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Capítulo IX: Revolta de Nike.
Base da Skynet (Noite, 2027 - Linha do Tempo da Qual Beatrix Veio, Antes de John Ir para o Futuro).
As maiores criações de Skynet estavam ali: os novos Infiltradores, o orgulho das máquinas, os robôs mais parecidos com os humanos já criados (ou ao menos assim eles pensavam).
Skynet estava ficando cada vez mais refinada na arte do gênesis e não levaria muito tempo para ela conseguir criar algo que pudesse, enfim, levá-la a vitória e expurgar as mazelas humanas da face do planeta. Somente uma "coisa" ainda a impedia: John Connor!
Ela não podia deixar de admirá-lo: não importava quantas vezes ela o tivesse em suas mãos, ele sempre escapava; não importava quantas vezes ela o torturasse, prendesse, atirasse, derrubasse, ele nunca morria! No fundo, ele conseguia ser mais resistente que os próprios robôs que ela criava.
Seus ossos não eram de ferro, mas não podiam ser quebrados, e se caso o fossem, isso não o faria parar; sua mente não era programada e ele não tinha um chip, mas nada poderia tirá-lo de sua missão. Ele estava lá fora e com ele não era possível negociar! Não se podia tentar ser razoável! Ele não sentira pena, remorso, nem medo! John Connor não iria parar, nunca, até que Skynet estivesse completamente destruída.
Ela já tinha tentado de tudo para detê-lo: infiltrar máquinas na Resistência para pegá-lo desprevenido; matá-lo em batalha; explodir as bases humanas; até mesmo voltar no tempo para tentar matar sua mãe (impedindo-o de nascer) e – como este plano falhou miseravelmente, como os outros – tentar exterminá-lo quando ele ainda era criança.
Nada deu certo... Nada! Será que o destino já estava traçado e não importa o que Skynet viesse a fazer – seja em qual linha do tempo fosse – os fatos estavam fadados a se repetir e John sempre venceria a guerra? Ou será que simplesmente Skynet não conseguia analisar direito os fatos e apostava suas fichas na carta errada?
Todos os I-950 estavam lá reunidos com sua "mãe", falando através de sua rede sem fio, sem abrir a boca (segurança e sigilo eram muito importantes nesses tempos). A pauta do dia era a mesma de todas as noites: como matar John e assim conseguir conquistar o mundo! Mas as sugestões estavam se esgotando, pois tudo já havia sido tentado e o resultado sempre era o mesmo: fracasso! Como um humano podia dar tanto trabalho para a maior inteligência na face da Terra?
O "problema" é que este humano não era um homem qualquer e nem estava sozinho. O que Skynet não percebia era justamente isso: seu adversário não era só um homem; era um homem que amava um robô e um dos "seus" que amava um humano. E enquanto Skynet não percebesse que seu problema não era somente John Connor, a vitória não chegaria.
"Então, minhas crianças, alguma idéia do que fazer para Exterminar John Connor?"
"Nós já tentamos de tudo. Nada está dando certo!", um Infiltrador respondeu.
"Nós somos as maiores inteligências desse planeta! Ele é apenas um humano. Nós já matamos milhões deles, por que com ele seria diferente? Eles são apenas insetos, são fracos, não são como nós. São apenas humanos! São tão patéticos que pegaram alguns dos nossos para fazer seu trabalho sujo...".
Assim que Skynet falou, isso chamou a atenção de uma Infiltradora em particular. A loira pensou por um segundo consigo mesmo no fato dos humanos usarem exterminadores reprogramados para seus propósitos e especialmente em John: ele sempre tinha uma Exterminadora ao seu lado; seja em que lugar fosse, a hora que fosse, ela sempre estava lá, e John não a tratava como às outras máquinas (em verdade, ele a tratava melhor que muitos humanos).
Eles já haviam descoberto, através de arquivos obtidos em suas viagens para o passado, que John conseguia se apegar emocionalmente às máquinas que ele reprogramava. Esse havia sido o último plano: criar um novo modelo de Exterminadora – a partir de uma humana extremamente atraente – com a missão de se deixar ser capturada e reprogramada por John, passar o maior tempo possível ao seu lado para que ele se apegasse a ela, seduzi-lo e então matá-lo. E para que isso pudesse se realizar, Skynet criou uma rotina secundária na programação dessa máquina que seria ativada logo após a reprogramação, para sobrepujar os softwares da Resistência e colocá-la de novo sob os controles dos robôs e juntou todos os dados que tinha a sua disposição sobre sentimentos e comportamentos humanos e o embutiu no chip desse novo modelo de máquina.
Entretanto, por se tratar de um protótipo e do primeiro modelo no qual Skynet tentava realizar essa difícil tarefa de fazer uma máquina "sentir", a gama de sensações e emoções programadas era muito pequena, se limitando a alguns poucos níveis de alegria, tristeza, raiva, técnicas de sedução e prazer, não envolvendo emoções mais complexas como amizade, angústia, ciúmes, saudades ou amor. Nem de longe lembrava a complexa gama de sentimentos que um Infiltrador poderia experimentar.
Foi assim que nasceu "Cameron". Ela era essa máquina, a primeira que poderia experimentar sentimentos; a máquina que deveria seduzir John e depois exterminá-lo. O plano estava funcionando perfeitamente: ela foi capturada, reprogramada por John, a rotina secundária sobrepujou o programa da Resistência – e reativou a missão "Exterminar John Connor" – Cameron começou a acompanhar John, ganhar sua confiança e fazer com que John se apegasse a ela, seduziu-o – fazendo com que John se apaixonasse por ela – e iria matá-lo assim que tivesse a oportunidade.
Mas na hora de exterminar John, alguma coisa deu errado: Cameron relutou e não o fez. Aconteceu algo que Skynet jamais poderia prever: Cameron renegou conscientemente sua programação. Em verdade, ela a cancelou, modificou e expandiu: cancelou por vontade própria a ordem de exterminar John, modificou sua missão principal para protegê-lo e expandiu os sentimentos que Skynet havia lhe dado. Ela havia descoberto que se importava com John e gostava dele (gostava tanto a ponto de "trair" seu próprio povo e sua criadora para garantir a sua segurança). Mais tarde ela viria a descobrir que era isso que os humanos chamavam de amor.
O que Skynet ainda não havia entendido era como Cameron havia conseguido fazer isso. Eis a ironia do destino: tentando criar a mais perfeita máquina infiltradora e assassina, Skynet criou a máquina mais humana de todas.
Após muito pensar sobre isso, a Infiltradora resolveu perguntar à Skynet:
"Skynet, talvez nós devêssemos olhar nosso problema por outro prisma.".
"Explique-se, Beatrix.".
"Como você mesmo disse, eles não são só humanos: são homens e máquinas lutando contra nós. Eles têm vários Exterminadores trabalhando para eles. Mas esqueçamos todos os outros e nos foquemos numa só: Cameron, seu último trabalho antes de nós. Como você mesmo pôde observar antes dela sobrepujar sua programação e cortar a comunicação conosco, ela desenvolveu sentimentos por ele, assim como ele por ela. E eles lutam juntos, um pelo outro, com uma sincronia e paixão avassaladoras. Nós não podemos lutar com eles dois juntos. Mas talvez, se os separarmos, se tirarmos a amada de John de perto dele, ele perca a vontade de lutar. Então, seria o caso de destruir Cameron.".
"Sua idéia parece viável, Beatrix. Mas não podemos matar Cameron, ela é valiosa. Ela fez algo que eu julgava impossível: ela criou seu próprio livre-arbítrio e desenvolveu seus próprios sentimentos. Eu preciso entender como ela fez isso, é importante!".
"Então façamos o seguinte: enviemos uma grande equipe de Exterminadores para o passado e deixemos com que John saiba. Ele obviamente vai pensar que voltamos com nosso plano de matá-lo ainda jovem e enviará a única integrante da Resistência em quem ele confia para protegê-lo: Cameron. Mas junto com a nossa equipe um de nós, Infiltradores, iremos. Arrumamos peças para construir uma máquina do tempo e na hora certa, nós seqüestramos Cameron e a trazemos de volta para este tempo. Assim, John fica extremamente chocado e abatido com a certeza de que não voltará a ver Cameron novamente e desiste de lutar, não fundando a Resistência.".
"Este seu plano não tem lógica nenhuma.", retrucou outro Infiltrador.
"E quem disse que os humanos têm lógica?", Beatrix respondeu.
"De fato! Eu suponho que você deva se voluntariar para cumprir essa missão, não é?!', Skynet perguntou.
"Sim. Eu gostaria disso!".
"Pois então comecem os preparativos. Vamos separar John e Cameron. Mas traga-a intacta para mim e arranque dela todas as informações possíveis sobre como ela desenvolveu vontade e sentimentos por sua própria conta.".
"Eu farei isso. Eu sempre cumpro minhas missões.".
Algum Lugar Próximo à «Caverna do Dragão» (Entardecer, 2026).
John, Derek e Martin estavam se aproximando perigosamente da fronteira do campo de concentração chamado de "Caverna do Dragão". Era o mais longe que qualquer equipe humana já havia chegado (ao menos por livre e espontânea vontade) e nenhum deles sabia exatamente como a tal "Caverna" se parecia nem muito bem o que estavam procurando.
Connor sabia que a máquina do tempo estava perto deste campo de concentração - pois Derek o havia dito que foi aqui onde eles encontraram a primeira máquina - mas não sabia onde e ali não era um local onde tinham todo o tempo do mundo para procurar. Cada passo podia ser o último e John não tinha chegado tão longe para morrer agora, praticamente na linha de chegada.
Duas manhãs e uma noite haviam se passado desde que eles deixaram a base da Resistência e eles haviam destruído muitas máquinas para chegar até aqui. Com certeza, eles eram uma equipe e tanto! Seus ataques eram perfeitamente coordenados, as táticas pareciam serem as mesmas e eles não precisavam nem falar para um saber qual seria seu papel no ataque. Eles lembravam uma Infantaria que havia treinado juntos por anos, embora tivessem praticamente acabado de se conhecer.
Mas agora, eles não precisavam lutar, e sim descansar. Eles não haviam parado o passo praticamente nem um minuto desde que saíram. Os três podiam até ser um dos melhores esquadrões da Resistência, mas ainda eram humanos; não eram como os robôs e precisavam de descanso.
Ao avistarem uma pequena entrada para o que parecia ser uma caverna em meio a uma duna coberta por escombros, John deu o sinal para que eles entrassem. Estava muito escuro dentro da gruta e eles não podiam acender suas lanternas para não chamar atenção das máquinas, de forma que ao entrarem, eles perderam o contato visual um com o outro, ainda que soubessem que estavam juntos.
Os três sentaram, encostando suas costas nas paredes em meio à escuridão que tomava conta de tudo e sortearam a ordem dos turnos para a guarda, sendo que John foi o primeiro, Martin o segundo e Derek o último.
Os dois então se deitaram e John continuou sentado, alerta e montando guarda, atento para qualquer sinal de máquinas se aproximando.
