Capítulo 3. A velha poção

Tema: crueldade

Harry não se atrasou para a aula de Oclumência. Na verdade, ele teve que fazer força para não chegar adiantado. É que ele tinha passado praticamente o dia inteiro se lembrando da sensação dentro dos aposentos de Snape. A "coisa estranha" o fazia se sentir tão em casa, tão à vontade perto de Snape. Era como se ele tivesse achado a última peça de um quebra-cabeça, como se de repente o mundo inteiro fizesse sentido só por ele estar ali. Por isso Harry acreditava que a sensação poderia se repetir na aula de Oclumência.

Snape o esperava, mas não foi direto ao treino, como de costume. Estranhamente, desta vez, ele o levou para o laboratório:

– Venha comigo, Potter. Estou no final do cozimento de uma poção e, antes que ela fique pronta, há algo que você precisa saber.

Harry obedeceu, intrigado, mas confiante em Snape. O Mestre de Poções observou o pequeno caldeirão borbulhando e não olhou para Harry ao iniciar sua preleção, convidando-o a se sentar com um gesto:

– O que eu vou revelar a partir de agora não deverá ser repetido a ninguém por qualquer motivo que seja. Nem o Prof. Dumbledore precisa saber disso, muito menos, obviamente, Dolores Umbridge. Isso ficou claro?

– Sim, senhor.

Snape continuou de olho no caldeirão, que soltava um leve vapor esbranquiçado:

– Oclumência pode ser um ramo de magia muito difícil para alguns bruxos. Nem todos têm o talento para dominar esta arte, que é quase natural em algumas criaturas mágicas. Criaturas como você, Harry Potter.

Harry ficou espantado em ouvir aquela palavra, mas antes que pudesse protestar, Snape o interrompeu – e, para o espanto de Harry, ele fez isso gentilmente:

– Sim, Potter, você é uma criatura mágica. Aposto que você anda se perguntando por que você anda sentindo "coisas". Coisas no ar, coisas invisíveis, sensações estranhas... embaraçosas, talvez?

Harry arregalou os olhos de tal maneira atrás dos óculos que não dava nem para disfarçar seu espanto. Ele ficou vermelho e abaixou a cabeça, envergonhado.

– Isso é comum entre Koboldines púberes. E você, Harry, tem sangue Koboldine.

Harry ergueu a cabeça e franziu o cenho, confuso:

– Kobo o quê?

– Os Koboldines são uma raça surgida da mistura entre demônios Kobold e humanos com magia. As duas espécies eram muito compatíveis e cruzaram com sucesso. Diz-se que a magia na espécie humana foi extremamente aperfeiçoada com a adição dos Kobolds. Logo os mestiços – chamados Koboldine – tornaram-se numerosos e poderosos. Temerosos, os humanos passaram a caçar os Kobolds a fim de exterminá-los. E conseguiram. Os Koboldines eram o próximo alvo, mas eram difíceis de se identificar, pois já tinham assimilado as características humanas. Foram também marcados como criaturas das Trevas, a serem temidas e exterminadas. Então optaram por viver escondidos, e só se reconheciam um ao outro quando chegavam à puberdade e soltavam feromônios de acasalamento.

– É o que está acontecendo comigo? Estou soltando feromônios?

– Em essência, sim, Potter. E aí temos um problema. O mundo mágico declarou os Koboldines oficialmente extintos após a derrota de Grindelwald. Pode entender o que aconteceria se alguém descobrisse que a raça continua na chamada piscina genética? Nem preciso mencionar o fato de que muitos ficariam instantaneamente interessados nos poderes de um Koboldine.

Harry ainda não sabia direito o que pensar sobre tudo aquilo ou como reagir. O Prof. Snape continuou, apagando o fogo do caldeirão:

– Você precisa entender que existem basicamente dois tipos de Koboldine: os dominantes e os submissos. O submisso emite um feromônio que sinaliza ao seu dominante a sua disposição e maturidade de acasalamento. É um chamado poderoso da natureza, um que não pode ser ignorado. Pode ser comparado à respiração ou à alimentação e mata o indivíduo se não for satisfeito. A época de acasalamento de Koboldines compreende um ciclo aproximado de nove anos, a partir da maturação sexual do indivíduo. São seres absolutamente monogâmicos, porque o feromônio de um submisso é altamente repulsivo a um dominante que não seja o seu. No seu caso, é óbvio que você é um submisso. Talvez seja bom esclarecer que o termo dominante não implica comportamento abusivo ou agressivo, assim como submisso também não quer dizer absolutamente passivo e dominado – embora o submisso experimente certo grau de fascínio em relação ao dominante e tenha sua capacidade de discernimento um tanto quanto... prejudicada.

