Peter, O Deposto
"Imagino que para lidar com as diferenças entre nós e as outras pessoas, temos que aprender compaixão, autocontrole, piedade, perdão, simpatia e amor – virtudes sem as quais nem nós, nem o mundo, podemos sobreviver."
(Wendell Berry)
Ele acordou na manhã seguinte e se deparou com uma cama vazia. Ao contrário do esperado, ele não reclamou a ausência de Susan, estava tentando ser compreensivo, mesmo que fosse incompreensível o episódio vivido na noite anterior. Ele era um homem feliz, podia dizer isso sem medo.
Levantou-se, voltou para seu quarto, trocou de roupa e foi tomar café com os irmãos. Susan também não estava lá, mandou que um dos arautos dissesse que ela não se sentia disposta. Nenhuma surpresa, dada a intensidade da noite anterior. Aquilo o deixou envaidecido e ele não questionou os motivos dela.
Deixou a mesa do café, decidido a cavalgar um pouco antes de se ocupar dos assuntos de Estado. Já estava chegando ao estábulo quando no meio do caminho topou com algo no mínimo inusitado. Narínia vinha andando pelo campo de um jeito bem engraçado, como se tivesse levado uma surra da cintura para baixo. As pernas arqueadas faziam-no lembrar da primeira vez que ele cavalgou. O efeito do dia seguinte foi desastroso.
Ela tentou fazer de conta que não o viu no meio do caminho, enquanto abocanhava uma maçã com vontade. Essas demonstrações de insubordinação o irritavam, mas a cena como um todo parecia tão engraçada que perder a chance de provocá-la era um desperdício.
- O que aconteceu pra você estar andando desse jeito? – ele perguntou debochado. Ela rangeu os dentes.
- Está de bom humor hoje, pelo que estou vendo. – ela retrucou mal humorada.
- Sim, estou. Pena que não se pode dizer o mesmo de você. – ele disse ainda rindo – Diga logo, o que aconteceu.
- Passei à tarde de ontem cavalgando com uma perna de cada lado da cela. – ela resmungou enquanto tentava passar por ele sem dar mais atenção ao assunto – Sensação horrível. Parece que levei uma surra de remo nas pernas. – ele riu abertamente do comentário dela, tanto que seus pulmões chegaram a doer.
- Isso que dá uma mulher querer cavalgar como um homem. – ele disse – Use uma cela para damas da próxima vez. – ele provocou, mas ela tentou ignorar. Deu as costas para ele.
- Cavalo! – ela resmungou quando ele já estava longe o bastante para não ouvir.
Nada, nem mesmo o mau humor matinal de Narínia parecia capaz de estragar o estado de espírito dele. Tudo o que Peter conseguia pensar era em Susan e em como ele gostaria de repetir a noite passada o mais rápido possível. O sol parecia mais claro, o ar parecia mais fresco, tudo parecia fadado a dar certo. Talvez sua noiva tivesse esquecido Caspian.
A idéia de por logo um fim a vida do príncipe telmarino ainda era tentadora, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa contra ele providências deviam ser tomadas. Deveria haver uma acusação formal contra ele, algo que a população pudesse aceitar como justificativa para uma sentença de morte. E mesmo que conseguisse uma boa fundamentação, isso deveria ser feito depois que o casamento com Susan fosse válido. Ele não queria correr o risco de afastar sua futura esposa de si, não agora que ele havia descoberto o quão deliciosa era a proximidade.
Pensou que seria bom mandar uma nota a ela, avisando que iria a seus aposentos durante a noite, mas pensou melhor e decidiu que lhe faria uma surpresa. Talvez devesse providenciar flores para ela, mulheres gostavam de flores.
O dia pareceu se arrastar. Susan manteve-se reclusa, o que para ele parecia ser uma atitude adequada a uma noiva modesta, mas eventualmente levantou suspeitas diante de Lucy e Edmund. Peter não contaria seu plano aos irmãos, não enquanto sentisse que eles estavam inaptos a compreender a elevação de seus propósitos, também não queria que Susan se sentisse constrangida.
