Capítulo IV: Thronus Eius Flamma Ignis.

Dentro de um Carro em Movimento, em Algum Lugar dos EUA (Manhã, 2007).

Sarah dirigia o carro ainda pensando no que havia feito com Derek na noite anterior. Teria sido uma boa idéia? Ela havia apreciado muito, disso não havia dúvidas; mas teria sido a melhor atitude a ser tomada? Ela realmente não sabia como agir diante desse novo quadro, como fazer esse "relacionamento" funcionar. As coisas com Derek estavam meio estranhas esta manhã. Ele estava ali no banco do passageiro, distante, não havia trocado muitas palavras com Sarah desde que eles entraram no carro. Às vezes ela virava os olhos para ele e percebia que havia alguma coisa ocupando totalmente seus pensamentos e que o impedia de perceber ela olhando para ele.

"Uma moeda por seus pensamentos!".

Derek foi abruptamente retirado dos seus pensamentos pela voz da Sarah. Ele parou de olhar para a estrada e virou-se para encontrar os olhos verdes de Sarah voltados para ele.

"O quê?!".

"Uma moeda por seus pensamentos!".

"Eu não sei, Sarah. Eu estou com a sensação de que alguma coisa está errada. O metal, Sarah. Ela ficou lá. Com John! Sozinha! Aquela vaca de metal! Eu não sei se isso é seguro para ele. Ela é uma má influência, Sarah... Fica andando entre nós, com um nome, se fazendo passar por humana. Ela não é humana. Ela é uma máquina! Uma maldita máquina criada para nos matar, matar John! Eu sinto, Sarah! Tem alguma coisa errada nela estar perto de John!".

"Eu já falei para você, Derek! Eu não gosto da idéia dela perto de meu filho mais do que você. Eu não confio nela. Mas ela é necessária: pense em quantas vezes ela salvou nossas peles, quantas vezes ela se arriscou por John! Eu também não gosto do jeito que John responde a ela, nem de como ela age perto de John, ainda mais nos últimos dias. Há algo de estranho com ela. Eu não sei o que se passa dentro daquele chip e isso não me sai da cabeça... Mas ela poderia ter nos matado há muito tempo atrás e não o fez. John disse que o chip dela está bem. John a quer por perto. E isso para mim é o suficiente para manter a 'Menina de Lata' entre nós.".

"Humpf! 'Menina de Lata'... Ela tem até um apelido, como se fosse nossa bichinha de estimação.".

"Ah! Você está com ciúmes de Cameron? Você também quer um apelido?", Sarah falou com ar de escárnio.

Derek balançou a cabeça negativamente e deu um pequeno sorriso: "Apenas dirija!".

E foi o que ela fez, eles ainda tinham um dia inteiro de viagem pela frente.

Residência dos Connor (Manhã, 2007).

Sarah e Derek estacionaram o carro. Eles haviam chegado alguns dias antes do previsto, por isso não estranharam o fato de John e Cameron não estarem esperando por eles na frente.

Ainda era de manhã cedo, eles não haviam dormido para dirigir a noite toda e assim chegar mais rápido em casa, principalmente pelas reclamações de Derek sobre John estar sozinho com Cameron – o que já estava fazendo Sarah suspeitar que Derek sabia de alguma coisa que não estava dizendo.

Sarah pegou a sacola com as roupas e Derek pegou a mala com as armas, trancaram o carro e entraram na casa que há semanas eles não viam e desejavam desesperadamente voltar, tomar um banho decente e deitar em suas camas.

Eles chegaram à sala e acharam estranho que John e Cameron não estavam lá, nem se ouvia sinal deles. Na verdade, o que era mais estranho era o fato deles terem chegado, entrado na casa e até feito um pouco de barulho e Cameron não ter percebido: ela podia ter muitos defeitos, mas ineficiência não era um deles. Em questão da segurança de John, ela era mesmo bastante radical: ao menor sinal de alguém em casa, ela teria aparecido com uma arma pronta para cravar uma bala no crânio de alguém.

Isso só podia significar que ela não estava ali. E isso era ruim por todos os prismas que se analisasse a situação: se John estivesse em casa, significava que ela saiu e o deixou sozinho, desprotegido; se ambos houvessem saído, significava que eles a haviam desobedecido e isso era perigoso. Ou pior: poderia significar que Cameron havia surtado de novo e matado John. O simples relampejo de tal pensamento já a fez sentir um frio percorrendo a espinha.

"Derek, me passe uma arma. Isso está quieto, algo não está certo...", ela disse sussurrando.

"Eu te disse, Sarah. Isso foi uma má idéia, você deveria ter ficado.", ele disse, abrindo uma mala de armas e entregando uma para Sarah e pegando uma para si mesmo.

"Droga, Derek! Depois nós falamos sobre isso. Vamos procurar John...".

Eles seguiram para a cozinha e a cena que Sarah viu a chocou tanto que quase a fez apertar o gatilho: Cameron estava perto do fogão, cozinhando alguma coisa, rindo e vestida aparentemente apenas com uma camisa de John que lhe cobria um pouco abaixo da cintura, deixando grande parte de suas coxas aparente e John abraçando-a e falando alguma coisa em seu ouvido.