Harry ouvia tudo, ainda fascinado com a idéia. E o Prof. Snape explicava tudo tão bem, ele se sentia tão tranqüilo por ele estar esclarecendo tudo. O garoto absorvia todas aquelas informações, encarando-o com absoluta adoração. Aquilo tudo estava tão certo, ele se sentia tão bem...

– Então, eu sou um submisso. E quem é meu dominante?

– Esse – Snape hesitou levemente – seria eu.

– Você também é Kobol... Kobolquine?

– Koboldine – corrigiu, em voz suave, enquanto enchia um frasco com a poção que estava preparando. – Sim, sou um Koboldine dominante. Eu vinha sentindo seu cheiro há algum tempo, mas preferi esperar até que você estivesse pronto para ser... notificado de sua nova situação.

– E nós vamos acasalar?

– É preciso. – Snape olhou para ele intensamente. – Ou vamos morrer. Mas precisamos também manter segredo absoluto disso. Felizmente, Koboldines são criaturas mágicas poderosas. Você tem condição de aprender Oclumência em pouco tempo, agora que seu corpo está maduro.

– Vai me ensinar?

– Sim. Agora, estou preparando uma poção especial. Ela vai devolver um pouco de seu discernimento a meu respeito, e você poderá fazer as perguntas que certamente deverão estar em sua cabeça. Mas vou lhe avisar desde o início: os efeitos desta poção não duram muito tempo, e, embora inofensiva da primeira vez, ela se torna tóxica numa segunda ingestão. Não poderemos tomar mais dela até o próximo ciclo de acasalamento. Espero que tenha entendido tudo que eu lhe expliquei, antes de fazer suas perguntas.

Harry não imaginava nenhuma pergunta, mas concordou:

– Eu entendi, sim.

Snape bebeu um gole do frasco e passou a poção a ele:

– Pode beber agora.

Harry obedeceu, sentindo o gosto forte de ervas aromáticas. A ação da poção foi rápida. Harry foi sentindo como se alguém tivesse levantado um véu de sua mente, um véu que o fazia ver as coisas embaçadas. Agora tudo estava muito claro. Dolorosamente claro.

Ele sentiu uma raiva branca dentro de seu estômago, embrulhando-o, e ficou de pé, mesmo que suas pernas estivessem trêmulas. Finalmente ele se dava conta das implicações de tudo que Snape estava lhe dizendo. Tremendo, as mãos fechadas, Harry acusou:

– Você está mentindo.

– Entendo que você esteja se sentindo...

– Você não sabe como estou me sentindo! – gritou Harry. – Então, não diga que entende; você não entende nada!!

Harry viu os lábios de Snape se apertarem, como sempre fazia quando estava com raiva. A pele ficou ainda mais pálida e ele rosnou, numa voz perigosa:

– Meta isso na sua cabeça, Potter: eu não estou mentindo nem brincando com esse assunto. Especialmente porque você é um menor de idade, e é a minha cabeça que vai dançar numa bandeja se essa situação chegar aos ouvidos errados.

– Seu... seu... pervertido!

– Eu não tenho a mínima satisfação nessa situação e pagaria bom dinheiro para que meu submisso fosse outra pessoa. Acredite nisso!

– Eu te odeio!

– Eu odeio você há muito mais tempo, e isso não é eufemismo. Agora, pare de agir como se tivesse sete anos e aceite as coisas como um homem! Olhe, essa situação não é confortável para nenhum de nós, mas estamos dentro dela e não há nada que possamos fazer a não ser deixar a natureza seguir seu curso.

O embrulho no estômago de Harry só piorou quando ele se deu conta do que Snape estava falando.

– Não! Tem que haver alguma coisa que possamos fazer! Além do mais, eu não sou gay. Eu nunca nem pensei em ficar com um garoto!

