Capítulo II: As Janelas da Alma.
Residência dos Connor (Manhã, 2007).
Cameron estava deitada na cama de John - local que ela tinha descoberto gostar mais do que deveria (e poderia) - ainda dormindo. Em verdade, a própria noção de dormir ainda era novidade para ela: ela nunca havia sentido essa necessidade; mas nos últimos dias - após descobrir a beleza do ato de receber John dentro de si - ela vinha dormindo, embora ainda não estivesse muito certa do motivo. Isso lhe preocupava: dormindo, ela não poderia vigiar John. Mas ao mesmo tempo, dormindo ao lado dele, ela se sentia conectada com ele em algum nível, se sentia mais próxima dele. Sentia-se verdadeiramente como a garota de John.
Cameron estava com a cabeça sobre o travesseiro, embaixo das cobertas... em vigília, ainda conseguia sentir o seu cheiro misturado ao John. A cama estava quente, o que lhe tirava um pouco a vontade de levantar. Entretanto, quanto mais tempo ela ficasse deitada, menos tempo teria com John; e ela sabia que o tempo deles era curto: Sarah e Derek voltariam a qualquer momento e tudo seria como antes... sem mais noites ao lado de John, não mais acordar junto com ele, passar o dia se escondendo quando na verdade tudo que ela queria era que todos soubessem. Agüentar os maus-tratos de Sarah e Derek... Ela não queria que tudo isso voltasse a acontecer, mas isso não era sobre ela: ela sobre John. Então, ela deveria aproveitar o pouco tempo que lhe resta para viver como casal ao lado dele, ao lado de John.
John! Ela já estava com saudades de seu rosto, de sua voz, de seus abraços, de seus beijos. Ela virou-se na cama para encontrá-lo deitado ao seu lado, mas qual foi sua surpresa ao perceber que seu lado estava vazio, sobrando apenas a sua forma impressa nos lençóis.
Por um instante, Cameron não pensou em nada. Seu chip não conseguia concatenar quaisquer ordens ou reações. Se ela tivesse um coração, ele estaria batendo quase no limite. Ela suava de ansiedade, sua cabeça girava e ela só conseguia pensar em como aquilo pôde acontecer:
"John! Mas... como... onde... o que aconteceu? Para onde ele foi? Onde ele está? Ele... se foi. Eu... o perdi! Como eu pude falhar tão miseravelmente? Como pude deixar que algo acontecesse com ele? Eu sabia! Eu sabia que eu não o estava protegendo como deveria... Eu sabia que isso ia acontecer! E agora, o que será do mundo sem John? O que será de mim sem John?! O que eu faço sem ele? Como eu pude falhar assim?".
Um mundo de questões inundava a cabeça de Cameron, e ela só pôde fazer uma coisa: chorar! Ela chorou copiosamente, sentou-se na cama, encostou a cabeça nos joelhos e chorou como nunca havia chorado antes. Passou-se algo em torno de dois minutos (embora Cameron não houvesse percebido, pois havia desligado seu cronômetro) até que ela ouviu a porta do quarto abrindo e um John visivelmente ofegante, preocupado e com uma cara de total espanto ao ver Cameron naquela situação.
"Cameron, o que está acontecendo? Você está bem? Deus, Cameron, fale alguma coisa? Por que você está chorando assim? O que aconteceu?", John perguntou jogando um saco no chão, enquanto apressadamente se sentava na cama ao lado de Cameron.
"Eu... pensei que... você não estivesse mais aqui! Que você tivesse ido, que alguém tivesse levado você... que eu não iria mais vê-lo! Que... eu... havia falhado... que... tinha perdido você", Cameron respondeu entre soluços, enquanto deitava a cabeça sobre as pernas de John, ficando com sua cabeça de lado, por sobre as coxas dele.
John ainda não estava acostumado a ver Cameron chorando. Ela deveria ser "a forte" dos dois. No fim das contas, ela era uma Exterminadora, um robô criado para matar, sem segundos pensamentos, sem remorsos. Não era normal que ela chorasse. Mas então John lembrou que Cameron era tudo, menos "normal". E pensou em como ele se sentiu quando Tio Bob foi embora e em como ele se sentiria se Cameron também fosse. Assim ele entendeu o motivo de Cameron estar tão devastada.
Ele começou a passar a mão nos cabelos de Cameron, no intuito de acalmá-la. Após alguns segundos, parecia estar funcionando: ela soluçava menos e as lágrimas pareciam estar acabando.
"Cam, me escute: eu nunca iria embora de você. Não há nada ou ninguém no mundo que possa me afastar de você; não por muito tempo. Seja o que aconteça entre nós que nos leve para longe um do outro, eu irei atrás de você, aonde quer que você esteja. Eu te amei no futuro, eu te amei no passado e te amo agora. Se nós vencemos o tempo, podemos vencer o que quer que seja.".
Cameron, sem tirar a cabeça do colo de John, virou-se para olhá-lo nos olhos, e ainda derramando algumas lágrimas, lhe deu um sorriso. John, passando as mãos nos cabelos de Cameron, retribuiu o sorriso.
"Posso te dizer uma coisa? Mesmo chorando, você é a garota mais bonita que eu já vi. Eu te amei desde a primeira vez que eu te vi, na escola. Desde aquele dia eu quis te pedir em casamento, e se eu fosse mais corajoso, um pouco mais como meu futuro eu, era o que eu teria feito. Quando o seu olhar cruzou com o meu,
naquele instante eu vi o quanto o amor é mais forte e mais lindo quando ele se parece uma canção. E que seja assim, para sempre o amor que uniu você a mim. E ao som dessa música a gente prossiga vivendo esse amor sem fim.".
