Capítulo III: Retratos & Canções.

Residência dos Connor (Manhã, 2007).

John estava à mesa com Cameron tomando seu café, como vinham fazendo todas as manhãs desde que Sarah e Derek haviam saído nesta viagem. Ele estava se acostumando com isso, apesar de estar um pouco preocupado em como as coisas ficariam difíceis assim que sua mãe e seu tio voltassem. Ele conseguiria, após ter sentido como era sua vida ao lado de sua amada ciborgue voltar a agir como se nada houvesse acontecido? Definitivamente, não! Mas ele conseguiria contar isso para sua mãe? Também não, certo? Talvez...

"Mas para que viver com a cabeça no futuro?! Eu fiz isso minha vida toda e veja aonde eu vim parar... Isso nunca me deixou feliz, nunca me fez feliz. O importante é o agora. E agora somos eu e Cameron, aqui, sozinhos, juntos. É nisto que tenho de pensar. Neste momento. No agora!".

John sabia que este poderia ser um de seus últimos dias ao lado de Cameron; Sarah e Derek poderiam voltar a qualquer momento, já fazia 03 semanas que eles tinham saído em missão. Então, ele deveria viver esses últimos dias o mais proveitosamente possível ao lado de Cameron, como um casal adolescente normal (ou o mais próximo que um futuro líder da humanidade e uma máquina vinda do futuro que se amam pudessem chegar de "normal"). E ele precisava de algo que o fizesse lembrar para sempre desses primeiros dias que passou ao lado de Cameron; algo que pudesse ter para sempre, mesmo quando não houvesse mais o Sol brilhando no céu e ele carregasse o peso da raça humana nas costas; alguma coisa que o fizesse lembrar que ela sempre estaria com ele e por quem ele lutava.

Após terminar seu café e ajudar Cameron lavar a louça e guardá-la, John falou para Cameron, que estava indo para a sala ligar a TV:

"Cameron, nós não vamos ver Wall-E hoje, nós precisamos ir à loja de informática."

"O que você quer fazer na loja de Informática? Sarah disse que não era para eu deixar você ficar brincando com computadores. Isso é perigoso, podem nos rastrear."

"Eu não vou 'brincar' com computadores, eu só preciso de um pen drive.".

"Você já tem um pen drive.".

"Eu preciso de um maior.".

"O seu tem 32 GB. Ninguém precisa de um pen drive maior.".

"Bem, eu preciso.".

"Não, você não precisa. E você tem seu HD externo.".

"Ele está quebrado.".

"Não, ele não está. Você está mentindo.".

"Cameron, você quer, por favor, somente me acompanhar até a loja?".

"Sarah disse para nós não sairmos. É perigoso. Podem nos reconhecer e pode haver Exterminadores andando por aí a sua procura.".

"Se houver Exterminadores por aí, eles vão nos achar de qualquer jeito. É só isso que eles fazem, é para isso que eles foram construídos. Vai ser perigoso de qualquer jeito, mas seria menos se você viesse comigo. Você tem escolha: pode me deixar ir sozinho ou pode ir comigo e me proteger. Eu vou de um jeito ou de outro. O que você escolhe?".

Obviamente Cameron não precisou nem 02 segundos para tomar sua decisão. Ela deveria ir com ele, ela queria ir com ele. Protegê-lo não era só sua missão, era algo que ela queria fazer. Estar perto dele não era mais um meio de executar satisfatoriamente um comando ordenado por seu chip e que lhe fora inserto através de programas, e sim uma necessidade que ela sentia constantemente, mesmo que ela não soubesse determinar com perfeição da onde vinha, quando começou ou seu motivo. Ela não tinha consciência do que como eram os sentimentos que os humanos diziam sentir (ou até mesmo se ela podia sentir como eles), mas estava bem certa que isso que ela sentia poderia ser descrito (ainda que analogicamente) com o que nós chamamos de amor.

"Ok, John! Eu vou com você, mas nada de 'gracinhas' ou 'surpresas'. Só comprar os suprimentos que você precisa e voltamos. Certo?".