– Não existe nada que possamos fazer, e já aviso que preferência sexual é irrelevante para a biologia Koboldine. Quando o efeito da poção passar, você vai sentir a atração por mim de novo, até o fim da época de reprodução. Se ficar afastado a uma distância de uns 5 metros, poderá controlar seus... impulsos e necessidades de acasalamento.

Harry fez o máximo para não adquirir um tom esverdeado no rosto. Ele se sentia traído, com raiva do mundo!

– Como ninguém nunca me disse que eu era um Koboldine?

– Ninguém sabia, Potter. Acredita-se que o gene possa pular uma geração. Não foi o que aconteceu com a minha família. Ou com a sua. Andei investigando e descobri que um tio-avô seu foi Koboldine.

– Então, você sabia que era um?

– Sei disso desde os meus 16 anos. Foi quando passei pelo meu primeiro ciclo de reprodução.

– Mas... e seu submisso? Você não tinha um? Onde ele está?

Por um instante, Harry viu os olhos de Snape refletirem uma dor que ele nunca vira. Mas durou só um instante, e o Mestre de Poções respondeu, olhando para o chão:

– Morreu na primeira guerra contra o Lord das Trevas. Com a morte dele, meus ciclos foram interrompidos. Só foram retomados há umas poucas semanas.

– Foi quando eu comecei a me sentir... estranho. E é por isso que eu vivo vindo aqui para sua porta?

– Precisamente. Significa que você está agindo sob impulso hormonal. Precisamos acelerar a união ou você poderá entrar em sofrimento físico. Eu não estava brincando quando falei do risco de vida.

– E você?

– Eu também corro o mesmo risco que você.

– Então como você não morreu quando seu submisso morreu?

– Não era época de acasalamento. Como é o submisso quem sinaliza o início do ciclo, ele não foi estimulado. Quando você amadureceu na sua biologia Koboldine, o ciclo se reiniciou.

– Mas... eu não tenho 16 anos ainda. Não devia acontecer só no ano que vem?

– A puberdade atinge as pessoas em diferentes épocas. Meninas humanas podem menstruar aos 11, 12 ou até mesmo antes, aos 10 ou 9 anos. Entre os Koboldines, essa puberdade sinaliza o amadurecimento para o acasalamento.

– Eu tenho... – corrigiu-se. – Quero dizer, eu tinha... uma garota.

– Ao final da época de reprodução, quando o... fascínio tiver passado, você poderá voltar para ela. E nós só precisaremos nos preocupar de novo com esse... predicado daqui a nove anos.

Harry sentiu o coração afundar:

– Isso se Voldemort não me matar antes – como ele fez com seu submisso anterior. Coincidência, né?

Snape não respondeu, e Harry notou que ele ficou mais pálido ainda. De repente, o garoto se deu conta de uma coisa. Começou a sentir um frio começando a subir pela espinha.

– Seu submisso... Ele também estudou em Hogwarts?

Snape parecia da cor de um cadáver quando respondeu um lacônico:

– Sim.

O frio começou a gelar as costas de Harry de cima abaixo, e ele perguntou, com cuidado, tentando estudar o rosto de Snape:

– Em Slytherin?

A pausa foi tão grande que Harry achou que ele não ia responder, mas de repente, ele sussurrou:

– Não.

O sangue pareceu fugir completamente do corpo de Harry; as pernas tremeram mais que sua voz. Ele não queria falar, mas ele tinha que saber, ele precisava simplesmente... pronunciar as palavras.

– Era meu pai, não era? Seu primeiro submisso era o meu pai! Por isso eu também sou um!

O rosto de Snape estava tão branco que estava praticamente translúcido. Harry não parou para respirar, a voz aumentando de volume:

– Fala! Era ele, não era? NÃO ERA!?!

– Harry – tentou dizer Snape –, não é o que você está p...

Harry ia soltar um palavrão, mas nesse instante o seu estômago se revoltou tanto que ele correu porta afora, temendo espalhar o jantar todo no chão de Snape. Ele correu o mais rápido que pôde, o estômago se revoltando, embrulhado, explodindo. Eventualmente, ele despejou seu jantar, sim, mas longe do chão de Snape.

