Peter, O Tirano
"O poder sem moral transforma-se em tirania." (Jaime Balmes)
Ouvia-se o som difuso e sussurrado por cada viela, cada praça, cada construção telmarina. Um som que não ousava se erguer acima do murmúrio do vento por ser um som proibido.
O cochicho que corria o palácio e as casas humildes, dizia para aqueles que tinham bons ouvidos o que nenhum político ou cidadão comum se atrevia dizer. Um título, tão temido quanto a palavra execrável. Peter, O Tirano.
Os comentários que circulavam todo reino, diziam que Peter estava se cercando de todas as medidas necessárias para tornar seu caminho em direção ao poder absoluto livre. Os lordes desapareciam de suas casas, das camas de suas amantes, até mesmo de dentro do castelo sem deixar rastro.
Os gritos eram ouvidos durante a noite, vindos das câmaras de tortura e das masmorras do palácio. Alguns, mais crédulos na natureza divina de seu rei, diziam ser os espíritos torturados por Miraz que assombravam o lugar, enquanto outros afirmavam convictos que os carrascos nunca trabalharam tanto na história quanto naquele novo governo.
Os súditos telmarinos temiam pelo príncipe Caspian e em virtude da pressão popular Peter era obrigado a permitir que o príncipe fizesse aparições periódicas às janelas do castelo, para assegurar à população que tudo estava bem e que o novo rei estava honrando sua promessa. A grande questão era quanto tempo aquilo ia durar.
A distinção entre amigos e inimigos era feita de maneira precária. Qualquer telmarino estava sobre risco constante, e se houvesse qualquer demonstração de desagrado os riscos aumentavam. Mesmo entre os irmãos do rei, mesmo entre os narnianos, qualquer demonstração de simpatia por Caspian era passível de punição.
Os dias dentro do circulo mais intimo do jovem rei se tornaram asfixiantes, principalmente para os herdeiros do trono. Edmund, devido a sua perspicácia e instinto de sobrevivência, entendeu logo que deveria agir com sutileza e ocupar o posto de conselheiro do rei. Era a única maneira de ser ouvido e conseguir exercer algum controle sobre as ações desregradas de Peter sem acabar morto no meio do caminho.
Lucy estava desiludida com todo mundo que conhecia. Sua decepção com o irmão usurpador, a aceitação cega e temerosa do povo, a submissão de Susan e Edmund, tornaram a jovem uma garota amargurada. Ela preferia se recolher em um pequeno templo, usando roupas sóbrias e de pouca expressividade para uma princesa, e rezar dia e noite, esperando que Aslam a socorresse daquele circo de horrores.
Susan, de todos era a mais afetada. Cada passo que dava, cada garfada na comida, cada respiração, acabava chegando aos ouvidos de Peter de uma forma ou de outra. A obsessão se tornara implacável e ela já não sabia em quem confiar.
Às vezes ela conseguia escapar para ver Caspian nas masmorras. Eram momentos breves, marcados por carícias desesperadas e beijos furtivos. A qualquer momento poderiam ser pegos e ninguém era capaz de prever a reação de Peter se descobrisse. Os aliados eram poucos, ou inexistentes e a falta de perspectiva de melhora estava se tornando cada vez maior. Susan estava definhando dentro de uma gaiola luxuosa, sufocada pelo próprio irmão.
Peter lamentava profundamente a apatia de sua família, com exceção de Edmund. Suas adoradas irmãs pareciam perder o brilho e o viço a cada dia. Lucy praticamente entregue a loucura de sua fé e Susan, sua amada Susan, se consumindo por uma paixonite que ambos sabiam ser infundada e sem futuro algum.
Se ele não podia confiar na própria família para provar ao povo que aquele era um reinado fadado ao esplendor, então em quem deveria confiar?
Ele precisava de alguém ao seu lado. Uma mulher que o povo pudesse amar, que pudesse conferir a ele uma aparência de homem respeitável e de caráter firme. Uma mulher bela e capaz de lhe dar filhos. Toda vez que ele pensava a respeito, era Susan quem lhe vinha à cabeça.