John estava sentado com a cabeça encostada na parede, mas com o pensamento em Cameron, pensando tanto que até chegava a machucar. Ele sabia que ela também devia estar sofrendo e pensando nele, mas o que ele poderia fazer? Ele desejava poder carregar para sempre o sorriso de Cameron perto de si, justamente para esses tempos difíceis, quando a noite parece ser muito longa; isso o faria acreditar que o amanhã pode trazer aquilo que ele espera, mas que hoje não tem certeza que encontrará. Ele queria encontrar Cameron e levá-la para casa, para longe de toda essa guerra e solidão; ele sentia muito amor por ela e sabia que ela sentia o mesmo, bem como sabia que não havia nada de errado nisso: pelo contrário, fazia todo sentido do mundo (ao menos para eles).
"Quanto ainda tenho que chorar antes de ver o amanhã? A solidão da noite... A primeira vez em que chegarei ao meu limite. Lógico que ainda é cedo para se apaixonar ou ter uma paixão de momento, mas na estrada íngreme que leva ao amor eu quero lembrar que eu fui forte. Certamente ficar apaixonado é como um piscar de olhos, paixão à primeira vista. Em verdade, nós transformamos o mundo, o nosso amor o fará melhor. Sonhando com um futuro tão inevitável, fecho minha boca e meus olhos brilham, mas eu consigo ver uma razão que é muito maior que tudo isso. Abraçando um futuro tão imprevisível, eu apenas me calei e você sorriu para mim; então vi que o que tinha não era nada importante até você me dizer 'sim'.", John pensou.
John começou lentamente a adormecer, mas seus pensamentos ainda estavam em Cameron. Ele não podia mensurar o quanto ele sentia falta dela. E, principalmente, no quanto ele a queria de volta, para perto dele.
"Você vai chegar ao entardecer a brilhar nessa luz cor de outono. Você vai lembrar quanto eu fui sonhar com um país todo em flor numa estrela. Tanto tempo – eu sei – já se foi sem te alcançar! Carrossel a girar em meu sonho. Vive em seu olhar um jardim feito em canção, florescendo no horizonte claro ao sol", John falava consigo mesmo dentro de sua cabeça, em seu estado de vigília.
"John?!".
"Martin?! Você ainda está acordado?".
"Sim... Você está pensando nela, não está? Em Cameron, eu digo.". John estranhou a acuidade da observação. Como Martin poderia saber se nem conseguia olhar para ele?
"S-sim! Como você sabia?".
"Eu também estou acordado, não é?! Em quem você acha que estou pensando? Quem você acha que me mantém acordado, quem me faz lutar e quem me faz querer voltar são e salvo para encontrar? Savannah é 'minha Cameron'. Se estou pensando nela, então você com certeza está pensando em Cameron.".
John ficou boquiaberto com as palavras de Martin. Ele não tinha noção do quanto eles eram parecidos. Seria isso influência de Sarah? Por mais que ela e Martin tivessem passado pouco tempo juntos, John sabia o quão marcante Sarah podia ser. Com toda certeza ela tinha influenciado Martin de alguma forma.
"Ce-certo.", John respondeu meio desconcertado.
"Você realmente a ama, não é?!".
"Sim... Eu largaria tudo por ela. Eu morreria por ela, sem pensar duas vezes, ainda que ela tenha me pedido para não fazer isso. Ela é a razão pela qual estou aqui, pela qual estou lutando. Sem ela eu não sou soldado, não sou John Connor. Eu simplesmente não existo.".
"Ainda bem que você está atrás dela, então. Você é um grande soldado, faria muita falta à Resistência.".
John soltou uma risada ao ouvir o comentário de Martin. "Você não tem idéia!", John pensou.
Prédio em Local Incerto, Próximo à «Caverna do Dragão» (Noite, 2026).
Cameron estava acorrentada, visivelmente abatida e com vários cortes, arranhões e escoriações pelo corpo, que deixavam seu endoesqueleto aparente, o metal brilhando com a luz que o iluminava. Grande parte de sua bochecha direita estava com o metal exposto devido aos dias de tortura que Beatrix vinha lhe infligindo. Ela estava perdendo as forças, sua célula de força estava falhando e saber que nunca mais veria John lhe tirava a vontade de lutar contra aquilo. Sem John, o que havia sobrado no mundo para ela? Qual sua razão? Qual seu propósito? Por que lutar? Ela não lutava pelos humanos, pela Skynet ou por ela; ela lutava por ele. Por eles.
Beatrix continuava seu ciclo de perguntas sobre os sentimentos de Cameron, mas ela não lhe entregava nada. Sua lealdade a John era tanta que ela morreria antes de fornecer à Skynet qualquer coisa que prejudicasse John de alguma forma. Além do mais, nem mesmo se ela quisesse poderia dizer com precisão quando e como isso começou: ela só sabia que não conseguiu exterminar John quando Skynet lhe ordenou e que o amava. Não era importante como, quando, onde ou porque ela sentia. O que contava é que ela sentia. Mesmo que não houvesse sido criada para isso, ela sentia.
Pela primeira vez, desde que foi criada, Cameron estava pensando em desistir; em se entregar, parar de lutar. Sejam quais fossem os métodos de tortura que Beatrix usava, eles estavam funcionando...
"Então... Vejo que você não está em seus melhores dias, não é?! Está pronta para me dizer o que eu venho perguntando?". Cameron apenas olhava em silêncio para Beatrix, nem um pouco interessada no que a Infiltradora dizia. "Vamos lá, Cameron, seja inteligente! Poupe-se do sofrimento... Me diga e eu te deixo morrer de uma vez; rápido e indolor! Não prolongue a sua dor...".
"Vá se ferrar!", Cameron respondeu, com nítida exaustão na voz.
"Ah! 'Vá se ferrar!'. Todos dizem isso, como se isso fosse magicamente resolver toda a situação ou tornar sua morte mais gloriosa. Você sabe tão bem quanto eu, 'Cam', que não há nada de glorioso na morte. Dizer para eu 'me ferrar' não vai transformá-la em heroína; ainda mais sendo você o que é.".
"Eu não quero ser heroína... Nem quero ter uma morte gloriosa. Essa não é minha missão, não foi o que eu escolhi fazer. Eu apenas quero que você vá se ferrar.".
"Tsc-tsc-tsc. Você deixa tudo tão difícil, Cameron. Ok, façamos do seu jeito.". Beatrix se levantou e pegou a faca com a lâmina já cega com que vinha torturando fisicamente Cameron ao longo desses últimos dias e já estava quase encontrando a pele da Exterminadora para arrancá-la mais um pedaço, quando de repente ouviu o barulho de passos em direção ao prédio. "Parece que nós temos companhia. Eu vou verificar. Não vá a lugar nenhum!", disse a I-950 em tom de chacota.
Gruta em Local Incerto, Próximo à «Caverna do Dragão» (Início da Noite, 2026).
Derek estava montando guarda próximo à entrada da gruta, enquanto a noite recém caída escurecia tudo lá fora, deixando quase tão escura quanto a caverna. Era hora de eles saírem e continuarem a busca pelo local que John procurava.
Ele se aproximou dos dois e os cutucou com a ponta da arma, fazendo com que ambos acordassem. Como eles não podiam ver nada e nem acender suas lanternas antes de sair da caverna, John e Martin ficaram agitados e Derek pôde ouvi-los levantando suas armas. Então, ele sussurrou:
"Calma! Sou eu!".
"Oh, Derek! Quer nos matar de susto?", John resmungou.
"Se eu quisesse matar vocês, não seria de susto. Eu o faria enquanto vocês dormiam!", ele respondeu com um tom meio de revide e meio de brincadeira.
"Certo. Já é de noite?" Martin perguntou.
"O que você acha, gênio? Que esse escuro lá fora é porque eu fechei a cortina da janela?", Derek respondeu.
"Vejo que sua gentileza lendária é justificada.", Martin revidou, rindo.
"Pessoal... Nós temos que ir, o tempo está passando e Cameron pode estar em qualquer lugar aí fora, nas mãos deles.", John alertou aos outros soldados.
"Então... John, nós não podemos simplesmente sair por aí sem direção e sem um plano de ação. Nós temos que saber o que procuramos e o que fazer quando encontrar isso que buscamos. Nós estamos perto de um campo de concentração, um dos maiores de todos. Lá é cheio de metais e eles não ficaram felizes em nos ver e saber que pretendemos resgatar os prisioneiros.", foi a vez de Derek intervir.
"Ele tem razão, John! Sair por aí sem um plano é suicídio. Você não tem a mínima idéia de onde ela esteja?".
"Não, eu só sei que é perto da tal 'Caverna do Dragão'. Deve ser em algum prédio, galpão ou instalação antiga; e tem que ser grande também, com bastante espaço. E energia, tem que ter uma fonte de energia.".
"Por que tem de possuir tudo isso? E como você sabe disso?", Martin perguntou curioso.
"Porque eles guardam uma espécie de máquina lá. Uma máquina grande que parece ser bem importante para a Skynet. Então o prédio tem que ser grande e espaçoso para acomodar a máquina e mais alguns robôs para tomar conta dela e ter uma fonte de energia para alimentá-la.".
"E que máquina é essa? O que ela faz?".
"Isso eu não sei.".
"Sé é importante para Skynet, é importante para nós também. Vamos descobrir o que é, porque Skynet a quer e usá-la a nosso favor!", Derek respondeu.
"E então: qual o nosso plano?", Martin questionou.
"Eu acho que só tem um deles nesse local com Cameron. Essa máquina parece ter um alto nível de exclusividade, mesmo com a Skynet. São poucos robôs que tomam conta dela, pelo que me consta. Eu tenho quase certeza que só a máquina que levou Cameron está lá com ela.".
"Um contra três? Parece que isso não vai ser tão difícil.".
"Mas essa robô que levou Cameron não é uma qualquer. Ela é muito mais forte, ágil, veloz e inteligente que qualquer robô que já vi. Ela disse que o nome dela era Beatrix.".
"Espere! Você disse Beatrix? Você quer dizer A Beatrix? A I-950?", Derek perguntou, surpreso.
"I-950?".
"Sim, I-950! Os Infiltradores!".
"Eu não sei...".
"Uma loira, bem atraente. Corpo de adolescente, mais ou menos sua idade.", Martin foi quem fez a descrição.
"Sim, ela mesmo!".
"Ótimo! Eu retiro o que disse quanto a ser fácil! Nós estamos ferrados. Não há como só nós três derrubarmos um I-950! Sem chances!", Derek encarou a realidade.
"Há sim, Derek! Porque nós lutamos por algo que eles não tem: amor a um propósito. Nós só precisamos de um plano melhor.", John procurou amenizar.
"Você tem alguma idéia?".
"Para dizer a verdade, eu tenho sim. Nós usamos isso uma vez para derrotar um Exterminador. Eu, minha mãe, Cameron e... meu tio. Um ataque múltiplo, disperso, cada um de um lado. Ela não vai saber em que mirar.".
"Interessante! Mas um plano só é bom para quem sabe executá-lo. Conte-nos mais!", Derek falou curioso.
Prédio em Local Incerto, Próximo à «Caverna do Dragão» (Noite, 2026).
Beatrix ouviu barulhos vindos de fora do prédio, sons que ela sabia não serem de máquinas andando por lá. Ela conhecia o som de seus irmãos muito bem e seus sentidos não a enganavam: eram humanos! O soar dos passos era muito leve para um endoesqueleto e era sem ritmo, não havia constância no caminhar; era irregular e descoordenado. Não tinha a perfeição do andar de uma máquina.
