Amargura....

Ódio...

Eu sabia que a morte chegaria mais cedo se continuasse com essa vida...

Acabei com tantas vidas sem me importar com o que elas eram para o mundo. Nunca tentei imaginar se o homem que acabara de morrer pelas minhas mãos, possuía uma família esperando por ele em casa.

Desde que me tornei um matador, passei a trata-los como reles humanos merecidos da morte. Se me mandaram matá-los, o motivo estava muito bem expresso nesse pedido. Nunca ficara com a consciência pesada depois de um homicídio. Nunca sequer me assustei com o sangue que jorrava do ferimento da bala...

Até que... Eu a vi...

Sua beleza exótica cativou o meu olhar. Os longos cabelos róseos balançavam ao vento, trazendo o seu perfume até mim.

O que teria de mal naquela criatura tão bela, que merecia a morte?

Fiz o possível para matá-la, mas... Simplesmente não consegui...

Aquele sorriso... Aqueles lábios... Aqueles olhos...

Nunca havia sentido isso por mulher alguma nessa minha vida obscura e sangrenta. Por que ela seria tão diferente das outras?

Simplesmente não havia resposta para essa pergunta.

Apenas deixe-me levar pelas sensações que aquele sorriso, apenas um sorriso naqueles lábios causavam em mim...


__Capítulo II: Olhares

Seu coração batia tão forte. Ouvir aquela voz era como se um surdo tivesse o privilégio de ouvir o ecoar do vento nas árvores, os pássaros cantando sobre elas em sintonia com o cair da água cortando as rochas de uma cachoeira, pela primeira vez. Pensava que tinha se esquecido. Pensava tê-lo esquecido. Na verdade pensava muitas coisas da qual não tinha certeza.

Ela permanecia parada como uma estátua, fitando aqueles ônix que a fitavam em resposta. Sentiu tudo girar a sua volta, ao perceber que apenas aqueles olhos eram capazes de fazê-la se esquecer de respirar. O ar descompassado saiu por entre seus lábios, quando escutou sua voz novamente.

-Então era mesmo você... – Sasuke mantinha o olhar firme para ela.

-Do que está falando? – ele não respondeu.

Sentiu-se confortável em ouvir a voz dela que confirmava a sua presença. Quando sentia estar entre a vida e a morte, viu o rosto dela, estampado em meio ao branco da sua mente. Estaria delirando, foi o que pensou.

-O que está fazendo aqui, Sasuke? – ela agia rápido. Era um mistério o aparecimento do Uchiha em Dagarashi. Tentava manter sua expressão firme para ele.

Sasuke forçou os cotovelos para se levantar.

-Não... - Sakura o impediu. Suas mãos tocaram os ombros dele, fazendo-o deitar-se novamente.

-Eu pergunto o mesmo... – ele aproveitou a aproximação para aspirar o perfume que jurava ter esquecido.

-Eu trabalho aqui... - respondeu se afastando dele.

Suas mãos amaciaram os fios róseos enquanto se distanciava do Uchiha, indo em direção à janela.

-Então... Conseguiu... - a voz dele, rouca e aveludada chegou aos seus ouvidos. - Se tornou uma médica...

-Não... - seus lhos seguravam as lágrimas. Sua mão apertava o peito que doía. Sasuke estava mesmo ali? Falando com ela? Não conseguia acreditar. - Sou uma enfermeira. - virou-se para ele. -Você ainda não respondeu a minha pergunta. O que faz em Dagarashi?

-Por que quer tanto saber? - ele arqueou uma sobrancelha.

-Você estava bem longe daqui, pelo que me lembro...

-Hai... Pensei que perguntaria porque fui baleado...

Por que aqueles orbes a faziam perder a consciência daquela maneira? Ela não conseguia desviar o olhar dele. Tentava com todas as forças mas não conseguia.

-Eu não me importo. - conseguiu. Porém os ônix se arregalaram confusos. - Não tenho interesse em saber disso. Vindo de você espero qualquer coisa. - as palavras saíram ásperas de sua boca como ela queria.

Ainda com o cenho baixo caminhou até a cama, levando as faixas que cobririam o ferimento dele.

-Só estou aqui para cumprir o meu trabalho. - estava ao lado dele, fazendo o possível para não se perder nos orbes negros que a fitavam. Levou suas mãos até o pescoço do Uchiha, desamarrando a nó da roupa hospitalar que era o único tecido que cobria o corpo dele. Abaixou o tecido até a altura do abdome, perdendo-se nos músculos bem delineados, apreciados durante os dias em que cuidou dele.

Suas mãos trêmulas foram até o ferimento coberto, retirando lentamente o esparadrapo, logo depois as faixas. Concentrava-se apenas no que estava fazendo. Tentava ignorar seu coração acelerado. Tentava ignorar o cheiro que emanava dele e parecia embriagá-la. Tentava ignorar as lembranças dele na sua cabeça. Lembranças em que seus lábios percorriam o mesmo caminho por onde passavam seus dedos.