Ela e Derek ficaram sem reação por alguns segundos, tentando assimilar o que estavam vendo. Aquele era uma cena surreal, aparentemente saída dos piores pesadelos de Sarah: John e Cameron, juntos. Não apenas ela não era mais a única mulher da vida de John como também essa nova mulher poderia protegê-lo muito melhor do que Sarah. Qual o seu papel, então? Além de tudo isso, essa mulher não era uma mulher: era uma máquina! Aquilo não era normal, era doentio. Se Sarah não permitiu que John namorasse Riley, como permitir que ele namorasse uma máquina? Após Sarah recuperar o controle de suas funções motoras, ela foi capaz de falar:

"John! O que diabos está acontecendo aqui?", ela gritou.

John deu um pulo de susto e rapidamente se afastou de Cameron, que largou a frigideira que estava segurando próxima ao fogão e caminhou para o seu lugar de direito: ao lado de John.

"Então, John?! Eu lhe fiz uma pergunta! O que diabos está acontecendo aqui? O que significa isso?".

John estava atônito. Ele não conseguia pronunciar nenhuma palavra, ele não havia planejado nada disso. Por mais que lhe incomodasse esconder isso de sua mãe, ele sabia que ela jamais aceitaria seu namoro com Cameron, e descobrir assim não tornava nada mais fácil. Não havia nenhuma resposta que John pudesse dar que levasse essa conversa para um rumo que não terminasse com gritos histéricos de Sarah e xingamentos de Derek; nada de bom podia sair dessa situação. Longos segundos de silêncio se passaram, até que Sarah franziu a testa, como sinal de que estava esperando uma resposta:

"Então?!", ela insistiu.

"Nós somos um casal.", Cameron falou no lugar de John.

"Um casal? Um casal?", Sarah falou, alterando e aumentando o tom de voz quando da repetição.

"Sim, um casal. Como namorado e namorada.", a ciborgue respondeu em seu tom robótico.

"Eu vou matar você, sua vadia!", Derek gritou, levantando sua arma e apontando para Cameron.

John correu e se colocou na frente de Cameron, se fazendo de escudo para o tiro de Derek.

"Não, Derek!", ele gritou. "É verdade mãe. Eu... estou com Cameron.", ele disse olhando para Sarah.

Aquela revelação acertou Sarah como uma das bombas que Skynet jogaria no futuro. Ela não estava pronta para aquilo; ela definitivamente não estava pronta para lidar com aquilo.

"Viu, Sarah?! Eu te falei que essa vaca de metal faria isso! Eu sabia que ela era uma manipuladora, uma vadia. Ela seduziu John para o lado dela, para jogá-lo contra nós. Nós precisamos matá-la, precisamos nos livrar dela.", Derek berrava.

"Derek, você está dificultando tudo. Saia daqui: vá lá para cima, lá para fora, qualquer lugar, menos aqui.".

"Mas, Sarah...".

"Vá!".

Derek, então, vira-se de costa e retira-se da cozinha em direção ao seu quarto, pronunciando provavelmente todos os palavrões que o vernáculo conhecia. Sarah olha para John ao lado de Cameron e a visão dos dois juntos, os pensamentos das coisas que eles devem ter feito enquanto ela estava fora, o que deve ter acontecido ontem à noite para Cameron estar vestida daquele jeito... lhe dava náuseas. Ela não podia ver Cameron assim, tão perto de John.

"Você! Eu não quero nem olhar na sua cara. Vá se vestir de forma decente. E não desça aqui até eu mandar.".

"Eu não recebo ordens de você.", ela disse com seu rosto inexpressivo e sua voz mecanizada.

"Não teste minha paciência, 'Menina de Lata'.".

"Vá, Cameron. Tudo ficará bem.", John lhe falou.

Cameron olhou para John por alguns segundos e lhe deu um terno sorriso. Depois, voltou à sua expressão em branco, caminhando para o seu quarto, passando perto de Sarah e mantendo contato visual até quanto fosse possível.

"Você perdeu o seu juízo? No que você está pensando? Ela é uma máquina, John. Uma máquina, uma maldita máquina.".

"Eu vejo uma garota, mãe... Não uma máquina. Eu vejo uma garota... A minha garota, a mulher que eu amo, a menina que me ama.".

"Ela não ama você. Ela é um monte de metal, ela não sente, ela não ama.".

"Você não sabe de nada, mãe! Ela me ama. Eu posso sentir isso, eu vejo nos olhos dela. Ela me ama e eu a amo. Nada que você diga ou faça pode mudar isso.".

"Você está delirando, John! Como você se deixou ser enganado assim? Como você pode ser tão tolo: ela está usando você, brincando com suas emoções. É isso que eles fazem, eles nos usam, John!".

"Você acha que eu quis isso, mãe?! Que eu quis me apaixonar por ela? Que eu não tentei evitar? Que eu achei normal me apaixonar por uma ciborgue? Acredite, mãe, eu fiz de tudo para enterrar isso. Eu me afastei dela, eu a tratei mal, eu saí com outro garota... mas nada disso funcionou e só a fez ficar cada vez mais ao meu lado. Ela sempre esteve lá por mim, mãe, e sempre vai estar. Agora e sempre!". Ele tomou fôlego e continuou: "Eu não deveria amá-la, mãe, mas eu quero; eu não posso simplesmente virar minhas costas e me esquecer disso. Eu sei que não devia vê-la desse jeito, mas eu não consigo mover meus olhos dela; eu não posso simplesmente ignorar tudo que eu vivi ao lado dela.".

