Capítulo 5. Prazo de validade

Tema: máscara

– Puxa, Harry, parece que tudo acontece com você, né? – perguntou Ron, mas não parecia invejoso, ao contrário.

Harry deu de ombros, sem saber o que dizer. Ele olhou Sirius e Remus e confessou:

– Fico triste que não tenhamos mais tempo juntos. Tenho tanta coisa para perguntar...

– Entendo, mas precisamos lembrar que a comunicação com Hogwarts está difícil. Nestes tempos, há a correspondência vigiada, as lareiras sob observação... – lembrou Lupin pesadamente. – Não sei quando poderemos nos arriscar a nos ver de novo, Harry.

Sirius lembrou:

– Quem sabe na Páscoa poderemos nos ver de novo.

– Tomara... – Harry suspirou, passando a mão na testa. – Mas está quente demais.

Ron franziu o cenho:

– Harry, é fevereiro. O tempo não tem estado ruim, mas a máxima está em 2ºC, e talvez volte a nevar. Como pode estar com calor?

Hermione encostou a mão na testa dele:

– Está queimando em febre!

Harry efetivamente se encolheu quando todos os demais se aproximaram dele. Ele odiava chamar a atenção, e agora estava atraindo pena dos outros por ser fraco e doente – o que ele odiava ainda mais.

– Eu estou ótimo, só estou com calor.

Sirius sugeriu:

– Você tem que ir para Madame Pomfrey agora. Vocês precisam levá-lo.

Lupin deu outra sugestão:

– Ele precisa ir para Severus o quanto antes.

Hermione indagou, assustada:

– Acha que Harry está doente por não estar com seu... companheiro? – Ron gemeu alto com o uso da palavra, mas ela se avermelhou, ralhando. – Cala a boca, Ron!

O ruivo a ignorou e lembrou:

– Mione, Harry tem estado doente há vários dias. Talvez não tenha nada a ver com o... o... – interrompeu-se e mudou de idéia sobre o que ia dizer. – Quero dizer, com isso tudo.

Lupin insistiu:

– Acho difícil. Ele parece estar sofrendo com o afastamento.

Harry se irritou:

Ele está bem aqui! Parem de falar a meu respeito como se eu não estivesse na mesma caverna que vocês.

– Desculpe, Harry – falou Sirius, abraçando-o.

Harry se deixou abraçar, tirando algum conforto do gesto, mas ao mesmo tempo sentindo-se estranho, como se preferisse abraçar outra pessoa. Seu padrinho o encarou.

– Estamos preocupados com você. É melhor voltar agora para Hogwarts. E, por menos que eu goste da idéia, é melhor você ir para... para Snive... er, Snape.

Harry arregalou os olhos:

– Mas... mas...

– Olhe, é simples assim. Se você não for, você vai morrer. Não quero perder você, Harry, mesmo que isso signifique você passar algum tempo com aquele... hum, com Snape. Depois você volta para nós, como James voltou. Não será vergonha nenhuma, e ninguém vai te amar menos por causa disso. Desculpe se eu pareci... resistente à idéia. Eu estava apenas chocado, e era mais por causa de James. Afinal, todos esses anos, Moony me manteve no escuro sobre isso. – Ele olhou o lobisomem com uma expressão clara de "Mais tarde falaremos e você pode não gostar" antes de voltar-se novamente para o afilhado. – Mas isso não quer dizer que não amo mais você, Harry.

Eles se abraçaram novamente, e Harry se sentiu confuso. Ele não sabia se era a febre ou a situação louca que se encontrava. Ele também odiava ter que dar adeus ao padrinho. Mas morria de medo que Sirius fosse recapturado por culpa dele.

Lupin também o abraçou e lhe deu mais alguns conselhos. Infelizmente, Harry não ouviu direito. Sua cabeça estava cada vez mais confusa, e ele mal conseguiu se deixar levar por Ron e Hermione de volta a Hogwarts.

Quando os três entraram na escola, Harry estava a ponto de jurar que não conseguiria chegar à ala hospitalar. Ron o estava carregando pelos ombros, Hermione do outro lado. A muito custo, eles subiram até chegar a Madame Pomfrey. Quando eles atravessaram a porta para a enfermaria, Ron se sentia tão aliviado que parecia que um milagre particularmente espetacular tivesse se realizado diante de seus olhos.