"Certo!", John respondeu se aproximando de Cameron e passando as mãos por sua cintura, puxando-a para um selinho. Após isso, no instante em que John afastou seus lábios, Cameron colocou sua mão na nuca de John e o puxou para mais um beijo. Ela podia não saber se o que "sentia" era amor, mas de uma coisa ela e John tinham certeza: um só beijo nunca era o suficiente para os dois.

Após alguns minutos com seus rostos grudados, John se afastou de Cameron, pegou a chave do carro e ambos saíram em direção à loja de informática onde eles costumavam fazer as compras.

Ao chegar à loja e estacionar o carro, John notou certo ar de tristeza e insatisfação no rosto de Cameron. John puxou o rosto de Cameron para ficarem face a face e lhe perguntou:

"Cameron, o que foi? Tem algo errado?! Você ainda está com raiva por eu ter te convencido a sair?"

"Não é isso... É... este lugar... Eu... não gosto dele...".

"O quê? Este lugar? Por quê? O que tem ele?".

"Você realmente não lembra? Não lembra o que aconteceu aqui?".

"Não. Eu lembro que nós compramos computadores e equipamentos aqui algumas vezes, mas não me lembro de nada anormal que tenha acontecido aqui."

"Eu... não quero falar sobre isso.", Cameron falou virando o rosto para a janela do carro.

John levou sua mão até o queixo de Cameron e trouxe novamente o rosto dela para o encontro do seu.

"Cam, eu te amo. Fale comigo, por favor...".

"Eu também amo você... Eu acho que sempre amei... Esse é o problema. Por isso que estou assim.".

"Cam, eu não estou entendendo do que você está falando...".

"John, você me deixou aqui e fugiu de mim para ficar com ela... Você me deixou aqui para sair com a Riley. Mesmo eu dizendo que não era para você ir. Mesmo comigo dizendo que tinha de ficar do seu lado todo momento. Você me deixou entrar no carro e saiu correndo de mim... para ela. Você a escolheu John. Ela, e não eu. E isso quase custou a sua vida. Quase o Cromartie mata você. Eu não pude te ajudar, não pude te proteger nem mesmo a sair da água, porque você a escolheu, John! A ela, e não a mim. E se você morresse, John, como eu ficaria?! Como eu me sentiria?! Você não pensou em mim, John! Só em você e nela!".

Cada palavra que Cameron dizia era como um caco de vidro cortando a carne de John. Ver Cameron arrasada com essas lembranças fazia John se lembrar de todas as vezes que a tratou mal pensando que ela era apenas um ciborgue e que não poderia sentir a dor das coisas que ele dizia e fazia. Era primeira vez que ela falava isso, sobre Riley. John podia imaginar o quanto Cameron sofreu por causa de Riley e o quanto ele a faz sofrer por causa dela. Desde o dia no terraço do Hospital, onde o tudo mudou para John e Cameron, John disse a Riley que não podia ter nada com ela, que era muito perigoso e apesar da insistência de Riley, John disse que não queria mais vê-la, e ela nunca mais apareceu. John pensou que essa era uma página virada da vida dos dois, mas aparentemente, ele estava errado.

"Cam... Eu... Não sei o que dizer... Eu nem me lembrava disso... Cam, me desculpe. Eu sei que agi muito errado com você. Eu sei que eu te tratei mal mesmo antes da Riley aparecer, mas que depois dela eu fui um estúpido, fui um idiota com você. Eu... eu... Entenda, Cam: eu nunca escolheria ninguém ao invés de você. Nunca! Eu podia ter feito isso quando você tentou me matar, mas eu não o fiz! Eu enfrentei minha mãe, Charlie e Derek por você. Naqueles dias, eu não escolhi Riley... Eu simplesmente não estava pronto para escolher você... Eu já havia escolhido você, mas não podia aceitar ou entender isso. Eu não amava a Riley, nunca a amei, pois eu já amava você. Eu sempre amei. Você não tem idéia do quanto eu fiquei desesperado quando você sumiu com aquela tal de Jody. Do quanto eu fiquei horrorizado ao ver que você não se lembrava mais de mim; ao ver você pensando que eu iria te machucar. Foi você quem eu escolhi e amei, Cam. Você, sempre foi você... Ok?!", John disse, passando seu polegar no rosto de Cameron.