"Ouça a você mesmo, John! Veja a loucura que você está dizendo. Isso é... não existem nem palavras para descrever. Você deveria lutar contra ela, destruí-la, não dormir com ela. Isso não é certo.".

"Mãe, você se lembra do Mágico de Oz?".

"O quê? Claro que sim, John.".

"Lembra do 'Homem de Lata'?".

"Eu não sei onde você está querendo chegar, John. Lógico que me lembro do 'Homem de Lata'. Ele não tinha um coração. Assim como a Cameron.".

"Sim, ele não tinha um coração. Por isso ele acompanhou a Dorothy, para encontrar um. Você se lembra do final? No final, quando o Mágico de Oz lhe dá um relógio em forma de coração, ele descobre que sua busca foi inútil: ele tinha um coração o tempo todo, apenas não havia percebido isso.".

"Você está querendo dizer que Cameron tem um... coração?".

"Sim, ela tem. O meu. Meu coração é de Cameron.".

"John... Você... Tem certeza do que você está falando?".

"Sim, mãe, eu tenho. Foi por isso que eu não a destruí depois que ela tentou me matar. Foi por isso que eu a escolhi. Por isso que eu a enviei de volta no tempo. Porque eu a amo, e isso nunca vai mudar. A senhora pode não gostar disso, mas se me quer junto de você, terá de aceitar.".

"Você... me deixaria por ela? A escolheria ao invés de mim?".

"Eu já fiz isso, mãe. Desde o dia que você me mandou matá-la e eu não matei. Desde lá eu escolhi Cameron, e não você. E faria de novo. Eu a escolhi aquele dia e escolherei de novo. Eu sempre a escolherei.".

Sarah não podia acreditar no que estava ouvindo de John. Ele iria deixá-la... por Cameron! Isso era demais. Como ela foi deixar isso acontecer? Ela olhou para John e podia ver que ele estava decidido, ele realmente faria aquilo. Às vezes, Sarah duvidava que John fosse conseguir se tornar o General que ele deveria ser a tempo suficiente para deter a Skynet. Mas quando ela olhava para John assim, decidido e seguro de suas escolhas, ela podia ver que nada ou ninguém poderia impedi-lo de fazer o que ele achava certo. Ela via que ele tinha uma força de vontade incomparável. Ela via que ele já era um líder, já era um general.

Sarah sabia que John se apegava demasiadamente às máquinas. Ela aprendeu isso quando Tio Bob entrou na vida deles. Ela passou meses enxugando as lágrimas de John depois que Tio Bob se sacrificou para salvá-lo de seu destino. Então, ela se lembrou de Tio Bob e de como ela pensou que ele seria um pai perfeito para John: em um mundo insano, ele era a escolha mais sã. E pensando melhor, ela percebeu que o sacrifício de Tio Bob foi um ato de amor por John; na verdade, o maior de todos: entregar sua própria vida para o bem de outra pessoa. De repente, ela não estava mais certa de que as máquinas não poderiam amar.

A cabeça de Sarah girava mais rápido do que ela podia suportar, ela precisava tomar uma decisão. Agora! E ela sabia só de olhar para John que ele já havia tomado a sua e nada lhe faria mudá-la, nem mesmo ela. "Isso não é sobre mim, é sobre John!", ela se forçou a repetir mentalmente.

"Quando isso começou?".

"No dia em que Riley foi para o hospital.".

"Desde lá?! Foi por isso que você terminou com Riley?".

"Foi.".

"E você... pretendia me contar, um dia?".

"Um dia. Quando você estivesse pronta.".

"John... Eu ainda acho isso errado, mas isso não é sobre mim, é sobre você. Você é o líder e tem de tomar suas próprias decisões, ainda que seus seguidores não gostem dela. Mas se lembre: assim como o líder tem a prerrogativa de tomar suas próprias decisões, é ele – e somente ele – que arcará com as conseqüências delas. Você está pronto para suportar isso?".

"Se ela estiver do meu lado, sim!".

"Pois bem. Chame Cameron aqui. Eu quero falar com ela. A sós. De mulher para máquina.".

John olhou com ar de reprovação para Sarah. "Ok, de mulher para 'menina de lata'.". Ele olhou de novo. "Nem tente! Isso é o máximo que você vai arrancar de mim.". "Já é um começo...", ele sussurrou, antes de deixar Sarah sozinha, esperando sua... "nora" descer.

John subiu as escadas e dirigiu-se até a porta do quarto de Cameron. Ele não precisou nem bater na porta para que Cameron a abrisse; ela tinha uma estranha mania de prever os atos de John.

"Ela quer falar com você. A sós.".

"Você acha que é seguro?".

"Ela está meio consternada. Por favor, não a irrite. Tudo isso já foi demais para ela. Escute o que ela tem a dizer e responda o mínimo possível. Isso deve bastar para garantir sua segurança.".

Cameron fez um sinal de positivo com a cabeça, deu um selinho em John e desceu as escadas, enquanto John foi esperar por Cameron em seu quarto.

Ao chegar à cozinha, Cameron encontrou Sarah parada, em pé, esperando por ela com uma expressão não muito amistosa.

"Você está no centro absoluto da cozinha", Cameron começou.

