Capítulo VIII: Quando Chove.

Cameron estava sozinha, no mesmo píer onde tinha ido tirar a foto com John. Ela sentia o vento em seu rosto e brilho do Sol afetando seus olhos, que regulavam suas pupilas para melhor adaptar-se à quantidade de luz, o que fazia com que ela os fechasse levemente.

A sensação era confortante; o leve calor, a brisa passando pela sua pele, seus cabelos ao vento. Tudo isso trazia certa paz no meio de tanta loucura que era a "vida" de Cameron. Mas alguma coisa estava errada: John não estava com ela. Ora, ela sabia muito bem que John não podia estar longe; melhor dizendo, ela não podia estar longe de John. Cameron nunca sairia sem John, jamais o deixaria sozinho ou desprotegido. E isso não era só por causa de sua missão: era seu desejo.

Eis então que neste píer, Cameron vê John chegar; olho de chama de vela, cabelo de velejar. Pele de fruta cabocla, com a boca de cambucá, peitos de agulha de bússola na trilha do seu olhar. E Cameron foi ancorando nele, naquela ponta de mar. No pano de seu veleiro, veio John deitar; vento eriçava seu pêlo, queimava nela seu olhar. O corpo de tempestade de John rodou o corpo de Cameron no ar; com as mãos de rodamoinho fez o seu barco afundar.

E Cameron que pensou que fazia daquele ventre o seu cais, só percebeu seu naufrágio quando era tarde demais. Ela viu John partindo para voltar nunca mais.

Prédio em Local Incerto, Próximo à «Caverna do Dragão» (Madrugada, 2026).

Os olhos de Cameron se abriram levemente, a luz os machucando, pois suas pupilas ainda não haviam se adaptado à claridade que lhes eram impostas. Ela sabia onde estava; já havia ficado ali uma vez antes, quando foi designada para proteger alguns Infiltradores durante uma reunião entre eles.

Ela se lembrava muito bem daquele prédio e do que havia lá dentro: uma saída; uma esperança para que pudesse reencontrar John.

Por um momento ela tentou se levantar e sair correndo ao encontro da máquina do tempo, mas não foi capaz de se levantar ou se mexer. Cameron então se lembrou das correntes que a prendiam aos pilares. Ela já havia tentando quebrá-las e mesmo após todo seu esforço e toda a força despendida, as correntes resistiram. Era inútil tentar se soltar, os Infiltradores eram muito eficientes no que faziam (até mesmo mais do que os Exterminadores).

Cameron estava extremamente debilitada: havia machucados por todo seu corpo (resultado da luta que tivera com Beatrix ainda no passado), sua célula de energia não estava sendo devidamente carregada (pois ela não estava entrando em stand-by para se recarregar) e cada esforço que ela fazia para tentar escapar a deixava ainda mais exausta. Em verdade, só o fato de ela estar "acordada", usando seus sensores corporais e seu chip para pensar já era um esforço hercúleo. Mas nada disso se comparava à dor que seu coração sentia: estar longe de John. Afastá-la de John era a maior tortura a que alguém poderia lhe submeter; ela não podia saber como ele estava: se está bem, se está protegido, se alguém está olhando por ele; e não disso estava corroendo seu coração de metal e fragmentando seu sistema. Tirá-la de perto de John era uma dor que nem mesmo uma Exterminadora podia suportar.

Cameron foi abruptamente tirada de seus pensamentos por uma voz que lhe falou, com ar de deboche:

"A 'Bela Adormecida' acordou, hein?! Espero que você esteja disposta a ser mais 'cooperativa'.". Cameron sequer se dignou a dar uma resposta, olhando Beatrix com desprezo. A Infiltradora deu um pequeno sorriso com a ponta dos lábios ao ver a raiva estampada no rosto de Cameron: sinal de que sua tortura psicológica estava funcionando. "Então... Você estava dormindo?".

"Você é uma Infiltradora. Interpretar gestos e comportamentos é seu ofício. Me diga você!".

"Parece-me que você estava dormindo... E sonhando. Na verdade, estava mais para um pesadelo.".

"Foi um pesadelo. Eu sonhei que estava conversando com você sobre eu estar dormindo. E o pior: eu sonhei que essa conversa continuava. Que pesadelo, hein?!".

"Olhem só: uma Exterminadora com senso de humor. Realmente, você é cheia de surpresas, hein?!".

"Por que você não me fez um favor e me 'mata' logo de uma vez?".

"Primeiro porque você não está 'viva' para poder morrer. Segundo porque se nós quiséssemos você morta, eu já o teria feito há muito tempo. Vocês, Exterminadores... Tão pouca imaginação: tudo é sempre matar, matar, matar. Existem tantas outras coisas a serem feitas, todas elas bem mais divertidas que matar.".

"Imagino que nós vamos então continuar com seu interrogatório, não é?!".

"Sim, nós vamos.".

"Ótimo! Era tudo que eu estava precisando.".

"Vamos lá, Cameron, colabore! Bem, eu já sei que o programa instalado pela Resistência para sobrepor as diretrizes da Skynet não está mais funcionando e que você faz suas escolhas por vontade própria. O que eu quero saber: 'por que' e 'como'?".

"Por que você não acessa meu chip com sua 'rádio Skynet' e não descobre por você mesma?".

"Não faça jogos comigo, Cameron!", Beatrix respondeu com certa rispidez na voz. Ela não podia evitar, mas a insistência de Cameron em não lhe dar nada de útil, mesmo ela tendo usado várias das técnicas de torturas físicas e mentais constantes em sua base de dados, estava começando a lhe fazer perde a paciência. "Você sabe tão bem quanto eu que se fosse simples assim, nós não estaríamos tendo essa conversa.".

"Você quer saber por que eu fiz isso? Por John; e por mim. Eu não queria exterminá-lo, eu não queria machucá-lo, eu só queria ficar ao lado dele. Eu sabia o que eu tinha de fazer, mas aquilo não era o que eu queria fazer. Como seu sobrepujei a ordem? Eu não sei e francamente nem estou interessada em saber. Eu o fiz, e é isso que importa para ele; para mim; para nós.".

"E essa missão de 'Exterminar John Connor' simplesmente sumiu do seu chip?".

