Capítulo X: Tímese Parabólica.

Eu abri meus olhos, mas isso não fez com que pudesse enxergar alguma coisa. Era madrugada, eu sabia disso. Já estou acostumado a não dormir mais do que duas ou três horas por noite. Eu sempre dormi muito pouco: em um mundo constantemente em guerra, qualquer segundo pode ser a diferença entre acordar para tomar café ou levar uma bala na cabeça enquanto se sonha. Mas nos últimos dias, esse "pouco" estava ficando "pouco" mesmo para mim.

Toda vez que acordo, abro os olhos e encontro o breu; e eu sempre sento um vazio dentro de mim... Um vazio ao meu lado. Uma cama vazia... Ela nunca estava ali.

Eu sei onde ela está e o que está fazendo; mas eu nunca ouso ir atrás dela. Porque tudo que eu queria é que ela estivesse deitada ao meu lado, e por uma noite eu havia conseguido isso. E aquela noite reverbera em minha mente toda vez que eu fecho os olhos e mesmo quando eu os abro e olho o escuro.

Não foi errada a escolha que eu fez de cumprir minha missão! Mas também não é errada minha vontade de querer uma chance para mim mesmo. De fazer algo não por outra pessoa ou por um ideal, mas simplesmente porque é isso que meu coração quer. É ela quem eu quero.

Eu podia ter acordado de madrugada como em uma noite qualquer; ela não estar em sua cama, ao meu lado, como em uma noite qualquer; eu podia desejá-la como em uma noite qualquer. Mas esta não é uma noite qualquer: pois nesta noite eu me levantei. Esta noite eu fui atrás dela. Dessa vez, eu desejei; e eu agi!

Eu me levantei de minha cama, coloquei uma camisa e me dirigi até a porta do quarto, abrindo-a. Meus olhos doeram um pouco enquanto minha pupila tentava se ajustar com a claridade a que agora era submetida. Respirei fundo, tomei coragem e segui o corredor, até chegar próximo à escada. Eu desci os degraus calmamente, tomando cuidado para não fazer barulho e após caminhar um pouco, pude vê-la.

Ela estava, como sempre, deitada no sofá, agarrada a uma almofada, com a TV ligada em um canal qualquer (o que não fazia diferença, vez que ela sequer prestava atenção no que estava passando). Tudo que ela fazia era ficar deitada ali, com os olhos fixados no espaço, longe de tudo... Pensando... Sentindo... Sofrendo... Chorando...

Ela chora... Disfarça e chora. Aproveita a voz do lamento até chegar a aurora. A pessoa que ela tanto queria antes mesmo de raiar o dia a deixou o por outra. Todo o pranto tem hora e ele via seu pranto cair no momento mais certo. Olhar, gostar só de longe, não faz ninguém chegar perto e o pranto dela vai molhar o deserto. Ela só disfarça e chora.

Que mistério pode haver na lágrima de uma mulher quando abre o seu segredo? Que momentos de aflição há no tremor da sua mão onde esconde os seus medos? No abandono do teu pranto eu me perdi e não sabia o que dizer pra consolar. Tive raiva dessas mágoas que puseram em você; tive pena dos que nunca te puderam conhecer. Eu sinto muito cada dor que te marcou ou que modificou seu jeito de amar.
Os estragos improváveis de um carinho poder curar; os escudos invisíveis para um homem penetrar. Mas que mistérios pode haver na lágrima de uma mulher?

Eu pensei se devia chegar mais perto, tocá-la, chamá-la, confortá-la, tomá-la nos braços, qualquer coisa. Mas eu simplesmente me contive e fiquei observando-a. Tudo que eu queria era abraçá-la, dizer que tudo ia ficar bem e que eu estava aqui por ela... Para ela! Só que eu não o fiz... Eu nunca o fazia. Era este o meu desejo, mas desejo sem ação é simplesmente um sonho e o mundo não socorre os que dormem. Ousar, querer e agir: isto era o que eu havia aprendido a fazer para alcançar meus objetivos. Por que com ela tudo era tão diferente?

Mas eu não vim até aqui para desistir agora. Se depender somente de mim eu vou até o fim... Voando sem instrumento, ao sabor do vento; se depender de mim eu vou até o fim. Ficar perto dela toda vida, o dia inteiro não seria exagero; se depender de mim eu vou até o fim. Pois era isso que eu queria: cada célula, todo fio de cabelo – e se falando assim parece exagero, não o era -, se depender de mim eu vou até o fim. Até o fim.

"Sarah?", ele a chamou, se aproximando do sofá onde ela estava.

"Vá embora, Derek! Eu não quero falar com você...".

"Você está bem?".

"Você sabe a resposta a essa pergunta."

"Tente entender, Sarah. Ele fez a escolha que ele...".

"Eu não quero ouvir, Derek. Apenas me deixe sozinha.", ela respondeu cortando a argumentação do tenente. "Eu entendo o fato dele ter feito essa escolha, entendo os motivos dele. Também entendo você ter tê-lo ajudado. Mas isso não faz com que doa menos ou eu não sinta tanta falta dele. A dor é a mesma.". Ela saiu da posição deitada em que se encontrava e se sentou, olhando para Derek. Ele pôde ver as lágrimas caindo em sua face e os lindos olhos verdes de Sarah partidos por uma profunda solidão. Nesta hora, ele soube que ela precisava dele tanto quanto ele precisava dela. Assim, o vazio de ambos seria preenchido e a dor que sentiam podia ser apaziguada. Pois eles podiam não ter nascido um para o outro, como John e Cameron, mas eles se fizeram perfeitos para si, se moldaram e cunharam-se para ser exatamente aquilo que o outro precisava. O que o outro desejava.

"Você está solitária, Sarah. Você gostaria de alguém para conversar? Eu estou me sentindo meio solitário também... Se você não se importar, posso sentar aqui ao seu lado?".

"Por que você me faz essas perguntas, Derek? Por que você fala essas coisas?".

"Eu digo estas coisas porque eu gostaria de saber se você está tão solitária quanto eu estou. E se você se importaria de partilharmos a noite juntos. Nós poderíamos simplesmente ficar aqui até surgir a manhã se você quiser chegar tão longe assim. E se o dia de amanhã nos encontrar juntos, bem aqui do jeito que estamos, ele não irá se importar se partilharmos a noite juntos.

