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Agradeço a Salina Angel Kail pela review. Sem ela este capítulo não estaria sendo postado.

E sim, Salina, o que você deduziu está correto. Lamento se o capítulo anterior ficou confuso i.i

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Mistakes

- Capítulo 2 -

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Você ainda não entende, não é?

Minha voz muda, minhas lágrimas invisíveis.

Nós ferimos tanto um ao outro...

Sinto muito, meu amor, mas é hora de pagar.

Os corpos se chocavam, as correntes tiniam. Suor era formado, criando um rastro salgado a evaporar entre as peles nuas. A semente maculada era gerada, concebida junto a sangue e dor, indo mais fundo que qualquer arma poderia chegar.

Afinal, o que poderia ser mais cruel que um amor distorcido?

Os olhos se encontraram. Castanhos nublados por cólera e desespero. Ambarinos consumidos pela dor e pelo vazio. Indignado, Hao se afastou com rapidez, nojo estampado em sua face. Mas, pela primeira vez, havia algo mais perdido entre o pálido dourado.

O rei shaman hesitou porém, acabou por ajoelhar ao lado daquele que um dia chamara de amante. Com um simples comando mental a pequena chama se aproximou, iluminando melhor o rosto do esquecido herdeiro dos Tao.

Respirou fundo, sem saber por que temia o que iria encontrar. Era isso que queria, não era? Uma mudança? Uma reação? Então porque sentia que cometera o pior erro de todas as suas vidas?

Com uma mão trêmula, virou o corpo magro e imóvel, passando a encarar completamente o rosto marcado por feridas e olheiras. Mergulhou no mar de ouro como há tempos não fazia, a saudade lhe envolvendo como um manto surrado mas ainda quente. Relaxou um pouco, deixando-se ir mais fundo, envolvendo-se por completo mais uma vez.

Foi quando percebeu até onde seus atos o haviam levado.

Adeus.

- Não... – sussurrou incrédulo, a realidade lhe atingindo sem piedade. Podia ser o mais poderoso de todos os shamans porém, ainda assim, algumas coisas não podia impedir.

A morte era uma delas.

- Vai me deixar? – tentou se fingir magoado, mesmo com lágrimas já lhe embaçando a visão – Depois de tudo, vai partir sem nem mesmo me dizer por quê?

Os lábios ressecados se partiram, deixando sair uma expiração pesada, como se o ferido garoto estivesse guardando aquele ar há muito tempo.

- Nossa pri...meira...n-noite... – foi tudo que conseguiu dizer antes de fechar os olhos e se entregar, deixando que as sombras envolvessem o que sobrara de sua alma.

Hao gritou, sua voz de trovão ecoando partida pelos numerosos cômodos de sua morada. As correntes derreteram com um único olhar, desfazendo-se com o cuidado de não ferir ainda mais a pele já tão maculada. O espírito de fogo apareceu, preocupado com as reações de seu mestre, mas o Asakura o desfez, preferindo usar de sua energia para manter vivo o shaman inconsciente em seus braços enquanto o carregava escada acima, buscando desesperado alguém que pudesse lhe ajudar.

Porque tinha que haver alguém. Simplesmente tinha.

Alguns servos vieram. Uns rapidamente se prontificaram a chamar os médicos da família, outros ainda se ofereceram para doar sua própria energia, sabendo como seu querido rei ficaria caso perdesse o companheiro. Estes, entretanto, foram afastados com olhares mortais e labaredas. Ninguém tocaria em seu amante que não ele e o médico em que confiasse.

Ninguém teria o pouco que ainda restara de Ren.

Por fim, depois do que lhe pareceu uma eternidade, o jovem de cabelos castanhos chegou ao seu quarto. Chutou a porta, pouco se importando quando esta quase foi ao chão, e carregou o garoto desacordado para cama, o deitando com extremo cuidado. No segundo seguinte médicos já jorravam porta a dentro, a pressa os fazendo esquecer das formalidades. Quando deu por si Hao já havia sido expulso do cômodo, forçado a esperar no corredor por um bando de párias mas que, no momento, eram as pessoas mais úteis que poderia conseguir.

Não que ele realmente notasse. O rei shaman estava preocupado demais refletindo sobre a sussurrada frase que seu amor se esforçara tanto para lhe dar para prestar atenção em qualquer outra coisa. Estava pronto até mesmo para abdicar do trono se com isso conseguisse assegurar a vida do dono dos olhos dourados.

A grande questão era: seria tarde demais?