Ele não viu os olhos negros de Snape se fechando depois que ele deixou o laboratório. Olhos que não se abriram, nem quando as lágrimas começaram a escorrer.

Próximo capítulo: Desesperado, Harry busca ajuda

Capítulo 4. Ajuda de fora

Tema: dia dos namorados

Durante dois dias, Harry ficou levemente desorientado, tentando absorver aquela quantidade de informação e o quanto aquilo o afetava. Hermione e Ron estavam ficando cada vez mais apreensivos com o estado dele, e a situação com Umbridge certamente não contribuía para o rapaz ter algum alívio. Ele se enfiou na biblioteca para saber mais sobre aquilo, o que agradou Hermione, mas preocupou Ron ainda mais.

Harry não contou nada para seus amigos. Estava confuso, passava até mal pensando nas coisas que Snape dissera. Desde que ele soubera de tudo, a coisa tinha se tornado até menos presente. Afinal, Snape só contara mentiras! Mentiras.

Ou não?

Ele correu um grande risco e mandou uma das corujas da escola levar um bilhete quase criptografado para Snuffles. Havia muita chance de a coruja ser interceptada, mas ele precisava saber mais sobre o assunto. E sobre seu pai.

No dia seguinte, no café, ele recebeu uma resposta também criptografada, rasgada e mal colada. Obviamente tinha sido lida. Dizia apenas: "O local do ano passado costuma ser bom na mesma hora. RJL"

– Essa é a resposta? – Ron estava indignado.

– O bilhete do Harry era tão esclarecedor quanto a resposta. – Hermione deu de ombros e continuou a tomar seu café.

Harry cochichou:

– É, mas eu entendi o recado. Ele quer nos encontrar no mesmo lugar que Snuffles foi nos ver durante o quarto ano. Lembram? Levamos até comida para ele: galinha, lembra, Ron?

– Sim! – Ele sorriu. – E vamos ter sábado de Hogsmeade no Dia dos Namorados! Mas por que o Prof. Lupin respondeu?

– Isso é o que nós vamos descobrir na semana que vem.

o0o o0o o0o o0o o0o

A caverna estava escura e úmida quando os três entraram, envoltos na capa da invisibilidade para não chamarem a atenção dos demais alunos passeando por Hogsmeade. Naturalmente, sendo Dia dos Namorados, os outros alunos estavam ocupados demais com outras atividades, bem diferentes e mais prazerosas do que tanto preocupavam Ron, Hermione e Harry.

Os dois amigos estavam mortos de preocupação com o Menino-Que-Sobreviveu, porque a saúde de Harry estava se deteriorando rapidamente. Ele tinha pesadelos freqüentes, parecia fraco, não comia direito, tinha sérias crises de vômito e emagrecia a olhos vistos. Hermione ameaçava levá-lo a Madame Pomfrey pelo menos duas vezes por dia. Agora ele tinha segredinhos, e aparentemente Sirius sabia do que se tratava. Mas, com a situação em Hogwarts, Hermione e Ron não podiam deixar Harry sozinho para tratar daquilo. Seja o que fosse.

– Olhem – começou a dizer Harry assim que eles entraram na caverna –, vocês não precisam se envolver nisso, sério.

– Não vem com essa, Harry – protestou Ron. – Você tem estado misterioso, não fala nada sobre essa Kobolcoisa e agora quer deixar a gente de fora?

– Harry, nós só queremos ajudar. Você não nos fala nada, mas anda perguntando sobre uma raça extinta de demônios, anda parecendo um cadáver que esqueceu de deitar, e não quer saber de falar com Dumbledore!

– Ele é que anda fugindo de mim! – retrucou Harry. – Nem olha na minha cara! Bom, mas eu preciso de respostas. E rápido.

– Mas Sirius se arriscou muito vindo aqui hoje! É loucura!

– Foi o que eu disse a ele hoje de manhã – reverberou uma voz conhecida de dentro da caverna. Remus Lupin se adiantou, um cão gigantesco a seu lado. – Olá, Harry. Supus que você viesse sozinho.

– Ron e Hermione insistiram em vir junto. – Harry não parecia contente com aquele fato. – Eu disse que não precisava. Eu só preciso de umas... respostas.