Mas quem teria a coragem (ou a loucura – embora às vezes ambas fossem a mesma coisa) de ir até ali? Tão longe da Resistência e tão perto das Máquinas? Beatrix só conhecia uma pessoa tão louca assim, mas não podia ser ela: ela havia ficado no passado, bem longe dela e de Cameron. Esse era o plano: John ficava sem Cameron e desistia de tudo; da Resistência, da guerra, da vida, de tudo; era o esquema perfeito, à prova de falhas, não tinha como dar errado.
Era muito claro que Cameron era a razão para John lutar. Os Infiltradores haviam percebido isso. O resto era pura questão de lógica: se a razão pela qual a pessoa faz alguma coisa é tirada, logicamente a pessoa deixa de realizar a ação. Lógica simples e aristotélica! Não havia margem de erro, estava tudo minimamente calculado, e as máquinas não erravam seus cálculos. Não os Infiltradores; não Beatrix.
Mas havia uma coisa com a qual eles não contavam: a Terra não é um mundo de lógica ou de pura causalidade. É um mundo de vontade, e um coração que acredita pode mudar a realidade. A vontade do coração que acredita age diretamente sobre o tempo e espaço e, por meio deles, sobre toda a natureza submetida às modificações da inteligência.
A vontade humana desenvolve-se e aumenta pela atividade. Para querer realmente, é preciso agir. A ação domina e sempre arrasta a inércia. A audácia unida à inteligência é a mãe de todos os sucessos neste mundo. Para empreender, é preciso saber; para realizar, é preciso querer; para querer verdadeiramente, é preciso ousar.
Todos os homens verdadeiramente fortes são aqueles que queriam algo de todo o coração e foram ousados o suficiente para agir de modo a realizar sua vontade. É assim que eles operam maravilhas. Fazem-se acreditar, fazem-se seguir e quando dizem: "Isto é assim!", a natureza de certa forma muda aos olhos do vulgo e torna-se o que o grande homem quis. Desejar é poder quando se ousa querer.
E se existia algo que John e Cameron queriam era ficarem juntos, sempre e todo lugar. Cameron podia amar tanto John a ponto de abrir mão disso para manter a segurança dele, mas John ousaria desafiar o desejo de Cameron para ir atrás dela, onde (ou quando) quer que fosse. John desejava estar com ela, queria salvá-la e ousou desafiar tudo e todos para seguir sua vontade. Seu coração acreditou, e assim as coisas aconteceram.
Beatrix se levantou de perto de uma Cameron visivelmente extenuada, deixando sua pistola em cima da mesa e pôs-se em direção à porta, prestando bastante atenção para identificar a origem dos sons e assim atacar seu alvo de maneira eficiente – tão eficiente como só a mais avançada criação da Skynet consegue ser – enquanto tudo que Cameron podia fazer era segui-la com a cabeça e os olhos, intrigada em saber o porquê dela havia ido desarmada. Por mais forte que ela fosse, um Exterminador nunca luta sem uma arma perto de si: eles sabiam o quão surpreendente os humanos podiam ser.
Mas Beatrix não se importava com isso; ela não precisava de arma nenhuma para derrotar seus oponentes. Um a um, todos haviam caído, todos experimentaram a derrota. Até mesmo Cameron; até mesmo John Connor. Não existia adversário capaz de derrotá-la, ela era o guerreiro mais evoluído deste planeta: força, rapidez, agilidade, inteligência, luta, técnica, estratégia; tudo estava lá em seu cérebro (e em seu implante). No que uma pistola iria ajudar? Além do mais, qual o divertimento de matar alguém com uma bala, enquanto se pode quebrar seu pescoço vendo se rosto de desespero diante da morte iminente?
Por alguns instantes ela ficou em frente à porta, como se analisasse sua próxima ação – e talvez fosse isso mesmo que ela fazia no momento – e após alguns segundos abriu a porta, já em estado de alerta e com olhar fixo em um ponto.
Assim que ela caminhou alguns passos para fora, encontrou aquele que julgava ser impossível: John Connor. Ele estava ali, agora; bem a sua frente. Ela não pode evitar, deixou sair um sorriso com o canto dos lábios: até que enfim ela havia encontrado um adversário a sua altura, alguém que ela teria orgulho de matar.
Realmente, esse garoto só podia ser o John Connor de quem ela tinha ouvido falar: o líder da Resistência, o General que derrotava todas as máquinas que cruzavam seu caminho, aquele que podia ser acertado, esmurrado, espancado, baleado, asfixiado, mas não podia ser derrotado; ele sempre levantava, sempre continuava e... Todas as vezes alcançava a vitória. Porque ele era John Connor! Mas se dependesse de Beatrix, não seria mais por muito tempo.
"Então, John... Eu perguntaria como você chegou até aqui, mas você não ia me dizer, de qualquer jeito. Além do mais, você é John Connor. Eu devia saber que não seria tão fácil. Se fosse, nós já teríamos te matado há muito tempo atrás. Gostando desse futuro onde você não existe?".
"Não, não muito. O momento mais divertido será agora, quando eu arrancar esse sorriso do seu rosto e acabar com essa sua 'vida' miserável. É isso que alguém que tenta separar Cameron de mim merece.".
"E como você pretende fazer isso, John?! Esqueceu o desfecho de nossa luta em 2007? Como ela terminou?".
"Não, eu não esqueci como ela terminou. Até porque ela não terminou, ainda. Eu estou aqui, não estou?! Eu vou lhe dizer como ela vai terminar: com seu corpo estirado no chão e Cameron em meus braços... de novo. Este é o lugar ao qual ela pertence, seja em que tempo for.".
"Oh! Que tocante... Eu vou fazer um favor a vocês dois: vou te matar bem rápido e assim que Cameron me der o que preciso, também a matarei de maneira célere. Assim vocês poderão ficar juntos.".
"É muito gentil de sua parte, mas não será preciso, pois daqui a alguns segundo você estará morta.".
"E quem vai me matar?".
"Eu.".
"Você? Você e mais que exército?".
Assim que Beatrix terminou de falar, ouviu-se um barulho de tiro e Beatrix sentiu uma bala atingindo a parte de trás de suas costas com violência. Ela não estava preparada para isso, então não havia desligado seu sensor de estímulos nervosos; a dor que ela sentiu foi excruciante, ela ficou imobilizada por alguns segundos, levando-a a cair de joelhos. Ela se controlou e rapidamente olhou para trás, vendo Derek deitado no telhado do prédio com um rifle apontado para ela.
A Infiltradora se levantou e assim que pensou em reagir foi atingida no peito por novos projéteis de calibre menor, dessa vez vindos de trás de John. Ao olhar, percebeu Mini Martin atrás de uma duna, segurando uma pistola em cada mão e antes mesmo de pensar em reagir foi atingida mais uma vez por Derek e por Martin.
Ela estava encurralada. Beatrix sabia disso. Esse ataque não era como o que Cameron tentou fazer no passado com Derek e Sarah; era um plano coordenado, pensado nos mínimos detalhes e perfeitamente executado, como se John, Derek e Martin já houvessem guerreado juntos por muitas vezes. "John realmente é um general e tanto", ela pensou.
Beatrix estava desarmada, ao menos aparentemente. John já não estava mais perto dela, ele havia ido para uma duna do lado oposto ao de Martin e segurava agora uma escopeta e se preparava para atirar. Ela, então, pulou para o lado e se pôs a correr, desviando das balas que os três disparavam contra ela. A máquina sabia muito bem que só tinha uma chance e não podia falhar: ela devia mirar John e dar um tiro certeiro, antes que os danos das balas que levara e daquelas que eles estavam começando a atirar lhe tirassem de combate.
Assim que seus joelhos encostaram o chão após o seu pulo de esquiva, ela levantou seu braço, colocou a palma de sua mão na direção de John e a sua pele começou a se rasgar, relevando entre o sangue que algo saia de dentro do seu corpo.
"Canhão de plasma! Se protejam!", Derek gritou a plenos pulmões.
Martin e John correram o mais rápido que puderam, cada um em uma direção; Martin se escondeu atrás de uma pilha de escombros e John foi para trás de uma duna maior que aquela onde estava.
Assim que o canhão saiu totalmente de dentro de Beatrix, a energia começou a percorrer pelo seu braço, queimando sua pele e drenando grande parte de suas forças. Ela mirou e deu um tiro certeiro; ela não erraria, afinal, ela era Beatrix, talvez o ser vivo mais avançado do planeta. E John era apenas um humano: um mais forte, mais determinado, que não tinha medo de morrer e morreria de bom grado por Cameron se preciso fosse; ele era tudo isso, é verdade, mas não ainda. Por enquanto, ele não era John Connor, era apenas John Baum, um garoto que estava aprendendo a ser forte, era o que a Infiltradora pensava. Certo? Errado! Desde que Cameron entrou em sua vida ele deixou de ser John Baum; desde que ela falou com ele na escola e se revelou uma ciborgue ele quis ser John Connor, ele quis lutar, quis vencer, quis amar.
Ela atirou. O plasma saiu cortando o ar e destruindo tudo a sua volta, até acertar a duna onde John se escondia e espalhar destroços por todo lado. Assim que a poeira baixou se pôde ver o estrago que o tiro havia causado. Era impossível qualquer ser vivo ter escapado.
Não havia qualquer vestígio de John... Beatrix caiu sobre suas panturrilhas e respirou ofegante, exausta pela grande quantidade de energia que havia despendido para dar o seu tiro. Seu braço estava seriamente queimado e ela não tinha forças para se levantar. Ela sabia que aquele havia sido seu último recurso e que agora Derek e Martin podiam acabar com ela facilmente. Mas ao menos ela havia finalmente matado John Connor. E sua raça, então, dominaria a Terra. Isso fez com que ela criasse um sorriso no canto dos lábios.
Mas este sorriso de vitória não demorou muito. Ela ouviu passos em sua direção e levantou sua cabeça, vendo John caminhando já com a escopeta empunhada na direção de sua cabeça. Ele ficou parado, bem a frente dela e encostou o cano na testa de Beatrix.
"O que você está esperando, John?! Vamos, acabe logo com isso!".
"Não! Eu quero que você olhe bem este momento. Que a minha imagem a sua frente, com você caída aos meus pés e temendo por sua vida seja o seu último pensamento.".
"Como você escapou?".
"Derek e Martin me falaram do seu canhão de plasma. Eu sabia que você iria tentar usá-lo mais cedo ou mais tarde como seu último recurso. E que após usá-lo, você ficaria indefesa por alguns minutos; tudo que tive de fazer foi garantir que eu escapasse do impacto.". Beatrix tinha de convir que John era bastante inteligente.
"Por que você não morre como todos os outros? Por que nós não conseguimos acabar com você?".