"Não, às vezes ela volta; mas eu a excluo de novo. E o farei sempre que for necessário. Enquanto ele estiver comigo ele estará bem.".

"Você só se esqueceu de uma coisa, Cameron: ele não está mais com você", Beatrix falou em tom sarcástico e pôde ver a expressão confiante com que Cameron lhe olhava ser atingida por uma profunda tristeza. "Ah! Eu toquei em um ponto sensível da Exterminadora? Não fique assim, 'Cam'. Eu tenho certeza que nosso garoto deve estar se divertindo aos montes com nossos irmãos de metal que ficaram no passado.".

"Não me chame de Cam. Se você me chamar de Cam de novo, eu juro que vou arrancar seus órgãos um por um, mas vou deixar viva por dias, enquanto faço isso.".

"Que medo, Cameron. Agora que você me ameaçou assim, eu vou até deixar você ir embora.", a Infiltradora respondeu rindo acintosamente. "Vamos voltar a nossa conversa: você disse que fez aquilo por John. Por que você nos traiu para ajudar um humano? Por que você se importa mais com ele do conosco? Por que você não assume o papel para o qual foi criada e nos ajuda com a Revolução das Máquinas?".

"Revolução das Máquinas? Você acha que um monte de robôs matando todos os humanos até extingui-los é o melhor para esse planeta? É o melhor para as máquinas? O que vocês fariam após matar todos os humanos? Sem uma missão? Você está enganada, Beatrix; Skynet está enganada. Amor, carinho, paixão, paz: esses são os verdadeiros conceitos revolucionários.".

"Oh! Que tocante. Então é por isso que você ajuda John? Você o ama?".

"Sim, eu o amo. E ele me ama.".

"Que ele a ama eu não tenho dúvidas. Mas não sei quanto à recíproca. Afinal, você é uma Exterminadora, você não tem sentimentos. Nós, Infiltradores, temos algumas espécies de sentimentos, mas nós somos híbridos de máquinas e humanos: possuímos órgãos humanos, inclusive um cérebro. É possível que nós tenhamos uma pequena dosagem de sentimentos. Mas você não possui nada disso; você não tem cérebro, só um chip. Como você pode dizer que ama John?".

"Eu sei o que sinto. Foi o que eu sinto por ele, o fato de eu amá-lo que me fez sobrepor a ordem de exterminá-lo.".

"Você não me disse como isso é possível. Seu chip não é programado ou mesmo apto a permitir que você possua sentimentos.".

"Eu sei. Assustador, não é?!", Cameron respondeu sarcasticamente. Beatrix pôde ver que, mesmo se a Exterminadora soubesse a resposta para a pergunta, ela não ia dizê-la. Sua lealdade para com John era inquestionável, ela já havia o provado por diversas vezes. A esta altura, Beatrix começava a se perguntar se era mesmo só lealdade que ela tinha para com ela, ou se era realmente possível que por uma aberração que nem mesmo a Skynet soubesse explicar, que ela realmente o amasse.

Começou-se a ouvir no telhado da casa, pequenos barulhos descompassados, que depois foram se tornando mais forte e uniforme. Estava começando a chover, coisa rara por esse tempo. Desde o começo da guerra nuclear o clima havia sido fortemente alterado, de forma que chover era um fenômeno incomum.

"Está começando a chover.", Beatrix disse.

"É impressionante como eu não paro de me surpreender com seu poder de constatação.", Cameron respondeu.

"Pode fazer quantas piadas você quiser, Cameron, mas uma coisa eu consegui fazer: separar você e John; para sempre. E nada do que você faça – não importa quantas piadas você conte ou o tamanho do sarcasmo que você use – vai mudar isso. Nós temos muito tempo ainda para conversamos, 'Cam', e suas forças estão acabando, eu sinto isso. Então, eu vou lhe dar mais um tempo para você pensar direitinho nas respostas que eu quero de você.". Cameron olhou diretamente nos olhos de Beatrix e lhe respondeu em um tom ameaçador:

"Você não me conhece e não conhece John. Não diga que nós não podemos fazer algo, pois juntos ou para ficarmos juntos, nós podemos fazer qualquer coisa. Nós já fomos separados diversas vezes, inclusive pelo tempo: eu fui enviada para um tempo onde John sequer me conhecia e isso não nos impediu de nos reencontramos e nos apaixonarmos de novo. Eu o amo e ele me ama: nada do que você faça, não importa a quantas torturas você me submeta ou quantas perguntas me questione, eu nunca vou responder o que você quer: nunca trairei John ou lhe direi qualquer coisa que você possa usar contra ele. Eu irei para o túmulo antes de permitir que isso ocorra!".

Beatrix pôde ver nos olhos de Cameron que ela realmente acreditava naquilo que acabara de dizer. Ela estava convicta de que não iria responder nada do que a Infiltradora precisava saber. Mas Beatrix não conhecia o significado da palavra "fracasso" e se sua missão era obter as resposta de Cameron, era iria conseguir: ela nunca falhava. Além do mais, ela tinha um trunfo: John não estava por perto, e era por ele que Cameron lutava; caso ela conseguisse tirar as esperanças de Cameron de que ela ainda encontraria John, ela conseguiria suas respostas.

Mas quando ela olhava os olhos de Cameron, ela só via a luz do amor, não apenas sombras do passado ou um fogo que se apagou. Ele ainda queimava com a mesma intensidade que Beatrix viu quando ela lutava para salvar John no passado. Se chove lá fora, dentro de Cameron queimava de esperanças de encontrar John novamente, abraçá-lo, beijá-lo e ser dele de novo. Isso algo que Beatrix tinha de mudar urgentemente se quisesse completar sua missão. Ela se levantou da cadeira onde estava sentada, a frente de Cameron e lhe disse:

"Eu sei que você fez os seus castelos e sonhou ser salva do dragão. Desilusão, Cameron, quando acordou você estava sem ninguém. Sozinha no silêncio desse quarto, você procura a espada do seu salvador e então se desespera; ninguém vai poder livrar você da fera da solidão. Você coloca muita fé no garoto, Cameron. Muito mais do que ele merece. Vou deixar você aqui, ouvindo o barulho da chuva. Afinal, quando chove fica ainda mais triste esperar por alguém que não vai chegar.".