"Pode cortar o papo furado, Cameron. Você agiu pelas minhas costas e se aproveitou de minha confiança. Você mentiu para mim. Eu devia explodir a sua cabeça com essa arma. Você o quão mal eu me sentiria com isso?".

"Muito mal?".

"Nem um pouco. Mas eu conheço uma pessoa que ficaria muito mal com isso. Uma pessoa que nunca iria me perdoar. Eu não confio em você, Cameron; mas eu confio em John e ele confia em você. E isso para mim é o suficiente. Nunca tome isto por certo ou por garantido e tenha certeza de que ao menor sinal de que você irá partir o coração do meu filho, seja de que maneira for, nem mesmo ele me impedirá de destruir você pedaço por pedaço. Estamos entendidas?".

"Sim, nós estamos.".

"Ótimo. Você pode ir, agora. E vá para o seu quarto, fique longe do quarto de John. Nada de gracinhas enquanto eu estiver em casa!".

Cameron, então, virou-se de costas e caminhou para sair da cozinha. Quando ela estava quase sumindo da vista de Sarah, a mesma gritou:

"Cameron?!".

"Sim?".

"Você... o ama?".

"Sim, Sarah, eu o amo. Muito!".

"E você... sabe o que é amor?".

"John é tudo para mim, Sarah. Sem ele, eu não tenho propósito para existir. Minha vida, minha missão, meu destino é estar ao lado dele, protegendo-o, apoiando-o e fazendo-o acreditar que ele é o Messias que a raça humana precisava para guiá-la. Ele é todo meu universo, eu não passo um milésimo de segundo sem pensar nele, sem me importar se ele está bem. Eu vivo por ele e morreria por ele sem hesitar. A vida dele é sagrada para mim. Eu quero estar com ele, mesmo quando não preciso estar. Eu quero fazer panquecas para ele todas as manhãs. Eu quero escutar a voz dele em meu ouvido e sentir sua respiração em meu pescoço. Eu quero sentir o calor que passa meu corpo quando ele me beija. Eu quero levá-lo a vitória e estar ao lado dele quando ele destruir a Skynet. Isso é amor, para você?".

Sarah ouviu atentamente cada palavra que Cameron pronunciou e teve de admitir para si mesma que tudo que pensou sobre Cameron estava errado: ela, por mais absurdo que pudesse parecer, amava John.

"Era isso que eu precisava saber, Cameron. Agora vá! E lembre-se, nada de gracinhas!".

Cameron virou-se e continuou sua caminha de volta para seu quarto. Embora ela quisesse ver John, não seria bom (ao menos por enquanto), desobedecer Sarah a ponto de deixá-la ainda mais irritada com tudo isso. Era isso que John iria querer.

Subindo as escadas, Cameron viu Derek vindo a seu encontro. Ela sabia que ele não estava ali para dialogar educadamente e o modo como ela a tratava a incomodava muito. Mas ele era o tio de John e por ele ela agüentaria as grosserias de Derek. Machucá-lo não valia magoar John.

Ela iria tentar evitá-lo, embora soubesse que naquele pequeno espaço, seria praticamente impossível. Ela continuou andando para frente, em direção a seu quarto e Derek permaneceu vindo na direção oposta, de encontro a ela. Quando ambos se aproximaram, Derek a empurrou em direção à parede, encerrando a distância entre eles e apontou uma arma, encostando ao queixo de Cameron:

"Escute aqui, vaca de metal: você pode ter enganado todos eles, mas você não me engana. Eu conheço você!".

"Eu também conheço você!".

"Você pode andar por aí com suas roupas, seu nome, seu apelido, como se fosse uma de nós, mas você nunca será uma de nós. Eu me certificarei para que isso não ocorra! Você está me ouvindo?".

"Sim! Agora me deixe ir.".

"Mais uma coisa, vagabunda de metal: o que quer que você tenha embaixo dessa saia, mantenha longe de John. Eu não quero saber de John dentro de sua calcinha.", Derek falou, olhando firme para Cameron.

"Você está com raiva de John por ele ter 'entrado na minha calcinha' ou com inveja por que você não conseguiu?", ela respondeu, olhando para cima para encontrar o rosto de Derek.

"Não faça jogos comigo, metal!".

"Você não pode me matar...".

"Mas eu posso tentar!", ele disse, engatilhando a arma.

"Sim, você pode. Mas não seria uma atitude muito sábia de sua parte. Você só teria um tiro para tentar...".

Derek odiava admitir, mas ela estava certa: ela quebraria o pescoço dele antes mesmo que ele conseguisse puxar o gatilho. Ele então se afastou de Cameron, permitindo que ela pudesse continuar o percurso até seu quarto e desceu, para falar com Sarah. Ele precisava entender o motivo dela ter autorizado essa loucura.

Derek desceu até a cozinha e chegando lá encontrou Sarah sentada a mesa, com uma garrafa de uísque a sua frente e um copo cheio em sua mão. Ela olhou para ele e fez um sinal com a cabeça para que ele se juntasse a ela na mesa. Ele atendeu ao pedido e se sentou. Sarah colocou uísque em outro copo e o ofereceu a Derek. Quando ele ia abrir a boca para falar, Sarah se adiantou:

"Eu sei porque você está Derek. E você não vai mudar minha cabeça.".