Você gostaria de me abraçar? Você sabe que eu quero ficar te abraçando... Pois eu gosto de me sentir como eu estou me sentindo, e eu vejo em seus olhos que você gostaria disso também... Eu gostaria realmente de te conhecer, Sarah... Conhecer você de verdade, a verdadeira Sarah Connor, não aquela que viveu para treinar o General Connor, mas simplesmente você. A Sarah Connor 'mulher'. Essa parte sua que precisa desse meu abraço..."

"E como você quer que eu faça isso, Derek?! Como você quer que eu esqueça a dor que estou sentindo? Como juntar os pedaços do meu coração que se partiram?".

"Deixe-me ajudá-la a fazer isso, Sarah. O amor tem feito coisas que até mesmo Deus duvida. Já curou desenganados, já fechou tanta ferida. O amor junta os pedaços quando um coração se quebra; mesmo que seja de aço, mesmo que seja de pedra. Fica tão cicatrizado que ninguém diz que é colado. Foi assim que fez em mim; foi assim que fez em nós, esse amor iluminado...".

Sarah estava abraçada com Derek, seu queixo sobre os ombros dele. Ela sempre havia sido forte, sempre havia agüentado toda a dor, todo sofrimento, toda dúvida... Por John. Ela precisava ser forte por ele, precisava resistir por ele, para que ele não desistisse nunca. Ela era a sua fortaleza, seu porto seguro, a pedra angular da coragem força e determinação de John. Se ela desmoronasse, John e toda humanidade ruiriam juntos. Pois quem duvida da vida tem culpa, mas quem evita a dúvida também tem. Sarah não podia deixar isso acontecer.

Mas ela já havia ensinado a John o que ele tinha de saber. E John havia seguido seu próprio caminho. O caminho que seu coração havia traçado, tal qual Sarah havia lhe ensinado. Agora ela não precisava mais ser forte por ele. Ela podia se permitir a dividir a dor com alguém, a extravasar o sofrimento. A ser simplesmente a "Sarah", a mulher que há muito tempo ela havia esquecido e deixado para trás.

Ela chorou abraçada a Derek. Chorou como há mais de uma década não havia chorado, sentindo o corpo de Derek junto ao seu e as mãos deles passeando em suas costas, dando-lhe uma calorosa sensação de conforto que ela nunca havia experimentado.

Sarah se permitiu passar muito tempo ali, apenas abraçada a Derek, em silêncio. Pois nada precisava ser dito e tudo que eles precisavam no momento era estarem juntos. Eles realmente eram feitos um para o outro. E que o mundo explodisse lá fora e que as bombas da Skynet queimassem o planeta. Não importava! A missão deles estava cumprida e seu desejo estava satisfeito!

Eu beijo seus lábios, desejo o amar. Perto dele, sou como isca na ponta do anzol. É como num dominó onde peças vão combinar; um eclipse pleno da Lua no Sol. Sinto no ar, como um Sândalo de Dândi o dom de querer bem. Foi só perceber: tudo o que é mutante muda muito alguém. Sou apenas uma frágil aprendiza, mas tudo bem. Sinto no corpo o prazer de encenar cenas de um filme de amor. Venço os limites, quando ele insiste em me querer, tudo nele me atrai. Ele é como um alvo de míssil que me seduz, um imã que atrai explosão. Como um farol girando, raios de luz ou fio de laser de alta tensão. Perto dele, eu consigo ser "somente a Sarah".

Sarah ainda estava abraçada a Derek. Derek ainda passava as mãos pelas costas de Sarah. O mundo ainda estava parado e a Terra não girava. Sarah levantou a cabeça do ombro de Derek e olhou fundo em seus olhos, por alguns segundos – tempo que pareceu muito mais que o necessário para dizer algo e menos que o suficiente para que Sarah pudesse guardar a sensação em sua memória. Ela inclinou seu rosto em direção ao dele, praticamente encerrando o espaço entre os seus lábios:

"Estou esperando, Derek.", Sarah disse enquanto fazia desaparecer a pouca distância que ainda havia entre eles.

"O quê?".

"Pelo momento no qual você dirá as três palavras que eu não consigo dizer.", ela disse um sussurro, fazendo com que apenas milímetros separassem a sua boca daquela pela qual ela desesperadamente buscava para completá-la.

Eu tomei a sua boca para mim, como há muito tempo desejava poder de novo. Nós passamos uma única noite juntos. Apenas por poucas horas pudemos ser um só corpo e apenas por algumas vezes pude conhecer a sensação dos seus beijos. Poucas vezes que fizeram com que toda minha tumultuada vida amorosa antes dessa noite perdesse completamente o sentido. E fez também com que todos os momentos posteriores em que nossos corpos estiverem longe um do outro fossem ainda mais agonizantes. Mas agora nós estávamos juntos de novo, e mesmo que fossem por outros poucos segundos, eles valeriam por toda uma eternidade separados.

"Você não falou as três palavras.", Sarah disse ofegante assim que o beijo foi quebrado.

"Eu não preciso dizer. Você as conhece... E me conhece também.", ele respondeu tão baixo que parecia que ia doer se ele falasse em voz alta.

"Eu sei...", ela respondeu em igual tom.

O beijo recomeçou tão caloroso quanto o primeiro. E assim como aquele, só durou alguns segundos. Mas dessa vez não foi um deles que parou para dizer algo: eles ouviram um barulho vindo da cozinha, como se alguém estivesse tentando arrombar a janela para entrar na casa.

Ambos se levantaram silenciosamente; enquanto Sarah puxava sua escopeta de baixo do sofá, Derek pegava uma pistola fixada em um fundo falso do criado mudo. Eles se dirigiram sem fazer um som sequer à cozinha, e chegando lá, confirmaram suas suspeitas: alguém havia invadido a casa. Eles só não poderiam adivinhar quem tinha sido!

Seu coração quase parou de bater e ela esqueceu como se respirava por um instante. Sarah jamais poderia imaginar que no meio dessa madrugada ela o veria de novo: John estava em pé, próximo à janela, com a mão estendida para Cameron, a qual estava com uma das pernas ainda pendurada da janela, terminando de entrar na casa.

Assim que Sarah os viu, ela derrubou a arma ao chão e ficou parada a frente dos dois, que somente a perceberam quando ela se aproximou deles. Passaram-se alguns segundos nos quais ela apenas ficou ali parada, olhando para John e ele igualmente apenas retribua o olhar. Era como se ambos quisessem se certificar que aquele que viam era real.

Quem deu o primeiro passo, o primeiro movimento, foi Sarah em direção a John. Ela deu alguns pequenos passos em direção a seu filho, que começou a caminhar em passos curtos ao encontro da mãe. Não demorou muito para que ambos estivessem apenas alguns centímetros separados um do outro e embora a vontade tomasse conta deles, o abraço não foi imediato: eles pararam por um instante e houve um silêncio falando de amor entre eles. Como se eles se vissem pela primeira vez em vinte anos. Sob certo ponto de vista, isto não deixava de ser verdade.