"Ok!", Cameron respondeu.

"Então... Vamos esquecer isso, entrar e fazer o que viemos fazer?!".

"Certo! Vamos!".

John, então, saiu do carro e abriu a porta para Cameron, ajudando-a a descer e segurando suas mãos, ambos entraram na loja.

Entrando na loja, Cameron estranha que John não parece estar procurando o pen drive que ele disse precisar. Em verdade, ele passou direto pela seção de acessórios e parecia estar indo para o fundo da loja.

"Aonde você vai?'".

"Ah... Estou procurando uma coisa.".

"O pen drive está ali. Compre e vamos embora.".

"Eu... não estou atrás de um pen drive.".

"Mas você disse que...".

"Eu sei o que eu disse, ok?! Eu vou comprar o maldito pen drive... Só estou procurando uma outra coisa.".

"Oh! O que é?". John nunca iria se cansar da imensa curiosidade de Cameron ou de lhe explicar as coisas.

"Eu queria... tirar um retrato... nosso.".

"Um retrato? Nosso? Você quer dizer... juntos? Mas e Sarah? E Derek? Eles não podem ver esse retrato. É muito perigoso.".

"Não, Cameron. Nós vamos estar juntos no retrato, mas não... 'juntos-juntos', entendeu?!".

"Não... Em meus arquivos não consta mais de um significado para a palavra 'juntos' nem a existência de 'juntos-juntos'.".

"Não, Cameron, não foi isso que quis dizer. Deixe-me colocar de outra maneira: nós dois vamos aparecer na foto, mas não vamos estar juntos como um casal, entendeu?!".

"Oh! Obrigado por explicar.".

John então guiou Cameron até o final da loja, e após procurar por alguns segundos, encontrou o que procurava: uma cabine para fotos. John entrou, trouxe Cameron consigo e depositou as moedas para a máquina funcionar.

Depois de alguns segundos, a máquina começou a tirar várias fotos seguidas: enquanto John fazia diversas caretas e ficava em posições estranhas, Cameron apenas olhava para John com uma leve expressão de curiosidade no rosto.

Terminadas as fotos, John e Cameron saíram da cabine e John pegou as fotos no local de revelação, colocando-as em um pacote.

"Você não vai ver?".

"Aqui não. Vamos para o píer. Lá podemos sentar em uma lanchonete, beber alguma coisa e vemos as fotos. Não está curiosa para saber como ficaram?".

"Não. Eu sei como ficaram. Eu tenho os registros visuais em meu chip.".

"Mas você não sabe como 'você' estava, não é, gênio?!".

Cameron parou e refletiu por um segundo. Ela não tinha pensado nisso. "Não, eu não sei.".

"Então! Vamos logo para lá ver as fotos.".

"Não, John! Você disse que nós viríamos aqui, compraríamos os suprimentos e voltaríamos para casa.".

"Ah, Cam! Que é isso. Não seja uma estraga prazeres. Esses podem ser nossos últimos dias juntos. Me deixe passá-los com você como um casal.".

Ela sabia que não era o certo; ela sabia dos riscos, sabia que o que sentia por John estava influindo em seu julgamento e interferindo na missão. Ela sabia de tudo isso, mas ela não se importava, pois o ela queria o mesmo que ele: estar do seu lado, sem fingimento, sem subterfúgios, sem ocultação. Apenas por alguns instantes, serem "Cameron e John" e não Messias e Protetora, Robô e Humano. Era pedir demais? Não, ao menos por hoje. O tempo nunca havia colaborado com eles; em verdade, sempre tentou separá-los, por vezes com sucesso. Mas não hoje. Hoje o mundo iria ajudá-los: hoje o mundo seria injusto em favor deles.

"Tudo bem, John. Mas prometa que não vamos demorar. Não é...".

"Seguro, eu sei, eu sei... As regras estão gravadas no meu cérebro, ok?! Eu prometo: só beber alguma coisa, ver as fotos e voltar. Rápido e indolor.".