– E eu também! – disse Sirius, rapidamente adquirindo sua forma humana, olhando de maneira contrariada para Lupin. – Moony se recusou a falar qualquer coisa antes de vê-lo. Não faço a mínima idéia do porquê!

– Harry – O lobisomem virou-se para o rapaz –, você perguntou se Sirius tinha ouvido falar em Koboldines. Onde você ouviu falar disso?

O garoto se avermelhou:

– Alguém me disse que meu pai era um. Isso pode ser verdade?

Sirius deu uma risadinha:

– Claro que não! Que absurdo! É por isso que estamos aqui?

– Sirius, por favor, fique quieto – Remus disse, e seu rosto era sério. – Você não sabe nada sobre esse assunto.

– Ora, Remus, qual é? Acha que eu não saberia se James era um monstro demoníaco? – As palavras de Sirius provocaram um embrulho no estômago de Harry. – A gente dormia no mesmo quarto durante sete anos!

– Assim como eu também sou um monstro demoníaco, não é, Sirius? Lobisomens, Koboldines... Todos são monstros.

– Moony, não é nada disso. Uma coisa não tem nada a ver com a outra! E você sabe que Koboldines estão extintos! Há anos!

– Por essas e outras coisas é que James nunca falou com você. Na verdade, mais pelas outras coisas.

O animago estava de olhos arregalados:

– Isso é verdade? James era... era um Koboldine? Como você sabe?

– Era e ele me contou, mas eu agora estou mais interessado em saber como Harry soube dessa informação. – Remus aproximou-se do garoto, que estava pálido e trêmulo. – Harry, eu só vejo uma maneira de você ter sido informado sobre esse assunto. Um outro Koboldine lhe disse isso, não foi?

Ron e Hermione estavam meio aparvalhados, boquiabertos, olhos arregalados. Harry empalideceu mais ainda e apenas assentiu com a cabeça, de repente interessadíssimo em examinar o chão da caverna. Lupin se aproximou dele:

– Harry, você não fez nada errado. Sei que você deve estar chocado, mas não precisa se preocupar. James me disse que os genes pulam uma geração, então você muito provavelmente não vai ter que passar pelo mesmo que ele passou durante a adolescência...

– Eu... já estou... passando... – disse Harry numa voz miúda, sem erguer a cabeça. – A época... de... de...

Agora foi a vez de Lupin arregalar os olhos e perder a cor. Os outros três perceberam que havia coisas ali não sendo ditas.

– O quê? Época de quê?

– O que está acontecendo?

Sem dar ouvidos aos outros, Lupin olhou para Harry:

– Mas... isso só deveria acontecer ano que vem, acho.

– Acho que sou... precoce. Meu pai falou sobre isso?

– Sim, Harry, ele falou – confirmou Lupin pesadamente. – Quem sabe eu lhe conto tudo que ele me disse?

– Sim, sim, isso mesmo! – respondeu Sirius, impaciente, sendo entusiasticamente apoiado por Ron e Hermione.

– Estávamos no sexto ano, quando seu pai veio falar comigo. Ele estava extremamente deprimido, e eu nem tinha notado. Isso foi depois que pregamos uma peça em Severus, e o cabelo dele ficou louro uma semana. – Sirius começou a rir, obviamente se lembrando da ocasião. Lupin o encarou, mas não sorriu. – É, isso mesmo. James não conseguia se perdoar pelo que tinha feito.

– Se perdoar? Foi ele que começou!

– Ele me contou tudo, e estava em lágrimas. Ele era um Koboldine submisso e Severus era seu dominante.

Harry sentiu um soco no estômago, e os outros três pareciam ter parado de respirar. Lupin continuou:

– James explicou tudo sobre a puberdade Koboldine, e a compulsão que ele sentia em ver Severus sempre que podia, até mesmo quando não podia. Ele estava muito angustiado por não ter com quem falar disso, e resolveu falar comigo porque achou que eu entenderia... – Lupin deu de ombros e sorriu de maneira triste. – Por causa do meu probleminha de pele que acontece todos os meses, sabem?

– Não pode ser!... – Sirius estava chocado. – James era meu melhor amigo! Ele teria me dito alguma coisa assim! Moony, que brincadeira é essa?