O abraço entre eles não tardou a chegar. E John havia se esquecido por um tempo o quanto o abraço de Sarah era importante para ele: seus braços sempre se abrem quando ele precisava um abraço; seu coração sabia compreender quando precisava uma amiga; seus olhos sensíveis se endurecem quando preciso uma lição; sua força e seu amor o dirigiram pela vida e deram as asas que ele precisava para voar. Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo, John precisava viver. E que irônico: pra viver, ele precisava perdê-lo... E assim ele o fez quando partiu. Agora que ele havia vivido sem ela, John tomou ciência do quanto precisava de Sarah em sua vida. Ele ainda não estava pronto para deixá-la. E talvez nunca estivesse.

"Mãe, eu...".

"Não fale nada, John!", Sarah o interrompeu. "Não agora! Depois nós iremos para a sala. Lá nós sentaremos e você poderá me dizer o que você quer. Por enquanto, apenas fique aqui e deixe-me senti-lo em meus braços de novo.".

E neste abraço eles continuaram por alguns minutos, sem dizer nada. O pequeno espaço ocupado dentro de dois braços tem o tamanho do mundo e conforto de um lar. E lar é o lugar onde o nosso coração está.

Assim que ambos se separaram, Sarah tomou a mão de John e o guiou até a sala. Cameron começou a andar em direção a eles, seguindo os passos de John, mas foi impedida por Derek, que a segurou pelo braço.

"Deixe-os ir, Cameron. Esse é um momento deles. Só mãe e filho. Dê um tempo a eles.". Cameron olhou para o rosto de Derek, abaixou a cabeça e olhou o punho dele segurando seu braço, levantou o rosto novamente, inclinou sua cabeça para o lado e disse: "Obrigada por explicar!", voltando o passo e se sentando a mesa no que foi seguida por Derek, que se sentou no lugar a sua frente.

No outro cômodo, John e Sarah estavam sentados no sofá, um de frente para o outro. Nenhum dos dois sabia como começar a conversa, embora ambos tivessem muita coisa para falar. John foi quem começou:

"Eu sinto muito mãe... Por ter te deixado, sabe?! Partir sem avisar... Mas eu precisava fazer isso, mãe. Eu tinha que lutar por ela, não podia simplesmente deixá-la ir, assim, do nada... E se eu te contasse o que iria fazer, você iria tentar me impedir. E eu não podia permitir que você fizesse isso. Eu espero que você entenda...".

"Eu entendo, John. Você a ama... Eu faria a mesma coisa por você. Mas você tem que entender que você é mais importante que isso tudo, John. Que eu, que Derek, que Cameron. Todos nós podemos ir, John, mas você não. É por isso que eu iria tentar te impedir. É por isso que eu não posso apoiar totalmente seus relacionamentos: porque você se importa demais com as pessoas, seu apego a elas te faz tomar decisões estúpidas; elas podem se tornar um problema. É por isso que eu te tentaria fazer desistir. Não é por causa da Cameron, do que ela é. É por você.".

"Mãe, você deve compreender que nem tudo pode ser só sobre minha proteção. Um dia a tristeza e a dor também virão. Mas nós vamos ficar juntos em todo lugar e
quando não houver caminho algum, você vai me seguir e então vamos descobrir:
somos mais do que mil; somos um! Na alegria ou na dor nossa força é o amor! É só ver para crer: somos um! Numa só direção temos um só coração; não temos mais medo algum. Nós vamos conseguir a coragem pra seguir, então vamos descobrir: Somos um!
". Sarah sorriu para John, colocou a sua mão na bochecha de seu filho, olhou firme nos olhos dele e lhe respondeu:

"Toda força para vencer e o saber para comandar; tudo isso um dia vai chegar.
Na jornada que começa, mil perguntas vão surgir. Mas você vai achar suas respostas,
vai saber aonde ir. Só você vai encontrar liberdade para viver; e um dia então será
como um grande homem deve ser. Mesmo sem ninguém contigo, sem ninguém para te guiar, com fé e paciência sei que um homem vai se tornar. A busca do saber vai mostrar a direção; mas sempre ouvindo a voz do coração! E aí todos os seus sonhos, o que mais desejou vai virar realidade; você já o conquistou. Só você vai encontrar liberdade para viver; e um dia então será como um grande homem deve ser. Você já é um homem, John!
".

Enquanto isso, na cozinha, Derek e Cameron estavam sentados à mesa, um de frente para o outro, sem dizer nada há alguns minutos. "Se nós tivéssemos algumas panquecas por aqui, seria como no primeiro dia em que nos vimos nesse tempo.", Derek pensou. Cameron estava com o olhar vago, ela não estava fitando nenhum ponto em particular; Derek sabia que ela estava tentando escutar o que John e Sarah conversavam. O soldado sabia que ela não conseguia pensar em muitas coisas diferentes de John.

"Oi.", Derek puxou a conversa, tirando Cameron de seus pensamentos e fazendo levar um pequeno susto e fazendo-a virar seu rosto rapidamente para ele. "Não é educado ficar ouvindo a conversa dos outros.". Cameron inclinou sua cabeça para o lado, como se não entendesse o que ele acabara de falar e pareceu ignorá-lo, simplesmente virando sua cabeça de volta para onde estava.

"Você está bem?", ele tentou continuar a conversação. Desta vez, Cameron virou seu rosto para Derek em uma nítida expressão de espanto. De fato, era a primeira vez que Derek demonstrava algum interesse no estado de Cameron; isso não era normal, seja no futuro, seja agora. Ela apenas olhou para Derek por algum tempo, como se quisesse analisar o propósito daquela pergunta. Onde ele queria chegar?

"Estou bem.", ela respondeu com um tom meio seco, mas não ríspido. Após sua resposta, um longo silêncio se formou e por muito tempo nada foi dito. Eles apenas ficaram ali, sentados, com aquela tensão de palavras não ditas preenchendo o espaço vazio no cômodo. Mais uma vez, Derek foi quem quebrou o silêncio:

"Desculpe, é tudo que eu consigo. Toda essa coisa de... 'conversar' com você é... 'nova' para mim.".