-Precisava vê-la... - o sussurro a fez parar os movimentos de seus dedos que retiravam os curativos. - Vim até esse fim de mundo apenas para vê-la.

Seus orbes esmeralda voltaram para os ônix. Quanta mentira, pensava ela. Quantas mentiras ele ainda podia inventar? Ele parecia sentir prazer em enganá-la. Por que ela acreditava naqueles olhos?

Ela continuou a fazer seu trabalho, passando um cicatrizante no ferimento costurado, fechando-o com gaze e faixas novamente.

O silêncio era uma tortura. Tinha tanto o que dizer a ele, mas as palavras simplesmente não saíam.

-Respondi sua pergunta? - finalmente um som no pequeno quarto que não era do "bip" dos aparelhos nem do barulho do abrir e fechar de gavetas do armário onde ela organizava os curativos.

Sakura não conseguia mais reprimir aquela raiva, aquela amargura enterrada dentro dela. Ela cerrou os punhos, deixando sua expressão, que ardia em fúria, bem visível para o paciente do zero nove.

-Por que age como se nada tivesse acontecido?! - fitou-o novamente. - Por que tem prazer em acabar com a minha vida?! - seus olhos lacrimejaram.

Sasuke aspirou o ar à sua volta, soltando-o em seguida. Sabia que Sakura despejaria todo seu ódio sobre ele quando o visse novamente.

-Acha que quero acabar com a sua vida?

Sakura respirou fundo e se aproximou da cama. Suas mãos pegaram o lençol branco e cobriram o Uchiha que ainda a fitava esperando pela resposta.

-Não quero mais ser vítima das suas mentiras... – ajeitou o travesseiro depois caminhou até a porta do quarto. Hesitou por um momento segurando a maçaneta, tentando esquecê-lo mais uma vez. Agora parecia muito mais difícil que antes.

Passou pela porta, mesmo querendo muito, não olhou para trás.

~•○•~

~ ~Flashback On~ ~

Mais uma festa chata em que minha tutora me arrastava com ela. Eu gostava de ficar em casa no sábado a noite com a cara enterrada nos livros, mas ela achava que eu deveria me divertir.

Nunca a perdoaria por me ter convencido a ir nessa festa estúpida. Na verdade, a culpa foi minha também. Eu não deveria ter aceitado de forma alguma. Pois nunca me esqueceria dessa noite. Ela me atormenta a cada minuto de insônia. Ela me assombra nos piores momentos em que eu me lembro dele.

Mas lá estava eu. Me saparei daqueles executivos, médicos, empresários, amigos de Tsunade, que não sabiam conversar outra coisa se não dinheiro. Saí dali antes que a minha mente explodisse de tanto tédio! Mas é claro, do modo mais educado possível. Eu já havia feito Tsunade-sama passar muita vergonha por minha culpa...

A bela casa em que estávamos, existia à um século, pelo que soube. Era linda, fantástica. Meus olhos se encantavam com os detalhes do teto, assim como os belos quadros nas paredes douradas. Observava cada detalhe, me deslumbrando de tamanha beleza. Meus olhos desceram para um belo quadro, não muito longe de onde eu estava próximo à varanda, parando num homem vestido de preto que olhava para mim.

Me sentir ruborizar com aquele olhar. A franja de seus cabelos negros estavam sob os olhos. Ele estava parado, parecendo uma bela estátua de mármore com as mãos nos bolsos, olhando diretamente para mim. Seu terno preto ficava tão bem no seu corpo, que parecia ser o único homem bem vestido naquela festa da alta sociedade.

Quando percebi que o observava demais, na verdade foram segundos; segundos intermináveis; desviei o olhar sorrindo. Me senti uma perfeita estúpida sorrindo daquele jeito. Tentei voltar a minha observação daquela linda casa, mas a imagem dele ficou na minha cabeça. Firmei o olhar para frente, sentindo uma súbita vontade de olhar na direção dele novamente, mas eu nem havia percebido que ele já estava ao meu lado.

-Por que olha tanto para esse quadro? - aquela voz fez meu coração acelerar. Olhei para o rosto dele. Aquele olhar, aquele sorriso torto. Era encantador.

Mas o que ele havia perguntado mesmo? Que quadro? Olhei de volta para a parede da qual fitava um pouco antes d'ele se aproximar de mim.

Por Kami-sama! Pendurar uma coisa daquela numa casa tão bonita, deveria ser crime! Havia uma mulher semi nua em posições que não gostaria de retratar. Ele deveria estar me achando uma pervertida agora.

-Bom... - eu tinha certeza que estava corada. - Eu desconheço o artista. - foi o melhor que consegui dizer. - Por caso você sabe quem pintou esse quadro?