"Isso é loucura, Sarah! É nojento, é doentio. Ela é um metal, um maldito pedaço de metal! Uma máquina! E ela está dormindo com seu filho, com nosso líder. Você não percebe que isso tudo é uma tática dela para fazer com que John se vire contra nós, contra os humanos? Você não...".

"Ele ia me deixar, Derek!", Sarah falou interrompendo o soldado. "Ele disse que se fosse escolher entre eu e ela, ele escolheria a ela.". Derek olhou para Sarah e viu o quanto ela estava arrasada com aquilo que estava falando. Ele colocou sua mão sobre a dela.

"Ele... disse isso? Ele realmente disse isso?".

"Sim! E eu pude ver em seus olhos que ele estava falando sério. Ele estava com aquele ar de general. Aquele que você me falava que ele tinha no futuro, quando dava uma ordem que os soldados não queriam aceitar. O olhar de John Connor, o que nos fazer lutar e morrer por ele.".

Derek via que Sarah estava prestes a ruir. Ele poucas vezes a tinha visto tão vulnerável deste jeito. Ele esticou a outra mão e colocou no rosto de Sarah, que inclinou a cabeça levemente para o lado, de encontro a mão dele, para sentir o toque da melhor maneira possível.

"Eu não vou a lugar nenhum, Sarah.".

"Obrigada!".

"Ele disse que ela o ama...", Sarah falou.

"Isso é absurdo! Ela é um robô, ela não 'sente' nada.".

"Eu não tenho mais tanta certeza.".

"Como assim? Do que você está falando.".

"Eu vi os olhos dela quando ela falou de John. Eles estavam repletos de... adoração.".

"O que? Eu não entendo... O que tinha esse olhar de tão especial que fez você duvidar que ela pudesse amá-lo?".

"Eu conheço esse olhar. Era o mesmo olhar que eu tinha ao falar de Kyle.". Sarah parou de falar e olhou para baixo, tomando fôlego antes de continuar. "É o mesmo olhar que eu tenho... ao falar de você...".

Após falar isso, Sarah deu o último gole, secando seu copo de uísque e levantando da mesa, deixando lá sentado um Derek perplexo de ouvir aquelas palavras. Teria Sarah falado que o amava? Ele não iria perguntar; ao menos não agora. Por enquanto, ele sabia que o que Sarah precisava era de descanso. Mas algum dia ele teria coragem de finalmente perguntar a ela. Até lá, ele iria prestar atenção nos seus olhos verdes e procurar encontrar a admiração por ele de que Sarah falou.

A tarde se passou a nenhum dos Connor falou um com outro. Sarah, John e Cameron passaram-na em seus respectivos quartos e Derek perambulo entre a cozinha e a sala, algumas vezes com um copo de bebida alcoólica na mão. Com o anoitecer, Sarah desceu as escadas e foi para a cozinha, começar a preparar o jantar para o resto da família.

Lá chegando, ela encontra Derek sentado a mesa, com a cabeça baixa, pensando em alguma coisa (coisa na qual ela sabia bem o que era). Ao vê-la se aproximando, Derek levanta seu rosto para encontrá-la. Por alguns segundos, os dois apenas se entreolham, sem dizer ou fazer nada, mas tal contato é quebrado por Sarah, que se movimenta para os armários, a fim de pegar os ingredientes para o jantar.

"Sarah, o que você está fazendo?".

"Cachorro quente. Para o jantar.", ela disse de costas para Derek, ainda pegando coisas no armário.

"Você não vai falar sobre o que aconteceu mais cedo?".

"Não. Não agora. Eu não posso lidar com isso no momento. Eu não devia ter falado aquilo.".

"Mas você falou! Você quer que eu esqueça o que ouvi? Que finja que nada aconteceu?!".

"Eu não quero nada, Derek! Você pode fazer o que você quiser.".

"É verdade? O que você falou naquela hora. É verdade?".

Sarah se petrificou por um instante. O que ela deveria falar? O que ela deveria fazer? Contar a verdade e levar essa conversa adiante ou mentir e acabar com tudo, ali, agora? Ela queria mentir e resolver aquilo do modo mais fácil, mas ela não podia mentir... Não para ele.

"Infelizmente, sim! Eu queria que não fosse... Eu tentei fazer com que não fosse, mas... eu não consegui. Eu gostaria que fosse diferente, mas... aconteceu.".

"Sarah, se isso aconteceu foi porque eu também permiti. O que aconteceu não pode ser mudado; a questão é: o que faremos daqui para frente?".

Sarah largou as coisas no balcão, virou-se de frente para Derek, encostou-se na bancada e cruzou os braços. Ela esperou alguns segundos para responder, pensando no que falar e quando ela separou os lábios para dizer alguma coisa, John apareceu bocejando, com cara de quem tinha acabado de levantar da cama:

"O que temos para o jantar, eu estou faminto.".

"Eu... estou preparando cachorro quente.", Sarah respondeu sem jeito e se virando de volta para o balcão, passando a mão em seu cabelo.

"Hum... Eu... Interrompi alguma coisa?".

"Não!", os dois responderam ao mesmo tempo.

"Sério?! Porque eu posso voltar depois e...".

"Não, John! Pode ficar aqui.", Sarah respondeu mais enfática.

John sentou-se a mesa, a frente de Derek, que o olhava com um pequeno ar de reprovação. Obviamente, John sabia o porquê. Derek ainda não entendia como John se apaixonou por um pedaço de metal e por mais que Sarah lhe falasse "dos olhos", ele sempre saberia que Cameron era uma lata de sardinha que andava e falava, nada mais que isso.