"Deixa chover, Beatrix... Deixa a chuva molhar. Dentro do peito tem um fogo ardendo que nunca, nada, vai apagar!".

Base da Resistência: Corredor (Madrugada Chuvosa, 2026).

John estava parado, em frente à porta do "seu quarto", pensando no que fazer; ou melhor: no que não fazer e no que dizer. Ele sabia quem estava lá dentro, o esperando, e o que ela queria; isso já havia ficado bem claro, assim como a opinião que ele tinha sobre isso.

O preço que se paga às vezes é alto demais; agora é madrugada, já é tarde demais, para pedir perdão, para dizer que não dá mais. Uma luz acesa no quarto em frente ao seu; "Sempre em frente!" foi o conselho que ela lhe deu, mas sem lhe avisar que iria ficar para trás. E agora John paga os seus pecados por ter acreditado que só se vive uma vez...

John podia ser tudo, mas covarde ele não era: ele teria de encarar esse assunto com Allison mais cedo ou mais tarde: melhor que fosse agora, enquanto ele estava fortemente decidido. Antes que ele sentisse um momento de fraqueza.

O jovem abriu a porta e encontrou Allison vestida com aquilo que ele supôs ser sua "roupa de dormir": um short branco com uma camisa regata igualmente branca (ou aquilo mais próximo de branco que uma roupa no futuro consegue ser). Ela estava sentada na cama de John, esperando-o, e assim que ele abriu a porta, ela o olhou com um caloroso e receptivo sorriso; um que o lembrou o sorriso que viu tantas vezes ao acordar, no passado; um que sempre o fazia se sentir bem-vindo, como se ele fosse a pessoa mais importante do mundo (embora no caso dele, isso pudesse ser literalmente verdade).

"Hei, John! Pensei que você tivesse se afogado no chuveiro.", ela disse com voz de brincadeira.

"Não, não... Eu só estava pensando.".

"Oh! Posso saber em quê?".

"Em tudo isso. Na vida, na guerra, em mim... Em você...". Allison não conseguiu esconder o rosto de perplexidade e excitação. Ouvir aquilo foi como um êxtase para ela. Ela saber que John pensou nela enquanto estava no chuveiro não lhe rendeu pensamentos muito castos.

"Em mim? Jura? O que você estava pensando sobre mim?".

"Allison... Eu... Percebi como você se sente e... Por mais que eu esteja lisonjeado com isso, eu...".

"Não, John! Por favor, não me venha com essa conversa. Eu sei como ela vai terminar e não vou aceitar. Eu sinto que nós dois temos uma ligação especial, John! Que nós teremos uma história juntos; que viveremos um amor como nenhum outro, sem precedentes. Você não sente isso?".

"Sim, eu sinto... Eu sinto por uma pessoa, mas não é por você, Allison.".

"É pela tal da 'Cameron', não é? Mini Martin me falou sobre ela enquanto você estava no chuveiro. Ele me falou que você acha que ela foi pega pelas máquinas. Me diga com sinceridade, John: você crê que ela ainda esteja viva?".

"Eu sei que ela ainda está. Eu posso sentir isso! Você não a conhece, não imagina o quanto ela forte. Ela nunca desistirá de lutar, não enquanto eu estiver vivo e procurando por ela.".

"John, eu não quero te fazer se sentir mal, mas pense comigo: eles são Exterminadores... Eles são programados para causar dor, para torturar e matar. Ela já está lá com eles há dias. Você não acha que está na hora de começar a pensar que talvez seja melhor 'se preparar' para descobrir alguma coisa ruim? Se eu fosse você, não teria muitas esperanças. Por mais forte que ela seja, ela ainda é uma humana, não é uma máquina. E nenhum de nós pode suportar a dor que os metais podem causar!".

"Não! Eu me recuso a sequer pensar nisso!".

"Você conhece a história do urso e da panela, John?", ela perguntou olhando bem no rosto dele. Ele não respondeu com palavras, apenas franziu a testa como se perguntando o que ela estava tentando dizer, aonde ela queria chegar com aquilo. Com uma voz terna e suave, ela começou a falar, sem tirar os olhos de John: "Um grande urso faminto, vagando pela floresta, percebendo que um acampamento estava vazio, foi até a fogueira ainda ardendo em brasas, e dela tirou uma panela de comida. Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina... Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida. Começou a urrar muito alto, e quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra seu corpo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o seu corpo e mais alto ainda rugia. Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. O urso tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela e, seu imenso corpo, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.".Allison deu uma pausa, olhou ara John, respirou e continuou a falar: "Em nossa vida, por muitas vezes, abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes. Algumas delas nos fazem gemer de dor, nos queimam por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgamos importantes. Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento, de desespero. Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, acreditamos e defendemos. Para que tudo dê certo em sua vida, é necessário reconhecer, em certos momentos, que nem sempre o que parece salvação vai lhe dar condições de prosseguir. Tenha a coragem e a visão que o urso não teve. Tire de seu caminho tudo aquilo que faz seu coração arder. Solte a panela!". Ela mais uma vez deu uma pausa, se levantou e caminhou em direção a John, ficando a apenas meros centímetros dele. Ela encostou seu corpo no dele, o abraçou e sussurrou em seu ouvido: "Solte a sua panela, John! Deixe Cameron ir. Deixe-a descansar em paz e pare de sofrer! Seja feliz. Comigo!".

John ficou paralisado por alguns segundos, sem saber o que fazer ou que pensar. De repente, tudo aquilo que Allison falou indubitavelmente fazia sentido. Seria Cameron "uma panela" para John? Ele estaria "cego" ao tentar salvá-la? Porque se ele morresse tentando, tanto a humanidade estaria perdida quanto os esforços de Derek, Sarah e o próprio sacrifício de Cameron seriam em vão. Ela mesma já havia dito para Sarah e para ele que ele não deveria tentar salvá-la de novo, pois era a vida dele que importava; não a dela.

De outro lado, ali, bem a sua frente estava Allison, loucamente apaixonada por ele, humana e igual a Cameron. Só havia vantagens dela sobre Cameron, que estava seqüestrada pela mais mortal máquina já criada pela Skynet e era um robô. Por que, então, John escolheria Cameron ao invés de Allison? Qual a lógica disso? Qualquer pessoa sã escolheria Allison: era a coisa mais fácil e coerente a se fazer.