Estava na metade da tarde e constatou que não poderia agüentar mais nem um minuto. Precisava ver Susan urgentemente e se perder nela outra vez. Ele se sentia atordoado, desconcentrado e ansioso a ponto de não parar de tamborilar os dedos sobre a mesa. Decidido ele saiu do gabinete e ordenou que um dos sátiros lhe providenciasse um buquê de flores enquanto Peter estivesse no banho.
Era vaidoso e sabia disso. Queria que ela o visse como algo que valia a pena. Um rei jovem, belo e que faria qualquer coisa para que ela se sentisse feliz. Queria agradá-la e nada mais, queria que sua irmã, noiva e futura esposa estivesse sempre feliz ao lado dele. Isso o fazia se sentir ainda mais nobre.
Ele se vestiu com todo cuidado, pegou o buquê de flores e seguiu em direção aos aposentos de Susan. Quando chegou ao corredor que levava ao quarto ele foi surpreendido por sons suspeitos e manteve-se escondido para ver do que se tratava. Duas figuras sussurravam apressadamente, como se conspirassem.
Susan e Narínia estavam deixando o quarto, enquanto a criada olhava por cima dos ombros para se certificar de que não havia ninguém ali.
- Vamos! – a serva sussurrou – Não temos muito tempo. – e então elas saíram furtivamente e desapareceram por uma portinhola escondida atrás de uma tapeçaria presa na parede.
Peter achou tudo muito suspeito. Por mais que se recusasse a pensar mal de sua noiva, mas quando se tratava de Narínia tudo podia acontecer. Ele deixou o buquê de lado, retirou sua capa e jogou-a em qualquer canto para não chamar a atenção.
Silencioso como um felino, ele seguiu pelo caminho que elas haviam tomado. A portinhola levava a um túnel escuro, onde o cheiro de mofo era asfixiante. Ele se guiava pelo som dos passos apressados das duas mulheres até observar que as duas iam de encontro a uma saída que dava para um cômodo iluminado unicamente por tochas. Ele manteve-se nas sombras, escondido, e descobriu onde a passagem levava.
Elas estavam nas masmorras do castelo e naquele momento Narínia oferecia a um guarda uma bela garrafa de vinho tinto como suborno para que pudessem ter acesso as celas. Peter continuou a observar, a medida que o guarda se afastava. Era uma cela especial, já que havia uma cama mais confortável que as demais, uma tina com água limpa e uma mesa com comida de qualidade. Era a cela do Principe Caspian.
Assim que se deu conta da presença das duas moças, Caspian se levantou da cama e correu até elas. Pelas frestas da grade as mãos do príncipe buscaram o rosto de Susan, que estava banhado por lágrimas. A forma como se olhavam, a devoção implícita nos gesto e o carinho atingiram Peter como um soco na boca do estomago. O rei respirava com dificuldade, seus lábios tremiam e seus olhos começaram a arder involuntariamente.
A rejeição doía, a traição doía ainda mais. Seria por isso que ela pedira para ele que mantivesse as luzes apagadas? Para que Peter jamais pudesse ver no rosto dela o olhar de repulsa e tristeza? Para que ele não exigisse dela o mesmo olhar que ela destinava tão espontaneamente a Caspian?!
- Não chore, minha rainha. – Caspian sussurrava carinhosamente para ela – É um dia feliz, pois eu posso vê-la, posso tocar seu rosto e ter a certeza de que minha vida é mais plena porque você existe. – Peter teve que morder o lábio inferior para conter um grito de dor e ódio.
- Como posso não chorar?! – ela perguntava – Não agüento vê-lo trancafiado ai dentro, como um criminoso! Oh Caspian! Que dias terríveis são estes! – ela lamentou – A cada dia que passa eu tenho mais motivos para temer por sua vida e por Peter também! Meu irmão está louco! Foi tomado pelo poder e chegou a ordenar que eu me casasse com ele! Não sei mais o que fazer. Consegui escapar da noite passada, mas não sei mais quanto tempo poderei enganá-lo!
Enganá-lo, ela disse. O que exatamente ela havia feito para enganá-lo? Fingir que o amava durante a noite para no dia seguinte fazer juras ao maldito Caspian?!