"Não há porque se desculpar, Derek. Acredite, isso não é mais fácil para mim do que para você.", Cameron respondeu com certa doçura na voz, o que incomodou Derek ainda mais. Ele se levantou da mesa e estava caminhando em direção à saída da cozinha, quando foi abruptamente parado pela voz de Cameron, que o chamava:

"Derek!". Ele parou. "Por que você... Ajudou John a... Ir atrás de mim? Você sabia dos riscos; sabia o motivo dele ir, o que ele sente por mim. Mas mesmo assim, você o ajudou. Por quê?".

"Porque esta era minha missão. Ajudar John Connor a se tornar um General! E é o que eu vejo nele agora: eu vejo o John Connor que eu conheci uma vez, em um futuro não muito distante. O John Connor que não se importava para o quão impossível, perigosa, difícil ou penosa uma jornada poderia ser, ou se as pessoas concordavam com ele ou não: ele cumpria os seus objetivos mesmo assim! O John Connor decidido e confiante, que acredita em si e não duvida de que ele vai conseguir lutar. O General John Connor que não media esforços quando o assunto era... você! Porque ele é meu sobrinho e eu não queria ser o culpado dele levar uma vida de tristeza e solidão. Porque eu... o amo.". Cameron escutou cada palavra e lhe respondeu com um sorriso:

"Obrigada, Derek! Por tudo.". Derek se virou para Cameron, coçou a cabeça e lhe perguntou uma coisa que queria saber desde que ela chegou:

"Você... Me viu? No futuro, eu digo... Eu estava lá?".

"Sim, você estava. Eu o conheci.".

"E como eu era?".

"Você era leal ao seu General. E a John. Você o acolheu, aconselhou, seguiu e defendeu. Você não era muito diferente do que é.". Derek balançou a cabeça, como um sinal de que havia entendido o que ela dizia. "Ah! E você me odiava. Acho que certas coisas não mudam com o tempo, não é?!".

"É, eu acho que sim.", Derek disse quase como um sussurro, virando-se de costas e indo em direção à sala. Quando estava quase saindo do cômodo, ele parou e disse, sem se virar de frente para Cameron: "Só que não tenho mais tanta certeza. Talvez o tempo possa mesmo mudar certas coisas.".

Antes que Cameron pudesse falar coisa, John entrou na cozinha e quase deu um encontrão com Derek, que estava parado na frente da entrada. Ao se desviar do tio, John olhou para Cameron e lhe disse:

"Cam... Minha mãe quer falar com você lá na sala.".

Ela se levantou e saiu, com sua passada ritmada, fazendo com que John a acompanhasse com os olhos enquanto ela se movimentava. Assim que Cameron fez a curva no corredor, saindo da visão dos dois, Derek disse em uma nuança de brincadeira:

"Acho que Cameron estava mesmo certa. Certas coisas não mudam com o tempo.", o tenente falava no mesmo momento em que puxava uma cadeira e convidava John a se sentar.

Enquanto isso Cameron adentrava a sala e podia ver Sarah sentada no sofá. A ciborgue se aproximou e Sarah fez um sinal com a mão, apontando para o sofá como se convidasse Cameron a sentar perto dela, o que de fato ela fez.

Sarah passou algum tempo olhando para Cameron e imaginando como começaria esta conversa com ela. Ela nunca havia imaginado conversar com alguma namorada de John, quanto mais uma tão... "especial" como Cameron.

"Você sabe o quanto John te ama, não sabe?! Você viu o que ele fez por você, até onde ele foi para te encontrar. O quanto ele arriscou! Ele colocou tudo a perder... Por você, Cameron. Eu sei que você nunca pediu por isso e que sempre pediu para que ele não se arriscasse por você. Mas isso é algo que John não consegue fazer: ele sempre arrisca tudo por que ele ama. Ele daria sua vida por mim, por Derek, por Charlie, até mesmo por Riley. Mas principalmente por você; ele não mede esforços nem pensa duas vezes em colocar a sua segurança à frente da dele. E você sabe tão bem quanto eu que isso não é certo. A minha pergunta é: você ama o John?".

"Eu sei que John me ama. E eu também o amo. John me ama e eu o amo.".

"Eu concordo com a primeira parte, mas estou convencida da segunda.", Sarah disse, mas para convencer a si mesma do que contestando Cameron.

"Eu entendo sua preocupação, Sarah. Eu também temo que John se arrisque por mim. Eu não suportaria saber que ele se machucou por minha causa, isso é uma das coisas das quais mais tenho medo. Mas, como você mesmo falou, John é assim, e nada que façamos ou falemos para ele vai mudar isso: ele sempre continuará se arriscando por nós. Tudo que podemos fazer é ter fé nele e nas decisões que ele toma.".

"Fé?! Eu já falei uma vez para você, Cameron: fé não faz parte da minha 'programação'.".

"Também não fazia parte da minha. Nem o amor. Sarah, em sua opinião, quão grande é o infinito?". Sarah olhou para Cameron com espanto. Qual o sentido desta pergunta?

"Bem, ele é infinito.".

"Como você sabe?".

"Porque todas as informações indicam a mesma coisa.".

"Mas isso não foi provado, ainda.".

"Não.".

"Você nunca o viu.".

"Não.".

"Então, como você o sabe com certeza?".

"Eu não sei. Apenas acredito nisso.".

"Exato! É o mesmo com o amor, eu acho. Eu apenas acredito nisso. Acredite em John, acredite em mim. Acredite no que sentimos um pelo outro.". Sarah levou seus olhos ao encontro dos de Cameron e encontrou aquilo que ela só podia definir como "verdade". E imediatamente se lembrou do Tio Bob e de como tinha pensado em como ele seria o pai perfeito para John. Por que com Cameron deveria ser diferente? Em um mundo insano, ela era a escolha mais sã.

"Eu acredito, Cameron. Eu acreditarei.".

"Sarah, eu... Posso te pedir uma coisa?", Cameron perguntou de um modo meio tímido. Isso fez Sarah ficar tensa: o que Cameron poderia ter vergonha de pedir a ela?

"O que você quer, Cameron?".

"Você pode... Me dar um abraço?", Cameron perguntou com a voz quase como um sussurro.

"Um... Abraço?", Sarah indagou, estarrecida com o curioso pedido da ciborgue. "Por que diabos você está pedindo isso?".