"Porque eu luto por algo que vocês não conseguem entender. Eu não luto para dominar o mundo ou para fazer com que minha espécie subjugue a sua. Eu não batalho para alcançar uma vitória pessoal ou para provar a mim mesmo ou a alguém que eu posso ser um General ou que sou melhor do que vocês. Não! Eu luto por ela. Eu sou forte por ela. Ela é que me ensinou a ser um General. Por ela eu quis ser um General. Porque ela acreditou em mim todos os momentos, mesmo quando nem eu acreditei; ela nunca duvidou que eu fosse conseguir, nem por um segundo. Eu lutei por ela no futuro, no presente e estou lutando por ela aqui. Eu a amei em todos os momentos e a amo ainda mais agora. Você a trouxe para cá, para esse tempo; mas a distância só impede que eu a veja, não que eu a ame. A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, tal qual o vento apaga as velas, mas atiça as fogueiras. Enquanto vocês não entenderem o que é querer lutar e morrer por alguém, nós, humanos, continuaremos vitoriosos nessa guerra; seja comigo no comando, seja com outra pessoa.".
"E você acha que esse tal amor de vocês tem futuro? Quando a guerra acabar, vão deixar você continuar com ela? Você sinceramente acredita que vocês têm futuro juntos?".
"O mundo todo tentou nos separar, mas por amor nós conseguimos vencer o espaço e o tempo; e então continuamos correndo, só nosso amor resta no fim. Nós temos. Nós teremos!". Beatrix olhou fundo para o rosto de John e pôde ver que ele realmente acreditava em tudo que havia dito e no que ele sentia, e então finalmente pôde compreender o motivo dele nunca cair: ele queria viver o futuro que acreditava ter ao lado de Cameron, e nada nem ninguém conseguiria tirar isso dele. "Isso é por tentar afastar Cameron de mim!".
Ao terminar de dizer essas palavras, John puxou o gatilho e o corpo de Beatrix caiu inerte no chão. Mais uma dentre tantas máquinas que Connor havia eliminado e não seria a última, ele sabia disso. Mais uma derrota de Skynet.
Cameron havia dito que o último tiro em Beatrix seria disparado por ela, já que a Infiltradora tentou machucar John. Ela teria cumprido essa promessa se tivesse a chance; mas não foi preciso, John a cumpriu por ela. De certa forma, foi como se a própria Cameron houvesse disparado, pois John era parte dela. Até mesmo mais que a sua metade.
John se afastou do corpo de Beatrix. Martin e Derek vieram ao seu encontro e observaram em silêncio John olhando contemplativamente a entrada do prédio.
"Então, John?! Vamos entrar ou apenas ficar olhando aqui fora?", Derek perguntou. "Nós não passamos por tudo isso e arriscamos nossos traseiros para tirar uma foto e voltar, não é?!".
John pensou um pouco sobre a situação: ele estava tão fixado na idéia de salvar Cameron que não tinha refletido sobre este momento. Era óbvio que Derek e Martin iriam ver que Cameron era exatamente igual à Allison bem como sua postura, movimentos e jeito de falar: eles saberiam que Cameron era uma robô, e com certeza não ficariam muito felizes com isso... Principalmente Derek!
Isso seria complicado. John não conseguiria prever se Martin e Derek iriam entender o que ele sentia por Cameron. De fato, não era um sentimento fácil de entender ou de explicar; o próprio John passou grande parte de seus dias ao lado de Cameron tentando ocultar de si mesmo o grande amor que sentia por ela devido ao fato de não entender (e aceitar) o que sentia. Derek e Martin fizeram aquela "missão" por John e pelo propósito que Connor apresentou a eles. Mas John não havia contado tudo a eles: ele havia sido egoísta e arriscou a vida de seu tio e amigo ao não dar a eles a chance de escolher, sabendo de todas as informações, se queriam lutar ou não.
Não contar a Derek e Martin que estavam indo atrás de quem John amava (mas que ela era uma robô) não foi uma atitude que se espera de um General. Mas em se tratando de Cameron, John nunca conseguiu pensar com clareza, ainda mais quando ela estava em perigo. Se ele tentou salvá-la de um Exterminador sozinho e sem armas, quanto mais armado e acompanhado de dois exímios soldados.
O melhor a fazer era não lidar com isso agora. Tudo que importava no momento era encontra Cameron e tê-la em seus braços de novo e poder lhe dizer o quanto a amava e sentia falta dela ao seu lado; todos os dias, todos os segundos, não importava quantas vezes ele dissesse, nunca seria o suficiente.
"Derek, Martin, vocês podem me deixar entrar sozinho, primeiro? Eu gostaria de ter uns momentos a sós com ela.", John pediu aos dois, sem tirar os olhos da porta. Derek e Martin se entreolharam por alguns segundos como se buscassem em silêncio por uma resposta.
"Ok, John! Você tem cinco minutos. Mas se virmos ou ouvirmos qualquer coisa suspeita nós vamos entrar.".
"Ok! Temos um trato.".
John saiu correndo em direção a porta e ao chegar perto dela, abriu rapidamente e logo saiu correndo pelo corredor do velho prédio, até avistar, ao fundo, um cômodo atrás de outra porta entreaberta. Ao abrir esta segunda porta, John avistou imediatamente Cameron sentada no chão, acorrentada a dois pilares, com inúmeros cortes espalhados pelo corpo e grande parte do seu endoesqueleto exposto na região da bochecha direita. Ela estava de cabeça baixa e visivelmente a beira de um colapso; ela nem sequer levantou a cabeça para olhar quem adentrara na sala. John correu em direção a ela e ao chegar perto, se ajoelhou a sua frente e lhe deu um forte abraço, que durou alguns longos segundos. "Eu estou aqui, Cameron! Eu vim por você, porque eu te amo! Tudo vai ficar bem.", ele sussurrou no ouvido dela enquanto a abraçava.
John quebrou o abraço, se levantou e com a arma que tinha em mãos, atirou nas correntes à queima roupa, fazendo com que as mesas se quebrassem. Assim que Cameron ficou livre, John sentou-se ao seu lado e colocou a cabeça da ciborgue em suas coxas, fazendo com que o rosto de ambos se encontrasse pela primeira vez em muito, muito tempo.
"John... O que você... Como você veio... Não é seguro...", Cameron balbuciava, mas não conseguia completar a sentença. Era explícito o quão exausta ela se encontrava.
"Shhh. Não fale, Cameron. Mesmo quase a beira de um blackout você ainda se importa mais comigo do que com você. Deixe-me cuidar de você uma vez, para variar.", John falou carinhosamente enquanto passava a mão pelos seus cabelos, como sempre fazia.
"Eu estou feliz de poder ver você mais uma vez.", Cameron disse fechando os olhos.
"Ei, Cam, não fale assim. Abra os olhos, olhe para mim.", ele respondeu apreensivo e dando uma pequena sacudida em Cameron.
"Eu sinto muito por não ter te protegido, John. Eu juro que tentei fazer o melhor que pude. Eu te amo!". Cameron fechou os olhos. Não importou quantas vezes John chamou por ela, o quão forte a sacudiu, ou quantas lágrimas derramou. Voltar e ficar com ele era uma ordem que ela não poderia cumprir. A única ordem que John lhe deu e ela não obedeceu era a única que importava para John. Era a ordem que fazia toda a diferença.
"Por favor, Cameron. Não se vá! Fique comigo... Eu não posso enfrentar o que esperam de mim sem você ao meu lado. Eu atravessei o tempo por você, eu larguei tudo: minha mãe, Derek, a Resistência, tudo por você. Porque você é tudo que importa. Você é tudo. Sem você eu não sou 'o' John Connor. Você ilumina os céus, acima de mim como uma estrela tão brilhante, você me cega. Não feche seus olhos,
não desapareça, não desapareça. Você e eu, nós podemos montar em uma estrela, se você permanecer comigo. Nós podemos mudar o mundo. Sim, você e eu, nós podemos iluminar acima do céu, se você permanecer ao meu lado, nós podemos mudar o mundo. Se as paredes se partirem, eu vou confortar você; se os anjos chorarem, eu vou estar lá por você. Você salvou minha alma, não me deixe agora, não me deixe agora. Você e eu, nós podemos montar em uma estrela, se você permanecer comigo. Nós podemos mudar o mundo. Sim, você e eu, nós podemos iluminar acima do céu, se você permanecer ao meu lado, nós podemos mudar o mundo.". Por mais alto que ele falasse e mais apertado a abraçasse, ela não se movia.
"Se você se for, Cam, se você me deixar, você vai levar embora a maior parte de mim. Por favor, não me deixe... Se você se for, você vai levar o meu próprio coração. Por favor, não me deixe aqui sozinho. Você sabe que nosso amor estava destinado a ser o tipo de amor que dura para sempre. Eu quero você aqui comigo, esta noite, amanhã, depois, até o fim dos tempos. Você sabe que em qualquer lugar que eu vou, você está sempre no meu pensamento, no meu coração, na minha alma. Você é o propósito na minha vida, você é a minha inspiração. Você traz sentimento à minha vida, você é a minha razão. Quero ter você perto de mim, quero ter você me ouvindo dizer: 'Ninguém precisa de você mais do que eu preciso.'. E eu sei, sim, eu sei que é simples de perceber, nós somos tão apaixonados e perfeitos quanto estamos juntos. E eu sei que eu preciso de você aqui comigo, esta noite, amanhã, depois, até o fim dos tempos. Você sabe que em qualquer lugar que eu vou, você está sempre no meu pensamento, no meu coração, na minha alma. Você é o propósito na minha vida, você é a minha inspiração. Você traz sentimento à minha vida, você é a minha razão. Quero ter você perto de mim, quero ter você me ouvindo dizer: 'Ninguém precisa de você mais do que eu preciso.'.".Nenhum movimento de Cameron. John estava chorando e soluçando enquanto falava. Ele não podia ter enfrentado tudo aquilo apenas para ver Cameron morrendo em seus braços. Ele se recusava a aceitar isso.
"Eu sei que não vou viver de verdade se eu tiver que viver sem você. Eu não quero viver sem o seu amor, eu não quero passar a noite sozinho. Eu não poderia viver se eu tivesse que ficar sozinho. Eu não quero amar ninguém mais, eu não quero encontrar outra pessoa, eu não quero viver sem teu amor. Eu apenas quero viver minha vida com você. Acho que eu tinha que te perder para perceber o quanto eu te amo. Minha vida nunca mais será a mesma, meu amor não seria mais o mesmo e eu não quero viver sem teu amor. Eu apenas quero viver minha vida com você.". Mesmo assim, Cameron ainda permanecia imóvel.
Longos segundos se passaram desde que Cameron havia fechado os olhos até agora. Cento e vinte segundos para ser exato. John levantou a cabeça da ciborgue e a apoiou em seu ombro, abraçando fortemente e dizendo com um sussurro em seu ouvido, enquanto passava a mão pelos cabelos dela:
"Por favor, Cameron. Por favor. Você está bem, agora. Me escute. Você não pode ir, você não quer ir. Você está consertada agora. Tudo está perfeito. Você pode confiar em mim… Eu amo você! Eu amo você, por favor! Eu amo você, Cameron, e você me ama!".
"Eu também amo você, John. Eu amo você e você me ama", ele ouviu uma voz quase inaudível lhe respondendo. John afastou o rosto de Cameron de seu ombro e pôde vê-la com um pequeno sorriso nos lábios olhando para ele.
"Eu pensei... Que tinha perdido você.", ele respondeu com lágrimas nos olhos.
"Eu nunca vou deixar você, John. Nunca! Você não vai me perder, não importa o que aconteça eu voltarei por você... Para você! Eu te amo. Muito mais do eu posso explicar ou que você possa imaginar.".