Madame Pomfrey olhou para o trio entrando em sua enfermaria e pôs as mãos na cintura, franzindo o cenho e abanando a cabeça:

– Todo dia de visita a Hogsmeade é a mesma coisa. Alguém abusou dos doces em Honeydukes, pelo que vejo. Ou teria sido alguma guerra de bolas de neve?

Ron ia dar uma resposta malcriada, mas Hermione se adiantou:

– Não sabemos, Madame Pomfrey, mas Harry mal conseguiu chegar aqui. Ele vinha se sentindo mal antes de ir.

A enfermeira perdeu o ar sarcástico e gesticulou:

– Ajudem-me a pô-lo naquela cama ali.

Quando ajeitaram Harry na cama, ele suspirou e fechou os olhos. Madame Pomfrey pegou sua varinha de diagnósticos e passou-a sobre Harry. A ponta da varinha se acendeu. Ela se virou para Hermione:

– A senhorita dizia que ele já vinha se sentindo mal. Há quanto tempo ele está assim?

– Há alguns dias, acho.

– Ele comeu alguma coisa em Hogsmeade? Caiu, bateu com a cabeça?

– Não, não comeu nada. Também não caiu nem nada.

– Diga-me tudo o que sabe.

Hermione olhou para Ron:

– Eu não sei muito, só que ele não vem comendo direito. Acho que tinha crises de vômito, também. E pesadelos.

Madame Pomfrey tinha uma expressão muito séria – até mesmo para ela:

– Ele tem uma infecção séria, algo que obviamente não pegou hoje em Hogsmeade. Talvez tenha passado muito tempo no campo de Quidditch, em treinamento, nesse tempo frio.

Ron lembrou:

– Não, ele... Er, ele foi banido de jogar Quidditch pela Profª Umbridge. Por ter quebrado a cara de Malfoy no último jogo.

– "Quebrar a cara" pode ser um exagero, Sr. Weasley, mas eu sei a que episódio está se referindo. Sr. Potter? – Madame Pomfrey chamou. – Sr. Potter, pode me ouvir?

Harry não se mexeu, nem abriu os olhos. Ron cutucou:

– Ei, cara, dormiu?

Madame Pomfrey curvou-se sobre ele e abriu as pupilas:

– Não, ele perdeu os sentidos.

O ruivo arregalou os olhos, olhando Harry na cama, mortalmente pálido e sem reação. A enfermeira não se abalou, começando a trabalhar rapidamente:

– Srta. Granger, por favor, pode ir com o Sr. Weasley e trazer o Prof. Dumbledore? E feche a porta para que eu consiga estabilizá-lo. Obrigada. Agora vão.

Hermione percebeu que tremia quando saiu da enfermaria, Ron andando a seu lado em passos rápidos.

Madame Pomfrey, claro, não estava indo a lugar nenhum. Mas ela desejou poder ir para St. Mungo's. Com sorte, eles talvez pudessem ajudar Potter, ela pensou. Com sorte.

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Seu estado piorava rapidamente. Se ingerisse mais poções, podia ter uma overdose de algumas das potentes ervas mágicas contidas nelas. Seu corpo estava sobrecarregado, a herança Koboldine cobrava a união implacavelmente.

Severus Snape mal conseguia manter-se funcional, e tinha intenção de aproveitar o fim de semana para se poupar e tentar manter-se de pé nos próximos dias. Ele ia cair, claro. Mas pretendia adiar esse momento ao máximo.

E tudo isso era culpa dele. Se arrependimento matasse, Severus estaria de canelas esticadas no chão. Ele podia ter abordado o seu submisso de maneira bem diferente. Mas não esperava encontrar tanta resistência. James tinha sido tão diferente...

Severus se repreendeu intimamente. Aquela tinha sido uma atitude infantil, e ele sabia disso. Ele tinha que adquirir uma postura mais equilibrada. Como dominante, era seu dever proteger Harry. Ele passara todos os dias desde o encontro desastroso em grande introspecção a fim de chegar a uma solução interna, que o deixasse centrado sobre toda a situação. Então, a duras penas, ele aprendera a separar Harry e James, e a entender o que o jovem estava experimentando. Foi aí que o arrependimento enraizou-se em si, e ele pôde se reconciliar com seus sentimentos conflitantes, possibilitando-o tomar decisões com mais clareza. Bem, pelo menos, o mais claro que lhe era possível na época do acasalamento.