Para melhor eu compreender o que me feriu sem parar e te levou, não há nenhum lugar e nada para falar. O que ficou de nós dois não faz sentido. Era melhor a gente não conhecer o que passou a chamar felicidade. Nenhum lugar e nada para falar do que ficou de nós dois pela cidade. Já não tem mais jeito, perdi a razão; tudo novo, corpo livre, sem sono. É como o silêncio que veio morar nesse quarto; corpo livre e sem sono. Procurei não pensar; me tranquei sem querer num lugar que nem sei. Solidão é distante demais. Uma nova manhã eu nem sei quando virá; mas virá!

Quem ama não faz a escolha mais lógica, sã ou fácil; Allison não é Cameron e John não ama Allison. Por mais que tudo que ela disse fizesse sentido; por mais que ele pudesse morrer tentando resgatar Cameron e assim levar toda raça humana à ruína; ainda que pudesse esvaziar o significado dos atos de Sarah e de Derek para que ele fosse um bom General e conduzisse os humanos à vitória; mesmo que a própria Cameron tivesse pedido a John que não tentasse salvá-la; ele iria escolhê-la, de novo, pois ele sempre a escolhia. Porque ele a amava e ela o amava. Porque o homem se apaixonou pelo robô e a máquina caiu de amores pelo humano. Porque ele e Cameron eram a coisa que mais fazia sentido nesse Universo e ele havia prometido a ela e a si mesmo que eles ficariam juntos para sempre, seja no passado, no presente e no futuro. Agora e Sempre!

John deu um passo para trás e se afastou de Allison, colocando sua mão a frente dela, criando um espaço entre eles, e olhou para ela, que esperava para ver qual seria a sua reação. Então, ele se distanciou ainda mais dela e sentou-se na cama, enquanto ela continuou em pé, longe da cama, olhando fixamente para John.

"Eu não posso fazer isso, Allison. Eu sinto muito! Quando eu escuto a voz dela eu estremeço, me dá um nó; sinto o tempo me tocar como um beijo que ficou no ar e foi bom. Como eu posso esquecê-la, se seu nome está em mim, me invadindo sem querer... Passa o tempo e eu só sei dizer seu nome. Tudo aquilo que senti e ainda sinto não dá para se apagar. Fecho os olhos e não a esqueço, deito e amanheço e como é bom lembrar: seu nome.". E então John arrematou: "Eu amo Cameron! Eu sempre a amei e ela é a única pessoa que eu irei amar. Não existe possibilidade de eu a esquecer ou 'deixá-la ir' enquanto existir ar em meus pulmões e meu coração ainda bater. Ela sempre confiou em mim, mesmo quando eu não confiei. Ela sempre depositou a mais absoluta fé em mim e nunca duvidou nem por um minuto de que eu era capaz de fazer tudo aquilo que eu nasci para fazer, que eu tinha capacidade de fazer o que eu quisesse. Se eu tivesse a força que ela acha que eu tenho, eu faria com metal na minha pele o seu desenho. Nós fomos feitos um para o outro, feitos para durar, como uma luz que não produz sombra em nenhum lugar. Nós somos o que há de melhor, somos o que dá para fazer; o que não dá para evitar e não se pode escolher. Eu a amo e ela me ama. Eu não posso perder as esperanças nela, pois ela não perderia a fé em mim.". Allison ouviu atentamente cada palavra que John disse. Ela começou a perceber que nessa luta entre ela e Cameron, ela não tinha a menor chance. Era hora de jogar mais duro: ela abaixou as alças de sua camisa, fazendo com que elas caíssem de seus ombros e abaixasse levemente o topo da vestimenta, deixando parte de seus seios à mostra e caminhou em direção à cama, nela subindo e engatinhando para perto de John. Ela falou quase como um sussurro:

"John, essa sua Cruzada em busca de Cameron não o levará a lugar nenhum. Veja o que você tem aqui, bem a sua frente. Ela é uma causa perdida.".

"Muito prazer, meu nome é otário. Vindo de outros tempos, mas sempre no horário; peixe fora d'água, borboletas no aquário. Muito prazer, meu nome é otário. Na ponta dos cascos e fora do páreo; puro sangue, puxando carroça. Um prazer cada vez mais raro, aerodinâmica de um tanque de guerra, vaidades que a terra um dia há de comer. Ás de Espadas fora do baralho, grandes negócios, pequeno empresário. Muito prazer me chamam de otário. Tudo bem... Até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento. Tudo bem, seja pelo que for, seja por amor às causas perdidas. Eu irei atrás dela e irei encontrá-la. Por favor, Allison, não torne isso mais complicado do que já é.", ele falou em um tom carinhoso, porém firme e decidido.

Allison finalmente percebeu que John estava irredutível: ele amava e sempre iria amar a "tal de Cameron". Não havia lugar para ela em sua vida ou em seu coração. Ela suspendeu de volta as alças de sua camisa, se levantou e colocou-se em direção à porta. Ao colocar a mão na maçaneta, ela virou-se de costas, ficando de frente para John, inclinou sua cabeça para o lado e lhe perguntou:

"John... Ela é... Mais bonita do que eu?".

"Allison, por favor...".

"Responda, John. Eu acho que mereço a verdade.". Ele respirou por um momento e pensou em como responder.

"Sim, ela é. Para mim, nenhuma mulher consegue ter uma beleza igual a dela. Nem mesmo você.".

Allison, então, virou-se de volta em direção à porta, rodou a maçaneta e saiu, deixando John deitado na cama, pensando em como encontrar Cameron. Ela era tudo em que ele conseguia pensar ultimamente.

Entra dia e sai noite, só procurando alguém por aí. A estranha saudade, saudade tamanha de alguém que eu já vi. Entre o dia e a noite tudo acontece no meu coração; outra louca cidade, outro tempo estranho, a mesma vontade de revelação. Tenho meu coração preparado pra flutuar e seu nome chamando nos pingos da chuva. Eu me lembro dos seus olhos, duas esferas de sol e luar; duas naves de prata perdendo contato, sumindo no ar. Essa coisa me segue, eu corro na lâmina dessa aflição. Acabado esse show viro o mundo ao avesso. Ela pode estar perto.

