N/A: Este é o último capítulo. Aos que chegaram até aqui (apesar de eu achar que será somente a Salina Angel Kail), espero que tenham gostado. Quem sabe? Talvez nos vejamos novamente.
Mistakes
- Capítulo 4 -
O sol morria no horizonte, levando consigo o calor da tímida brisa, transformando-a em vento frio e cortante. Fechou os olhos, tentando juntar forças para mudar de posição, embora soubesse que isso não adiantaria em nada. Seu corpo, mais debilitado do que conseguia medir, sentiria dor com qualquer movimento, por mais ínfimo que fosse.
Suspirou, apertando ainda mais os olhos quando uma pontada de dor rasgou seu peito. Estava tão cansado. Como se, de repente, todo o esforço que fizera, toda a dor que sofrera, houvesse sido em vão.
Mas a dor purifica a alma, não é mesmo? É ela que nos faz levantar e reagir, quando todo o resto diz para desistir e morrer. É ela que nos faz refletir, parar e olhar para nós mesmos e ver o que está errado.
É a esperança de aliviar a dor que nos força a seguir em frente.
E o shaman na cama sabia disso. Sabia bem de mais. Porém, haviam tantas dúvidas. Tantas cruéis e terríveis dúvidas...
Seu amor entenderia? Depois de anos, poderiam ambos superar o que fora perdido?
Seria possível recolher os pedaços e recomeçar?
A mão ferida abriu caminho entre as cobertas lentamente, parando apenas quando encontrou o ventre magro e ferido. Entretanto, por mais que seus dedos estivessem ásperos e machucados, ainda pode perceber a fina cicatriz que o cortava até quase o peito.
Hao não havia lhe dado esta. Muito menos seu pai.
E esta era outra coisa que Ren sabia, e bem demais.
A porta se abriu num sussurro tímido, dando passagem a um cabisbaixo rei shaman. Os fios castanhos lhe caíam sobre o rosto, escondendo a expressão de sua face. Seus passos eram leves porém hesitantes, como um humilde servo a falar, pela primeira vez, com seu poderoso senhor.
Ren suspirou novamente, desta vez lutando para não demonstrar dor, e abriu os olhos. Reuniu as poucas migalhas de energia que tinha e virou o rosto, buscando os olhos de seu amado. Tal gesto, entretanto, fez com que um silvo de dor ecoasse pelo majestoso quarto.
O shaman do fogo correu, praticamente jogando-se na cama antes tão distante. Seus orbes castanhos estavam arregalados, a respiração enclausurada em seu peito. O pânico cresceu em seu ser uma vez mais, tornando trêmulos os dedos que levava lentamente ao rosto do herdeiro dos Tao.
-... – as palavras pareciam fugir, meras cinzas a serem carregadas pelo vento. Não conseguia dizer nada. Não conseguia pensar! Teriam os médicos lhe mentido, apenas para que preservasse suas inúteis vidas?
Mas os olhos estavam lá, orbes de ouro a brilhar com a fraca luz. Estavam feridos e fracos, verdade, mas também esperançosos como há muito não se via.
- Lem...brou? – a voz do guerreiro era arrastada e quebrada, silenciada pelo tempo sem uso. Ainda assim foi o bastante para despertar o mais velho que, embora um pouco atrapalhado, logo lhe ajudou a sentar na cama e lhe estendeu um copo d'água.
Ren bebeu devagar, não querendo engasgar ou mesmo apressar a conversa que estava por vir. A verdade é que tinha medo. O que o destino havia lhe reservado desta vez?
O Asakura suspirou cansado, encarando o chão para não expor sua vergonha e dor.
- Perdão. – disse num sussurro, tão baixo que até mesmo o silêncio parecia sufocar suas palavras. Lágrimas se formavam em seus olhos mas ele se recusava a derrama-las. – Tantas vezes lhe disse meu, mas lhe traí por meu sonho quando mais precisaste de mim.
Olhos dourados foram fechados por um instante, digerindo as palavras que lhe eram dirigidas. Nunca havia recebido palavras tão sinceras. Entretanto, esta era apenas a primeira parte. Ainda havia muito a ser dito, aceito...perdoado...
- Me beije. – Ren pediu num sussurro, ansioso por alguma força que pudesse conseguir de seu amado, antes de lhe revelar o mais sombrio segredo que já possuíra. O mesmo segredo obscuro que lhe corroia a alma desde aquele fatídico dia.
Hao fez o que lhe era pedido, tomando os lábios que tanto lhe chamavam com todo o amor e carinho que guardara ao longo desses três anos. O contato porém, não poderia ser mais delicado. Nada mais que a mais leve das pressões. Não queria ferir seu amado novamente.
Quando se separaram, o shaman de cabelos azuis tinha abaixado a cabeça, deixando que a franja desgrenhada escondesse seus olhos.
- Sabe por que eu fiz isso?
Orbes castanhos piscaram, sem entender onde o outro queria chegar. Não fora para lhe fazer sofrer? Se vingar por ter ameaçado sua vida e a de seus amigos?
Não fora pela única promessa que jamais fizera...e nunca cumprira?