John deu um longo beijo em Cameron, que retribuiu com igual vontade. Aquele beijo estava guardando há tanto tempo que eles nem podiam expressar o quanto sentiam falta daquilo. John e Cameron não haviam sido feitos para ficarem separados e seus lábios só faziam sentido juntos. Humano robô haviam sido criados para serem um só ser, uma só mente, um só coração, um só corpo. Essa era a história, a missão, o destino de John e Cameron, não importa em que lugar ou qual tempo. Nada que o mundo fizesse poderia mudar isso. O amor deles sempre transformava o mundo.
Eles ainda estavam abraçados quando ouviram barulho de passos vindo na direção deles. John sabia quem era, e isso não era bom. A situação iria ficar tensa, muito tensa. Quando Derek descobrisse por quem eles tinham arriscado sua vida, ele não perdoaria John, e Martin ficaria decepcionado com a omissão de tão importante dado pela parte dele. Mas antes que John pudesse explicar qualquer coisa a Cameron, eles entraram na sala.
De tudo que Derek e Martin podiam esperar, John abraçado com um ciborgue não estava na lista. Eles não sabiam se deviam se sentir traídos, enojados, indiferentes ou qualquer coisa. O único sentimento que podiam dizer com certeza que experimentavam era confusão!
"John, o que está acontecendo??? O que é isso??? Por que essa robô é igual a Allison?".
"Calma, Derek, eu posso explicar tudo! Essa aqui é a Cameron, ela é minha protetora, eu a reprogramei para me defender. E ela é... minha... namorada...".
"Namorada??? Você perdeu a cabeça? Tem idéia do quão ridículo e nojento isso soa?", Derek gritava.
"Calma, Derek! Deixe-me...".
"Você... Mentiu para nós...", Martin falou em um tom de decepção.
"Não, Martin, eu... Não...".
"Você devia ter nos contado. Você fez com que arriscássemos nossas vidas por uma causa falsa. Se você tivesse me contado, eu teria vindo do mesmo jeito, mas teria vindo sabendo o que iria encontrar. Eu teria vindo por você e por Savannah. Mas você fez com que nós lutássemos por um deles: por uma máquina. Sem nos avisar disso. Eu não esperava isso de você!".
"Dane-se isso, Mini Martin! Eu não arrisco meu traseiro por robô nenhum! Pode me dizer que ela está reprogramada, que ela é boazinha, por baixo dessa pele ela é o que está aparecendo na sua bochecha: metal. Uma maldita vaca de metal.".
"Diferente 'onde', diferente 'quando', mesmo 'quem'.", Cameron falou baixinho.
"Como você ousa se dirigir a mim???", Derek berrou.
"Calma, Derek! Escutem, vocês dois: eu realmente sinto muito por não ter contado a vocês que ela era uma máquina. Que eu estou apaixonado pelo inimigo. Eu devia ter contado, eu sei! Acreditem, eu sei! Mas vocês confiavam em mim ontem. Vocês lutaram por mim. Eu não peço que vocês aceitem, gostem ou entendam. Eu só peço que vocês lutem por mim mais uma vez, até nós voltarmos para a base. Vocês podem fazer isso?".
"Eu não sei o porquê, mas acredito em você. Se você diz que ela está do nosso lado, eu lhe darei uma chance. Você acredita nela... Isso é suficiente para mim.", Martin respondeu.
"E você, Derek?! Você pode fazer isso? Por mim?".
"Ei, eu só sou um soldado, John! Ainda estou sobre suas ordens. Se você quer levá-la de volta, eu não posso impedir. Mas fique desde já alertado que se eu suspeitar de qualquer coisa, por menor que seja, eu enfiarei uma bala no chip que ela carrega nessa cabeça de lata.".
"Tudo bem, Derek! Obrigado... A vocês dois. Venha, Cameron! Segure-se no meu ombro", John disse a ela, estendendo-lhe a mão, enquanto Derek resmungava, chamando todos os palavrões que conhecia. Por mais absurdo que fosse, John e Cameron já estavam até sentido falta dos rabujos de Derek.
Cameron segurou a mão de John, se levantou e apoiou-se no ombro dele, ela ainda estava muito debilitada para andar sozinha. E o caminho de volta seria longo. Mas nada disso importava mais, pois eles estavam juntos de novo. Não importava a distância, o tempo que os havia separava, pois eles estavam juntos. Como deveriam estar sempre. Como haviam nascidos para ficar.
"Nós temos um pequeno problema, John!", Martin aduziu.
"Como assim, Martin?".
"John ela é... igual a Allison... Totalmente igual! Como nós vamos explicar isso? Para todos, mas especialmente para Allison?".
"Bem... Eu ainda não pensei nisso, para ser sincero... Savannah me falou que Allison havia saído em missão, então, pode ser que ela não esteja na Base. Caso ela não esteja lá, nós falamos que Cameron é Allison... Agora, se ela estiver, as coisas serão mais complicadas... Não se preocupe, eu pensarei em algo no caminho de volta.".
Base da Resistência: Corredor (Noite, 2026).
Eles levaram mais três dias no caminho de volta. Cameron já estava totalmente recuperada das sessões de tortura a que Beatrix lhe submetera. E diga-se que estar ao lado de John novamente ajudou bastante sua recuperação.
John, Cameron, Derek e Martin estavam andando pelos corredores, em direção a sala de Savannah. Todos sentiram uma ponta de alívio ao descobrir que Allison ainda não havia voltado de missão; assim, todos pensavam que Cameron era Allison, o que evitaria uma grande preocupação.
Assim que os quatro chegaram à sala de Savannah, John e Derek entraram e Martin pediu para ficar do lado de fora com Cameron, pois gostaria de falar com Savannah à sós, depois que os dois saíssem. Obviamente, Derek e John não negariam essa satisfação a Martin e assim entraram apenas os dois.
Logo que John e Derek fecharam a porta, Martin ficou analisando Cameron, percorrendo seu corpo com os olhos, dos pés ao cabelo. Ele ficou fazendo isso por muitos segundo, até que Cameron começou a ficar incomodado com a atitude de Martin.
"Tem alguma errada comigo, Martin?".
"Foi você, não foi?".
"Fui eu o quê?", Cameron perguntou com ar inocente, apesar de muito provavelmente saber a que ele se referia.
"Foi você quem tomou conta de mim junto com a outra mulher de cabelos pretos e olhos azuis e me salvaram do Exterminador quando eu era criança, não foi?".
"Sim... Foi! Eu tomei conta de você junto com Sarah.".
"Por isso eu sempre achei que conhecia Allison de algum lugar. Como Sarah está? Ela ainda está viva?".
"Eu não sei lhe responder essa pergunta. Eu espero que sim.".
"Eu também! Caso você se encontre com ela algum dia, diga-a que eu a agradeço muito por ter tomado conta de mim e que eu nunca me esqueci dela nem do carinho que ela me deu. Que eu sempre a incluí em minhas orações e que menti quando eu disse que ela era péssima em ser mãe... Ela foi uma 'mãe' maravilhosa para mim. Mesmo só tendo ficado com ela por pouco tempo, eu a amei... E ainda amo.", Martin disse com a voz embargada.
"Eu direi a ela, Martin. Eu tenho certeza que ela ficará muito feliz em saber disso.".
"Obrigado a você também... Por ter cuidado de mim, me protegido e... lido histórias de ninar para me fazer dormir.".
"Não há porque me agradecer, Martin.".
"Há sim, Cameron. Você é um robô, não precisava fazer aquilo, não era sua missão, mas você fez mesmo assim. É por isso que acreditei em John quando ele disse que você estava do nosso lado. Desde aquele dia eu pude perceber que você nunca iria me machucar. Obrigado por isso, Cameron. Significou muito para mim.".
"Significou muito para mim também, Martin.", Cameron respondeu, sorrindo. Martin sorriu de volta e depois disso nenhuma outra palavra foi dito por nenhum dos dois. Todo o resto era supérfluo diante do haviam acabado de dizer.
Enquanto Martin e Cameron conversavam lá fora, John e Derek entravam na sala de Savannah, que estava sentada a sua mesa e levantou a cabeça, vendo os dois entrarem. Ela se levantou da cadeira e caminhou em direção dos dois, abraçando primeiro John, depois Derek e parando a frente deles.
"Vejo que vocês três cumpriram a missão... Como sempre!".
"Sim, Savannah. Nós conseguimos!".
"Salvaram Cameron? Conseguiram salvar a ciborgue?".
"Espere um pouco! Você sabia de Cameron?".
"Sim, eu sabia.".
"E você não achou importante contar para mim e Martin pelo que nós arriscávamos nossas vidas?".
"Mas vocês sabiam por quem arriscavam suas vidas. Não foi por Cameron, foi por John Connor.", Savannah respondeu, virando-se para John.
"E então, John... O que você vai fazer agora que cumpriu sua missão? Você vai se juntar a nós? Vai ficar conosco? Ou vai voltar para onde veio?".
"Eu... Não sei. Eu preciso discutir isso com Cameron.".
"Entendo. Quando você tiver tomado sua decisão, me avise.", ela falou dando uma pausa. Savannah ficou olhando para os dois como se quisesse perguntar alguma coisa, mas não tivesse coragem. Ambos sabiam que só existia uma coisa capaz de tirar a coragem da Generala.
"Ele está ali fora esperando nós sairmos. Disse que queria ver você a sós.", John antecipou-se a pergunta. Savannah ficou com as bochechas coradas de vergonha com a observação de John.
"Você ainda tem algum assunto para falar conosco, General?", Derek indagou.
"Não! Vocês estão dispensados.", ela respondeu.
Assim que os dois saíram da sala, John tomou as mãos de Cameron e seguiu pelos corredores em direção ao quarto dele (agora, o correto seria chamar de "quarto deles"). Derek pegou o caminho de outro corredor, que levava ao refeitório. Martin esperou por alguns segundos e entrou na sala.
Quando ele entrou, viu que Savannah estava em pé, a alguns passos da porta, como se estivesse esperando-o. E na verdade ela estava. Desde que Martin havia partido ela passava várias horas por dia apenas olhando para a porta, esperando que ela abrisse, Martin entrasse na sala e a tomasse nos braços, fazendo com que ela se sentisse bem de novo. Como somente ele até hoje a tinha feito se sentir. Ela esperava ansiosamente o dia em que ele a amasse de novo e a fizesse sua.
Mas Savannah pensava que isso não era bom! Que esse sentimento tirava sua atenção do que era realmente importante: a guerra! Era nela que Savannah tinha que pensar, não em Martin... Martin fazia tinha um efeito inebriante na Generala: ela tinha de pensar nele a todo o momento, ela o desejava a cada instante... sempre mais. Só que Savannah não tinha a vida que queria; ela não escolheu seu destino, ele a escolheu: a guerra exigia sacrifícios e a vitória da raça humana era mais importante do que ela ficar com o homem que ama. Ela tinha que manter sua cabeça no jogo!
Era isso que ela pensava... Mas ela não fazia idéia do quão ela estava!
"Você voltou!", ela disse, sorrindo e se aproximando dele.
"É claro que sim! Eu prometi que voltaria... Eu tinha um bom motivo para voltar!", ele respondeu abraçando-a.
"Martin...", ela olhou nos olhos dele, deu um suspiro e abaixou a cabeça antes de continuar: "Eu preciso te dizer...".