Já fazia tempo que ele havia notado o quão bela ela havia se tornado. As vezes que ele se pegou contemplando os seios realçados pelo decote, o movimento dos quadris, a harmonia da risada...Ela o enfeitiçava, instigava sua imaginação, ela o fazia arder de forma inexplicável.
Muitos diriam que era errado, mas como poderia ser se tudo o que ele queria era protegê-la, assegurar que ela estava feliz e bem cuidada, amá-la de todo coração? O amor não era errado, era o melhor sentimento que poderia existir. O fato dela ser sua irmã não mudava isso, era apenas mais uma legitimação, uma segurança de que ele havia nascido para amar Susan.
Mas Susan havia sido seduzida, estava cega por uma paixonite idiota. Peter conseguia ignorar, conseguia até tolerar a idéia de que ela pudesse sentir alguma coisa sem importância por Caspian, mas aquilo era culpa da idade. Ela era jovem e bela, era natural cometer idiotices, mas eventualmente ela perceberia qual era a decisão mais sensata.
Talvez ele devesse dar o primeiro passo em direção a ela, talvez devesse mostrar que estava disposto a agradá-la. Presentes poderiam ser uma boa maneira de ganhar a atenção dela, de conseguir uma aproximação.
Ele estava perdido em pensamentos quando uma silhueta lhe chamou a atenção ao entrar no salão. Aquele corpo tão agradável aos olhos...Susan parecia capaz de ler seus pensamentos e ir até ele justamente quando ele estava pensando nela. Ela estava cantarolando distraída, algo tão raro ultimamente.
Então ela rodopiou e o encanto se desfez. Não era Susan. Mesmo que a altura fosse a mesma, que o corpo tivesse a mesma graça e os cabelos tivessem o mesmo tamanho e cachos, não era sua adorada Susan. Era uma garota, provavelmente uma criada, desatenta que estava cantarolando como uma louca pelos corredores e rindo como se não houvesse o amanhã.
- Está atrapalhando. – ele disse sério, fazendo a garota se assustar e dar um sobressalto. Ela parou onde estava e se virou para ele com uma expressão que fez Peter querer gargalhar. Ela parecia uma criança pega no meio da travessura e seus olhos vivos e escuros faziam-no lembrar de Edmund.
- Ops! Desculpa, não vi você ai. – ela disse sem demonstrar qualquer sinal de reconhecimento à pessoa dele. Tratou-o como se fosse um garoto de vila comum, a quem ela dava pouca importância.
- Tem noção de que quando eu estou nesta sala, a entrada de estranhos é proibida? – ele perguntou irritado.
- Uma bobagem, se você quer mesmo saber. Este é o caminho mais rápido pra chegar às salas de música e eu estou com pressa. – ela disse dando de ombros.
- Por um acaso sabe quem eu sou? – ele questionou prepotente.
- Cabelo loiro, olhos azuis, agindo como se tivesse o rei na barriga. – ela disse analítica – Você deve ser aquele a quem chamam de Peter. – ele ficou vermelho de raiva.
- Acaso não lhe disseram que sou o Grande Rei?! – ele perguntou de supetão.
- Disseram alguma coisa a respeito, mas não dei muita atenção. – ele estava a ponto de esbravejar e mandar surrar aquela garota por insubordinação, mas então notou a graça da cena. Ela devia ser uma tonta, uma louca aspirante a bobo da corte. Peter gargalhou.
- Diga, qual seu nome? – ele ordenou em meio a risada.
- Narínia é meu nome. – ela disse.
- E de onde vem? – ele insistiu. Talvez existissem mais criaturas divertidas na terra dela.
- Me chama de Narínia de Lugar Nenhum, ou Narínia Sem Terra, até mesmo de Narínia Sem Nome por um motivo. – ela disse fazendo cara de criança emburrada.
- Então você não tem pátria, mas parece uma telmarina. Se não fosse impossível eu diria que vem do mesmo lugar que eu. – ele disse – O que você faz no castelo?
- Dama de companhia da princesa Lucy. – ela disse mal humorada – Que serviço aborrecido! Me disseram que ela era divertida, mas passa o dia todo traçada no templo.