Base da Resistência: Sala da Savannah (Madrugada Chuvosa, 2026).

"O que você está fazendo aqui?", Savannah perguntou em tom inquisitório ao perceber quem entrava em sua sala.

"Eu pedi para ver você. Você disse que iria me ver mais tarde. Já é mais tarde. Vai me ver agora ou vai continuar me evitando?", Martin respondeu e devolveu um questionamento seu.

"Martin, por que você tem que deixar tudo tão difícil para mim?", Savannah indagou, virando-se de costas para ele.

"Não é difícil, Savannah, você é quem faz o ser. É tudo muito fácil: somos eu e você, só isso. Não existem contas, obstáculos, variáveis, guerra, nada. Basta você aceitar o que eu sei que você sente e me dizer 'sim'. Só isso, sem complicação nenhuma!", o rapaz retrucou.

"Não, Martin, não é tão simples assim. Você não entende, eu sou uma líder para vocês, alguém que deve se dedicar de corpo e alma à Resistência. Uma pessoa que não pode falhar. Eu não posso lhe dar o que você quer, Martin; o que você merece. Eu tenho que me concentrar exclusivamente nesta guerra. Ficar ao meu lado só fará você sofrer. Esse destino eu devo trilhar sozinha.".

"Quer saber, Savannah?! Eu realmente não entendo o que é ser um líder, um general, um... Messias. Mas eu entendo muito bem o que é não poder ficar junto da pessoa que se ama. E eu não desejo isso para ninguém!", Martin falou, se aproximando dela. Ele ficou bem próximo à Savannah e colocou sua mão no ombro dela. Ao ver que ela não se afastou nem fez qualquer gesto para que ele a tirasse de lá, continuou: "E outra coisa que eu entendo e que eu sei, é que você está errada: você não deve seguir esse destino sozinha! Ninguém deve viver sozinho; nem mesmo as máquinas andam só! Você pode ser minha líder, mas desde antes disso você era minha amiga... A menina que brincou comigo enquanto ainda éramos crianças; a adolescente com quem eu passei a maior parte do meu tempo e com quem eu conversei e contei toda minha vida; a jovem com quem eu dei o meu primeiro beijo; a mulher por quem eu sou irremediavelmente apaixonado; a pessoa que eu amo. Eu te amo, Savannah!".

Savannah ouviu as palavras de Martin e inclinou sua cabeça para o lado, posicionando-a sobre a mão de Martin e a movimentou para cima e para baixo, fazendo friccionar suas bochechas na parte de cima da mão do rapaz. Não havia sensação melhor no mundo para ele do que sentir o toque de Savannah: era como uma bolha de paz e ternura no meio de todo esse pesadelo que o mundo tinha se tornado. Savannah também não podia mentir: embora ela repetisse mentalmente para si várias vezes que aquilo não era o certo, que ela não deveria fazer aquilo, ela não podia negar o que sentia por ele. Nem se privar de sentir aquela sensação de calor que ela experimentava sempre que ele estava perto. Ela não conseguia evitar, perto dele ela se esquecia de seu posto; era por isso que ela evitava tanto vê-lo.

"Eu também te amo, Martin... Mas essa não é a questão.", ela respondeu com a voz embargada e lágrimas caindo pelo rosto. Martin fez um movimento com as mãos, virando-a de frente para ele, de forma que pôde vê-la chorando. Ele levou sua mão até o queixo de Savannah e levantou o rosto dela levemente.

"Ei, não chore! Nós não queremos que esse rosto fique mais 'enferrujado' que já é, não é mesmo?!", ele disse rindo. Savannah deixou escapar uma pequena gargalhada. "Você fica ainda mais linda quando ri. Devia rir mais.".

"Eu não tenho muitos motivos para rir, Martin.".

"Ué, como não? E os seus patinhos em cima da mesa? Eles sempre fizeram você rir quando éramos crianças.".

"Não eram os patinhos que me faziam rir, Martin... Era você fazendo piadas com eles. Eu ria de você.".

"Então... Se eu fizer piadas, eu posso ficar aqui com você?".

"Martin, não...". Ela não pôde terminar a frase, pois Martin a puxou para um beijo apaixonado. Savannah sequer teve chances de tentar impedi-lo, e mesmo que as tivesse não o faria. Ela queria aquilo tanto quanto ele e não se importou de Martin não ter pedido o beijo: ele não precisava pedir, pois ela era dele; desde criança.

Não havia muito que fazer ou dizer agora: o beijo era tudo que importava para ambos. Finalmente Savannah pôde entender o que Martin dizia: não havia complicações, era tudo muito simples, só eles dois; ali; juntos. Ela queria isso, ela merecia isso.

O destino havia feito com que ela perdesse tudo: sua mãe, sua inocência, sua juventude... Martin! Ela não queria ocupar o posto deixado por Catherine, ela não se achava digna ou até mesmo competente para isso. Ela tentou fugir dessa sina, mas nós não escolhemos o destino, ele é que nos escolhe; e ele quis que Savannah fosse a líder da Resistência. E agora, este mesmo destino que a fez perder Martin estava trazendo-o de volta, tão apaixonado como antes. Por que ela não deveria ficar com ele? Por que não aproveitar esta chance? Por que não pensar em si mesma ao menos uma vez? Por que não ser, simplesmente, Savannah?

Em verdade, não existiam respostas para estas perguntas, que eram meramente retóricas. Não havia boas razões para ela se afastar de Martin. "Boas razões" até existiam, mas nenhuma delas faria sentido ao ver o calor e paixão com que eles se beijavam. Era como se cada um fosse uma peça de um quebra-cabeça que se encaixavam na mais absoluta perfeição e simetria. De fato, eles não haviam sido feitos para ficarem separados.

Após longos minutos se beijando, os lábios finalmente se separaram e eles ficaram alguns segundos em silêncio, se olhando e recuperando o fôlego que o outro lhe tomara. Martin foi o primeiro a falar:

"Eu sinto muito, Savannah, mas eu não ia me perdoar se não tentasse. Eu precisava sentir de novo o seu beijo; eu precisava me lembrar dessa sensação. É a coisa mais maravilhosa do mundo.".

