Devo resistir à você.

Devo lutar contra o meu próprio desejo...

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Mas como fazer algo que é impossível?

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_Capítulo IV: Tarde Demais

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Encarou a selva urbana que era lá em baixo. O barulho do trânsito estava abafado pelos vidros da janela do décimo andar. Apoiou seu braço na janela para em seguida repousar a cabeça sobre ele. Aquele trabalho certamente acabava com seu corpo, tanto quanto sua mente, que se encontrava sobrecarregada de preocupação e ansiedade.

Duas batidas na porta não foram o suficiente para despertá-lo daquele transe. Mais duas batidas e ele continuava com os olhos para fora da janela, porém não enxergava nada que havia lá. Estava absorto de pensamentos.

-Naruto-sama... - uma voz tão angelical só poderia ser dela. Ele escutava, deixando aquele som tão agradável, trazer um pouco de paz para aquela confusão interior. - Naruto-sama? - ela repetiu e então ele virou-se.

-Hinata-chan... - seus olhos cansados repousaram no anjo que acabara de entrar no seu escritório.

-Gomene... Eu bati, mas...

-Tudo bem... - ele caminhou até sua secretária de olhos nos papéis que ela trazia nas mãos.

Hinata encarou o Uzumaki preocupada. Não gostava de ver seu chefe naquele estado, embora ele já estivesse assim à semanas.

-São os recados dessa manhã. - disse ela entregando-lhe os papéis.

-Arigato. Pode ir almoçar agora. - ele pegou os papéis das mãos dela, porém foi impedido de se afastar. Hinata segurou levemente na manga da camisa do loiro que parou assim que sentiu aquele toque suave.

-O senhor está bem? - ele a fitou nos olhos perolados. Sua expressão dolorida abriu-se num sorriso forçado, mesmo sabendo que aquilo não a enganaria.

-Estou...

-Quer que eu te traga alguma coisa?

-Não se preocupe comigo, Hinata-chan. - ele se afastou gentilmente dela, sentando-se na sua cadeira estofada de couro, passando os olhos rapidamente nos papéis que acabara de receber.

Hinata ainda o considerou por um momento, demonstrando preocupação. Aquele não era o seu chefe. Alguma coisa estava errada. Sentia-se covarde demais para perguntar à ele se aquela reação era por conta da cena que presenciou à alguns dias atrás. Resolveu sair dali e deixá-lo com os seus pensamentos.

Adentrou o elevador que a levaria até o refeitório do prédio e as lembranças a invadiram.

~•○•~

~Flashback On~

Foi um dia muito cansativo para mim. Eu estava organizando os arquivos de todos os casos perdidos daquela advocacia. Fiquei por horas naquela sala minúscula e empoeirada, colocando ordem naquela papelada. Não era o meu trabalho, eu sabia. Mas a pessoa encarregada desse serviço estava de licença a maternidade e ninguém naquela empresa parecia ser corajoso o suficiente para fazer aquilo.

Deixei de pensar no trabalho enquanto organizava tudo, para o tempo passar mais rápido. O que aparentemente deu certo. Quando me dei conta já eram quase onze e meia da noite.

Todos já tinham desaparecido do prédio. Estava apenas o zelador naquele andar. Subi até o andar onde ficava o escritório do meu chefe, Uzumaki Naruto, para pegar minha bolsa.

Só não esperava ouvir vozes, pois não deveria haver ninguém ali. O andar estava escuro, saía um pouco de luz da porta entreaberta do escritório do Naruto-sama.

-Você ficou maluco, seu teme?! Ou eu não escutei direito?! - ouvi meu chefe berrar. Pelo silêncio que se seguiu depois, não sei se falava com alguém ao telefone ou se havia alguém ali com ele.

-Você ouviu muito bem... - uma voz mais grossa chegou até os meus ouvidos. Havia sim alguém com ele. Me aproximei da porta. O que estava fazendo? Aquilo não era da minha conta! Dei meia volta, seguindo até a mesa onde estava a minha bolsa para sair dali imediatamente.

-Você quer morrer?! Eles não vão te deixar em paz! Vão te perseguir da mesma forma que perseguiram o seu irmão!