- Ela já foi mais divertida. – ele concordou – Talvez você devesse cuidar de Susan. Vocês duas devem ter a mesma idade e provavelmente terão mais assunto.
- E por que eu estou sendo mudada de posto? – ela perguntou arqueando uma sobrancelha.
- Porque eu desejo dar um presente à Princesa Susan, algo que a faça rir. Você me parece uma boa escolha. – Peter disse sério.
- Devo dizer alguma coisa a ela quando me entregar de presente? Devo usar uma fita vermelha amarrada na cintura, ou me embrulhar em papel colorido? – Peter riu do deboche.
- Só diga a ela que você é meu presente de desculpas. Aproveite e diga que eu a amo, também. – ela concordou com a cabeça.
- Tá bom. Se você diz. – ela disse – É habito seu tratar pessoas como objeto, ou estou sendo agraciada de uma maneira bem estranha e comum no seu mundo?
- Considere isso uma gentileza. Eu aprecio seu talento para humor e por isso não estou ordenando que você seja surrada por sua falta de respeito. Ao contrário, estou dando a você uma posição de honra como serva da Princesa Susan. – ele disse pomposo.
- Tem gente que tem umas noções tão bizarras nesse mundo. – ela disse espantada – Você é uma delas.
- Por que? – ele questionou curioso.
- Você fica ai, todo pomposo, falando como se fosse o senhor do mundo.
- Eu sou o senhor do mundo. – ele disse sorrindo.
- Não, você é só um garoto mimado. Deve ser pouca coisa mais velho que eu e fica ai, me encarando como se fosse o dono da verdade. – Peter fechou a cara e rangeu os dentes. Quem aquela garota pensava que era? Quem era Narínia Sem Terra para falar com ele, O Grande Rei de Nárnia, daquela maneira.
- Cale a boca e saia da minha frente, antes que eu mude de idéia e mande surrá-la! – ele disse entre dentes.
- Oh está bem. Eu vou sair. – ela disse dando as costas para ele – Seu nome deveria ser Peter, O Rabugento! – mas antes que Peter pudesse se enfurecer, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a garota desapareceu pela outra porta, saltitando. Foi possivelmente a conversa mais estranha que tivera nos últimos tempos. Talvez tenha sido a única conversa de verdade.
Mal sabia ele que naquele momento sua sorte havia sido lançada, não por Aslam ou qualquer outra criatura, se não a estranha garota que acabara de deixar a sala. Narínia de Lugar Nenhum dava pouca importância à hierarquias e títulos, nenhuma importância à ordens e tinha um gosto peculiar pela implicância gratuita, justificada por senso de justiça.
Ela obedeceu a Peter, não porque isso a agradava, ou porque ela achava isso certo. Seguiu, como era de costume, sua própria intuição que lhe dizia que alguém naquele lugar precisava de ajuda. Ela foi até a princesa Susan, ofereceu seus serviços e disse que aquilo se tratava de um presente, nas palavras dela, oferecido por um "rei mimado e prepotente". Esta frase audaz garantiu a ela a simpatia imediata da garota de olhos tristes e azuis diante de si.
Eventualmente, elas se tornaram amigas e confidentes. Como Narínia não gostava do rei, como também não gostava de sua injustiça, ela se decidiu que o correto seria ajudar a amiga a encontrar-se com Caspian tanto quanto possível. Mesmo que Peter decidisse puni-la por cooperar com a traição da princesa, Narínia aceitaria de bom grado, com a certeza intima de que aquilo o desacreditaria diante do povo.
Para quem observasse de fora daquela estranha relação, veria Narínia servir como uma ponte entre Lucy, que agora demonstrava um pouco mais otimista, e a irmã mais velha, Susan. Edmund via naquela serva sem nome, sem terra e sem passado, uma influência benéfica e um tanto curiosa. Peter preferia enxergá-la como um presente excepcional que poderia levá-lo de volta às boas graças de Susan.