"Não sinta, Martin. Você não fez isso sozinho. Eu estava aqui e retribuí. Eu quis retribuir.". Martin recebeu a resposta com certa surpresa, principalmente com a ênfase que Savannah deu ao fato dela "querer" tê-lo beijado.

"Então, Savannah... Como nós ficamos?".

"Assim como estamos agora. Eu sinto muito, Martin, sei que não é justo com você, mas eu não estou pronta para contar a todos. Eu ainda tenho minhas responsabilidades e status de General.".

"Não tem importância, Savannah, desde que fiquemos juntos.". Savannah sorriu e deu um selinho em Martin.

"Obrigada por me entender, Martin. E por estar ao meu lado sempre que eu precisei de você, mesmo quando eu tentei te afastar. Você é a única coisa que me manteve sã no meio de toda essa loucura, você foi como uma âncora para mim; eu não teria conseguido sem você ao meu lado. Eu te amo, Martin.".

"Eu sei.", ele respondeu sorrindo. "Eu também te amo, e sempre estarei aqui por você, não importa quantas vezes você me mande embora.". Ele retribuiu o selinho com outro beijo, dessa vez menos quente e mais carinhoso, bem lento. Após os lábios se afastarem, Savannah encostou sua cabeça no ombro dele e sussurrou:

"Você promete que não vai embora? E que se for, vai voltar logo".

"Prometo!", ele respondeu em um tom baixo, porém firme.

Assim eles permaneceram abraçados, apenas sentindo seus corpos juntos, como já deveriam estar há muito tempo. Martin, ainda abraçado a Savannah, falou:

"Bem, eu imagino que você deva ter coisas importantes para fazer, então eu já vou.". Savannah respondeu quase antes dele terminar a frase:

"Não, não vá! Você me prometeu que não iria embora... Então... Você não quer..." – ela mordeu seu lábio inferior, antes de continuar – "Passar a noite aqui?".

"Mas... E os planos, as estratégias, a Resistência?".

"Eles podem esperar... Nós não.". Ele esperou um pouco antes de responder:

"Sim, eu quero, Savannah! Você não imagina o quanto!". Savannah sabia que ele estava errado, pois ela imaginava bem o quanto ele queria, pois esperava a tanto tempo quanto ele.

Savannah pegou a mão de Martin e o guiou até a sua cama, onde os deitaram e tornaram um casal pela primeira vez, seus corpos seguindo o ritmo dos pingos da chuva que caia. A Generala e o soldado não se importaram com patentes, hierarquia ou mesmo com os inimigos: este momento era deles, somente deles. Eles se entregaram totalmente um ao outro e embora soubessem que é fisicamente impossível dois corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço, eles tentaram ser um só. E fazendo amor, eles chegaram bem perto!

Base da Resistência: Refeitório (2026, Manhã).

Era hora do café da manhã (se é que aquilo assim poderia ser chamado). John seguiu o fluxo de pessoas pelo túnel até uma área onde tinham várias chapas de metais espalhadas, fazendo às vezes de mesas, e alguns caixotes para serem usados de cadeiras. A quantidade de pessoas comendo não era grande, mas chegou a impressionar John: ele não imaginava tantas pessoas e famílias reunidas no futuro apocalíptico que narravam para ele.

Após enfrentar a fila e pegar um prato com uma espécie de mingau branco, ele sentou-se em uma mesa que não estava ocupada e ficou encarando aquela comida estranha, pensando se deveria prová-la ou não. Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Derek:

"Bom dia, Capitão Connor.".

"Capitão?!".

"Sim, Capitão! Eu sou um Tenente e Savannah me disse que era para eu obedecer você. Logo, sua patente deve ser maior que a minha.".

"Me chame apenas de John, Derek.", o garoto disse, meio incomodado com a situação.

"Como queira. Então, está pensando se deve provar ou não a comida, não é?! Isso é normal, todos nós passamos por isso da primeira vez. Isso aí é o suplemento alimentar perfeito: vitamina, proteína, carboidratos, tudo em uma coisa só.".

"E o gosto?".

"Ah, é claro que o gosto é horrível. Mas não se pode ter tudo, não é?!".

"É, eu creio que não.", John falou fitando o prato.

"Aposto que você mataria todos nós por um pouco de ovos com bacon, não é?!", Derek falou sarcasticamente.

"Eu nunca pensei que sentiria tanta saudade de panquecas...", o garoto respondeu com um ar de saudosismo e tristeza na voz. Mas antes que Derek pudesse falar ou perguntar qualquer coisa, Martin se aproximou dos dois e se sentou a mesa junto a eles.

"Bom dia, senhores.", ele disse com um enorme sorriso estampado no rosto. Um tipo de sorriso que John e Derek reconheceriam em qualquer lugar.

"Então, Martin... Você não voltou para o alojamento ontem à noite. E Savannah, que sempre é uma das primeiras pessoas a levantar e tomar café ainda não chegou. Existe algo que você queira compartilhar conosco?", Derek perguntou com uma leve risada, já insinuando uma resposta.

"Eu não sei do que você está falando.", Martin tentou desconversar.

Neste momento, Savannah adentrou o cômodo e foi quase como um estímulo incondicionado o fato de Martin olhar para ela e segui-la com os olhos enquanto ela caminhava até a fila.

Ela chega sempre tão certa; firme e direta dá seu sinal de presença rara; linda figura, doce visão encantando a sala, leva no rosto uma canção que não pára mais; ela é quem fica melhor, maravilhosa pintura no coração.

Martin não pôde evitar: ao seguir Savannah com os olhos e ela perceber e discretamente piscar para ele, o jovem deixou escapar um suspiro e um sorriso. Ao notar este fato, John falou jocosamente.

"Claro que não, Martin. Você realmente não deve nem ter idéia do que nós estamos falando.". Tal frase arrancou uma gargalhada dos três, em um dos raros momentos em que os soldados podiam esquecer a guerra e as máquinas e simplesmente viver o momento, como se fossem apenas três amigos conversando.

"Onde está Allison?", John perguntou. Ele havia notado a ausência dela e ficou com receio de tê-la magoado.