Ele não podia parar de pensar em como esse John e o John do futuro eram diferentes e ao mesmo tempo iguais. Derek via que esse John não era um líder, não sabia como enfrentar uma tortura, bolar uma estratégia ou um plano de ação para a guerra, não comeria aquela "gosma" que eles chamavam de comida ou beberia aquela lama que eles tinham como "água". Mas ao mesmo tempo ele via a mesma paixão, a mesma força de vontade, a perseverança de alguém que poderia ser baleado, chicoteado, pisoteado e espancado que mesmo assim continuaria a seguir, a mesma habilidade em fazer as pessoas acreditarem que o que ele dizia era possível, o carisma que fazia as pessoas o seguirem e morrerem por ele.

O mesmo amor por ela... Tanto este John como o do Futuro amavam a este robô. Por mais absurdo que pudesse parecer o amor deles parecia estar mais forte agora do que no futuro. Derek não podia parar de pensar em tudo que esse amor entre eles causou na Resistência: os soldados se rebelando contra John, o ódio que tinham por Cameron, um racha dentro da Resistência que fortaleceu as máquinas. Mesmo assim, John não abriu mão de Cameron, ela continuou ao seu lado até o fim: até ele mandá-la de volta. E de repente Derek percebeu que ele nunca a abandonou: ela continuava ali, ao lado dele. Ele nunca desistiria dela, e não seriam nem ele nem Sarah que o convenceriam a fazê-lo. Ele realmente iria embora com Cameron se eles tentassem. Ele sempre a escolheria. E se Derek estava aqui para protegê-lo, ele teria de obedecer a vontade de John; no fim das contas, ele era o líder. "Viva por John e morra por Connor!".

Os pensamentos de Derek foram quebrados pelo som de passos vindo da sala em direção a cozinha e ele sabia de quem se tratava: ela era a única que não estava ali. Ele estava disposto a tentar conviver com isso, mas isso não significava que ele tivesse de aturar. Ou começar agora.

"Com licença, eu não estou com fome!", ele disse levantando-se da mesa e saindo rapidamente da cozinha, cruzando com Cameron na entrada.

Cameron e ficou olhando Derek sair e depois se virou para ver o rosto de John: fazia tempo que ela não o via e ela estava sentindo falta disso.

"Hei.", ele disse a ela.

"Hei...", foi a resposta dela, sorrindo. Ela se sentou ao lado de John e ele inclinou-se para beijá-la.

"Ok. Você dois, vamos impor algumas regras básicas: primeiro, nada de ficar como dois pombinhos se beijando toda hora ou falando com voz mole; segundo, nada de 'gracinhas', entendido? Mantenham 'as coisas' de vocês longe uma das outras, ainda mais quando eu estiver por perto. Estamos combinados?", Sarah falou apontando para os dois e interrompendo o beijo que dariam.

"Ok, mãe, certo.", John respondeu com um pequeno riso no rosto.

"Então... 'Menina de Lata'?".

"Eu não recebo ordens de você. Mas se John disse que sim, então sim, estamos combinadas.".

"Certo! Isso começa efetivamente a partir de agora. Tome, John. Aqui está seu jantar.".

"Eu quero um cachorro quente.", Cameron argumentou.

"Eu pensei que você não precisasse e não gostasse de comer.".

"Eu não preciso e não gosto.".

"Então por que você quer um cachorro quente?".

"Porque John gosta que eu coma.".

"Sei... Bem, você é mais avançada inteligência artificial já criada, faça seu próprio cachorro quente.".

"Às vezes é bom ter ajuda.".

"Hum! Ok, mas não se acostume com isso.", Sarah falou revirando os olhos; ela sabia que não ia ganhar esta discussão: quando o assunto era John, Cameron chegava a ser mais intransigente do que ela própria. "Meu Deus, estou fazendo um sanduíche para uma ciborgue", ela resmungava em um tom quase inaudível.

Sarah entregou o sanduíche para Cameron e sentou-se a mesa com seu filho e a ciborgue. Por mais que Sarah tentasse se convencer do contrário, ela já estava acostumada a ter Cameron por perto, junto com eles. Sua presença não a incomodava mais tanto e ela sabia que a tendo junto a John, ele estaria sempre protegido. Ainda mais agora, com essa... "revelação".

O jantar transcorreu normalmente, sem quaisquer incidentes; Cameron e John estavam obedecendo fielmente às regras de Sarah: não haviam sussurros, olhares trocados, silêncios súbitos, nada. Era como se nada estivesse acontecendo entre os dois – embora Sarah soubesse que eles só o faziam para não a deixar irritada.

Após o jantar, Sarah levantou-se da mesa, limpou as louças que havia usado e caminhou em direção ao quarto. Quando estava prestes a sair da cozinha, virou-se para os dois adolescentes e falou:

"Bem, eu vou dormir e dar um espaço para vocês dois conversarem. Não fiquem acordados até tarde e nada de 'gracinhas', ouviram?!".

"Sim, mãe!", John respondeu.

Essa cena era surreal para Sarah: ela nunca se imaginou dizendo isso para John, ainda mais com uma namorada ciborgue. Mas ao mesmo tempo, ela sentiu uma estranha sensação de conforto: aquilo era um dos poucos momentos que ela podia agir como "mãe" de John, e não como sua tutora ou instrutora; ela era apenas uma mãe normal tomando conta de seu filho e lhe dando lições sobre namoros.