Peter estava tão seguro de que seu presente fora bem aceito que decidiu tornar claras suas intenções. Ele ordenou aos anões vermelhos que fizessem o anel mais esplendido que já se teve notícia, para presentear a princesa, convicto de que seria aceito de imediato por ela, sem nenhuma restrição. Ele confiava no bom senso e na racionalidade, tão característicos dela, para que ela entendesse que aceitá-lo por esposa seria a melhor solução.
Estava seguro de mais, confiante de mais, amparado por todo poder recém adquirido a ponto de acreditar que nada, nem ninguém poderia se dar ao luxo de recusá-lo, em primeiro lugar porque ele era o que havia de melhor.
Ele trazia o anel numa caixa de veludo vermelho, usava roupas suntuosas em um tom de verde esplendido, bordadas a ouro. A espada presa a cintura, os passos firmes como se estivesse pronto para ganhar uma guerra. Pediu licença para entrar nos aposentos de Susan, por uma mera questão de educação. Apenas a princesa e a jovem Narínia estavam ali, sentadas junto a lareira, jogando cartas e rindo como duas jovens deveriam fazer sempre.
Peter fez sinal para que a jovem criada deixasse a câmara e Narínia não soube o que fazer por um momento. Sentia que nada de bom poderia vir de um homem tão confiante, principalmente um que não conhecia os limites do próprio poder. Ela temeu pela amiga, mas se permanecesse ali as coisas poderiam se tornar ainda piores. Entendeu que o melhor era conceder ao jovem e prepotente rei o benefício da dúvida e, no caso de um revés, ela estaria próxima o bastante para socorrer Susan se fosse necessário.
Quando a garota deixou o quarto, Peter se sentiu momentaneamente inseguro. Encarou Susan, que desviou o olhar para o chão, algo que ele interpretou como timidez. Mal sabia que a princesa sentia náuseas só de encarar aquele rapaz que ela não mais reconhecia como irmão. Se pudesse, se tivesse forças, Susan bem que seria capaz de cravar uma adaga no peito dele.
- Essa garota é estranha, mas muito engraçada. – ele comentou aleatoriamente, só para quebrar a tensão entre eles – O que acha dela?
- Ela me faz rir. Obrigada por dá-la a mim. – Susan disse por obrigação.
- Eu queria fazer as pazes. – Peter admitiu num ato incomum de humildade – Eu exagerei quando discutimos na Mesa de Pedra. Perdoe-me, Su. Eu não agüentei vê-la defendendo um homem que não era eu.
- Esqueça isso. – ela disse mecanicamente – Já passou.
- Então estou perdoado? – ela concordou com a cabeça – Ótimo! Eu estive pensando muito a respeito ultimamente. – ele disse entusiasmado – Ser rei sozinho passa uma imagem muito ruim ao povo e isso não está certo. Preciso concertar isso.
- Vai restabelecer Ed, Lu e eu como rei e rainhas de Nárnia? – ela questionou desconfiada.
- Não exatamente. Lu não tem a menor condição neste momento e Edmund está sendo muito útil como conselheiro. A idéia é outra. – ele disse rapidamente – Preciso de uma rainha, logo precisarei de herdeiros também.
- Boa sorte com isso. – ela disse sem ânimo – Será da Arquelônia, da Calormânia ou uma telmarina?
- Nenhuma das opções. – ele disse sorrindo um sorriso que ela não via há muito tempo – Preciso de uma mulher que saiba como ser uma rainha de Nárnia. – a compreensão atingiu Susan como um raio e logo ela se viu no centro de uma espiral de pânico – Na lei de Nárnia não há objeção.
- Não...Peter. – ela murmurou.
- Susan, case-se comigo. – ele falou, mas o que era para ser um pedido amoroso se converteu numa ordem disfarçada.
Toda raiva, toda frustração e toda magoa guardada represadas não puderam mais ser contidas. Susan tremia inteira e como não sabia se queria gritar ou chorar, achou que chorar era a opção mais segura. Eram lágrimas descontroladas e agonizantes. Peter, que não entendia o que estava acontecendo, tentou se convencer de que ela estava feliz com o pedido, mas era óbvio que ela não estava.