John e Cameron foram então para o píer (o mesmo onde John fugiu Cromartie meses atrás) e sentaram em uma mesa perto da beira, com vista para a água. John puxou uma cadeira para Cameron sentar e depois ele próprio sentou a frente dela. Ele coloca o pacote com as fotos na mesa e fala para sua protetora:

"Eu vou comprar alguma coisa para bebermos. Você quer alguma coisa?".

"Eu não estou com sede.".

"Certo. Eu vou comprar alguma coisa para mim e trago algo para você. Se você quiser, você toma.".

"Ok!".

John, então, se levantou e dirigiu-se para a lanchonete, que estava praticamente vazia àquela hora do dia. Chegando lá, John reparou na moça do caixa: uma loira bastante atraente, corpo bem torneado e parecia ser bastante simpática.

"Bom dia. Meu nome é Jane, em que posso ajudá-lo?".

"Bom dia, Jane, meu nome é John. Por favor, me dê uma Coca e um desses.", apontando para uma bebida no menu.

"É pra já, querido!".

A moça se virou e começou a preparar a bebida que John havia pedido, mas parecia obstinada a continuar uma conversa:

"Então, John! Eu nunca te vi por aqui. Está vindo pela primeira vez?".

"Praticamente. Eu não venho muito por aqui. Na verdade, eu não vou a quase nenhum lugar.".

"Hum! Rédeas curtas, hein?! Imagino que isso deve ser um saco, viver com alguém sempre no seu pé, lhe dizendo o que fazer, para onde ir...".

"É, algo do tipo...", ele disse, desviando o olhar de Jane, olhando para baixo.

"Então, John... Você não quer cortar essas rédeas qualquer dia desses? Sair por aí, fazer algumas loucuras, conhecer algumas pessoas... Talvez uma garçonete...".

Isso era estranho para John. Ele não se lembrava disso já ter acontecido com ele alguma vez: uma garota estava convidando-o para um encontro. Ele não pode evitar, mas sorriu lisonjeado.

"Jane, na verdade...".

"Olha, desculpa eu te interromper, mas eu preciso te falar uma coisa: não vire agora, mas tem uma garota esquisita que está te olhando de um jeito estranho desde que você chegou aqui. Ela não tirou os olhos de você nem por um segundo, e isso está me assustando até os ossos. Ela está nos olhando como se estivesse para matar um de nós.".

Com o canto dos olhos, John pôde ver Cameron olhando para eles com seu rosto "estilo Exterminador" típico. Ele deu uma pequena gargalhada.

"Como eu estava te falando, Jane: aquela 'garota esquisita' que está nos olhando de um 'jeito estranho' é minha namorada.".

"Oh, desculpe. Não foi o que eu quis dizer. Bem, isso explica o olhar de máquina mortífera dela para mim. Então, vejo que sem chances para uma saída, hein?!".

"Sem chances. Mas agradeço o convite.".

"Bem, aqui está sua Coca e aqui está a bebida. Obrigada e desculpe sobre sua namorada.".

"Obrigado a você.".

John pegou as bebidas e sentou a mesa, colocando a Coca em sua frente e entregando a outra a Cameron.

"Aqui, Cam. É uma delícia de pêssego. É sua favorita, não é?!".

"Sim, é! Quem era aquela? O que ela estava fazendo conversando com você?".

"O nome dela é Jane.".

"Ela estava tentando obter informações sobre você?".

"Por que, você acha que ela é uma máquina que quer me matar?", John disse, rindo.

"Não, ela não é uma máquina. Eu fiz uma varredura, ela é humana. Eu poderia exterminá-la facilmente, o nível de ameaça dela é quase mínimo. Mas isso não significa que ela não seja um risco a sua segurança.".

"Eu não acho que ela seja.".

"Por quê?".

"Bem, ela me convidou para sair. Em um encontro.".

"Então eu acho que ela acabou de subir alguns níveis no meu nível de ameaça.".

"Sério?".

"Sério! Ela está logo abaixo da Skynet, ao lado do Cromartie.", Cameron disse.