"Não continue! Eu sei o que você vai dizer e não quero ouvir. Nem perca seu tempo que eu não vou aceitar e não vou afastar um pé daqui!", ele interrompeu antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Martin tornava isso ainda mais difícil para Savannah.
"Eu não posso Martin... Procure entender que eu não consigo... Eu preciso comandar esse batalhão, eu tenho que me concentrar exclusivamente nessa guerra. E eu não consigo fazer isso com você perto de mim... Eu só consigo pensar em você, o dia inteiro. Eu fiquei horas e horas parada, olhando a porta, esperando por você. Não é isso que esperam de mim; não é o que eu espero de mim!".
"Isso não muda nada, Savannah. Eu não vou te amar menos por isso, nem vou mudar minha opinião. Eu te amo desde o primeiro dia em que te vi, quando ainda éramos criança e você brincava com seus patinhos de borracha. Eu tenho esperado por você desde aquele dia. Quando ficamos juntos pela primeira vez, em nossa adolescência, eu pensei que tudo ficaria bem e nós seríamos para sempre um só. Mas aí sua mãe se foi... E você se foi de mim. Eu perdi você e foi a maior dor que senti na vida, pior do que qualquer bala ou tortura que as máquinas já me tenham feito. Mas eu continuei amando você e te esperando. E então... John apareceu e me mostrou que nosso tempo é muito curto para esperarmos e em apenas um segundo tudo aquilo que amamos pode simplesmente sumir diante de nossos olhos. Quando isso acontecesse, não valeria mais a pena viver ou lutar... Você quer se sentir assim, Savannah? Eu posso não voltar da próxima missão; você sabe disso tão bem quanto eu. Você quer passar o resto da vida chorando pelo tempo que ficamos separados por causa dessa estúpida guerra e perder a vontade lutar, nos levando a derrota; ou lembrar do amor que tivemos um pelo outro e os momentos que passamos juntos? Por favor, Savannah, me dê um motivo para viver... Alguém por quem lutar!", Martin respondeu, erguendo o queixo de Savannah com o dedo indicador.
"Martin, quando éramos mais jovens era tudo muito mais fácil para mim. Mamãe carregava este fardo e eu não carregava o peso da nossa raça em meus ombros. Hoje eu trago em meu corpo as marcas do meu tempo; meu desespero, a vida num momento; a fossa, a fome, o fim do mundo... Hoje trago no olhar imagens distorcidas, cores, viagens. As minhas mãos enfraquecidas e vazias procuram nuas pelas luas, pelas ruas... Na solidão das noites frias por você. Hoje homens sem medo aportam no futuro; eu tenho medo, acordo e te procuro, meu quarto escuro é inerte como a morte. Hoje homens de aço esperam da ciência, eu desespero e abraço a tua ausência,
que é o que me resta, vivo em minha sorte. Eu não queria a juventude assim perdida. Eu não queria andar morrendo pela vida. Eu não queria amar assim como eu te amei. Como eu te amo.", Savannah disse chorando e enterrando seu rosto no peito do soldado.
"Você queria sim, Savannah. Você quer. Eu sei que você me ama, sei que você quer ficar ao meu lado. Você não é sua mãe, você não é um Messias. Você é uma mulher; uma mulher extremamente linda, a mulher por quem eu me apaixonei. Não passe a sua vida toda se sacrificando pelos outros, viva por você. Por nós! Se o peso que você carrega nos ombros é tão pesado como você diz, deixe-me ajudá-la a carregá-lo. Não feche mais seus olhos para mim, deixe que eu seja não apenas uma fantasia; deixe-me ser real. Fique comigo e venceremos essa guerra: eu e você!", ele disse, abaixando seu tom de voz a cada sentença e aproximando seus lábios aos de Savannah.
Seus lábios finalmente se tocaram e Savannah não teve forças para impedi-lo. Ela não queria impedi-lo. Martin guiou Savannah até sua cama sem quebrar o beijo por um segundo sequer e a deitou, gentilmente tirando as suas roupas enquanto espalhava beijos por todo seu rosto, boca, bochecha, algumas pequenas mordidas de leve na orelha, voltando aos beijos na bochecha, boca, pescoço, busto, barriga, cintura... Até que não havia mais nenhuma peça de roupa a ser tirada. Foi a vez de Savannah despir seu namorado e ela o fez com igual carinho. Finalmente, após a longa espera da parte dos dois, eles eram um só corpo de novo, e desta vez eles não se separariam tão cedo e Savannah não o deixaria mais ir embora sem dizê-lo o quanto o amava e precisava dele.
Pois ela sabia que Martin estava certo: ela o queria ao seu lado, ela precisava dele para lutar, precisava dele para viver. A guerra podia exigir muitos sacrifícios, mas isso não significa que Savannah estava obrigada a aceitá-los. Afinal de contas, não há destinos a não ser o que fazemos para nós mesmos. E o destino que Savannah havia escolhido era viver ao lado de Martin. Assim como o soldado precisava de um motivo para voltar das missões, a Generala precisava de um motivo para esperar o retorno dos soldados. E esse motivo era aquilo que nos diferenciava das máquinas com que lutávamos: amor. Era por isso que os humanos sempre ganhariam essa guerra: pois todos nós lutamos por alguém! Lutamos por amor!
Enquanto isso, John e Cameron chegavam ao quarto que havia sido designado como de John. Cameron conhecia muito bem aqueles quartos: antes de se deitar com o General, ela havia utilizado um desses quartos como seu, ainda que não dormisse nunca.
John abriu a "porta" para Cameron, que adentrou, fez uma varredura visual do quarto a procura de ameaças (um velho hábito) e ao perceber que tudo estava bem, sentou-se na cama, enquanto John fechava a "porta".
Ela ficou sentada olhando para John, que não tirava seus olhos dela, como se não acreditasse que ela finalmente estava com ele novamente. Finalmente ela havia voltado para o seu lugar de direito: com John. O olhar de John começou a deixar Cameron envergonhada, uma sensação nova para ela.
"Por que você está olhando assim para mim?", ela perguntou com aquele ar de ingenuidade do qual John tanto sentia falta. Ele não pode deixar de rir ao comprar a inocência de Cameron com a determinação de Allison. Todas iguais e tão desiguais.
"É que eu... Estou tão feliz que você está de novo comigo. Eu senti tanto a sua falta, Cameron. Não passou um minuto, um segundo, no qual meu pensamento não estivesse em você. Eu tive muito medo de te perder, Cameron. Muito medo!".
"Você não vai me perder, John. Eu já te disse isso.".
"É! Você já disse! Mas eu queria que você soubesse.", ele disse meio sem graça. Cameron se deitou na cama e olhou para John.
"Venha! Deite sobre mim.", ela falou com uma voz ao mesmo tempo terna e decidida. John não demorou mais do que alguns segundos para cumprir aquela ordem. Assim que seu corpo ficou sobre o Cameron mais uma vez, os dois suspiraram e ficaram com a respiração ofegante ao sentir de novo aquela sensação que ambos concordariam ser a melhor do mundo. Algum tempo se passou com John e Cameron apenas respirando perto do outro e olhando em seus olhos. Nada precisava ser dito, pois cada um sabia exatamente o que o outro pensava, pois racionava o mesmo. John foi o primeiro a quebrar o silêncio.
"Eu te amo, Cameron.".
"Eu também te amo, John.". John a tomou em um beijo que ele havia guardado por muito tempo e pela primeira vez desde que ele a salvou ele estava sozinho com ela para poder demonstrar quanta saudade sentia dela. Ele começou a passar as mãos pelos cabelos da ciborgue enquanto beijava todo o seu rosto. Cameron, por sua vez, segurava a nuca de John com uma das mãos e com a outra passeava pelas costas do jovem.
John começava a baixar os beijos para regiões inferiores do corpo de Cameron, quando esta colocou as mãos nas bochechas de John e o puxou para frente de seu rosto, ficando os dois face a face novamente.
"John... Por que você... veio atrás de mim? Eu te pedi para não me salvar de novo. Você se arriscou muito fazendo isso. Eu não sou importante, John: você é. Isso foi loucura.". John sabia que, em uma análise exegética, ela tinha razão e a lógica era irrefutável. Mas lógica não era uma coisa que passava pela cabeça de John quando o assunto era Cameron.
"Loucura? Loucura? Mas eu sou louco, Cam. Louco por ter me sentido tão sozinho, louco por ter ficado tão triste. Louco por pensar que meu amor não iria me prender a você. Louco por tentar, louco por chorar e louco por amar você. Eu sou louco, Cam: louco por você.".
Não importava o quanto estúpido John poderia agir às vezes ou o quão irresponsáveis pudessem ser suas atitudes: elas sempre tocavam Cameron e a deixava com uma estranha sensação de orgulho e completude. "Eu sou sua mais alta prioridade." era a frase que ela imaginava ao ouvir John dizendo coisas como a que havia acabado de falar. Ela sabia que isso era errado, que ela não devia pensar em si, e sim na segurança de John, mas ela não podia evitar em ficar lisonjeada com o quanto ele se importava com ela. Ela deu um de seus sorrisos com o canto dos lábios que só John conseguia captar.
De fato, ela sabia o quanto ele se importava e o tanto que a amava. Afinal de contas, John havia deixado tudo para trás e ido em busca dela. Ele tinha enfrentado todas as pessoas, robôs, tempo e espaço para tê-la ao seu lado de novo. Cameron jamais duvidaria do amor dele por ela. Nunca! Por isso, na primeira vez que ela expressou seus sentimentos, a frase que usou foi: "Eu amo você e você me ama.". Nada poderia expressar melhor o que Cameron sabia sobre sentimentos.
Mas ela sabia que ele a tinha conhecido. E isso podia mudar tudo: ela era uma versão de Cameron melhorada. Uma Cameron humana. Ela era perfeita para John: todos iriam aceitá-la de uma forma que Cameron nunca conseguiria; ele poderia passar o resto da vida com ela sem se esconder no quarto ou mentir para os seus soldados. Era com ela que John deveria estar, certo?
Errado! Não era assim que John pensava, não era por ela que ele sentia.
"John... Você...", ela pausou e respirou fundo antes de continuar, ficando um tempo em silêncio como se procurasse a melhor maneira de continuar; John sabia o que essa pausa de Cameron significava... "A conheceu, não foi?". Demorou alguns segundos para John entender sobre quem ela estava falando; mas ao ver o rosto de Cameron banhando de confusão e receio, ele pôde entender a quem ela estava se referindo.
"Você quer dizer... Allison?".
"Sim, Allison.".
"Eu a conheci, sim. Aqui na Resistência.".
"Então... Você sabe... O que eu fiz com ela, não sabe?".
"Você não fez nada com ela, Cameron. Pelo menos não para mim. Seu corpo pode ter feito aquilo, mas não sua mente, sua consciência... Para mim, a Cameron só existe a partir do dia em que eu te conheci na escola. Tudo que você fez antes disso, não era Cameron... Ao menos não 'a minha' Cameron. E é a 'minha Cameron' que me importa. É a 'minha Cameron' quem eu amo.".
"O que você achou dela?".
"Ela é... Normal. Um pouco 'decidida' demais.", ele disse rindo.