Numa tentativa de ampará-la, ou pelo menos de tentar fazer a coisa certa, ele a segurou em seus braços. Num acesso de consciência, Susan tentou empurrá-lo, mas ele era mais forte e estava determinado a não permitir que ela se afastasse.
- Afaste-se de mim! – ela tentou ser firme, mas em meio ao choro descontrolado era quase impossível.
- O que está acontecendo, Su?! – ele perguntou, tentando disfarçar o pânico. Detestava vê-la chorando daquela maneira. Sentia-se impotente e muito pouco real diante de sua irmã quando ela estava tão vulnerável. – Diga!
- Solte-me! – ela pediu.
- Não até que me diga qual é o problema! – ele retorquiu firme.
- Como você ousa vir até mim, depois de tudo o que tem feito, com audácia o bastante para propor um absurdo desses?! – ela disse histérica. Peter a soltou e ela o encarava furiosa – VOCÊ SE TORNOU UM USURPADOR! UM ASSASSINO SEDENTO POR PODER E NADA MAIS!
- JÁ BASTA, SUSAN! – ele ordenou – Chega dessa histeria sem sentido!
- VOCÊ JOGOU O HOMEM QUE EU AMO NUMA PRISÃO! VOCÊ ROUBOU O TRONO QUE ERA DELE POR DIREITO E TEM A OUSADIA DE ME PEDIR, OU MELHOR, ORDENAR EM CASAMENTO! – ela gritava a ponto de sua garganta doer – Engula isso, Peter! Você é meu irmão, você se tornou um imbecil prepotente e eu não me casaria com você nem que fosse o ultimo homem da terra!
- Isso nós veremos. – ele disse entre dentes – Eu devo lembrá-la de que é apenas uma princesa agora? Que eu sou seu rei e senhor, isso me confere poderes plenos para determinar o que você vai ou não vai fazer. Tome nota de cada palavra: você não vai deixar este quarto até que eu diga o contrário, você não vai se quer pensar em Caspian e você vai se casar comigo na data que eu determinar! – ele a segurou pelos braços de uma vez e a puxou para si – E mais uma coisa, eu virei ao seu quarto esta noite e espero que minha noiva seja muito carinhosa e receptiva! Se tentar alguma coisa, qualquer coisa, Caspian morre ao raiar do dia. Não me teste, Susan.
Ele a empurrou com força contra a cadeira onde ela se sentara antes da discussão começar. Susan continuava em prantos, aterrorizada pelo irmão enlouquecido. Peter estava inflexível, nem lágrimas, nem súplicas conseguiriam persuadi-lo de que aquilo tudo era uma tremenda insanidade. Antes de deixar o quarto ele atirou no colo dela a caixinha com o anel, mas a princesa não teve coragem o suficiente para abrir.
Quando ele deixou o quarto topo com Narínia escorada na parede de frente para a porta, encarando-o com olhos duros. Definitivamente, o corpo e a estatura lembravam-no de Susan, mas o olhar e a expressão sagaz e ao mesmo tempo severa tornavam-na parecida com Edmund. Preferia quando ela estava saltitando pelo castelo ou falando coisas sem sentido, naquele momento a forma inquisidora como ela o encarava o deixava incomodado.
- O que estava fazendo? Bisbilhotando a conversa alheia?! – ele questionou mal criado. Ela o olhou com uma cara monótona.
- Como se fosse preciso algum esforço. Não sei se notou, mas você não estava fazendo a menor questão em esconder o que estavam discutindo. – ela respondeu sem dar grande importância e então o encarou de forma mais intensa. Involuntariamente, Peter recuou um passo – É comum irmãos se casarem na sua terra?
- Isso não é da sua conta. – ele respondeu acuado.
- Para muitos telmarinos isso seria considerado uma coisa errada. – ela disse insistente.
- Mas nada na lei de Nárnia proíbe. – ele respondeu tentando parecer convicto.
- E ainda que proibisse, você daria um jeito de mudar isso, não é mesmo? – ela falou cruzando os braços sobre o abdômen. – Se me permite, eu vou tentar concertar toda merda que você fez lá dentro.