- Oh, não vamos falar disso agora! Vocês têm pouco tempo! – Narínia alertou enquanto passava pela grade uma garrafa pequena de bebida – Tome, você e Glozelle merecem alguma coisa para esquecer este inferno.
- Agradeço sua atenção, lady Narínia. – Caspian disse enquanto dava um gole na bebida – E sinto muito pelo que teve de fazer, mas saiba que lhe sou eternamente grato.
- Eu não deixaria aquele rei ridículo encostar em minha amiga, nem por todos os fios da juba de Aslam! – Narínia disse firme.
- Isso não muda o fato de que você se sacrificou por mim quando sugeri o plano. Você poderia ter recusado, mas não o fez. – Susan disse amável – Muito obrigada.
- Oh, pare com isso! – Narínia resmungou – Não foi de todo ruim. Quantas garotas podem dizer que foram pra cama com um rei? – ela debochou da própria situação – E ele até que sabia o que fazer.
Peter sentiu seu rosto se esvair de toda cor. Não foi Susan que o seduziu, não foi ela quem se entregou de forma tão esplendida a ele na noite anterior! Era Narínia quem estava lá! Foi a serva imunda que o arrastou para o leito como uma puta qualquer e o domou entre suas cochas! Ele se permitiu ser domado por uma SERVA!
Enquanto Narínia o mantinha ocupado, era com Caspian que Susan se encontrava! E como ele foi tolo de achar que sua querida noiva havia enxergado a luz da razão quando seus olhos azuis estavam cegos para qualquer coisa que não fosse o príncipe talmarino. Foi com uma dor indescritível que Peter constatou o óbvio. Susan amava Caspian, amava tanto que se prestava ao papel de uma reles trapaceira para conseguir se esgueirar até as masmorras e encontrá-lo, para levar algum consolo ao amante aprisionado. Enquanto ele, o Grande Rei Peter, era rejeitado por ela, passado para traz, feito de idiota pela mulher que amava e por uma serva que deveria ter sido açoitada há muito tempo!
E por essa traição todos eles pagariam!
Empunhando sua espada, Peter deixou as sombras enquanto apontava a lâmina para os três traidores. Susan se colocou imediatamente entre ele e Caspian, mantendo os braços abertos numa tentativa vã de protegê-lo.
Narínia, num ato desesperado, se atirou contra o rei, tentando desviar o braço armado para longe, ou até desarmá-lo, mas foi inútil. Peter a empurrou com força contra o chão e a encarou furioso.
- Não ouse tocar em mim, rameira imunda! – ele disse entre dente – Vocês dois brincaram com a sorte pela ultima vez! Eu lhe dei a oportunidade para ver o tamanho da burrice que estava fazendo, Susan! Eu fui tolerante, me mostrei disposto a torná-la a mulher mais feliz do mundo e é assim que você me retribui!
- Peter, por favor! Pare com esta loucura! – Susan implorou – Ouça a voz da razão!
- Razão?! A única razão que eu consigo enxergar é uma sentença de morte! – ele rugiu.
- Não ouse encostar nela! – Caspian disse furioso.
- Oh, não vou! – Peter rebateu – Eu ainda preciso de uma rainha e cuidarei para que ela seja dócil e obediente! Mas no que diz respeito a você, eu fui tolerante por um tempo longo de mais. Você vai morrer com a certeza de que Susan é MINHA esposa!
- Peter, NÃO! – Susan implorava em prantos.
- Tudo o que você vai conseguir é uma legião de telmarinos revoltados! – Narínia disse se levantando – Tudo o que você vai conseguir é se tornar um governante antipatizado! Olhe para você e veja o quão patético você se tornou!
- Não se atreva a dirigir a palavra a mim! Vadia! – Peter tornou a apontar a espada para a garota.
- O que é isso? – ela disse em tom de provocação – Você bem que gostou quando eu cavalguei você.
- Não se atreva, ou...- Peter tentou pensar em algo para dizer, mas foi interrompido antes.