"Cam, você está... com... ciúmes?".

"Eu não sei. Eu não a quero perto de você. Mesmo sabendo que ela não é uma ameaça. Eu não gosto de saber que existem outras garotas perto de você. Era como eu me sentia com a Riley. Eu existo para proteger você e estar com você durante todo o tempo e você passava seu tempo sozinho com Riley. Eu sentia que eu não tinha um propósito, isso me deixava desconfortável. Na verdade, eu queria ser Riley. Eu queria deitar na sua cama e conversar com você, ajudar você a pintar o quarto, conversar com você. Eu não sei como definir isso.".

"Parece ciúmes para mim.".

"Isso é ruim?".

"Não, na medida certa não. É bonitinho.".

"Bonitinho?!".

"É, mostra que você tem medo de me perder.".

"Eu tenho medo de perder você. Isso seria o fim da raça humana e eu falharia na minha missão. Eu nunca mais veria seu rosto, conversaria com você ou poderia te beijar. Eu tenho muito medo disso.".

"Não, Cam, eu não disse 'perder' no sentido de 'morrer'. Eu quis dizer 'perder' no sentido de eu me apaixonar por outra pessoa."

"Oh!", Cameron falou e refletiu por um instante. "Você está apaixonada pela Jane?".

"O quê? Do que você está falando? É óbvio que não. Eu já falei que eu só amo você, Cameron. Sempre foi você e sempre será você. Você veio de um futuro onde nós éramos praticamente casados, você disso melhor do que eu.".

"De fato. Mas se eu sei que você me ama, por que eu continuo sentindo esse medo de você estar com outras mulheres? Por que eu sinto esse ciúme?".

"É porque você me ama. Eu também tinha ciúmes de você com o Morris. Quando ele te convidou para o baile, tudo que eu queria era que você fosse comigo, não com ele. O amor nos faz sentir esse medo de que a pessoa não nos ame mais e nos deixe por outra.".

"Mas isso é ilógico, não faz nenhum sentido.".

"É, Cam, exatamente. Bem vinda ao mundo das emoções humanas.".

John tirou as fotos do pacote e começou a vê-las junto com Cameron. Ele via cada foto e ria das caretas que tinha feito e da expressão de confusão no rosto de Cameron.

"Por que você fez caretas para as fotos?".

"Porque é engraçado, oras!".

"Eu não vi graça nenhuma.".

"Porque você é como minha mãe, não consegue relaxar e aproveitar o momento.".

"Eu sou uma máquina, eu não posso relaxar.".

"Cam, você sabe que eu odeio quando você fala assim.".

"Desculpe.".

John, então, parou em uma foto que chamou especialmente sua atenção: ele fazendo uma careta com a língua de fora e Cameron olhando para ele "fazendo bico" com os lábios.

"Esta aqui está ótima. Vou colocar em um porta-retratos no quarto.".

"Os índios diziam que a foto roubava a alma da pessoa.".

"Sim, eles diziam.".

"A alma é muito importante para os humanos.".

"Sim, eu acho que é.".

"Eu ouvi na televisão que ela é sagrada. A vida humana é sagrada.".

"Realmente, ela é.".

"A sua vida é mais sagrada que as outras.".

"Não, Cameron. Todas as vidas são sagradas da mesma maneira.".

"Você lidera a Resistência no futuro. Você derrotará a Skynet quando ninguém mais conseguirá. A vida humana precisa de você. Eu preciso de você. A sua vida é mais sagrada que as outras. Ao menos para mim.".

"E você sabe o motivo disso?".

"Eu não tenho certeza. Mas acho que é porque eu te amo.".

"Sim, deve ter alguma ligação com isso...", John respondeu sorrindo e se inclinando para dar um beijo em Cameron.

"Eu amo você e você me ama", Cameron falou.

"É, eu ouvi falar de algo sobre isso.", John respondeu. "Eu amo você e você me ama".

John e Cameron, após saírem do píer, voltaram para casa e durante a tarde ficaram no sofá, vendo televisão e falando sobre amenidades. Nada de robôs assassinos, guerras nucleares ou armas de plasmas. Apenas sobre eles, sobre John e sobre Cameron.