– Do jeito que você está reagindo agora, pode culpá-lo por não querer falar com você?

– Só estou reagindo assim por causa dessas mentiras que você está falando! Você está enlameando a memória de James, falando essas coisas! E na frente de Harry!

– É por causa do Harry que estou aqui. Harry precisa de nós, Sirius. Não precisa de nosso julgamento. Ele só tem 15 anos e está sob efeito de uma herança biológica sobre a qual nada sabia!

– James não teve nada com aquele nojento!... – Sirius fez uma cara de repulsa. – Foi um feitiço! Tem que ser! Eu disse que era um feitiço, não disse?

– Sirius, não foi Rosmerta – disse Lupin suavemente. – Nunca foi Rosmerta.

Harry parecia ter recuperado a voz, porque repetiu:

– Como assim, Ros-Rosmerta?

– Para encobrir o tempo que passava com Severus, James disse ter estado com uma namorada fora de Hogwarts. Sirius preferiu acreditar que a namorada misteriosa era Rosmerta, que na época era apenas garçonete do Três Vassouras. Era bonita, também. Sirius ficou muito tempo jogando insinuações para James sobre Rosmerta, ainda mais quando íamos ao Três Vassouras. James, claro, nunca confirmou; só pediu que não comentássemos nada perto de Lily.

Era tanta coisa ao mesmo tempo, e Harry estava começando a ficar tonto. Hermione notou alguma coisa, porque ela perguntou:

– Tudo bem, Harry?

– Acho que sim. Só está meio... quente. Remus, por favor, fale-me o que meu pai disse.

– Ele disse que não tinha escolha: era isso ou a morte, segundo Severus lhe dissera. De qualquer forma, havia um feromônio que o deixava... er, susceptível e inclinado ao... ao... acasalamento. – Sirius ia protestar, mas Lupin de repente mostrou que sua reserva de paciência tinha se esgotado, avisando: – Mais um pio, um só, e eu coloco a coleira, Padfoot, eu juro. Estou avisando.

O animago ergueu as mãos, sinalizando sua concordância. Lupin suspirou antes de continuar:

– Eu sei que parece cruel, porque nenhum dos dois tinha nenhuma escolha, mas eles não se mataram. James me relatou que, talvez por força dos hormônios de sua espécie, Severus o tratava muito bem. Eles desenvolveram uma espécie de ligação durante esse tempo. James tinha esperança de que, a partir disso, os dois pudessem ser amigos, colegas, ou coisa parecida. Mas... Severus não tinha as mesmas esperanças. Segundo James, o principal motivo estava na rivalidade entre as casas e entre os alunos. Havia a turma dele, a nossa turma, e aparentemente nunca se dariam bem. James carregava uma mágoa grande por causa disso. Tudo piorou com Voldemort, é claro.

– Prof. Lupin – Harry estava branco feito cera e não sabia como perguntar, mas ele tinha que saber. – Acha que meu pai... Será que ele... Bom, será que ele gostava do Prof. Snape? Sabe, gostar mesmo?

Sirius começou a se manifestar, mas um olhar ríspido de Lupin foi o suficiente para fazê-lo calar-se. O lobisomem se voltou para Harry para responder, com olhos cheios de calor:

– Lamento não ser capaz de lhe dar uma resposta mais objetiva, Harry. Só o que posso lhe dizer é que James demonstrava grande carinho por Severus. Nunca mais deixou que lhe pregássemos qualquer peça – não que isso tenha impedido Sirius, claro – mas ele sempre o repreendia depois. Acho que foram essas atitudes que fizeram Lily aproximar-se dele. Os dois começaram a namorar para valer depois do que aconteceu com Severus.

– E... eles se casaram, certo? Porque eles... bom, eles se gostavam, não se gostavam?

– Claro que sim, Harry. Seu pai amava muito sua mãe. – Então ele entendeu a dúvida do rapaz. – Harry, não duvide nunca disso: seus pais se amavam muito. Fossem lá quais fossem os sentimentos de James por Severus, ele amava Lily muito. E você também.

Aquilo não pareceu tranqüilizar Harry em nada. Ele continuava pálido, suando muito. Sirius chegou perto dele e indagou:

– Harry, você está bem? Você não parece bem.