-Deve ter sido algum maluco pervertido. - ele dizia cada palavra sem tirar os olhos dos meus.

-Ou um viúvo que sentia falta da mulher. - eu sei que já estava falando bobagens. Acho que tirei isso pelo fato da grande quantidade de preto que existe nesse quadro. Ou simplesmente não conseguia raciocinar direito com ele me olhando daquele jeito.

-Qual é o seui nome? - percebi que o sorriso torto havia aumentado.

-Haruno Sakura. - eu estava mesmo perdida nos olhos ônix, porque não senti quando minha mão foi pega pela mão dele. Quando me dei conta, ele a levantava e abaixava a cabeça ao mesmo tempo, sem desviar os olhos dos meus.

-Uchiha Sasuke. - a beijou depois de se apresentar.

Continuou a segurá-la me fitando intensamente. Dessa vez eu não desviei o olhar. O fitei da mesma maneira, sentindo a pele quente da sua mão esquentar a minha que estava fria.

-Lá em cima tem outros quadros. - sua voz me despertou para a realidade.- Gostaria de dar uma olhada?

-Gomene, eu não fico a sós com estranhos... - fiquei sem jeito com aquele pedido. Eu deveria imaginar que ele era desse tipo. Agora me sentia uma estúpida por ter parecido tão encantada por ele.

Desviei o olhar quando soltei sua mão. Só agora percebi a quantidade de pessoas que olhavam na nossa direção. Ou melhor, a quantidade de mulheres. Uma delas me olhou de ponta a cabeça, fazendo uma careta, sem se importar se eu estava vendo.

Claro que eram mais bonitas que eu. Seus belos vestidos nem se comparavam ao meu, simples de poliéster vermelho até os joelhos, sem decote na frente, mas deixava um pouco das minhas costas à mostra.

Voltei meus olhos para o Sasuke me sentindo o "monstro verde" de vestido no meio de tanta gente bonita.

-Está com medo de mim? - como eu odiava ser o centro das atenções. Sasuke não se importava pelo jeito bem à vontade que ele estava. Era como se houvessem apenas nós dois do meio daquela enorme sala.

-Eu não conheço você... - agora eu estava à poucas chances de aceitar aquele convite. Queria me ver longe daqueles olhares.

-Prometo não te fazer nada. - ele estava sem o sorriso torto encantador. - Seria burrice no meio de tantas testemunhas. - estava tão sério que não sei dizer se foi uma piada.

Pensei por um momento, mas decidi arriscar. Ele não parecia ser um psicopata assassino. Que bobagem pensar isso. Mas em todo caso, eu só deveria gritar.

Subimos as escadas do terceiro ao quinto andar daquela mansão. Adentramos um imenso corredor, que poderia considerar-se um perfeito museu. Era repleto de quadros, vasos, esculturas, muitas da antiguidade japonesa. Observava tudo ao meu redor, sentindo a presença de Sasuke ao meu lado.

-Por que está aqui? Eu sei que não queria estar.

Cerrei os meus olhos em dúvida. Como ele poderia saber?

-Estou acompanhando minha madrinha e tutora. Ela gosta dessas festas....

-Mas você não... - ele estava agora tão próximo de mim. Estávamos perto à uma sacada. A enorme janela estava aberta, deixando o vento gélido passar por ela. - Faz coisas das quais não gosta, para agradar outras pessoas?

-Gosto de deixar outras pessoas felizes.

-Mas quanto à você? E o que deixa você feliz?

-É muito egoísmo pensar apenas na própria felicidade. - ele me encarou por um momento.

Me perdi mais uma vez naquele olhar... Eu não conseguia defini-lo... Estava sério, sereno, pleno e ao mesmo tempo misterioso. Nunca conseguiria decifrar o que eles queriam dizer...

~ Flashback Off ~

~•○•~

Seus olhos se abriram com o barulho do despertador às cinco da manhã. Passou as mãos nos fios róseos, ainda sentindo o coração acelerado no peito. As lembranças do Uchiha estavam ainda mais vivas depois daquele contato entre eles. Os sonhos foram piores que aquelas simples lembranças da noite em que se conheceram. Os lençóis da sua cama estavam totalmente amassados. Era como se pudesse senti-lo ao seu lado, sentir a quentura de seu corpo, sentir a maciez da sua pele...

Outra noite mal dormida; outro dia ruim que passaria naquele hospital. O pior de tudo era que o motivo era sempre por ele. Ainda imaginava o dia em que aquele sofrimento acabaria.


Continua....


Aviso que no começo a fic pode não fazer muito sentindo.

Tudo vai se esclarecendo com o passar dos capítulos, em que muitos terão flashbacks importantíssimos!o/o/

A quem está lendo, muito obrigada! Amanhã postarei mais um capítulo.

bjss

=Denny