Quando a noite começava a cair, eles estavam assistindo a uma comédia qualquer na televisão; John tentou explicar algumas piadas para Cameron, mas viu que seu esforço era praticamente inútil: não é fácil fazer um Exterminador rir espontaneamente. Em determinada parte do filme, os protagonistas foram para um baile de formatura e John pôde ver que Cameron ficou um pouco impressionada com aquilo. Ela olhava fixamente para a TV e franzia a testa, e John sabia o que isso significava: a qualquer momento ele seria bombardeado com uma série de perguntas. Não demorou muito para que Cameron inclinasse sua cabeça para o lado, olhasse para John e começasse a perguntar:

"John, o que é um baile de formatura?".

"Cam, quando as pessoas acabam o ano no colégio e são aprovadas, eles fazem uma festa para comemorar essa fase terminada na vida deles. Isso é um baile de formatura.".

"E o que eles fazem nesse baile?".

"Como você pode ver no filme, eles bebem, conversam, comem e dançam.".

"Oh! O Morris me convidou para o baile. Por que nós não fomos?".

"Bem, primeiramente porque nós saímos da cidade depois que nos encontraram e explodiram você. Além do mais, eu não sei se teria passado de ano.".

"Oh! Obrigado por explicar.".

Cameron continuou olhando para John com o olhar como se ela estivesse esperando permissão para continuar. John igualmente sabia o que isso significava: ele conhecia muito bem a curiosidade de sua adorável ciborgue.

"Cam, você quer me perguntar mais alguma coisa?".

"As pessoas dançam nos bailes, não é?!".

"Sim, Cameron, elas dançam, eu acabei de te dizer isso.".

"Morris me convidou para o baile. Como um encontro.".

"Sim, ele convidou. E eu te disse para aceitar... Era um meio eficiente de manter o seu disfarce como minha irmã.".

"Eu disse 'sim' porque foi uma ordem sua. Eu não queria ir a um encontro com Morris. Eu não queria dançar com Morris. Eu queria ir a um encontro com você. Eu queria dançar com você.".

"Eu também queria Cameron. Mais do que tudo. Mas eu ainda não tinha aceitado isso, eu era um idiota. Eu queria muito te levar ao baile, comigo, e dançar com você, Cam.".

Passaram-se alguns segundos com os dois em silêncio, apenas olhando um para o outro. John e Cameron sabiam o que queriam, mas nenhum deles tinha verbalizado, ainda. Cameron sabia o que fazer e dessa vez ela não deixaria que John falasse por ela.

"John?!".

"O que foi, Cam?".

"Você me ensina a dançar?".

"Claro que sim, Cam.".

John se levantou e colocou um CD no rádio, aumentou um pouco o volume e o programou para repetir a música duas vezes: o tempo suficiente para que ele mostrasse a Cameron alguns passos simples de uma dança em casal para música lenta.

Ele se aproximou de Cameron, colocou um de seus braços um pouco acima da cintura dela e levantou a outra mão. Cameron, instintivamente, fez o mesmo. John deu um suspiro e falou para sua amada:

"Bom, Cameron... Eu não tenho muita experiência com isso, eu não fui a muitos bailes na minha vida. Então, eu vou te ensinar apenas alguns passos básicos, ok?!".

"Ok!".

"Certo. Vamos lá: apenas me siga.".

Falando isso, John começou a dançar vagarosamente com Cameron, indo de um lado para o outro, embalado pela lenta melodia que tocava em seu rádio. Não demorou mais do que 30 segundos para que Cameron acessasse seus arquivos sobre dança e começasse a superar em muito as habilidades de John. Alguns segundos após, ela já o estava guiando.