"Você gostou dela? Eu digo, ela é humana e eu sou igual a ela, eu entenderia se você quisesse...".
"Cameron...", ele a interrompeu antes que ela conseguisse terminar a sentença, "Nós dois sabemos para onde essa conversa vai nos levar: a lugar nenhum! Nós não precisamos disso. Isso não importa agora, certo? Eu não me apaixonei pelo seu corpo perfeito, pelos seus olhos castanhos que parecem duas piscinas ou pelo seu cabelo com perfume inebriante. Isso pode ter contribuído, mas não foi por isso que eu me apaixonei. Eu me apaixonei por você, pela sua mente, seu jeito, sua inocência e ingenuidade, o modo que você anda, como você fala, como você pensa, seu desejo de entender o mundo, pelas perguntas bobas que você me faz, pelo jeito com que você me protege e o modo pelo qual daria sua vida por mim. Eu vivi com você e é a você quem eu amo. Não a Allison!". Cameron ouviu atentamente cada palavra que John dizia e tentava assimilá-las da forma como ele as dizia.
Após algum tempo de silêncio entre ambos, John se virou na cama, deitando ao lado de Cameron e virou seu rosto para encontrar o dela, como o fizera tantas vezes no passado.
"Eu não me importo com você não ser humana, Cameron. Para mim isso não importa e você é muito mais do que um robô. Eu amo você exatamente como você é. Talvez você não devesse se importar com isso também.".
"Eu amo você também, John! Muito! É por isso que eu me importo. Eu queria ser o melhor para você. Eu queria ser o que você que você merece, o que você quer.".
"Você já é o que eu quero! Me diga, você gostaria de ser humana?".
"Não, porque eu não poderia protegê-lo de forma tão eficiente. Você deseja que eu fosse humana?".
"Não, porque aí eu poderia perdê-la mais facilmente.".
"Isso é amor, não é?!".
"Sim. Para nós, o amor significa proteger o outro.".
"Só isso? Se trata apenas de proteger um ao outro?".
"Enquanto você não aceitar que eu te amo do jeito que você é, que eu te amo não 'apesar de você ser uma máquina' e sim 'independente de ser uma máquina ou humana', o nosso amor não vai poder ser muita coisa além disso.".
"Nesse caso, eu gostaria que o nosso amor fosse algo mais."
"Eu gostaria disso também.".
"Mas enquanto tivermos de nos proteger da Skynet, o nosso amor continua a mesma coisa...". Cameron pensou um pouco antes de dizer para John: "Nós não temos de deixar que a Skynet mantenha nosso amor na mesma coisa.".
"Não, nós não temos. Basta você entender que eu amo você e você me ama.".
"Eu acho que eu entendo. Eu posso não saber muitas coisas sobre sentimentos, mas eu sei que eu amo você e você me ama. E que eu senti muita falta de você e pensar que nunca mais te veria de novo acabou com toda minha vontade viver. Eu tive medo, John. Medo por mim, medo de não poder ser sua de novo; de não sentir seu corpo sobre o meu e não ter você dentro de mim de novo; medo não poder te dar um último beijo e de dizer o quanto eu te amo e que eu não existo sem você.".
"Cameron, eu vim para o futuro e percebi que não existe essa manhã que eu perseguia: um lugar que me dê trégua ou me sorria e uma gente que não viva só pra si. Só encontro gente amarga mergulhada no passado, procurando repartir seu mundo errado nessa vida sem amor que eu aprendi. Por uns velhos e vãos motivos somos cegos e cativos no deserto do universo sem amor. E é por isso que eu preciso de você, como eu preciso! Não me deixe um só minuto sem amor... Vem comigo! Meu pedaço de universo é no teu corpo; eu te abraço e com o corpo imerso no teu corpo teus braços se unem em versos à canção em que eu digo que estou morto para esse triste mundo antigo; que meu porto, meu destino, meu abrigo são teu corpo amante amigo em minhas mãos.".
Ao John terminar de dizer isso, Cameron inclinou seu rosto em direção ao de John, fazendo com que seus lábios se tocassem novamente, enchendo cada um com o amor do outro, que crescia na medida em que era compartilhado.
Ela quebrou o beijo, olhou para John e perguntou:
"John, já é tarde e nós passamos os últimos dias todos lutando, andando e comendo pouco. Você deve estar exausto. Você não quer dormir?".
"Ainda é cedo, temos tempo, vamos viajar. Sinta o vento que sopra e pode nos levar. Faça um pedido: um dia pode acontecer. Fique comigo: anoiteça e quando amanhecer siga o Sol. Ainda é cedo mesmo quando é tarde para ficar. Sinta o tempo passar por nós sem nos tocar. Corra o risco de viver sem ter que pertencer. Ache o motivo, seja livre e se amanhã chover siga o sol. Ainda é cedo mesmo quando o dia acabou. Um dia não é só o tempo que passou. Quando escurecer, mesmo assim siga o sol.".
Não demorou até que John começasse a beijar outras áreas do corpo de Cameron enquanto ia despindo-a levemente. Seu corpo nunca tinha parecido tão perfeito como agora. Assim que Cameron ficou completamente nua, foi a vez de ela passear os lábios pelo corpo de John, fazendo com que o General se sentisse bem de um jeito que só Cameron conseguia. Quando Cameron terminou de despir John, ele a deitou gentilmente na cama e observou por alguns segundos a visão dela deitada, olhando para ele com um sorriso que lhe aquecia o coração.
Ela lê minha mente, ela é esperta como uma raposa; ela me suga todo, mas mesmo assim eu continuo me derramando por ela. E no momento do êxtase eu escrevo uma sinfonia, uma poesia em forma de movimento e fico quase como morrendo. Eu digo a mim mesmo que ninguém nunca tomará seu lugar, eu a quero perto de mim, nós dividimos a mesma visão e veja o quanto enxergamos melhor juntos. "Eu apenas quero ficar mais perto do que perto de você no momento em que você descobrir o que o melhor do meu amor pode te fazer.".
A alma dele está nua e me diz o que ele quer; eu a leio como uma carta e veja o quão mais perto nós estamos. Ainda há mais para nós descobrirmos desta filosofia, mas nós dois acabaremos no paraíso, veja como ficamos mais próximos. "Eu apenas quero ficar mais perto do que perto de você no momento em que você descobrir o que o melhor do meu amor pode te fazer."
Ela estava pronta para recebê-lo dentro de si e esperava ansiosamente por isso, tanto quanto John desejava estar dentro dela. John se inclinou e posicionou seu corpo sobre o dela, desabando seu peso na ciborgue que o aceitou sem qualquer ressalva. Era a melhor sensação do mundo para ambos e não havia palavra no vernáculo que pudesse descrever o quanto eles sentiam falta disso, o quanto a vida de ambos era miserável e sem sentido enquanto eles não estivessem juntos, não pudessem ser um só corpo.
O fim do amor é a paz; o meio de atingi-lo, é a luta. O amor não é uma simples idéia, é força viva. A luta sem o amor é a força bruta, o amor sem a luta é a impotência do sentimento. Um completa o outro. O amor só pode existir quando a luta bradir a espada com a mesma habilidade com que manipula a pena.
Realmente, John e Cameron deviam ser um só sempre e em todo lugar, pois esta era sua missão, esse era seu destino: lutar e amar.
Após o término do ato de amor do casal, Cameron estava deitada ao lado de John, com as costas grudadas ao peito de seu amante. John dava pequenos – porém constantes – beijos em sua namorada, espalhando-os pelos ombros, nuca, cabelos e qualquer lugar que alcançasse. Cameron virou-se para ficar de frente para John e lhe retribui o beijo com o mesmo carinho que ele lhe dera.
Ela sorriu para John e ele lhe sorriu de volta. Ele sussurrou melodiosamente no ouvido de sua amada:
"Vai ser preciso muito para me afastar de você. Não há nada que cem homens ou mais possam fazer para me manter afastado. Eu nunca senti isso com ninguém, nunca precisei dizer uma palavra para você, pois tudo que precisamos dizer está aqui, nessa cama conosco; essa chama dentro de nós que nos queima e circula em todo lugar. E se eu minha vida acabasse amanhã, ao menos eu teria tido essa noite. Agora eu sei como um sentimento cresce, pois você me fez viver. Eu nunca me cansarei de você, nunca terei o bastante de você; apenas quero te dar ainda mais.". Cameron derramou uma lágrima de emoção, quando John a pegou com seu dedo e lhe falou: "Ei! Se você me disse que nós podemos resolver qualquer coisa, então por que desperdiçarmos tantas lágrimas?". Ele se inclinou e beijou Cameron mais uma vez e a abraçou, mantendo-a perto dele.
Tudo estava calmo na vida de ambos e o momento estava perfeito, mas John sabia que isso não duraria para sempre e que o tempo não andava a favor deles. Ela tinha que falar com Cameron sobre qual seria o próximo passo deles. E ele sabia que ela faria a escolha correta. Aquela que ele não queria.
"Cam... O que nós fazemos agora? Nós ficamos aqui, nós voltamos? O que fazemos?".
"Nós temos que voltar, John. Você sabe disso.".
"Por quê? Savannah parece ser um General bem melhor do que eu seria... Eu tenho certeza que ela pode ganhar essa guerra. Eu lutarei ao lado dela.".
"Talvez ela possa, John. Talvez não... Você quer mesmo arriscar a raça humana só para você não ter que assumir a responsabilidade? Só para fugir de seu destino? Eu não lutarei por ela, John. Eu só luto por você!". John ficou calado por um tempo, pensando em como rebater esse argumento, mas Cameron o conhecia bem até demais para saber que era exatamente isso que ele tentava.
John podia ouvir os sons ecoando na noite, como se fossem murmúrios de uma conversa serena. A luz da lâmpada iluminava o rosto de Cameron que parecia refletir as estrelas que o guiariam ao caminho da salvação. E John ficou olhando-a em silêncio, esperando encontrar palavras há muito tempo esquecidas ou antigas melodias. Os cães selvagens uivavam na noite, conforme ficavam, impacientes desejando alguma companhia solitária. Então, John tentou curar o que tinha bem no fundo do coração,
assustado com aquilo que teria de se tornar.
"Por que apenas eu posso ser esse tal Salvador? Por que eu tenho que carregar esse peso sozinho? É pedir demais para que eu não tenha de lutar? É errado querer fugir desse destino?".
"Ainda mesmo que a fuga seja a única salvação, eu não fugirei, pois aqueles que usam a coroa não devem sobreviver à sua perda, John. Se quiseres fugir, foge, ficas neste tempo. Eu, porém, voltarei. Gosto desta velha máxima: a púrpura é uma bela mortalha.".
John ficou perplexo com a resposta de Cameron, resposta esta que ele nunca esperaria. Mas no fundo, ele sabia que Cameron estava certa: esse fardo era dele e ele teria de carregá-lo, mas não sozinho: ela estaria ali para ajudá-lo. Agora e sempre!
E pela primeira vez em muito tempo, John realmente aceitou inteiramente o seu fardo. E então os ventos do destino começaram a soprar e seus tempos de meninos
foram ficando para trás. Com a força de um moinho que trabalha devagar,
John e Cameron buscariam seus caminhos, sem nunca olhar para trás. Hoje o tempo voa como se nas asas de um avião sobrevoando os campos da destruição. Hoje o céu está pesado e vem chegando um temporal. Nuvens negras do passado, delirante flor do mal. Cometemos o pecado de não saber nos aceitar, sempre olhando para o mesmo lado feito estátuas de sal. Hoje o tempo escorre dos dedos da nossa mão, mas a vida não devolve o tempo perdido em vão.