- Ou o que?! – ela o desafiou – Vai me agredir como fez com sua irmã?! Vai tentar me matar porque tenho a coragem de desafiar você e sua suposta autoridade real? Isso é de mais pro seu ego principesco? Então vá em frente e seja homem para atravessar meu peito com esta espada! SEJA MAGNÍFICO E ME MATE!
Peter abaixou a espada, mas ao invés da rendição dele, o que Narínia recebeu foi um tapa na cara, tão forte que a fez se desequilibrar. Em seguida ele a agarrou pelos cabelos com força, fazendo-a gritar. Peter foi obrigado a reprimir a lembrança de como ela havia gemido e gritado na noite anterior.
- Eu vou matá-la, disso você pode ter certeza. – Peter sussurrou perigosamente – Eu vou fazer questão de executá-la em praça pública por alta traição e expor seu cadáver nu para apodrecer ao sol. Você e Caspian morrem no momento em que meu casamento com Susan for celebrado. Será meu presente de casamento a uma noiva traidora!
- É o melhor que pode fazer, meu rei? – ela o provocou uma ultima vez, antes de ser atirada ao chão.
- Guardas! – Peter chamou e logo três guardas apareceram – Providenciem para esta traidora uma cela e preparem tudo. Duas execuções serão realizadas dentro de dois dias. Quando terminarem, de acomodar nossa "convidada", escoltem a princesa Susan para seus aposentos e cuidem para que ela não saia de lá a menos que eu diga o contrário.
Peter deu as costas a eles. Desorientado ele voltou para seus aposentos e permitiu que toda fúria, toda frustração o deixasse. Vasos, moveis e cortinas foram destruídos no meio do caminho e, ainda que colocasse o cômodo a baixo, não seria o bastante. Tudo o que ele queria era arrancar o coração de seu peito, como faria com Caspian.
Por que ele se sentia tão inconsolável? Ele era um rei, detentor de um poder indescritível, jovem, belo, rico, amado pelos narnianos e ainda assim... Ainda assim Peter se sentia solitário. Seus irmãos o olhavam com medo e desconfiança. Edmund só se mantinha por perto para tentar induzi-lo a moderação. Lucy o encarava como um estranho a ser temido e Susan, sua adorada Susan, o odiava e traía sem demonstrar qualquer vergonha por isso.
Do que adiantava o poder? Do que adiantava tudo aquilo, se no fim ele estava isolado, solitário, sendo tratado como um predador quando tudo o que ele queria era fazer a coisa certa. Ele se atirou de costas na cama e permitiu que o choro desesperado tomasse conta dele. Chorou como não fazia há anos.
Dês do dia em que o pai foi para a guerra e ele se viu na posição de chefe de família, responsável pela segurança dos irmãos, ele se proibia tal demonstração de fraqueza. Ele devia ser forte pelos irmãos e mais tarde teve de ser forte por seu povo. Nunca podendo comentar com ninguém suas dúvidas, seus medos e suas fraquezas, porque um rei não podia ter nada disso. E agora ele não tinha ninguém.
Fazia tempo que ele não compartilhava com os irmãos momentos de descontração e risadas. Aliás, ele não ria de forma espontânea mais. Então ele se lembrou de um detalhe peculiar...A pesar dos desaforos, da insubordinação e da ousadia, Narínia o fazia rir sem que ele percebesse. Fosse com seu jeito debochado, suas frases ferinas ou a forma cômica como ela estava andando pela manhã em virtude de uma cavalgada...Ao menos isso fazia bem ao ego dele. Foi Peter que a deixou daquela maneira.
Em algum momento em meio a sua dor, ele acabou pegando no sono por pura exaustão. O sono foi terrível e turbulento, ele acordou mais cansado do que jamais havia se sentido e assim que amanheceu fez questão de assinar as sentenças de execução para Narínia e Caspian. Edmund tentou convencê-lo do contrário, mas Peter estava decidido.
Ordenou aos sátiros e faunos que cuidassem da preparação do templo e anunciassem que ao amanhecer do dia seguinte o Grande Rei Peter se casaria com a princesa Susan e em comemoração a ocasião, dois traidores seriam executados em praça pública.