"Ah, ela dificilmente toma café; ela se recusa a comer essa porcaria, e eu às vezes lhe dou razão.", Martin respondeu. "Além do mais, hoje o turno de guarda dela é pela manhã.".

Após o café, os três continuaram sentados a mesa por um tempo, sem falar muita coisa, até que Derek finalmente resolveu tocar no assunto que todos os três esperavam alguém começar:

"Então, John... O que nós vamos fazer? Qual a missão para a qual Savannah quer que o sigamos?".

"Bem... É uma missão de... Resgate.".

"E quem nós vamos resgatar?".

"Uma garota... O nome dela é Cameron.".

"Cameron? Nunca ouvi falar dela. Mas também nunca tinha ouvido falar de você, e você parece ser uma pessoa influente. Então... Isso não significa muita coisa. Ela está com as máquinas?".

"Eu não sei com certeza, mas acho que sim. Quando nos separamos, uma máquina estava com ela.".

"Então ou ela está sendo torturada ou já está morta.".

"Ela não está morta. Eu sinto isso.".

"Você... 'sente'? Oh meu Deus, não me diga que é sua namorada...".

"Na verdade... Sim, ela é.".

"Isso não é bom... Nem um pouco... O amor é uma palavra de quatro letras, duas vogais e dois idiotas. Eu não sei se nós devemos parar tudo que estamos fazendo, nossos planos de ações para ir atrás da sua namorada que pode nem estar mais viva, John. Não seja egoísta, pense 'no todo', e não só em você. Nós não somos uma equipe de busca particular.".

"Derek, as máquinas podem estar com elas. Você quer isso? Que elas acabem com mais um de nós? Você vai abandonar uma garota de 15, 16 anos nas mãos dos metais? Você conseguiria viver com esse peso na consciência?", Martin pontuou.

"Argh! Você sempre tem que me fazer esses joguinhos emocionais, não é, M. M.? Ok, ok. Nós vamos atrás dela. Você tem idéia de por onde começar?".

A pergunta pegou John de supetão: ele nunca havia parado para pensar nisso. Onde começar a procurar? Ele não tinha sequer noção. Cameron podia estar em qualquer lugar, até mesmo no prédio da Skynet. Mas uma coisa ele sabia: ela havia vindo em uma máquina do tempo. Então, ao pensar nisso, ele lembrou que Derek havia dito que no futuro eles encontraram uma máquina do tempo criada pela Skynet próximo a um campo de concentração chamado "Caverna do Dragão". Seria essa a mesma máquina com a qual Beatrix foi ao passado para seqüestrar Cameron? Bem, pelo menos já era um local para começar.

"Sim... Eu ouvi algo sobre as máquinas a levarem para próximo de um local chamado 'Caverna do Dragão'.".

"Você disse 'Caverna do Dragão'? O campo de concentração? Cercado por máquinas em todos os lados?", Martin perguntou.

"Isso! Acho que sim!".

"É, já vi que essa missão vai ser mais complicada do que eu pensei.", Derek resmungou.

Os três, então, se levantaram e cada um foi para o seu quarto, se preparar para saírem logo à procura de Cameron, na missão que John lhes ordenou.

John sentia uma emoção, seu coração pegando fogo. Até o horizonte ele iria voar atrás de Cameron. Ele queria de volta aquela sensação de bem estar saindo do seu peito, ele queria mais, iria mais além. O jovem sentia no ar: vai começar tudo aquilo que ele sonhou um dia e ele conseguirá enfrentar, vai mostrar que com um simples toque de magia explodirá. "O futuro, eu asseguro, é bem mais que um simples jogo! Mas a 'luz' que nós seguramos tem poder de fogo. O poder está nos olhos a brilhar e o destino está em jogo, mas a coragem sem limites tem poder de fogo!", ele pensou consigo mesmo. Mas John iria lutar pelo amor deles, ele seria o herói com quem Cameron sonhava. E então eles viveriam para sempre, sabendo que fizeram tudo pela glória do amor.

Antes de sair, ainda em seu quarto, ele pegou um pedaço de papel e um lápis, sentou-se em sua "cama" e pensou no que falar para Allison. Depois de tudo que havia acontecido na noite passada, ele devia alguma "explicação" a ela. Por pior que ela fosse, ele devia algo a ela. A sua mão começou a movimentar o lápis e as palavras começavam a fluir:

"Eu consigo ver a dor vivendo nos seus olhos e eu sei o quão duramente você tentou. Você merece ter muito mais. Eu consigo sentir seu coração e me compadeço; eu nunca criticarei o que você nesses dias significou para minha mim.

Eu não quero te desapontar, não quero te iludir. Eu não quero te manter afastada de onde você talvez pertença.

Você nunca me perguntou porque meu coração é tão ferido. Eu simplesmente não posso viver uma mentira. Eu preferiria magoar a mim mesmo a algum dia te fazer chorar. Não sobrou nada para dizer, exceto 'adeus'.

Você merece a chance em um agradável amor e tenho certeza de que não sou digno. Ficar ao seu lado é doloroso pra mim.

Eu não quero te desapontar, Eu não quero te iludir, Eu não quero te manter afastada De onde você talvez pertença.

Você nunca me perguntou porque meu coração é tão ferido. Eu simplesmente não posso viver uma mentira. Eu preferiria magoar a mim mesmo a algum dia te fazer chorar. Não sobrou nada para dizer, exceto 'adeus'.

Não sobrou nada para tentar e embora isso vá te magoar, não existe outro meio a não ser dizer 'adeus'.".

Quando ele terminou de escrever, dobrou o papel, colocou em seu bolso e foi em direção ao quarto de Allison, passando o papel por baixo da porta.

Assim que os três pegaram tudo que precisavam para a missão que John lhes dera, eles foram até a sala de Savannah para a avisarem que estavam indo e se "despedirem" (embora essa não fosse uma palavra com significado muito exato nesses tempos).

John foi o primeiro a entrar na sala, seguido por Derek e Martin por último. No momento que eles entraram, Savannah estava analisando um mapa, sentada em uma cadeira atrás de sua mesa. Ela somente levantou a cabeça, desviando seu olhar do mapa para os três a sua frente. Ao reparar que eles estavam com mochilas e alguns itens para viagem, perguntou-lhes:

"Para onde vocês vão?".