Isso é o que eles fariam. – disse uma vozinha no fundo de sua mente. Consciência? Talvez. – Mas ele é diferente, não é?
Hao ponderou sobre as ações de seu amado. O receio em encará-lo, a voz baixa e isenta de raiva, porém repleta de dor, o jeito quase tímido com que parecia se comportar agora. Pelo tanto que conhecia o Tao, isso só poderia significar uma coisa, e uma coisa somente.
Porém, teria sentido?
- Pare de se culpar e me odeie. – o shaman de cabelos castanhos sussurrou, inconscientemente procurando a mão de seu amante por entre os grossos cobertores.
-Não posso. – o guerreiro respondeu, num suspiro sincero e melancólico.
Começando a ver as peças que não encaixavam, Hao sentou na cama, apertando de leve a mão que agora segurava gentilmente. Pela primeira vez em anos havia algo mais que sua dor e culpa.
- Me conte. – a voz era firme, entretanto a súplica ainda estava lá. Ren podia sentir.
- Você não foi o único que quebrou sua promessa. – disse, a voz soando ainda mais cansada do que quando acordara.
- Não faz mais diferença...
- Faz toda a diferença! – a súbita explosão de raiva pegou o rei desprevenido, quase o fazendo pular da cama. Contudo, as palavras que se seguiram voltaram ao tom dócil e ferido - Eu perdi...o que você me deu...
- Eu nunca te dei nada Ren. – Hao replicou num sussurro. Agora se arrependia. Deveria ter mostrado o quanto o Tao era importante para si. Porém, a verdade é que nunca lhe dera nada. Nem mesmo seu corpo havia entregado ao shaman-guerreiro.
- Deu sim. – o chinês levantou o olhar, deixando que o ouro e o castanho se encontrassem pela primeira vez desde que tudo aquilo começou. Guiando a mão de seu amado por entre os lençóis, fez com que os dedos finos traçassem a longa cicatriz em seu ventre.
O herdeiro dos Asakura lhe encarou em choque, incapaz de esboçar qualquer reação. Sua boca foi aberta porém nada foi dito.
Era mentira, certo? Tinha que ser!
Mas a face séria e sofrida de seu amado lhe dizia outra coisa. Uma verdade cruel porém inegável...e imutável...
- Você estava certo, Hao. Eles tentaram encontrar Yoh, e eu não consegui deixa-los partir sozinhos. Quando chegamos no deserto, um grupo de seus seguidores nos atacou. Eu protegi Horo-Horo de um dos ataques, mas acabei me expondo e fui atingido pelo golpe seguinte...
O shaman de cabelos azuis respirou fundo, tentando se recompor o suficiente ao menos para terminar a narrativa. Tinha que dar um fim nisso hoje, antes que mais lágrimas fossem derramadas e qualquer chance de redenção escapasse dos dedos de ambos.
Precisava agarrar sua segunda chance.
- A lâmina me atravessou quase de lado a lado. Fausto teve que reunir a energia de todos para me trazer de volta. Eu consegui... – a essa altura, o pranto já marcava as feições do shaman chinês, a voz entrecortada pela difícil respiração – ...mas a energia que crescia em mim não...
Saindo do choque ao sentir a dor de seu amado, Hao passou gentilmente o braço livre por seus ombros feridos, tentando oferecer conforto e calor para o abalado shaman. Nunca vira Ren tão ferido. O controle emocional que antes tanto invejava parecia nunca ter existido, deixando que o guerreiro ruísse, soterrado pelos cacos de seu próprio coração.
Porque esse era o verdadeiro motivo.
Hao não era o único culpado.
- Você queria se punir, não é? Queria punir nós dois. Nos forçar a terminar ou recomeçar. – afagou os cabelos azulados com carinho. Por mais que estivesse triste, sabia que não fora culpa do mais novo.
- Eu tentei te contar antes, mas não consegui...
Por isso o silêncio. Por isso a distância.
- Quer tentar de novo? – Hao perguntou, meio incerto de como sua pergunta seria recebida.
Ren riu amargo.
- Segundo Fausto, é praticamente impossível.
- Ah, você diz que nem pessoas ressuscitando ou voando em espíritos gigantes? – o shaman do fogo insistiu, fingindo inocência. Por um momento, lembrou Yoh.
O chinês riu de novo, desta vez um pouco menos triste.
- Quer que eu tente de novo? – provocou. Mas era claro a súplica que abandonava os lábios trêmulos.
Porém, mesmo com toda a dor que tomava o ambiente, com todas as cicatrizes que via na pele exposta e toda a fraqueza que via nos olhos dourados. Mesmo com a árdua jornada que encarava, buscando a paz que um dia possuíra sem sequer perceber e um sonho que perdera bem antes de ter, o poderoso rei shaman não conseguiu fazer nada, que não encarar seu verdadeiro e único amor e sorrir.
Por menor que tal gesto parecesse ante a melancolia da situação, isso era só o que Ren precisava para se reerguer e tentar de novo. As barreiras enfim haviam caído, ante o mais inocente e justo perdão. Agora restava apenas duas almas que sempre se entregaram e sempre se possuíram.
E, talvez, uma terceira alma a tornar tudo ainda mais perfeito.
- X -