Ela ouvia atentamente as palavras de John, repetindo-as mentalmente em seu chip, guardando cuidadosamente cada uma delas. Ela sempre fazia isso com tudo que John lhe falava e nessas horas agradecia por ser uma ciborgue e poder lembrar-se de tudo que queira. John passou sua mão na bochecha de Cameron carinhosamente e após isso, com seu polegar, enxugou-lhe as lágrimas, recebendo um "Obrigada, querido!" silencioso de Cameron, que apenas mexeu os lábios, sem produzir som.
John respondeu quase com um sussurro "É apenas a verdade!", beijando-lhe a testa e depois parou, admirando os olhos de Cameron. Alguns segundos se passaram sem que John dissesse ou fizesse nada, apenas olhando os olhos de Cameron.
"John?! Você está aí?".
"Oh! Desculpe Cam. É que eu nunca me canso de ver seus olhos. Eles são... lindos. São como duas piscinas, com águas castanhas. Eu me perco neles, eu sinto meu espírito se elevar e subir como o vento. Eu sei que é por causa do amor que sinto por você, mas não consigo evitar. E eu não me importo em não saber qual o meu destino, o que me aguarda, porque você pode me levar até os céus. É como estar perdido no paraíso quando eu me perco em seus olhos.".
"John, eu me sinto fraca quando você me olha. É isso que chamam de 'romance'? Eu não sei, mas sei que existe algo entre nós que ninguém negar e eu soube que seria assim na primeira vez que você me olhou nos olhos. E se algum dia você não conseguir encontrar o seu caminho e a salvação parecer a quilômetros de distância, eu estarei lá com você, e você se encontrará em mim, olhando em meus olhos.".
"Os olhos são as janelas da alma, sabia?".
"Isso não consta nos meus arquivos. Além do mais, eu não creio que eu tenha uma alma. Sarah me chama de 'Menina de Lata' porque eu não tenho um coração. Se eu não tenho coração, não acho que posso ter alma. Fé não faz parte de minha programação.".
"É claro que você tem, Cam. Mamãe não sabe de nada sobre você. Você tem alma: pode não ser uma alma como a minha, mas é uma alma especial, que só você tem; não é a alma de um humano nem a de um robô, é uma alma que pertence aos dois. Além disso, mesmo que você não tivesse alma, eu tenho, e você é parte dela, pois você é parte de mim. Minha alma é sua, sua alma é a minha. Sem você, eu não sou o John Connor, eu não tenho alma, pois não tenho vida. Minha alma é você, Cameron.".
Cameron finalmente se levantou do colo de John e lhe deu um beijo demorado, o qual John aceitou de bom grado. Finalmente, Cameron perguntou a John:
"John, onde você estava? Por que você saiu sem me avisar?".
"Porque você estava dormindo. Você não faz isso muitas vezes e eu não queria te acordar, você estava tão bonita adormecida. Além do mais, eu não fui longe, eu fui até o mercado."
"O que você foi fazer no mercado?".
"Eu fui comprar trigo e baunilha. Nós estávamos sem panquecas. Por falar nisso, que tal se você nos preparasse algumas, agora?", John falou com ar de chacota.
"Hum... Acho que eu posso fazer isso.".
"Que bom! Estou louco por umas de suas panquecas. Vamos?".
"Eu...... Posso me vestir primeiro?", Cameron perguntou, largando as cobertas, de forma a expor seus seios nus.
"Bem... Isso depende de você. Eu não me incomodaria se você cozinhasse e passasse o dia assim", foi a resposta de John.
Cameron respondeu a John com um sorriso repleto de segundas (e terceiras) intenções, livrou-se das cobertas e lentamente se levantou e saiu caminhando (na verdade, desfilando) na frente de John, em direção ao seu quarto. John deu um suspiro e desceu para a cozinha.
Após alguns minutos, Cameron desceu com uma saia minúscula (expondo grande parte de suas coxas), uma camisa regata meio transparente, um soutien azul turquesa e suas tradicionais botas. Ela chega até a cozinha, olha para John, lhe dá um sorriso e começa a preparar as panquecas. John se aproxima dela por trás, lhe dá um abraço, coloca sua boca do ouvido de Cameron e lhe diz:
"Está linda, como sempre. Mas eu acho que preferia do outro jeito.".
"Bem... Quem sabe se você se comportar direitinho e não se meter em confusão ou sair se esgueirando por aí sem me dizer, eu possa ficar assim de novo. Lembre-se que Sarah pediu para eu cuidar de você e não fazer com que ela se arrependesse disso!", Cameron disse com um ar de deboche.
"E você está cuidando muito bem! Mas eu aposto que se ela soubesse como você está cuidando, ela já estaria arrependida. Mas eu não estou nem um pouco!".
"É, eu também acho que não. Ela disse para mim: 'não me beije... ou qualquer outra pessoa'. Acho que isso incluía você."
John deu uma risada, um beijo na bochecha de Cameron e sentou-se à mesa esperando o seu café. Seria um longo dia para John e Cameron. "Ainda bem!", ambos pensavam.
Notas do Autor sobre o Capítulo
Eis aí nosso primeiro capítulo Jameron dessa fic.
Começou meio triste, mas foi ficando "melhor".
Obrigado mais uma vez à Veri, por me ajudar a escrever, e à Marina por revisar. Amo vocês duas!
Isso aí pessoal! Leiam, review e divirtam-se! Não necessariamente nessa ordem!