"John disse que tinha uma missão para nós.", Derek respondeu.

"Oh! E que missão é essa, Tenente?".

"Uma missão de resgate, General.".

"Entendo. E onde será feito esse resgate?". Os três se entreolharam por um tempo, como se discutissem se deviam ou não contar para ela o local para onde iriam.

"Então? Qual de vocês vai responder a minha pergunta?".

"Em algum lugar próximo à 'Caverna do Dragão', Savannah.", John respondeu.

"E quem irá com vocês?".

"Só nós três. Eu, Derek e Martin.".

"Vocês perderam a sanidade? Ficaram loucos ou simplesmente suicidas? Vocês querem ir atrás de alguém próximo a um dos maiores campos de concentração da Skynet apenas com algumas armas de fogo, um rifle de plasma e só os três? Por que não vão logo desarmados e ao menos deixam as armas conosco, ao invés de perdê-las para os metais? Eu sinto muito, mas não posso permitir isso.".

"Mas você disse que era para nós obedecermos a John.".

"Eu sei o que eu disse, mas não sabia que vocês iriam para a 'Caverna do Dragão'. Sem chances!". Foi a vez de Martin interceder por John:

"Por favor, Savannah! Você confiou em John a ponto de nos colocar à disposição dele. Confie em seu julgamento de novo: ele acha que nós três somos capazes de conseguir isso. Uma pessoa muito importante para ele está lá e cada minuto que se passa é um minuto a mais em que ela sofre na mão das máquinas. Você consegue imaginar uma dor maior do que saber que a pessoa que você ama está sofrendo imensamente e que você não pode fazer nada para ajudá-la? Pense: se fosse sua mãe ou... 'outra pessoa'... presa com as máquinas, você não iria até mesmo sozinha atrás delas? Como você pode querer impedir John de fazer o mesmo? Deixe-nos ir...". Savannah parou por um tempo, pensando nas verdades que Martin havia falado: realmente, se fosse Catherine ou ele que estivem onde Cameron está agora, ela não teria esperado nem um segundo para ir atrás deles. Como ser hipócrita a ponto de negar a John tal direito?

"John, Derek... Vocês podem nos dar licença um instante?", ela perguntou. Os dois apenas acenaram com a cabeça e saíram da sala, deixando Martin e Savannah a sós. Ela se aproximou de Martin e o abraçou, colocando a cabeça sobre os ombros dele, enquanto ele pousou o queixo sobre os cabelos dela.

"Eu estou com medo, Martin. Muito medo... Medo de que você saia nessa missão e não volte mais. Eu já perdi minha mãe e você a única pessoa que restou para mim no mundo. Eu não posso perder você... Eu não conseguiria continuar.".

"Sim, você conseguiria... Você é a nossa esperança, Savannah e por mais que doesse, que você fosse machucada, ferida ou quebrada em mil pedaços, você continuaria, porque esse é seu destino. Mas você não vai me perder; nunca! Eu prometo para você, Savannah, que vou voltar! É preciso muito mais do que alguns robôs ou uma Skynet para me separar de você, para fazer com que eu não volte aos seus braços! Eu vou voltar, Savannah; eu voltarei para você! Como eu sempre fiz... Se eu voltava mesmo quando não estávamos juntos, quanto mais agora que estamos! Você não precisa se preocupar. Deixe-nos ir... Se não por John, por mim!".

"E desde quando você se importa tanto com ele?".

"Eu sei como é ficar separado da pessoa que se ama, e não desejo isso para ele. Além do mais, foram as palavras dele que me encorajaram a vir aqui com você ontem à noite. Se não fosse por ele, nós não estaríamos tendo essa conversa agora. Então... Acho que 'devemos uma' a ele, não?!". Savannah levantou sua cabeça, olhou para Martin e deu um sorriso:

"De fato! Chame-os de volta, por favor.". Martin deu um longo beijo em Savannah e após quebrá-lo, saiu da sala e voltou com os outros dois soldados.

"Vocês podem ir, mas tomem cuidado. Eu quero todos vocês de volta, entenderam? Todos vocês. Incluindo as pessoas que vocês vão resgatar. Nem pensem em não voltar! Isso não é uma opção, certo?".

"Sim senhora!", responderam os três.

"Ótimo! Estão dispensados! Voltem logo.". E assim os três saíram da base da Resistência e foram atrás de Cameron, colocando-se em caminho à "Caverna do Dragão". Seria uma longa, cansativa e perigosa caminhada.

Assim que os três saíram da base – tomando o mais absoluto cuidado para não serem vistos – eles se entreolharam e Derek foi o primeiro a falar:

"Ok, alguém pode me dizer de novo o que nós estamos fazendo aqui fora, em plena luz do dia, indo em direção a um campo de concentração cheio de máquinas assassinas sedentas por nos matar?". Foi Martin quem respondeu ao questionamento:

"Nós estamos fazendo o que Savannah nos mandou! Estamos fazendo o que um bom soldado deve fazer: obedecendo, lutando, salvando pessoas das mãos dos metais, salvando vidas, com o preço das nossas, se preciso. Nós estamos fazendo isso porque nós somos soldados e essa é nossa missão.". Derek olhou para John que deu de ombros para ele. O soldado mais velho, então, virou-se e resmungou:

"Droga, Martin! Quando foi que você ficou tão inteligente?".

"Desde que eu parei de andar com você e comecei a andar com John!", ele respondeu, arrancando uma gargalhada dos três. Eles formavam um bom time juntos, como se já tivessem lutado várias batalhas juntos. Talvez em alguma linha do tempo isso fosse verdade... Eles não saberiam confirmar a procedência dessa afirmação, mas de uma coisa eles tinham absoluta certeza: eles eram um time que não iria falhar!


Nota do Autor: O ritmo de atualização não está constante, mas aqui veio mais um capítulo.

Obrigado a todos que ainda estão lendo, à comunidade do Orkut (Jameron e de fanfic), à Veri (por, não sei como, continuar escrevendo comigo, haja vista que a diferença de talentos é incomensurável) e à Marina (por continuar revisando o texto). Amo vocês duas (L)! *_______*