O tempo voou e logo raiava o dia em que Caspian e Narínia seriam mortos e Peter teria uma rainha. Lucy se recusava a tomar parte em tudo aquilo e Peter foi obrigado a ordenar que ela estivesse pronta para a cerimônia sobre pena de não poder nunca mais entrar no templo. Edmund interveio por ela e conseguiu convencê-la a obedecer.
Peter vestiu suas melhores vestes, colocou suas jóias e prendeu sua espada ao cinto. Susan esperava por ele a entrada do palácio, de onde sairia o cortejo. Primeiro a execução e em seguida o casamento.
Ele se convenceu da nobreza dela. Susan não derramou uma lágrima, não tirou os olhos do horizonte e não disse uma palavra. Ela usava a mesma expressão de quando estava a caminho de uma batalha. Não importava o tamanho da provação, no final ela sempre seria uma rainha de Nárnia.
Peter tomou seu lugar no trono central no camarote real. Susan sentou-se ao lado dele, com sua aparência digna. Mesmo que ele detestasse admitir, sabia que ela estava a ponto de desabar ali mesmo. Lucy e Edmund também tomaram posse dos tronos menores, como era próprio aos herdeiros.
As trombetas soaram, anunciando a chegada dos prisioneiros traidores. Susan estremeceu ao lado dele, ficando ainda mais pálida. Caspian caminhava serenamente, sua expressão inabalável e calma. Não parecia um condenado, não parecia nem mesmo um homem comum. Aquele era um príncipe consciente e resignado em seus deveres, morreria de bom grado e com a cabeça erguida, pois era isso o que seus súditos esperavam dele.
Logo atrás, Narínia vinha com pés e mãos acorrentadas. O cabelo desgrenhado e as roupas rasgadas faziam-na parecer uma velha bruxa. Os olhos eram duros, inflexíveis como aço. O queixo se erguia de forma insolente e Peter teve a certeza de que nem mesmo diante da morte ela se curvaria. Nada era capaz de dobrar aquela mulher.
Subiram ao pequeno palco, onde o machado afiado esperava pelo pescoço de cada um. A praça estava cheia, mas não havia nenhuma ofensa sendo atirada aos condenados. O silêncio era profundo e constrangedor. Como era de costume, aos prisioneiros foi concedido o direito a proferir suas ultimas palavras.
Caspian foi o primeiro.
- Se minha morte significa a união de dois povos grandiosos, então é de bom grado que faço o sacrifício que sempre estive pronto a fazer. – ele disse com a voz firme, encarando os integrantes do camarote real – Como príncipe, é preciso pensar além de suas vontades e necessidades, é preciso ser maior do que o egoísmo e a avareza, sempre pronto a atender uma necessidade e um bem maior. É por isso que eu morro. Amem seus soberanos, amem uns aos outros como irmãos e lutem, sempre, pelo justo. – Caspian respirou fundo e encarou Susan diretamente – À minha rainha, minha eterna devoção.
Peter notou que Susan teve de morder o lábio para conter o grito em sua garganta. As lágrimas estavam represadas em seus olhos e Lucy não estava nem um pouco melhor. Caspian ajoelhou-se e inclinou seu corpo sobre a madeira. O carrasco ao seu lado erguia o machado gigantesco e afiadíssimo. Edmund virou o rosto para não ter que ver a morte do companheiro de armas. Susan queria implorar para morrer junto com ele e Lucy rezava silenciosa e com os olhos fechados.
O machado estava pronto para descer, mas eis que o milagre aconteceu e um rugido colossal preencheu o silêncio. Olhos arregalados e tremores por toda parte, tal som era um aviso maior do que qualquer presságio. Saltando sobre a multidão, o Grande Leão dourado derrubou o carrasco. Mostrando seus dentes e sacudindo a esplendida juba, Aslam se mostrou diante uma multidão maravilhada.
Pela primeira vez em anos, Peter teve tanto medo que chegou a perder a cor.