Cameron abaixou sua cabeça, encostando-a sob o peito de John, que por sua vez abaixou a sua, colocando-a em cima da de Cameron. Não importava quantas vezes Cameron tinha colocado a cabeça no peito de John para ouvir seu coração: ela continuaria fazendo isso sempre, jamais se cansaria de ouvir o coração de John. A sua batida a acalmava, lhe dava a certeza de que ele estava bem; e se ele estava bem, Cameron também estava, pois ele era sua missão, o seu protegido, aquele que levaria a humanidade a vitória, ele era a razão de sua existência; ele era o seu homem, ele era o seu amor. Não interessava quantas vezes John já havia colocado sua cabeça por cima da de Cameron e cheirado seus cabelos: ele continuaria fazendo isso em todos os momentos possíveis, jamais se cansaria do cheiro daqueles cabelos. Ele o fazia esquecer do seu terrível destino, da responsabilidade que recairia sobre seus ombros; pois se ela estivesse ao lado dele, nada disso importaria, ele seria feliz; ela era sua protetora, a razão pela qual ela lutava, o motivo pelo qual ele queria viver por muito tempo; ela era sua garota, ela era o seu amor.

Qualquer um que visse os dois assim, dançando abraçados, de olhos fechados, não poderia pensar em nada mais do que "um casal de adolescentes apaixonados". No fim das contas, eles estariam certos: era exatamente isso que John e Cameron eram. Ao menos neste momento; ao menos hoje.

Após a música parar, John e Cameron continuaram dançando por alguns segundos. A sensação era maravilhosa para ambos e continuar assim por mais tempo não parecia má idéia. Cameron levantou sua cabeça, olhou para os olhos de John e disse:

"Obrigada por me ensinar a dançar, John!".

"Na verdade, Cameron, acho que você quem me ensinou. Fale a verdade, você já sabia como dançar, não é?!".

"Sim, eu sabia.".

"Então por que você me pediu para te ensinar?".

"Porque eu queria dançar com você. Queria saber como era dançar com alguém. Mais do que com um simples alguém, com alguém especial. Alguém que você ama. Você me ensinou como amar, me ensinou como dançar. Você me ensinou tudo, John. Por isso eu pedi para você me ensinar e você me ensinou isso também.".

Ao ouvir estas palavras, a única resposta que John pôde dar foi um beijo apaixonado. Em verdade, para Cameron, essa resposta era melhor do que quaisquer palavras. O beijo de John era uma das coisas que Cameron mais adorava em sua "vida", algo pelo qual ela estava sempre ansiosa e que toda vez mexia com todos os sensores do seu corpo. Seu chip deixava de captar qualquer outro estímulo que não fosse dado por John. Era o momento deles.

Ambos sabiam onde e como isso ia terminar; e ambos queriam isso mais do que tudo. Não havia nada mais bonito, nada mais prazeroso, nada mais justo e nada mais certo do que o amor que John e Cameron fariam agora.

John carregou Cameron até o seu quarto, como ele havia feito da primeira vez em que eles compartilharam a beleza desse ato, sem tirar os olhos do sorriso de Cameron nem por um segundo. Chegando ao seu quarto, John a colocou de pé, próximo a cama, lhe deu um pequeno beijo e começou a puxar para cima a camisa de Cameron, que não se opôs e levantou seus braços, permitindo que a roupa fosse retirada e rapidamente terminasse jogada no chão. John, então, se ajoelhou e espalhou vários beijos pela barriga de Cameron, sentindo novamente cada centímetro daquela pele, do corpo que ele já conhecia em toda extensão. Continuou subindo até chegar aos seios e lá fez mais uma parada, provando tudo que Cameron tinha a lhe oferecer, ouvindo-a suspirar com o prazer que ele a proporcionava.

Ao subir novamente para os lábios, foi a vez de Cameron puxar a camisa de John e passar a mão pelo seu tórax. Era vez de Cameron explorar o corpo do seu protegido, do seu general, do seu homem. Ela o conhecia muito bem e sabia do que ele gostava, sabia como lhe oferecer o mesmo deleite que ele dava a ela. De fato, ela era muito boa em acariciar John, apesar do pouco tempo de experiência.