"Porque...", Cameron pausou antes de continuar, "John sempre me diz que o amor de mãe é o mais forte que existe, mais forte até mesmo que o que eu sinto por ele. E quando nós estávamos no futuro, ele não se sentia completo sem você perto dele, e ele queria voltar para sentir seu abraço mais uma vez. Eu sei que não sou as filha e que você não me ama, mas eu não tive mãe e sei que nunca poderei sê-lo, não posso gerar um filho de John em mim, então... Eu estava pensando se você podia me abraçar para eu sentir nem que seja uma pálida imagem desse amor de mãe de que John fala.". Sarah podia sentir a pontada em seu coração, como se alguém o tivesse apertando com a mão. Ela nunca imaginou que uma máquina, nem mesmo Cameron, pudesse entender o que era ser mãe. Mas vendo-a praticamente em pedaços, implorando para sentir ao menos pouquinho de como isso seria, lhe dava uma esperança de que algum dia elas poderiam se tornar mais como nós e talvez nós pudéssemos nos tornar mais como elas. Dava-lhe a certeza que ela precisava para saber que John havia feito a escolha certa com Cameron; e que ela estava certa ao acreditar em John e... em Cameron.

"Ok... Venha aqui... Mas não se acostume.", Sarah respondeu em um tom baixo, chamando Cameron com os braços e os abrindo um pouco. Cameron timidamente foi se arrastando no sofá até perto de Sarah e ao chegar a sua frente, passou os braços pelo corpo dela, que retribuiu passando os seus próprios, ficando com uma mão na costa de Cameron e com a outra colocando a cabeça da ciborgue em seu ombro.

Elas ficaram assim por alguns minutos, em silêncio. Sarah percebeu gostar da sensação mais do que deveria. Ela não podia evitar, mas sempre havia sonhado em ter uma filha, mas o destino havia sido cruel com ela e com John. Não havia tempo ou chance para que ela pudesse dar uma irmã para John e criá-la em paz. Mas então Cameron apareceu na vida deles. Quem sabe, por mais bizarro que fosse, ela não havia ganhado uma filha, por meio do destino?

Na cozinha, era a vez do tio e sobrinho conversarem sobre o que havia acontecido nesses dias em que John esteve fora.

"E então... Como foi seu 'passeio' no futuro?".

"Eu não chamaria aquilo de passeio.", John respondeu ironicamente. "Eu salvei Cameron. Eu vi a guerra. Vi como serão as coisas no futuro. Acho que isso me deu uma boa noção do que o mundo espera de mim.". Derek deu um sorriso de satisfação ao ouvir a resposta do sobrinho.

"Então... Creio que posso dizer que sua estadia por lá foi... 'boa' para você?".

"Boa não seria a palavra certa. Reveladora seria melhor.".

"Você matou muitos ciborgues?".

"Alguns. Mas só um teria sido o suficiente, desde que fosse aquela vaca loira de metal.". Derek deu mais uma risada ao ver que até mesmo John era capaz de odiar as máquinas de vez em quando.

"Cameron me falou que vocês conheceram alguns de nós. Quem você conheceu por lá?".

"Você, que continuava um grande lutador da Resistência. Você era um bom ser humano, um bom tio, um bom... amigo. Martin, um soldado que me ajudou muito. Savannah, que era a líder da Resistência. E...", John pensou um pouco antes de continuar. "Allison.".

"Allison? Você a conheceu? 'A' Allison?".

"Sim. A própria.".

"O que você achou dela?".

"Estranha. Ela é muito diferente de Cameron. Eu não conseguia olhar para ela e enxergar uma pessoa. Eu via uma sombra de Cameron, uma Cameron modificada. Ela era... 'decidida' demais para mim.".

"Entendo o que você quer dizer. O Connor que me mandou dizia a mesma coisa sobre ela. Eu sempre achei irônico que Cameron – uma máquina – tenha conseguido aquilo que a Allison – uma humana – nunca conseguiu, ainda que as mesmas fossem fisicamente iguais.".

"E o que é isso?".

"Você, John.", Derek respondeu de modo firme. "Posso lhe fazer uma pergunta?".

"Claro!".

"Por que você voltou? Parece que você tinha tudo que sempre quis lá: Cameron, você não era mais o General. Mesmo assim, você arriscou tudo isso voltando para cá e para o destino do qual você tanto tentou fugir. Por quê?".

"Porque aqui é o meu lugar, Derek. Com minha mãe, você e Cameron. Esse é o meu destino, não importa o quanto eu tente fugir dele. Eu sou John Connor, eu sou um soldado, eu serei um General. Para isso, eu preciso de vocês. De todos vocês! Não só de Cameron! Preciso de minha mãe para me ensinar a ter esperança, a não desistir, a cair e levantar quantas vezes for preciso, a cumprir a minha missão. Preciso de Cameron para me ensinar a amar, para me dar um objetivo, um alguém por quem lutar. E de você para me ensinar a ser homem, a ser forte, a ser um soldado. O melhor soldado; me ensinar a ser humano.". Derek ficou profundamente tocado com as palavras que ouvira e teve de se conter para não deixar uma lágrima escapar de seus olhos.

"Se era para isso que você precisava de mim, John, minha tarefa está cumprida. Você não é mais John Baum. Você já é John Connor! Você já é meu líder!".

"Eu te pediria um abraço agora, mas nós somos soldados machos e durões, acho que não cairia bem, não é?!", John perguntou rindo.

"É! Provavelmente não.".

"Um aperto de mão, talvez?".

"É! Pode ser! Isso é mais másculo!", Derek disse rindo e estendendo a mão a John, que a tomou na sua e a balançou, cumprimentando o tio.

Neste mesmo instante, Cameron e Sarah apareceram na entrada do cômodo e olharam a cena com curiosidade. Em verdade, elas nunca haviam visto os dois apertando as mãos ou mesmo em qualquer gesto explícito de carinho um pelo outro. Mas pensando bem, nenhuma delas poderia supor que hoje trocariam um abraço, então... Os dois estarem de mãos dadas não era mais tão estranho assim.

Sarah fez um barulho com a garganta, como se a estivesse limpando, o que o chamou a atenção dos dois, que separaram as mãos e se voltaram para elas. Sarah foi a primeira a falar:

"Desculpe interromper o momento 'tocante' de vocês, mas já é tarde e nós devemos dormir. Não pense que só porque vocês acabaram de voltar do futuro que não precisam ir para a cama no horário de sempre.".

"Ótimo! Eu imagino se quando eu for um General você me colocará para dormir às onze horas, também...".