Assim que Sarah saiu, ela pôde ouvir uma pequena risada de John e de... Cameron. Aquilo lhe fez sentir um frio na espinha; ultimamente Sarah vinha notando uma Cameron diferente: seus olhos, sua fala, seu jeito. Isso já era suficientemente estranho para Sarah; mas vê-la rindo com John foi algo assustador: Sarah não sabia mais o que considerar Cameron e lá em seu âmago – por mais que ela nunca fosse admitir – ela estava começando a se apegar àquela robô. E isso não era bom, não era sensato. Sarah apressou-se para sair; ela precisa manter distância de Cameron... já!

Após praticamente o dia todo separados, finalmente John e Cameron tinham um momento para eles. Não demorou nem um segundo para que seus lábios se tocassem, e como eles sentiam falta disso: suas bocas não haviam sido feitas para ficarem separadas, a esta altura eles já haviam descoberto isso; só juntas elas faziam sentido. O beijo foi doce, terno, como se fosse um prelúdio para uma grande sinfonia que estava preste a começar. E, de fato, ele era. Após esse primeiro beijo, assim que seus lábios se separaram, eles olhavam-se apenas admirando as feições um dos outros e o silêncio era tudo que eles precisavam para se entender.

Mas antes que a sinfonia pudesse começar, ela foi interrompida pela voz de Derek, que subitamente apareceu no cômodo:

"John, eu preciso que você venha comigo à cidade para comprar algumas coisas.".

"Derek, isso não pode esperar até amanhã? Já é de noite, nós não precisamos de nada agora.".

"Não pode esperar, John. Eu preciso de algo para agora.".

"Ok, então! Venha, Cam.".

"Eu não a chamei, John! Eu não preciso dela junto.".

"Derek, você sabe que não vou a lugar nenhum sem...".

"Está tudo bem, John! Vá com ele. Eu vou ficar bem.", Cameron intercedeu no diálogo entre os dois. "É óbvio que ele não vai poder fazer o que quer com você se eu estiver junto. E isso pode ser importante para você, eu não quero atrapalhar. Vá com ele.".

"Ok. Eu volto logo, Cam.". John caminhou para perto da Cam e lhe deu um abraço, sussurrando em seu ouvido "Eu te amo" e recebendo a mesma frase como resposta.

"Que tocante!", Derek resmungou em um tom sarcástico. "Agora vamos, John. Não podemos chegar muito tarde ou sua mãe matará a nós dois.".

Assim, os dois seguiram para o carro. Derek foi dirigindo e John sentou no banco do passageiro. Eles tomaram o rumo da cidade e Derek parou em posto de gasolina, comprando algumas cervejas geladas. Logo após sair do posto, eles andaram pouco mais de 300 metros e Derek parou o carro no acostamento da estrada. Ele pegou uma cerveja, abriu, tomou um gole e com a outra mão, pegou uma lata e a ofereceu a John.

"Derek, eu não sei se devo... Isso é alcoólico... Se minha mãe descobrir que eu bebi, ela me mata.".

"Beba, John. Não haverá muito disso no futuro!".

"Mas... Eu não creio que eu e álcool sejamos uma boa combinação. Eu lembro que uma vez quando era criança no México eu tomei um copo de tequila... Eu e minha mãe quase fomos expulsos do vilarejo.".

"Eu já vi você bêbado, John. Eu estava em sua festa de aniversário em 2027. Você quase explodiu uma parte de nossos túneis e quase me acertou na cabeça com um tiro de pistola. É por isso que só estou te oferecendo uma lata de cerveja, e não uma garrafa de uísque. Tome!", Derek falou, estendendo novamente a mão com a lata de cerveja para John.

John aceitou a oferta de Derek e tomou a lata para si, abrindo-a e dando um gole, abaixou a cabeça, olhando para a lata e depois levou seu olhar a Derek, que fitava a paisagem pelo pára-brisas, sem fazer o mínimo contato visual com John. Isso significava que ele pensando em como iniciar uma conversa difícil, cujo assunto John sabia muito bem qual seria.

"Ela estava lá nesta festa no futuro, sabe?! Cameron.".

"Eu estava começando a me perguntar quanto tempo você iria demorar para tocar nesse assunto."

"Eu já te falei que uma dessas coisas ainda vai te matar um dia, John!".

"E eu te respondi que não seria ela.".

"Você tem certeza do que você está fazendo, John?! Você parou para pensar nisso com clareza? Quanto tempo você espera poder continuar com isso? Você acha que terá um futuro ao lado dela com uma casa de jardim e cerca branco no subúrbio? Vamos lá, John! Você sabe muito bem que o futuro dela é morrer levando um tiro na cabeça para proteger você! Estás pronto para ver isso acontecer? Como você espera liderar a Resistência se ela souber que você está literalmente dormindo com o inimigo?".

"Eu sei de tudo isso, Derek! Eu não sou estúpido. Eu já pensei em tudo isso, muitas vezes, há muito tempo atrás. Mas... não faz diferença, nunca fez. Você sabe quando você encontra uma pessoa e na primeira vez que você põe os olhos nela, você já sabe... É tudo tão claro, você não tem a menor dúvida de que é ela! Você pode sentir que encontrou tudo aquilo que procurava, que você está completo. Está tudo ali, na sua frente... naquela pessoa. Você me entende?".