-Não tenho escolha, dobe! - parei novamente. Pelos apelidos que se dirigiam um ao outro, aquele só poderia ser Uchiha Sasuke, um cliente muito importante do Naruto-sama. Ou mais que isso. Eles eram muito amigos. - Preciso ter certeza, eu preciso saber a verdade! Me dê a droga desse endereço!

-Eu já te tirei de muita encrenca, seu filho da puta! Mas se o Orochimaru te foder de novo eu...

-Você não precisa fazer nada!! - Sasuke-san ficava cada vez mais bravo pelo seu tom de voz. - Se esse é o seu medo, não seja mais o meu advogado! Agora me passa a porra desse endereço!

Ouvi um barulho de coisas caindo no chão violentamente. Naruto-sama estava mais que nervoso. Me aproximei da porta, pois se começassem uma briga eu deveria, pelo menos, tentar fazer alguma coisa.

-Está aqui essa merda!! - tudo ficou silencioso novamente. Imaginei que Naruto-sama estava enfrente a janela. Ele gosta de olhar para fora quando está estressado. - Se for verdade, eles vão te achar, imbecil. - disse ele depois de um tempo.

-Eu não me importo... - o Uchiha respondeu. Ouvi passos vindo em direção a porta, mas antes que me encontrassem ali como uma bisbilhoteira, decidi me mostrar.

-Ojama mashita*...

-Hinata-chan? - Naruto-sama me encarou surpreso. - O que ainda faz aqui?

-Eu estava na sala de arquivos. - olhei rapidamente para o Uchiha, que encarava um pedaço de papel. - Tenha uma boa noite, Naruto-sama.

-Você é uma Hyuuga? - percebi o olhar dele para mim. Me perguntava como ele poderia conhecer minha família.

-Hai. - confirmei. - Como o senhor sabe?

-Ele conhece o seu primo, Neji. - Naruto-sama respondeu antes dele. Percebi que foi para esconder alguma coisa. Algo que eu não deveria saber. - Já está tarde, Hinata-chan. Vai precisar de uma carona?

-Não precisa se incomodar, Naruto-sama. Boa noite...

Me retirei dali rapidamente. Não queria mais incomodar. Eles conversaram mais alguma coisa que eu não ouvi, depois Sasuke-sama saiu do prédio. Fiquei muito confusa. Não tinha idéia do que eles estavam falando.

Flashback Off

~•○•~

Hinata chegou ao refeitório, mas continuou no elevador. Voltaria ao trabalho naquele momento. Só agora percebeu o que incomodava o chefe. Estava preocupado com o amigo. Talvez se ela conseguisse alguma informação sobre Sasuke, Naruto se sentiria melhor.

Voltou à sua sala, pensando no que poderia começar a fazer primeiro.

Lembrou-se que Sasuke pedira um endereço quando falou com Naruto. Provavelmente ele estaria lá. Mas que endereço seria esse? Procurou na maldita sala de arquivos, e onde quer que pudesse procurar. Faria o possível para que Naruto voltasse ao normal. Não iria desistir enquanto não encontrasse alguma pista desse endereço. Faria jus ao seu apelido de secretária eficiente.

~•○•~

-Haruno! - outra vez Kariumy chamando por ela. O pior era que a sua voz ficava estalando dentro de seu cérebro durante a noite. Aquele trabalho estava deixando-a esgotada. Enlouqueceria a qualquer momento desistindo de tudo. - Onde estão as bolsas de soro que eu te pedi?

-Pediu à mim? - a rosada franziu o cenho. Ela teria mesmo esquecido ou Kariumy a confudiu com outra pessoa? - Eu não a vi o dia inteiro. - afirmou. Não estava ficando louca.

Kariumy a fitou confusa e ao mesmo tempo irritada. Desviou o olhar por um momento depois virou as costas saindo de lá. Então ela estava louca, pensou Sakura. Sorriu de canto, tentando entender essa implicância por parte da doutora Kuroi.

Estava para dar o seu horário. Mas tinha uma vontade imensa de ir até o quarto zero nove que não conseguia segurar dentro de si. Não o viu durante todo o dia. Ele receberia alta no dia seguinte, o que parecia incomodá-la. Talvez não o veria nunca mais. Por mais que tentasse resistir àquela vontade, mais seu corpo seguia em direção ao quarto.