"Enquanto você não for o General, seguirá as minhas regras. Mas pense pelo lado bom: enquanto eu estiver, eu farei suas panquecas. Quando você for o líder, terá de fazer as suas próprias panquecas.", Sarah disse rindo. "Eu e Derek vamos para nossos quartos. Vocês façam o mesmo.", ela falou virando de costas e já em direção ao seu aposento. Antes de sair da cozinha, entretanto, ela ficou novamente de frente aos dois e declarou: "Eu imagino que vocês devam ter sofrido muito no futuro e tenham passado por maus bocados. Deve ter sido muito difícil para vocês. Então, por hoje, eu deixarei vocês dormirem no mesmo quarto, se quiserem. Mas não se acostumem: é só por hoje! E não me venham com gracinhas para eu não me arrepender da idéia.". Ao terminar, ela se virou novamente e subiu as escadas, indo para seu quarto, sendo que seguida por Derek, que foi para o outro aposento.

John e Cameron foram para o quarto e John e enquanto ele trocava de roupa próximo a cama, Cameron foi trocá-la no banheiro. Assim que John colocou seu pijama, ele se deitou em sua cama e relaxou como há muito tempo não fazia. Ele realmente havia se esquecido de como era bom ter o seu colchão, a sua cama, o seu quarto (um quarto de verdade). E estava muito feliz por ter tudo isso de volta, ainda que soubesse que daqui a algum tempo perderia tudo isso de novo. Ainda assim, neste momento ele estava feliz por poder usufruir isso de novo.

Mas o principal motivo de sua felicidade acabava de sair do banheiro, vestindo um lindo vestidinho creme com detalhes pretos na região da gola, que quase fez os olhos de John saltarem para fora das órbitas com a visão. Ela se deitou ao lado de John na cama e virou seu rosto para encontrar o dele. Eles se olharam por um instante e ela o perguntou:

"O que você achou do seu futuro?".

"Aquele não era o meu futuro. Pelo menos ainda não. Eu posso mudá-lo. Eu não quero que Savannah carregue meu fardo. Eu quero ser o General Connor. Quero nos levar à vitória.".

"E desde quando você quer isso? Você sempre tentou fugir de seu destino? O que te fez mudar de idéia? O que o fez acreditar em você?". John colocou a mão no rosto de Cameron e lhe respondeu:

"Quando existe uma tempestade no seu horizonte e você pensa que não pode atravessá-la, apenas coloque suas mãos sobre as minhas e eu te mostrarei como fazer isto. Quando seu futuro parecer incerto você pode contar comigo para estar ao seu lado, e quando seu coração e alma estiverem magoados, apenas olhe e você me verá lá. Apenas siga aonde eu for e eu te darei o que você precisa: um amor que é sempre verdadeiro e um alguém que acredita em você. É hora de estar vivo, o seu momento, a sua hora chegou. Eu vou tirar de você o melhor, nós podemos ter tudo isso. Nós nunca deixaremos isso acabar... não vamos cair. Então quando você estiver procurando por aquele arco-íris eu ajudarei você a encontrá-lo, e quando uma montanha se erguer diante de você eu te ajudarei a escalar. Começar a acreditar em você mesmo é uma coisa fácil de fazer quando você tem alguém que acredita em você. Eu tenho alguém que acredita em mim. Você. Eu comecei a acreditar em mim quando você acreditou. O futuro não me assusta mais, por mais apocalíptico que ele possa parecer.".

"Eu e você, juntos. Nós vamos passear depois do tiroteio, vamos dançar num cemitério de automóveis. Colher as flores que nascerem nos escombros, vamos fazer tudo que se possa imaginar. Se faltar calor, a gente esquenta; se ficar pequeno, a gente aumenta. E se não for possível, a gente tenta. Vamos velejar num mar de lama; se faltar o vento, a gente inventa. Vamos remar contra a corrente; desafinado coro dos contentes.".

"Sem você eu me sinto só, incapaz de plantar a semente do amor em jardins sem vida. Com você não preciso mais inventar minha paz; vou ligando teu ser ao melhor de mim... Meu espelho real, alma gêmea moldada em prata; no meu desejo eu te invento com emoção. Pra você eu espero ser uma voz, uma luz; um momento de paz para velar seu sonho. De você eu vou receber a razão de viver; seu contato vital me mantém feliz. Seu mistério maior, meu segredo e revelação; linhas extremas se encontram com emoção... Me de a mão, cante a canção, faz a sublime roda do amor girar; segue a voz do coração e ensina o mundo a se amar. Lá no final há um lugar... Ondas de puro amor vão nos envolver... Segue a voz do coração e ensina o mundo a se amar outra vez..".

"Procure ondas do mar em meus cabelos, raios de sol entre meus dedos, atende a voz dos meus apelos: 'nunca se esqueça de mim'! Procure a lua nova em meu semblante, o reluzir dos diamantes, o teu farol dos navegantes brilha aqui dentro de mim. Procure saber da chuva de granizo que desabou no meu sorriso quando o teu beijo sem juízo quase se esquece de mim. Procure no meu olhar um arco-íris, se te encontrar não te admires; quando chorares, quando rires, nunca se esqueça de mim. Meu amor não tenha medo de se ver feliz. Os flamboyants acordam cedo todas as manhãs. Cada dia mais e mais meu coração me diz que nossas almas são duas irmãs. Ah! Como eu te amo; exatamente assim como tu és. O que penso, o que falo, o que sinto: meu amor, deposito aos teus pés.".

"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz; o caminho mais curto ou contar mentiras demais. Seria mais fácil fazer como todo mundo faz; um tiro certeiro ou ver a vida passando à beira de um cais. Mas nós dançamos no silêncio e choramos no carnaval. Não vemos graça nas gracinhas da TV, mas morremos de rir no horário eleitoral. Seria mais fácil fazer como todo mundo faz: viver sem sair do sofá, deixar as pessoas pra trás. Seria mais fácil fazer como todo mundo faz; resolver os problemas do mundo sentado na mesa de um bar. Mas nós vibramos em outra freqüência, sabemos que não é bem assim. Se fosse mais fácil achar o caminho das pedras, tantas pedras no caminho não seria ruim.".

Após John falar isso, os dois voltaram a ficar em silêncio, apenas se olhando e Cameron sentindo o toque de John em sua bochecha. Ao se abraçarem, eles haviam deixado o mundo pra trás. A vida se fez só pra os dois. Ali, tão pertos, eles podiam ver um ao outro com clareza e assim se sentiam viver. Deixando a vida levar os seus sonhos antigos, a eles disseram adeus sem nem mesmo perceber. Esperando perto um do outro enfim conseguiram saber que tudo o que queriam estava ali, tão perto de um final feliz. Assim, certo do que queriam, eles dois chegaram tão longe e agora estavam tão perto. E os dois ali tão perto de um final feliz, assim tão certo de que o que sempre quiseram talvez fosse um sonho, que os fez chorar, tão perto e ainda tão longe está...