- Nem uma gota de sangue será derramada hoje! – o leão falou com a voz imponente – Nenhuma morte servirá para um propósito tão mesquinho quanto este! Aquele que chamam de Grande Rei Peter, levante-se! – lentamente e com grande temor, Peter obedeceu à ordem – O tempo dos Reis e Rainhas do Passado se esgotou, mas a promessa de serem sempre reis e rainhas de Nárnia permanece. Esta coroa sobre sua cabeça deve, Peter, deve ser entregada aquele que ocupará o trono por direito e por conquista, não por usurpação. Confiei em sua coragem e sua sabedoria para fazer o que era certo e veja o que se tornou! Um tirano.
Peter abaixou a cabeça, como uma criança repreendida por um pai. Aslam caminhou até ele com firmeza.
- Você não mais governará telmarinos e narnianos, mas todo respeito pertinente a um rei deve ser mantido em relação a sua pessoa. – Aslam disse firme – Você falhou no maior dos testes, causando pânico até mesmo entre seus entes queridos. Rainha Susan, a senhora está livre de qualquer compromisso imposto pelo Grande Rei e acredito que seja sábio aconselha-la a ajudar Caspian X na tarefa que o espera. Pode ir, minha filha. – o sorriso se abriu no rosto de Susan, que imediatamente deixou o camarote e correu para os braços de Caspian – Lucy, como sempre sua fé permanece inabalável. – Lucy sorriu em resposta como a muito não fazia – Edmund, ainda que seus esforços tenham sido de pouca expressão, seu bom senso e sua determinação impediram que este dia trágico fosse concretizado antes que eu pudesse chegar.
Peter sentia-se apavorado e humilhado diante de seus súditos. Ninguém se manifestou para ajudá-lo, nem narniano e nem telmarino. Diante de Aslam, não havia qualquer possibilidade de argumentação.
- Retire sua coroa, Grande Rei Peter. – Aslam ordenou e Peter obedeceu em silêncio – E entregue-a ao seu devido dono. – o rapaz caminhou até Caspian, que ainda se encontrava agachado, enquanto Susan o abraçava com força. Peter colocou a coroa sobre a cabeça do príncipe, agora Rei Caspian X. – Levante-se, Rei Caspian, rei de Nárnia e Telmar, Senhor de Cair Paravel e Imperador das Ilhas Solitárias.
Peter observou Caspian se erguer com uma força nova, como se tivesse bebido do suco da flor de fogo e se regenerado. Susan estava aconchegada junto a ele, aliviada, extasiada e absolutamente feliz pelo novo destino do agora rei. Peter abaixou a cabeça, sentindo seus olhos arderem enquanto ele tentava conter as lágrimas.
Sentia-se envergonhado diante do maior exemplo de liderança, bravura e sabedoria. Aslam fez questão de dizer com todas as letras de que nada daquilo pertencia a Peter. Lucy e Edmund olhavam-no com alguma compaixão, mas isso se restringia aos dois Pevensie mais jovens. Susan estava radiante, mais linda do que nunca e agora inatingível para ele. Estava muito evidente que Caspian havia encontrado sua rainha.
A multidão extasiada saudava o novo rei com alegria, mas para Peter tudo estava um tanto quanto cinza.
- EI! Alguém ai pode dizer pro cara encapuzado me desamarrar! – Narínia, ainda de mãos atadas, gritava por atenção. No meio de tantas emoções vergonhosas, Peter ainda conseguiu rir da cara indignada que ela fazia ao encara o carrasco. – Seu Leão, dá pra me ajudar aqui.
- Que Narínia, Filha de Lugar Nenhum, seja libertada. – Aslam ordenou e foi prontamente obedecido.
Ela agradeceu ao Grande Leão com um sorriso radiante estampado no rosto. Peter não notou que isso durou pouco. Assim que a garota se viu livre lançou a ele um olhar preocupado, quase suplicante.
- Você errou Peter e o erro foi grave. Para você eu ofereço duas opções para que siga com sua vida e não cometa mais tais injustiças. – Aslam declarou – Pode voltar ao seu mundo, preservando todas as suas memórias e sozinho, ou pode permanecer neste mundo, junto com seus irmãos e estando sujeito as leis e punições que o Rei Caspian decidir lhe infligir. A decisão é sua e somente a você caberá arcar com elas.