- COMO OUSA?! – Peter estufou o peito e avançou para cima da garota, mas Narínia não se moveu.
- Alguém precisa dizer a verdade na sua cara. Uma pena que eu sou a única louca o bastante para não ligar a mínima pra sua prepotência. – ela disse firme – Vá em frente, se quiser me agredir. Eu sou uma mulher pequena e você é um rei em seu direito. Prove ao mundo que é O Magnífico e me bata, só porque eu tive a audácia de lhe dizer a verdade.
- Suma da minha frente! – ele ordenou com dentes serrados.
- Com todo prazer, Majestade. – e com uma reverencia debochada ela se despediu e entrou no quarto.
As coisas estavam perdendo o controle. Se uma criada tinha a petulência de tratá-lo daquela maneira, tão logo os outros soubessem, Peter estaria desmoralizado diante dos súditos. Susan o desafiou e foi colocada por ele em seu devido lugar, de onde o rei tinha certeza que ela não sairia. Narínia fez a mesma coisa, ela foi pior do que Susan até!
Aquela menina havia debochado dele, questionado sua autoridade e por fim o desafiou. Era como se Narínia desejasse a própria morte, ou uma punição no mínimo exemplar, mas por algum motivo Peter não foi capaz de dar-lhe o devido corretivo. A maneira como ela o encarava, a forma como ela se impunha sobre ele quando ameaçada tornavam-na respeitável. O guerreiro dentro dele a reconhecia, ainda que não fosse de fato, como uma adversária a altura dele.
Por toda tarde ele se manteve ocupado para não pensar em Susan. Ele a teria tão logo a noite caísse e aquilo marcaria definitivamente o início de um futuro esplêndido. Ele confiava que sua noiva logo entenderia os benefícios da união e acabaria gostando dele. Quem não gostaria de um rei jovem e belo como ele? Ele ignorou o comentário no fundo de sua mente. Um que dizia que Narínia não gostava dele.
Ao final da tarde, ele recebeu um bilhete. Era de Susan, ele reconheceria a letra elegante dela em qualquer lugar. Não foi o fato de receber a nota, ou que sua noiva sentisse necessidade de lhe falar de forma discreta e sim o conteúdo do bilhete que o assustou. Ela disse que o esperaria a noite, como ordenado, mas tinha apenas um pedido a fazer. Ele deveria manter as luzes apagadas o tempo todo.
Ele poderia dizer não e determinar que desejava ver o rosto dela quando ele lhe desse prazer, mas dadas as circunstâncias ele achou melhor conceder o pedido dela. Susan era uma virgem, na mente dele, esse tipo de pedido poderia ser considerado normal. Haveria muito tempo para acabar com as inibições depois.
Depois do jantar ele se retirou rapidamente, sem dar qualquer satisfação a ninguém. Lucy e Edmund não deram importância, conversavam baixo e pareciam desconectados do mundo. Peter pensou que talvez aqueles dois devessem se casar no futuro, só para assegurar uma dinastia forte, mas achou melhor deixar o assunto de lado. Ele tomou um banho demorado e cuidadoso, vestiu suas roupas de dormir e por cima um manto azul bordado a ouro.
Foi até os aposentos de Susan discretamente, quase furtivo. Acreditava que as damas de companhia ainda estariam dentro do quarto, por isso bateu antes de entrar. Diante do silêncio ele abriu a porta e adentrou a câmara escura.
Não conseguia enxergar nada dentro do quarto. As luzes estavam apagadas, a janela fechada e ele mal conseguia dar um passo sem tropeçar. Estava tudo tão silencioso que ele chegou a pensar que Susan ou havia conseguido escapar, ou estava dormindo. Estava a ponto de perder a paciência novamente quando sentiu um par de braços delicados envolvendo seu tronco, enquanto mãos pequenas pousavam contra seu tórax.
Peter sentiu um arrepio percorre-lhe o corpo. Susan não disse nada, era silenciosa como um gato. Ela retirou o manto que ele usava e permitiu que este caísse no chão. Pode sentir o corpo dela colado ao seu, ela era quente e aconchegante. Ele se virou para que pudesse abraçá-la também.