Eu olhava bem fundo nos olhos azuis de John e me perdia naquele oceano. Ah! Esses olhos azuis... Como um profundo mar azul em um dia ainda mais azul. Quando a manhã chegar eu não estarei mais longe e eu digo: estes olhos azuis seguram as lágrimas, seguram a dor. Querido, os seus olhos são azuis e você não estará sozinho novamente. Ah! Esses olhos azuis... Como um limpo céu azul a me proteger. Quando eu estou do lado dele é onde eu desejo estar. Eu verei esses olhos azuis rindo no sol, rindo na chuva e eu estarei em casa novamente.

"Não se preocupe com as pedras no caminho, John. Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes.". John olhou com espanto para Cameron:

"Cam... Você andou lendo... Marquês de Sade?".

"Eu não durmo!", ela constatou.

"Você sabe que isso não é cem por cento verdade.", John disse com ar provocador.

"Você está certo. Eu não durmo, salvo depois de estar com você.". Ela se retificou, aproximando seu rosto do de John e sussurrando em seu ouvido.

"Então... Você quer dormir agora?", ele respondeu de modo insinuante.

"Agora não... Temos coisas mais interessantes para fazer primeiro. Eu posso dormir depois.".

"Eu gosto do jeito como você pensa.", ele por fim falou antes de selar seus lábios ao dela. "Do jeito que estou cansado de toda essa coisa de viajem no tempo, acho que isso me deixará 'morto', amanhã!".

"Morto?! Não, não! Só vai parecer que você estará morrendo porque eu vou te levar ao paraíso!".

Nascidos para o céu, nós nascemos para essa terra, de um sonho tão distante. Eu fui mandado para o seu coração com as estrelas brilhando. Somos chamados a viver como um só amor; nunca se esqueça, confie em mim. Nós iremos cantar nos dias em que cada voz servirá de testemunha, cada um irá cantar todos os caminhos, não haverá mais promessas vazias. Nós estamos virando uma especial página da vida e eu serei aquele, o único que abraçará você nesta dança eterna do amor. Abrace-me eternamente: eu posso me lembrar quando você e eu atravessamos o inverno; agora é verão de novo. Seja minha, seja meu amor, seja meu guia e juntos nós seremos um só; você poderá contar comigo e com minha vida. Nascidos dos céus, palavras de desencorajamento desapareceram em seus olhos claros. Nunca mude, nunca duvide do que você representa em minha vida. Você sempre foi e sempre será meu desejo impossível!

Epílogo

Enquanto o amor é apenas um desejo e um gozo, ele é mortal. Para eternizar-se é preciso que se torne um sacrifício, pois torna-se, então, uma força e uma virtude. É a luta de Eros e Anteros que faz o equilíbrio do mundo.

Eliphas Levi

Tudo parecia indicar que aquele seria mais um dia normal na residência dos Connor (ou ao menos tão "normal" quanto algo poderia ser, em se tratando deles). Sarah e Derek haviam saído para ir ao mercado, deixando John e Cameron sozinhos, tomando café.

John comia suas panquecas vagarosamente, aproveitando bem o sabor de cada pedaço: ser privado de qualquer tipo de comida decente por tantos dias no futuro o havia feito aprender a valorizar cada coisa que ele tinha hoje e não dava a devida importância. As panquecas de sua mãe eram um exemplo disso.

Mas não era só isso que o fazia comer devagar: ele não conseguia tirar os olhos de Cameron nem por um segundo, enquanto ela comia a sua própria panqueca. Obviamente ela sabia que John a observava, e de vez em quando ela mesma levantava seu olhar para encontrar o dele, voltando a comer logo após. Ela se perguntava no que ele estava pensando. Ela sabia que era algo relacionado a ela, mas não sabia exatamente o quê.

Realmente, Cameron era o que ocupava por completo os pensamentos de John nesse momento. Como ele iria dizer aquilo a ela? Por onde começar? Ela entenderia? Ela concordaria com isso? Não era uma coisa muito grande a se pedir? As dúvidas rondavam a cabeça de John e ele estava ficando mais nervoso. Seria que ele estava racionando direito? Ele havia pesado bem as conseqüências daquilo que ele estava pensando em fazer?

Dúvida era tudo que existia na cabeça de John desde que ele havia começado a pensar nisso. E as dúvidas estavam ficando cada vez maiores e mais tormentosas. Ele estava com muito medo e atordoado pelas incertezas. John iria tomar a saída dos fracos: ele iria desistir. Mas então, ele viu Cameron encontrar seu olhar mais uma vez, dando-lhe um terno sorriso, que encheu seu coração de calor e paz, aquietando seus pensamentos.

Então, John percebeu uma coisa: a dúvida é desagradável, mas a certeza é ridícula. Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar; é melhor inquietar-se na dúvida do que descansar no erro. Duvides da luz dos astros, de que o sol tenha calor; duvides até da verdade, mas confia em teu amor. Porque o amor é grande e cabe em uma janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

"Cameron...", ele começou, com a voz um pouco trêmula e um jeito nitidamente desconfortável. Ela levantou a cabeça e olhou para ele:

"O que foi, John? Há algo errado?".

"Você poderia parar de comer e escutar uma coisa?", ele falou ainda com ar incomodado.

"John, você está me assustando falando assim... O que aconteceu? Alguma coisa não está certa? Eu fiz algo errado?".

"Você é o amor da minha vida, eu soube disto desde o começo. No momento que olhei pra você, você achou um lugar no meu coração. Você me ensinou como ser forte.", ele falou dando uma pausa para tomar fôlego e continuar.

"John, você também é o amor da minha vida. Você me deu uma razão para viver, ao seu lado é o lugar ao qual eu pertenço. Ninguém nunca me tocou da forma como você fez. As pessoas gastam uma vida procurando o que temos. Você é o amor da minha vida e eu vou passar todos os meus dias somente amando você!", Cameron emendou aproveitando a frase de John.

"Você é o amor da minha vida, Cam. O Coração e a alma da minha vida. Antes eu estava perdido e sozinho, mas com você eu finalmente me sinto em casa. Você se entregou pra mim e me fez sentir seguro. Você é a única coisa que faz a vida ter sentido e eu agradeço a Deus por estar vivo e viver minha vida ao seu lado.". Houve um longo período de silêncio em que os dois apenas se olhavam, sem dizer uma palavra sequer ou ao menos tirar os olhos um do outro. Eles estavam perfeitamente trancados e em sintonia: suas mentes, olhos, pensamentos e até mesmo a respiração dos dois pareciam estar compassadas em absoluta sincronia, como se estivessem conectados de algum modo. Talvez isso não fosse tão metafórico assim.