Hermione foi quem respondeu:

– Não, ele não está nada bem, Sirius. Ele mal tem comido, tem posto tudo para fora...

Lupin olhou para ele:

– Harry, você falou com Severus, não foi? O que ele disse?

O menino pareceu estremecer ainda mais e respondeu, em voz tão baixa que o lobisomem usou seus sentidos aguçados para ouvir:

– Ele falou comigo... essas coisas... Disse que sou o submisso dele... Que me reconheceu pelo... cheiro... E que agora eu estou pronto... para... para... a união...

Dentro da caverna, soou um ruído suave, como se alguém estivesse sufocando. Hermione e Ron se viraram ao mesmo tempo, para ver o rosto esfogueado de Sirius, seu corpo todo tremendo:

– Aquele...! ARGH! Eu vou matá-lo. É simples assim: eu vou matá-lo! – De repente o animago se virou para Lupin e pronunciou um juramento. – Se ele encostar um único dedo amarelado em Harry, eu juro que vou apertar aquele pescoço nojento até o coração dele parar de bater, até a linhagem dele simplesmente se extinguir! Aquele...!

– Sirius, controle-se! Assim você não ajuda Harry! – Lupin teve que agarrá-lo pelos ombros. – Seu afilhado precisa de você, Padfoot; ele precisa de nós.

Os três adolescentes encaravam o que se passava, mal respirando de tanto suspense. Eles acompanharam as reações de Sirius, a dor em seu rosto ao finalmente se controlar e assentir, olhando Lupin com lágrimas nos olhos. Parecia que os 12 anos em Azkaban estavam cobrando uma espécie de imposto nas emoções de Sirius. Com algum custo, ele se recompôs.

Lupin então se dirigiu a Harry:

– Harry, eu entendo que você esteja nervoso, mas você precisa encarar isso de uma maneira positiva. Pelo que James me disse, é uma situação temporária.

– Eu sei, eu sei, mas... – Harry parecia desolado. – Não sei se vou conseguir... Eu não sei nada sobre... er... – Rubor. Ou seria palidez? – Bom, er... sobre ficar... com um outro homem.

– Você pode morrer se resistir, Harry. É só seguir seu instinto e fazer o que for preciso para sobreviver. Você não é um monstro. Lamento, mas se isso serve de consolo, James me disse que Severus sempre foi gentil e atencioso, e ele também não sabia coisa alguma sobre ficar com um homem.

– Será que eu primeiro poderia falar com alguém que soubesse? – Harry se virou para Ron e Hermione. – Quem na escola é gay?

Hermione pareceu ficar sem ação e Ron deu de ombros:

– Eu não sei, cara. Todo mundo fala do Zachary Smith, de Hufflepuff. Mas eu não sei se ele é mesmo ou é só aquele jeito afetado dele.

– Harry – Sirius chamou suavemente. – Acho que Moony e eu podemos ajudar quanto a isso. – Ele olhou para o lobisomem e deu um sorriso suave. Lupin devolveu o sorriso e aproximou-se para juntar sua mão na de Sirius. – Não precisa falar com ninguém na escola. Podemos lhe dizer o que quiser.

Os três adolescentes pararam de respirar, encarando os dois absolutamente boquiabertos. Harry até parou de ficar vermelho e olhar para o chão para encarar seu padrinho e Remus como se jamais os tivesse visto antes. Sirius não largou a mão de Lupin para esclarecer:

– Nunca dissemos antes porque... bem, não queríamos chocar ninguém. Ron não teria muito problema, por sua origem bruxa, mas você e Hermione foram criados por Muggles, Harry. Mas não há nada errado em ser gay. Amar alguém do mesmo sexo não é sinal de perversão, de problemas genéticos nem castigo de Deus. E você pode ter tanto prazer com um homem quanto uma mulher. Acredite, Moony e eu experimentamos os dois. Não tenha medo, Harry.

E Harry de repente se deu conta de que esse era todo o problema. Ele estava com medo.

Ele tinha mais medo de ter que fazer sexo com Snape do que ser possuído por Voldemort. Bom, talvez não do sexo em si. Mas de gostar de fazer sexo com Snape.

Próximo capítulo: A situação piora além de qualquer coisa que qualquer um tenha imaginado