Chegou ao corredor. Avistou a porta. Daria tempo de desistir, mas seu corpo não a obedecia. Pensou em alguma desculpa que daria à ele, caso estivesse acordado. Tentaria ser o mais fria e indiferente possível. Só queria vê-lo mais uma vez.

Fitou a porta. Estava de frente para ela. Respirou fundo antes de pegar na maçaneta. Tentou desistir. Não poderia estar desejando aquilo. Jurou que não o veria jamais.

Porém não parecia ser forte o bastante.

Entrou no quarto iluminado apenas pela luz que vinha da janela e por um pequeno abajur de luz muito fraca.

Seus olhos procuraram pelo Uchiha assim que se puseram dentro daquele quarto. Aproximou-se meio receosa, fitando a cama, estreitando os olhos para enxergar melhor.

A cama estava vazia.

Um medo lhe atingiu a espinha. Sasuke teria saído do hospital ainda sem lhe darem alta. Imaginava que isso acontecesse. Porém agora, talvez não o visse mais. Tocou o travesseiro, amassado pela cabeça dele e os lençóis enrugados por seu corpo. Deixou-se ser levada pelas lembranças por um momento. Podia senti-lo bem perto. Lembrou-se de como era bom ser aquecida pela quentura do corpo dele. Como era bom sentir os pêlos de seu pescoço, arrepiarem-se pelo lábios dele, quando este mordiscava-lhe o lóbulo.

-Sakura... - ouvi-lo chamar seu nome era a pior lembrança que poderia ter. Parecia tão real. Fechou os olhos e desfrutou daquelas sensações, mesmo que durassem só naquele momento. - Sabia que viria... - Abriu violentamente os olhos. Ele estava mesmo ali. Aquela voz não era mais uma lembrança. Virou-se assustada para ele. Sasuke estava ali, atrás dela o tempo todo desde que chegara.

Seu coração batia violentamente rápido, fazendo com que sua respiração seguisse o mesmo ritmo. Sasuke a tocou na cintura. Trazia o corpo dela de encontro ao seu lentamente.

Uma parte consciente da rosada queria impedi-lo, tirar a mão dele dali. Mas era inútil. Estava perdida naquele olhar, pouco escondido pelas sombras. O olhar que jamais esqueceria. O olhar que a perseguia nos seus sonhos.

Estavam tão próximos agora, que podia sentir o corpo dele colado ao seu. A respiração do Uchiha massageava suas feições, o cheiro dele a inebriava. Estava perdida. Era tarde demais.

-O que veio fazer aqui? - aquela voz rouca e ao mesmo tempo suave sussurrou o seu rosto. A voz que era capaz de enfraquecê-la, de fazer as borboletas dançarem dentro de seu estômago.

Trêmula. Sakura encontrava-se trêmula encostada ao corpo dele. Não conseguia dizer uma palavra sequer. Lutava interiormente, mas algo lhe dizia que era tarde de mais.

Sasuke levantou sua outra mão até a nuca de Sakura, apertando a raiz dos cabelos róseos, aproximando o rosto delicado do seu.

-Não... - ela sussurrou como uma súplica. Seu coração parecia desejar tocar aqueles lábios, mas não poderia. Deveria resistir.

Sasuke roçou seu nariz ao dela, ameaçando tocar-lhe os lábios. Claro que ele não a obedeceria. Era muito tempo sem tocá-la. Muito tempo sem senti-la. Mataria essa vontade, nem que fosse a última coisa que fizesse na sua vida.

Selou os lábios rosados, apertando-a mais contra o seu corpo. Sorriu de canto quando ela entreabriu os lábios. Não a beijaria a força. Não a forçaria perdoá-lo. Ele teria se ela o quisesse. Não a obrigaria a nada.

Provou o gosto de seus lábios, matando a saudade, relembrando de como eram doces aqueles lábios. Sua língua explorou cada canto da boca dela. Suas mãos a apertaram num abraço, envolvendo-a em seu corpo. Sentiu o prazer de tê-la tão perto e segura novamente. Segura em seus braços, o lugar de onde nunca deveria ter saído.


Continua...

~••~

*Com licença (ao entrar) - Ojama mashita