"Cameron, eu posso lhe fazer uma pergunta que nunca fiz antes?", John perguntou, quebrando o silêncio.

"Claro, John! Você pode me perguntar o que quiser.".

"Seu nome... Quem foi que lhe deu?".

"Como assim 'meu nome'? Eu não entendi.".

"Seu nome... 'Cameron Phillips'. Quem foi que lhe deu esse nome? Você o escolheu aleatoriamente ou alguém lhe deu esse nome?".

"Você, John! Você me deu esse nome. É a minha primeira memória desde que eu saí do controle da Skynet. Eu abri meus olhos e você estava na minha frente e me disse: 'Olá! Eu sou John Connor!'. Eu fiquei olhando para você, tentando me lembrar do nome que Skynet havia me dado, mas não conseguia. Você percebeu a confusão em meu rosto e me disse: 'Você é Cameron Phillips. Prazer em conhecê-la, Cameron.'.".

"Então fui eu quem lhe deu seu nome?".

"Sim, foi você. Por que a pergunta?".

"Isso significa que eu poderia mudar seu nome, se eu quisesse? Se eu quisesse, agora, lhe dar outro nome, eu poderia fazer isso?".

"Sim, John, você poderia. Mas por que você faria isso?".

"Eu acho que Cameron Phillips já não é um bom nome para você, não lhe serve mais. Eu estava pensando em trocá-lo.".

"E qual nome você gostaria de me dar?".

"Cameron... Cameron Connor!", John disse sorrindo e olhando fixamente para o rosto de sua amada.

Cameron deixou cair o garfo que estava em sua mão e ficou totalmente perplexa; seu corpo estava imóvel, paralisado como uma pedra, ela sequer respirava; os seus olhos e sua boca estavam abertos e ela não conseguia mover um músculo. As únicas palavras que martelavam seu chip eram "Cameron Connor". Ela tinha certeza de que não havia entendido errado, ele realmente havia falado isso. E Cameron sabia muito bem o que isso significava.

"Cameron... Connor?! Você está me pedindo para...", ela não conseguiu terminar a frase, pois as lágrimas começaram a descer de seus olhos e ela se pôs a chorar.

"Sim, Cam, eu estou.", ele completou a frase de Cameron, já a respondendo. John se levantou da cadeira e andou até a metade da mesa, parando. "Qual a sua resposta?".

Cameron parou de chorar, sorriu e se levantou, indo ao encontro de John e colocando uma de suas mãos sobre as deles e levando a outra até seu bolso, tirando de lá um diamante.

"Este é o diamante que você me deu logo após nos conhecermos. Você me disse que eles 'eram o melhor amigo de uma garota', mas eu sempre os vi como algo mais do que isso. Eu nunca tirei esse diamante de perto de mim. Não importa com qual roupa eu esteja, ele sempre está no meu bolso. Para mim, ele não era só um presente, só uma jóia; era um pacto, um pedido... Uma aliança.", ela disse com um imenso sorriso no rosto.

"Você ainda não respondeu minha pergunta.", John observou com um ar meio sério e meio provocador.

"Aqui está minha reposta!", Cameron respondeu, colocando uma mão na nuca de John e puxando para um apaixonado beijo, encerrando o espaço entre eles de forma que seus corpos ficassem colados um ao outro. Assim que o beijo acabou, John perguntou:

"Isso foi um sim?". Ao receber um sinal de confirmação com a cabeça e um "sim" que Cameron fez apenas abrindo os lábios, sem produzir som, John colocou suas mãos na cintura de Cameron, puxando-a de novo para junto de seu corpo e lhe pediu:

"Então... Diga sim de novo!".

Fim!


Nota do Autor 01: O conceito de "Tímese Parabólica" não deve ser conhecido por todos, então vou tentar explicar rapidinho do que se trata. A "Tímese Parabólica" foi exposta por Mário Ferreira dos Santos em "Noologia Geral", e significa em síntese: "a capacidade humana de captar as possibilidades, através da comparação mental das formas actualizadas com as formas perfeitas, que o homem eideticamente capta, sem a posse actual mas virtual das mesmas.". O ser humano é capaz de comparar a sua situação atual, concreta, com uma situação ideal, perfeita, que é o máximo possível a que pode chegar tal situação, a máxima potência. A comparação da coisa com a forma perfeita desta mesma coisa (v.g., a comparação da mulher atual que tem, com todos os seus defeitos com um conceito abstrato de mulher perfeita). O imenso abismo que se abre então entre a sua situação concreta e a situação perfeita que o homem pode vislumbrar graças a sua capacidade de tímese parabólica o inquieta, gerando a vontade do mais e do melhor, o "mehrwollen" (termo nietzscheano = "vontade de potência"). .: o rico, ao contemplar a sua riqueza e perceber que mais rico poderia ficar, procurará enriquecer mais.

A origem do nome vem de "tímese" (do grego thymos, que quer dizer sopro, alma, vontade, vida) e "parabólica" (da forma de "parábola", tal como a flecha disparada pelo arqueiro descreve uma curva no céu rumo ao infinito e tomba, atingindo um alvo mais baixo).

A "Tímese Parabólica" seria, pois, a busca pelo "Supremo Bem" que dizia Platão: se um arqueiro atira uma flecha mirando o cume de uma montanha, ele não o acertará, e sim a um ponto mais baixo, mas isto ainda o fará subir. Isso seria a nossa busca pelo Supremo Bem. É essa busca que alimenta a alma humana. A "Tímese Parabólica".

Nota do Autor 02: Este é o fim da fic. Espero que vocês tenham gostado dela o tanto que gostei de escrevê-la. Agradeço do fundo do meu coração à Veri, que acreditou que eu conseguiria escrever o "plot" que ela genialmente criou. Veri, sei que não ficou nem 1% do que teria ficado se você mesma tivesse escrito, mas minha mente não é brilhante como a sua; foi o máximo que eu consegui. Espero que tenhas gostado! Amo você *______* Agradeço também a minha namorada Marina Santiago, pela paciente revisão do texto e todo o apoio naquelas horas que eu ficava inseguro do que escrever. Amo você mor! Agradeço ainda a minha amiga Marina Nunes, que sempre me enrola dizendo que vai ler a fic, mas nunca lê ¬¬ Mari, amore, para de me enrolar e leia logo, sua opinião é importante para mim. Agradecimentos também à comunidade Jameron no Orkut e todos vocês, amigos leitores, que leram, comentaram e deixaram reviews.