi confirmada quando presenciou a queda desta máscara em uma noite enquanto o chinês conversava com Driger. Foram breves segundos, mas o suficiente para, a partir daquela noite, sua opinião sobre Kon mudar, mesmo que os outros continuassem alheios a isso. Rei Kon se parecia muito mais com eles, os Demolition Boys, do que com os ingênuos e inocentes Bladebreaker.

R/TR/TR/TR/TR/TR/TR/TR/TR/TR

Kai solta um suspiro e olha pra tela do computador. Ele não pode adiar. Não importa o quanto ele deseja destruir os documentos sobre um certo neko-jin a necessidade de saber exatamente com o que está lidando era muito maior, e ele deve no mínimo isso ao seu amigo depois de ser tão insensível e grosso na hora em que ele mais necessitava de sua ajuda.

Com resolução ele pega a pasta ao lado do computador e a abre lendo silenciosamente as anotações pessoais do cientista encarregado.

10 de Novembro/ 1° ano

O sujeito n° 79 chega ás instalações inconsciente. Até o fim do projeto ele será mantido na cela de contenção máxima devido a sua perigosidade e agressividade demonstrados à sua captura.

Sua beyblade e a bitbeast serão mantidas em um dos cofres por precauções até o momento adequado para seu uso.

Kai passa os olhos pelo resto das anotações rapidamente, se concentrando apenas no que lhe é útil.

17 de Novembro/ 1° ano

N° 79, após a quinta consulta com o Dr. R, apresentou uma drástica regressão em sua consciência, passando a agir como um animal selvagem.

....

Foi necessário contenção de seus braços após o sujeito ferir gravemente dois de nossos agentes e alcançar os perímetros externos da instalação antes de ser detido com dardos anestésicos e armas de choque.

13 de Fevereiro/ 1° ano

N° 79 mostra sinais de regressão permanente. Os testes não obtiveram resultados satisfatórios.

As sessões de exercícios comprovam a superioridade física da espécie neko-jin à humana, porem a extrema resistência á terapia mental levanta suspeitas de que estamos lidando com um neko-jin diferente dos outros, confirmando ser o rapaz que procurávamos.

O russo aperta um pouco mais a pasta em suas mãos. Terapia mental é o eufemismo que utilizam para lavagem cerebral, e os exercícios nada mais são do que horas intermináveis de batalhas com robôs, exercícios físicos extenuantes e a ocasional punição por mal comportamento. Ele continua a ler.

27 de Abril/ 1° ano

O sujeito não demonstra nenhum avanço, seu estado de espírito parece ser mantido em apático, logo retornando a agressivo quando em presença de alguma ameaça.

Por sugestão do Dr. C. usaremos imagens e sons de seus colegas Bladebreakers na tentativa de obtermos outra reação do selvagem neko-jin.

30 de Abril/ 1° ano

A utilização de imagens dos antigos Bladebreakers gerou mudanças interessantes na atitude do N° 79. Assim que observou estar sozinho, somente com a projeção de seus colegas, seu lado selvagem se acalmou. No entanto a reação mais forte foi gerada quando a imitação do sujeito N°5 ocorreu em separado dos outros humanos.

Nos próximos meses utilizaremos somente projeções do N°5 em diferentes situações de perigo e inimizade para despertar Byako.

Ele levanta uma sobrancelha. Faz muitos anos que ele fora denominado de N° 5 enquanto estava na Abadia, mas o que o surpreendeu foi a última frase do cientista. Utilizá-lo como fonte de tormento emocional e mental é algo novo. Talvez eles não usassem esse método antigamente por tratarem de crianças ou, o que o russo acha extremamente improvável, para evitar o risco de danificarem a capacidade mental dos seus futuros vencedores.

Kai franze a testa. Fora relativamente fácil obter o que queriam dele e das outras crianças... obediência total, ausência de sentimentos como medo e pena, e ter um único objetivo: a de se tornar o melhor jogador de beyblade do mundo passando por tudo e todos..... Mas com um rapaz adulto, a situação era outra. "Eles apelaram para tudo o que faziam antigamente, sem obter sucesso, e para que? Para despertar Byako.... Quem é ele? Seria um bitbeast?"

Para obter respostas ele precisará perguntar para as pessoas certas, e para que isto ocorra mais pessoas precisarão estar envolvidas...Não tendo alternativa, ele conversará com os outrosassim que tiver certeza de que seu amigo está melhorando, e para o bem do próprio chinês e o seu, ele torce pra que o estado em que o outro se encontra não seja irreversível ou que não tenha marcado profundas cicatrizes no neko-jin como ocorreu com ele e os outros Demolition Boys. Caso contrário, o que ele, Kai Hiwatari, o antigo príncipe de gelo, poderia fazer com Rei Kon se este se mostrar tão fechado e ´danificado´ quanto ele o era antes de conhecê-lo? Ele precisaria de outro Rei Kon pra salvar este....

Um suspiro profundo sai de sua boca. "O que devo fazer? Rei foi fundamental pra minha recuperação, mas eu não tenho a capacidade de fazer o mesmo por ele se for necessário...".

- Hiwatari?- vem a voz braba de Tala e o fato de tê-lo chamado pelo sobrenome confirma a sua suposição.

- O que?- responde irritado, não deixando se abalar. O outro só o olha mais brabo. Parece que era a sua vez de ficar de olho no Rei, só para a própria segurança do chinês ele não ficaria sem supervisão por algum tempo, até decidirem o contrário.

Passando pelo ruivo sem dizer nada, Kai se dirige até seu quarto encontrando quem procurava dormindo na cama, com a expressão calma e relaxada. Sentando na cadeira de frente para o neko-jin, o russo adormece com imagens do chinês sendo torturado ocupando seus sonhos.