Peter ergueu a cabeça e olhou para o grande leão dourado diante dele. Ponderou por um momento. Se voltasse ao seu mundo, teria a certeza de que em menos de um ano todos aqueles que ele amava estariam mortos. Ele não saberia como seus irmãos teriam vivido, não participaria da vida de nenhum deles e estaria perfeitamente sozinho com suas próprias lembranças. Se ficasse, ainda que a punição fosse grande, ele ao menos poderia saber que todos estavam bem, poderia se assegurar de que suas vidas foram plenas.
Ele respirou fundo.
- Eu fico. Impus ao prin...Ao rei Caspian a minha lei de forma desastrada e com grandes exageros. Penso que é justo que ele retribua a minha cortesia como melhor lhe convir. Tudo o que eu desejo é saber que meus irmãos viveram felizes, do que me conformar com meras suposições e a certeza de que em um dia no meu mundo eu já os teria perdido para a morte.
- O que me diz, Rei Caspian? – Aslam perguntou ao novo rei. Caspian olhou atentamente para o rosto de Susan, enquanto pensava em uma resposta.
- Peter ainda é um rei de Nárnia e, espero eu, meu futuro cunhado. É direito que ele mantenha sua dignidade enquanto rei, mas nem eu, nem meus descendentes estaríamos tranqüilos com a ameaça constante de novo golpe. – Caspian disse convicto – Eu o condeno ao exílio nas Ilhas Solitárias, onde ele terá direito a uma moradia a altura de um nobre, uma pequena corte e uma renda generosa.
- Lhe parece justo, Grande Rei? – Aslam perguntou.
- É mais do que mereço. – ele disse resignado.
- O novo rei determinou e assim deve ser. – Aslam pôs um fim a questão.
Quando tudo parecia acertado, alguém fez um som estranho com a garganta para chamar atenção. Todos então se viraram para Narínia que estava atenta a tudo.
- Com o perdão da palavra, Majestades. – ela disse se dirigindo ao leão e ao novo rei – Peço para ser mandada junto com o Grande Rei para o exílio.
Um som de espanto tomou conta de todos e Peter a encarou incrédulo. Se ele tinha alguma dúvida de que ela era louca, agora ele estava certo da resposta. Ela não pareceu se abalar.
- Deixaria sua vida e seus amigos aqui para seguir a um condenado? – Aslam questionou divertido.
- Com todo respeito, existe muito pouco que me prenda neste lugar, apenas minhas duas amigas aqui presentes. – Narínia respondeu dando de ombros – O rei Peter fez muita coisa pra muita gente e não nego que ele mereça punição, mas a idéia é que ele aprenda com os erros. O grande problema dele foi se deixar seduzir pelo poder e qualquer um aqui está sujeito ao mesmo perigo.
- Você ainda não disse a razão de seu sacrifício. – Aslam disse como um pai amoroso se dirige a filha.
- Porque no passado ele foi um bom rei e um bom homem, qualquer narniano diria isso. E porque ele merece uma segunda chance de fazer a coisa certa, mas sozinho isso será muito difícil. E por fim, mesmo que ele tenha todos os defeitos do mundo, há algo nele que merece ser amado. – aquilo foi para Peter um tapa, seguido de um afago gentil e bem vindo.
Sem qualquer objeção por parte do novo rei, e com a benção das duas filhas de Eva, foi concedido a Narínia o pedido para que ela acompanhasse o Grande Rei Peter em seu exílio. Por mais que os motivos dela fossem obscuros, por mais que a situação em si fosse muito improvável, Peter se sentia grato a ela. Mal sabia ele que um capítulo em sua vida havia se encerrado e um capítulo totalmente novo começara a ser escrito.
Peter, O Magnífico; Peter, O Conquistador; Peter, O Tirano; era agora conhecido como Peter, O Deposto.
Nota da Autora: Improvável? Inacreditável? Ridículo? Talvez, mas Caspian é muito nobre pra mandar matar um rei de Nárnia a sangue frio e mesmo que não fosse, a Susan podaria as asinhas dele. Aslam deu o ar de sua graça e logo logo vai embora. Narínia assinou o atestado de loucura? Aguardem, vocês não viram nada.
Bjux
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