Derek demorou alguns segundos para responder. Ele conhecia bem essa sensação, pois a viveu assim que voltou a este tempo, quando uma mulher foi visitá-lo na prisão: "Sim, John... Eu sei.".

"Então... Foi isso que eu senti ao ver Cameron na escola. Eu senti que toda minha vida, todo meu sofrimento foi apenas uma preparação para aquele momento, como se aquilo já tivesse sido escrito e eu tivesse que encontrá-la. Ela é a razão pela qual eu luto, Derek; a esperança que me mantém acreditando que eu posso vencer; eu só sou um general por ela e com ela. Tire-a do meu lado e eu prefiro queimar nas chamas da Skynet, pois eu não teria motivos para viver no mundo que ajudaria a salvar. Se você quer que eu o comande, Derek... Deixe Cameron no lugar que é dela por direito: ao meu lado.". Derek já tinha ouvido John falar desse jeito algumas vezes, mas nenhuma neste tempo. Aquela convicção com que John falava não era a de John Baum, era própria de John Connor. Do seu líder. Aquele pelo qual todos lutariam e seguiriam até o fim! Era a voz de um general. Derek finalmente virou para John e falou olhando em seu rosto:

"Eu disse certa vez que você agia cada vez mais como John Baum e menos como John Connor. Eu estava errado: você já é John Connor. Eu sou seu soldado: eu morreria por você, todos nós morreríamos. 'Viva por John e Morra por Connor'. Você é nosso general e é a você que cabem as decisões. E você tem de fazê-las desde já. Se você acha que ela ao seu lado o fará lutar melhor, eu acato sua decisão. Eu confio em você. Não confio nela, mas confio em você. Você é nosso líder, isso para mim é o suficiente.".

Ao dizer isso, Derek parou de olhar para John e voltou a fitar a paisagem. Algum tempo de silêncio se passou e John continuava a beber. Derek havia tocado em um assunto que ele sempre quis puxar com seu tio, mas sabia que ele não falaria sobre isso tão facilmente. Talvez agora fosse um bom momento para tentar.

"Você... nos conhece no futuro, não é?! Digo, eu e Cameron.".

"Sim, acho que se pode dizer isso. Eu não tinha muito contato com você. Na verdade, nenhum de nós tinha. Só ela. Cameron era uma espécie de 'porta-voz' sua. 'Falar com Cameron era o mesmo que falar com Connor', era o que você nos dizia.".

"Nós éramos... próximos?".

"John, eu sei onde você está querendo chegar e não sei a resposta. Você passava o dia quase inteiro com Cameron, trancado em uma sala e confiava muito mais nela do que em nós, até mesmo do que em mim ou em Kyle. Mas eu não sei o que vocês faziam a sós. Os boatos que corriam na Resistência eram fortes e sua relação com ela incomodava grande parte dela. Mas nada nunca ficou provado. Você quer minha opinião?".

"Sim, Derek! Eu quero.".

"Eu nunca pensei que confessaria isso para mim mesmo, mas eu via o modo como Cameron falava de você e se comportava ao seu lado ou quando praticava alguma ordem que você havia lhe dado. Aquilo me horrorizava de tantas formas que eu não saberia por onde começar, não era normal. E continua me arrepiando até os ossos. E eu via o modo como você a olhava e como depositava sua confiança e até mesmo sua vida nas mãos delas. Eu vejo isso em vocês... hoje! Vocês continuam os mesmos. O tempo não alterou o que vocês sentem um pelo outro.".

"Obrigado, Derek. Por tudo!".

"De nada."

"Então... Como estão as coisas entre você e a mamãe?".

"Eu... não sei do que você está falando.".

"Qual é, Derek?! Você acha que eu sou cego?".

"Bem... eu gostaria de saber. Pergunte a sua mãe e se descobrir a resposta me avise. Fechado?".

"É... Fechado.", John respondeu, com certo ar de decepção pela resposta.

"Vamos embora, antes que sua mãe comece a ligar achando que eu seqüestrei você. Ela não está muito permissiva esses dias.".

"É. Eu não posso discordar disso.".

Assim, Derek e John tomaram a estrada de volta para casa, onde ambas as mulheres esperavam ansiosamente pela volta deles. E a paixão queimava em seu trono.


Nota do Autor: O título desse capítulo é um verso em latim: "Thronus Eius Flamma Ignis". Acho que devo uma explicação do que significa. Thronus, obviamente é "trono"; Eius é um pronome pessoal da terceira pessoa do caso "genitivo" (que indica posse ou especificação); flamma, literalmente, significa "flama", mas era bastante usado no significado de "chama, paixão, amor ardente" (cf. CÍCERO, Verrinas 5/92); Ignis significa fogo. Em uma tradução aproximada, com sentido metafórico, neste sentido significaria: "A paixão queima em seu trono". Ao pé da letra, a tradução seria "o trono de chama e de fogo", como diz o profeta Daniel, na Bíblia (Dan., 7:9).

Agradeço novamente do fundo do coração à Veri (pela escrita à quatro mãos), à Marina (pela revisão) e aos leitores, principalmente aos que fizeram reviews! Obrigado, amo vocês!