Cameron abaixou sua mão e desabotoou a calça jeans de John, habilidosamente tirando-a, deixando John apenas com a última peça de roupa. John, então, beijou Cameron e lentamente foi deitando-o na cama, com seu corpo sobre o dela, beijando-lhe os lábios. Ele foi descendo, beijando cada célula de Cameron, sentindo o gosto de sua tez misturada com o pouco de suor que ela exarava. Lábios, pescoço, seios, barriga, até chegar à saia de Cameron, que com muita facilidade John tirou e jogou no tapete, deixando-a apenas de calcinha. Após alguns minutos admirando o corpo de Cameron (visão da qual ele nunca se cansaria), John carinhosamente tirou a última peça de roupa de sua amada e sentiu o gosto maravilhoso que ela possuía, ouvindo-a dizer entre suspiros e gemidos aquilo que ele já sabia: que ela era e seria para sempre dele.

Quando Cameron sentia que estava chegando ao seu limite, próxima do clímax, ela arrumou forças chamar John:

"John!".

Ele se levantou para olhar em seus olhos.

"Venha, deite sobre mim".

E John não pensou sequer uma vez antes de retirar sua cueca e satisfazer o pedido de sua companheira.

A música que ouviam no rádio havia acabado, mas eles sabiam que ritmo seguir e qual melodia compor. Eles não precisam de um maestro para lhes reger ou de um metrônomo para marcar o tempo: eles podiam fazer isso apenas olhando para o outro. Era essa a música que eles ouviam agora: a que seus corpos compunham. E que música bonita ela era: nenhuma letra poderia falar de amor com tamanha perfeição.

Cameron estava mais uma vez recebendo John em si e para ela sempre parecia como a primeira vez: o mesmo prazer, seus sensores trabalhando na máxima capacidade, seu chip incapaz de perceber qualquer coisa ao seu redor que não fosse John, as chamas consumindo o seu corpo, seu metafórico coração batendo apressado. Era a sensação mais maravilhosa que Cameron já havia experimentado. Ela sabia que seu chip e seus sensores não haviam sido feitos para suportar tamanho estímulo físico, mas ela não se importava, porque John estava lá com ela; eles eram um só. Cameron tinha certeza, quando John estava dentro dela, que ela tinha sido criada somente para isso: para estar ali com ele, recebendo-o, amando-o e se entregando completamente a ele; aquele era seu destino, aquela era sua missão, essa era toda sua existência: John! Amá-lo, ser dele, unicamente dele. Agora e sempre, ser um só corpo, uma só alma, um só coração, uma só mente; um só robô, um só ser humano; um só sentimento, um só destino.

Eis uma grande ironia do mundo: uma Exterminadora, criada para matar, praticando o mais sublime ato de amor que o mundo conhece; um ser humano, aquele que ensinou às máquinas a ter medo e a causar temor acolhendo o amor que a Exterminadora estava desesperadamente tentando dar. Para John e Cameron, isso não era ironia nenhuma; era sim a coisa mais perfeita: pois para eles, o mundo e o tempo corriam de uma maneira diferente. E justamente por eles terem um espaço e um tempo só deles é que a vitória seria alcançada: um guerreiro não ganha uma luta só com uma espada ou só um escudo. Só um humano ou só uma máquina não seriam capazes de mudar o mundo: mas o amor entre um ciborgue e um humano... Nem uma raça nem outra, nem o tempo, nem o espaço seriam capazes de impedir que a vitória fosse alcançada. E John a alcançaria com Cameron ao seu lado, o amor entre eles transformaria o mundo definitivamente, e não adiantava os esforços da Skynet ou dos humanos para separá-los: a partir de hoje, eles haviam decidido que o mundo seria injusto em favor deles e que seu destino ainda não havia sido escrito. Eles o escreveriam no pergaminho da vida. Juntos! Como no retrato que tiraram e na música que dançaram e na melodia que seus corpos chegando ao clímax compunham.


Nota do Autor:

Muito obrigado a todos que leram e comentaram, seja através de reviews aqui, seja na comunidade de Fanfics Jameron no Orkut. Significa muito para mim!

Agradecimento especial mais uma vez à Veri (pela confiança depositada e ajuda na escrita) e à Marina (pela paciente revisão)! Amo mor vocês duas *.*