Ela estava usando uma camisola fina, tão fina que mal poderia ser considerada como empecilho. Ele sentiu a urgência de testar até onde ia toda essa receptividade dela. Peter ergueu o rosto feminino, encoberto por sombras, e numa fúria totalmente nova ele a beijou. Beijou como se seu mundo dependesse daquele instante e foi surpreendido por uma Susan totalmente disposta a retribuir.
Ele a segurou pela nuca com firmeza enquanto sua outra mão deslizava a camisola dela pelos ombros. Sentiu a textura da pele expostas, sentiu o calor lamber-lhe o corpo. Ela parecia disposta a tomar as rédeas da situação, tornando o beijo mais ardente, estimulando a proximidade dos corpos e guiando-o até a cama oculta na escuridão. Nem de longe Peter se sentia intimidado. Ele estava fascinado por esta nova faceta de Susan e ainda mais desejoso de tê-la por completo.
Ele se deixou guiar por ela. As mãos pequenas e hábeis se ocupara da tarefa de despi-lo, sem que Susan deixa-se de beijá-lo um minuto se quer. A esta altura, a excitação era dolorosa. Queria-a mais próxima, queria tudo o que ela pudesse lhe dar. Quando sentiu os pés da cama atrás de si, Peter a enlaçou pela cintura e num rodopio rápido jogou-a sobre o leito e determinou sua posição.
Ele tentou em vão enxergar alguma linha do rosto dela, mas senti-la embaixo de si era uma sensação poderosa. Com voracidade ele lhe atacou a boca e mapeou o corpo nu e quente com suas mãos. Os dedos dela se perdiam nos cabelos dele, puxando-os, arranhando o couro cabeludo e provocando arrepios nele.
Afastou as pernas dela e acomodou-se entre elas. Sentiu sua excitação roçar contra a entrada dela. Estava úmida, quente e apelativa. No fundo de sua mente, algo dizia que talvez ele devesse prolongar mais aquele momento, mas não tinha certeza se agüentaria muito mais.
Sem poder resistir por muito mais tempo, ele a estocou num movimento brusco. Todo corpo dela se retraiu. Ela se comprimia inteira ao redor dele, resistindo a invasão impiedosa. Um lamento de dor lhe escapou da boca dela e Peter precisou de um instante pra tentar manter o controle.
Então ele começou a se movimentar, lentamente, quase com dificuldade. Movimentos cadenciados e firmes, que faziam Susan gemer. Talvez ela ainda sentisse dor, talvez estivesse começando a sentir algum prazer, ele não sabia. Estava perdido de mais nas próprias sensações para pensar nas dela. A velocidade aumentava, ele pressionava cada vez mais seu corpo contra o dela enquanto se beijavam, abafando sons desconexos.
As pernas dela o enlaçaram, instigando-o a ir mais fundo e mais forte. Peter já sentia o orgasmo próximo, mas num momento de desatenção dele, Susan inverteu as posições, deixando-o atônito. Como uma amazona, ela o cavalgava, mexendo o quadril de forma torturante. Ele nunca se imaginou numa posição de inferioridade em relação a qualquer pessoa, mas naquele momento, com ela no comando, ele admitiria que valia a pena.
Apertando as nadegas dela, ela a incentivava a continuar no ritmo enquanto ele flertava bem de perto com a loucura. Sem conseguir agüentar mais, Peter se rendeu ao orgasmo violento, enquanto num movimento inesperado de quadril, Susan o torturava uma ultima vez antes de acompanhá-lo na onda de prazer.
Ele fez com que ela se deitar-se ao seu lado na cama e sem trocarem uma única palavra, em virtude da mais pura exaustão, eles caíram no sono.
Nota da Autora: Narínia, como diz minha amiga, é uma pessoa com um death wish quase incontrolável. Ela não tem noção do perigo e nem o Peter sabe onde está se metendo nessa história. Susan é a perfeita donzela indefesa, mas em breve vc's verão que princesa é mais sagaz do que se pensa. Caspian dará o ar de sua graça no próximo capítulo.
Por favor, comentem!
Bjux
Bee