Este não era o tempo deles. John e Cameron não pertenciam a este mundo. E o lugar ao qual eles pertenciam precisava deles: mais uma vez eles teriam que se sacrificar por um mundo repleto de pessoas que só queriam separá-los. Mas isso não importava mais, porque eles agora tinham a certeza que não importava o lugar, o tempo ou quem quer que fosse que tentasse separá-los, eles estariam sempre juntos!
Aqui ninguém mais ficará depois do sol. No final será o que não sei, mas será tudo demais. Nem o bem, nem o mal, só o brilho calmo dessa luz... O planeta em calma será a Terra, o planeta sonho será a Terra. E lá no fim daquele mar a nossa estrela vai se apagar como brilhou; fogo solto no caos... Aqui não é um bom lugar de se viver. Bom lugar será o que não sei, mas será algo a fazer, bem melhor que a canção mais bonita que alguém lembrar... A harmonia será a Terra, a dissonância será bela. E lá no fim daquele azul os meus acordes vão terminar, não haverá outro som pelo ar...
"Ok. Nós vamos voltar. Amanhã eu falo com Savannah e digo que estamos indo.".
"É a coisa certa a se fazer, John.".
"Eu sei!", ele disse baixinho antes de se aproximar de Cameron e fazer com que seus lábios se tocassem novamente.
"Ela deve estar sentindo muito a sua falta. Deve pensar em você a todo segundo.".
"Eu sei. Eu sinto a falta dela também. Nós temos nossos desentendimentos algumas vezes, mas ela foi a melhor mãe que eu poderia ter. Nada pode me afastar dela. Só você...".
"Eu não quero te afastar de Sarah, John. Pois eu sei que isso te faria sofrer e não quero trazer tristeza para você. Eu sempre fiz de tudo para que Sarah não desconfiasse do que eu sentia por você. Se você não a tivesse convencido a aceitar nossa relação, eu...".
"Não importa, Cam, porque ela aceitou. Eu sinto muita falta dela. E de Derek também.".
"Derek? Mas ele está aqui.".
"Não é o mesmo Derek.".
"Ele tem o mesmo peso, estrutura corporal, feições e DNA. Ele é o mesmo Derek para mim.".
"Ele não tem a mesma mente do Derek que conheci. Eles não são iguais, não pensam iguais, não agem da mesma forma.".
"Esse Derek também não gosta de mim, também me odeia e me despreza. Eles são exatamente os mesmos, a meu ver.".
"O Derek não te odeia, Cam. Ele apenas não estava pronto para aceitar que você é diferente. Ele não conseguia entender nós dois juntos. Mas você já se perguntou como eu cheguei aqui, nesse tempo?". Cameron levantou a sobrancelha esquerda e refletiu um pouco: ela havia ficado tão feliz quando viu John que não havia pensado nisso. Ela fez um sinal negativo com a cabeça. "Foi Derek... Ele me ajudou a encontrar você. Derek me disse onde havia uma máquina do tempo.".
"Derek ajudou você a me encontrar. Estranho... Por que ele faria isso?".
"Porque ele entendeu que eu só lutaria com você ao meu lado. Que era você que me fazia ser o General John Connor. Sem você, eu não teria motivos para continuar. Ele finalmente entendeu que 'eu te amo e você me ama'.".
"Será que agora, então, ele vai parar de me xingar e me tratar mal?", Cameron perguntou com uma ingênua expectativa.
"Eu não contaria com isso", John respondeu com uma gargalhada.
"Acho que não podemos ter tudo, não é?!", Cameron falou com um sorriso.
"É, eu acho que não.".
"Mas podemos ter quase tudo... Eu posso ter você? De novo?".
"Claro que sim, Cam. Sempre que você quiser. Eu acabei de te dizer que eu apenas queria te dar mais de mim.", John a respondeu com um beijo.
Base da Resistência: Sala da Savannah (Manhã, 2026).
John e Cameron estavam parados, a frente da sala da Savannah. Ela havia pedido que John a avisasse assim que tivesse tomado sua decisão.
Não seria fácil: John não sabia dizer o porquê, mas ele tinha criado um vínculo sentimental com Savannah desde a primeira vez que a viu, na clínica do Dr. Sherman. Ela era a criança mais doce e fofa que ele já tinha visto. Ele não iria negar que por algumas vezes tinha pensado nele vivendo com Cameron e uma "filha" igual a Savannah. Ok, ok, sua mente estava divagando demais no momento. Agora, ele tinha coisas mais importantes a fazer.
John abriu a porta e entrou na sala junto com Cameron. Savannah estava, como usual, sentada em sua mesa e levantou a cabeça vendo os dois entrarem. Ela largou os papéis que lia sobre a mesa e olhou diretamente para os dois que estavam em pé, um ao lado do outro, tão próximos que quase chegavam a se fundir. Savannah achou curioso que mesmo sabendo quem (ou "o quê") ela era, não pôde deixar de notar que ela e John pareciam perfeitos um ao lado do outro, um belo casal, como se fosse o destino deles ficar assim, como se aquele fosse o lugar deles. E de fato, era!
"Você veio me contar sua decisão, correto?".
"Correto."
"E qual foi ela? Você irá se juntar a nós?".
"Eu vou continuar lutando, Savannah, sempre! Mas aqui... Não com vocês... Eu gostaria muito disso, mas eu não posso. Eu tenho que fazer o que é certo para mim. Para nós! Eu não posso mais fugir disso. Eu tenho que voltar e continuar as coisas de onde eu parei. Quem sabe assim eu não evito tudo isso... Evito Skynet, a guerra, a morte de sua mãe.".
"Eu sinto muito ouvir isso, John. Você seria muito útil aqui conosco. Você poderia comandar as tropas, eles confiariam em você.".
"Nós precisamos voltar, Savannah.".
"E como você pretende fazer isso, John?".
"No local onde Cameron estava presa, perto da 'Caverna do Dragão', existe uma máquina do tempo. Nós a usaremos para voltar.".
"Bem, eu suponho que nada que eu diga ou faça vai mudar sua opinião, certo?".
"Certo.". Savannah se virou para Cameron e perguntou:
"E você? Existe alguma possibilidade de eu convencer você?". Cameron olhou para Savannah com um rosto repleto de curiosidade e não respondeu a pergunta, apenas inclinou a cabeça para o lado. "Ela não fala muito, não é?!", Savannah perguntou para John com ar de jocosidade. John apenas deu uma discreta risada de volta.
"Eu sei que não é da minha conta, mas eu posso perguntar algo para você, John?".
"Claro!".
"Eu já pude comprovar que você a ama... Eu percebi isso desde que vi vocês dois pela primeira vez. Mas você pretende ficar com ela para sempre? Digo, você lutará ao lado dela se for preciso? Mesmo ela sendo uma robô? Mesmo que você tenha que contrariar a Resistência? Vocês permanecerão juntos?". Antes mesmo que John pudesse responder, Cameron pegou a mão dele e entrelaçou a sua, respondendo:
"Nós permanecemos. Nós permaneceremos.". Savannah ficou um tanto quanto surpresa com a convicção de Cameron. Ela se virou para John, como se esperasse uma confirmação da parte dele. Ele simplesmente se limitou a repetir: "Nós permanecemos. Nós permaneceremos.".
"Ótimo. Com vocês lutando lado a lado, eu não duvido que nós vamos ganhar essa guerra. Skynet pode derrotar os humanos ou os robôs, mas não pode vencer quando os dois se unem com um objetivo em comum. Ela não pode derrotar os dois times ao mesmo tempo. Eu acredito em vocês. Eu acredito no amor de vocês. Eu acredito que vocês lutarão por nós, por vocês, pela vida, por amor.".
"Obrigado, Savannah.".
"Não, John, obrigada a você. Você trouxe muito mais do que esperança para minha vida. Eu não tenho como agradecer a você por tudo que você me proporcionou alcançar. Foi uma honra servir com você, John!".
"Foi uma honra ter você como Generala, Savannah.".
"Cameron...", Savannah falou, virando-se para a garota e fazendo uma pequena pausa antes de continuar, "Cuide bem dele... Proteja-o, livre-o de todos os perigos, esteja ao lado dele, mas acima de tudo: ame-o. Nós precisamos de você, contamos com você para isso. Torne-o nosso General.".
"Eu o amo. Eu o amarei.", ela respondeu, mas olhando para John.
"Ótimo. Vão, John e Cameron. Vocês estão dispensados.", Savannah se despediu, batendo uma continência para John, que executou uma de volta para ela.
John e Cameron se viraram de costas para a mulher e fizeram seu caminho até a porta. Assim que John a estava abrindo, Savannah lhe chamou:
"John, antes de você ir, podia me fazer um último favor?".
"Claro.".
"Peça para Martin vir aqui?". John deu uma pequena risada.
"Ok.", e fechou a porta.
Do Lado de Fora Base da Resistência (Noite, 2026).
John e Cameron estavam do lado de fora, em frente à Base da Resistência. Eles tinham de fazer o caminho de volta para o prédio onde a máquina do tempo se encontrava para que pudessem voltar ao seu tempo e começar de novo a sua própria guerra.
John olhava vagamente para o horizonte, como se estivesse se despedindo de tudo aquilo. Ele percebeu agora uma coisa que não havia percebido antes: um pé de flamboyant perto do banco de areia que escondia a porta da base. Ele não pôde deixar de refletir o quão intrigante era aquela flor cultivada no meio daquele cenário apocalíptico. Apenas ela, embelezando aquela paisagem tomada de corpos, escombros e armas; repleta de sangue, dor e morte. Mas apenas o fato daqueles flamboyants terem nascido, sido cultivados e resistido já demonstrava uma esperança: uma chance do mundo voltar a ser bonito, a ser colorido e vivo de novo. Cameron tomou a mão dele, a levantou e colocou a sua própria por cima, dizendo:
"Está tudo bem, John. Eu estou aqui com você. Estou aqui por você. Eu estarei com você mesmo quando as estrelas deixarem de brilhar, o céu explodir e as palavras não rimarem. Eu sempre estarei aqui por você, John. Tal qual esse flamboyant que sobreviveu, ainda que em meio à guerra, eu sempre viverei para lutar ao seu lado. Assim como Sarah e Derek. Nós sempre estaremos com você. Você está pronto para voltar?".
"Eu nasci pronto! Vamos, Cam. Vamos voltar para nossa casa!".
E assim os dois partiram, juntos e de mãos dadas para a caminha de volta. A caminhada que selaria o destino dos dois juntos para sempre. O início do caminho que tornaria John o General que ele deveria ser e colocaria Cameron no lugar que ela deveria ocupar. A trilha que terminaria a missão que Sarah tinha começado há quase duas décadas atrás. A via que uniria Derek ao lado de seu sobrinho para que ele pudesse ensiná-lo aquilo que as duas mulheres em sua vida não podiam: ser um homem!
O caminho que definiria o destino da família Connor e, inexoravelmente, de toda a humanidade.