Uma das decisões que tomara era não forçar o rapaz a qualquer decisão. Ao menos no momento. Eles já estavam sentindo a angústia da separação, mas Severus pretendia manter-se firme no propósito de não se impor sobre Harry. Claro que a perspectiva de morrer não lhe agradava, e Severus preferia pensar que poderia rever sua decisão se o quadro chegasse a um ponto crítico, mas por enquanto ele não iria agredir ninguém. Para tanto, ele tentava controlar seus instintos dominantes fazendo amplo uso de poções calmantes, restauradoras e tônicas.

Mas parece que nem isso adiantava.

Então, naquele maldito sábado de Hogsmeade, o sábado que ele pretendia usar para descansar e restaurar um pouco das energias perdidas no esforço de lutar contra seus instintos, o cheiro o assaltou de maneira avassaladora. O cheiro de pêssegos.

Desta vez, contudo, o cheiro tinha mudado. Ele conhecia o cheiro de pêssegos maduros, frescos, convidativos. Esse novo cheiro, porém, era de pêssegos mais que maduros, já passados, começando a se deteriorar, a apodrecer. Seu submisso estava sofrendo, estava em perigo mortal. Severus quase sentiu seu coração perder o ritmo.

Galvanizado em ação, ele recolheu as poções restauradoras mais fortes que tinha preparado e lançou-se em Hogwarts, seguindo o vento, seguindo o aroma, guiado pelo faro. Sua mente tinha se fechado, focada apenas em encontrar seu submisso. Ou melhor, Harry. Harry precisava de sua ajuda.

Severus mal se dava conta dos poucos alunos nos corredores que o olhavam de maneira ainda mais estranha do que o de costume. Tinha perdido um pouco a noção de tempo presente, emaranhado nos conflitos que infestavam seu corpo e sua mente.

Sua biologia Koboldine repreendia-o duramente por não ter sido capaz de cuidar e proteger seu companheiro. Sua parte humana estava igualmente mortificada por tudo que tinha feito o rapaz passar. E seu corpo ansiava pela união, ardia como em chamas, queimava, ele suava...

Para cima, para o alto. Primeiro andar, segundo andar.

De repente, o coração de Severus perdeu uma batida. Ele estava indo para a enfermaria.

Seu submisso estava morrendo.

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Ele entrou tão rápido na enfermaria que sobressaltou Madame Pomfrey. A enfermeira o encarou, e, só pela expressão de seu rosto, ele nem precisou usar Legilimência para saber que o caso era mesmo grave. Seu olhar percorreu o ambiente e ele viu Harry Potter estirado numa cama, inconsciente, a pele cinza e opaca.

– Ah, professor – cumprimentou ela. – Obrigada por vir. Eu terminei os exames há pouco, e agora ele está dormindo.

– Minha querida Poppy – saudou o Prof. Dumbledore, pesadamente. – Como ele está?

A enfermeira levou o olhar para Ron Weasley e Hermione Granger, que tinham ido buscar o diretor, mas ele assegurou:

– Está tudo bem, Poppy, pode falar.

Ela tinha uma expressão angustiada e agitada ao falar:

– O Sr. Potter tem alguma espécie de infecção extremamente agressiva em seu corpo. Ao menos, é o que parece. Mas pode ser outra coisa que não consigo identificar direito. Ele também está extremamente desnutrido e desidratado. A febre parece completamente fora de controle, e quando ele chegou aqui, estava em estado de pré-coma. Ainda não sei como vou conseguir evitar que ele entre em coma. Falando sinceramente, Prof. Dumbledore, não há muito que eu possa fazer por ele aqui. Não há outra escolha: ele precisa ser transferido para St. Mungo's.

Dumbledore sentiu o coração pesar e viu Ron Weasley segurar o braço da Srta. Granger, que subitamente estava muito pálida e abatida. Ele indagou:

– Ele pode ser transferido?

– Vou precisar de ajuda para fortalecer o jovem Potter o bastante para agüentar o transporte. Talvez o Prof. Snape possa preparar algumas poções restauradoras se Madame Sprout conseguir algumas mandrágoras.

– Poppy, sabe me dizer o que causou isso?

– Bom, segundo a Srta. Granger e o Sr. Weasley, o Sr. Potter vem se sentindo mal há algum tempo.

Ao ouvir aquilo, Dumbledore se voltou para olhar os dois. Eles o olharam de volta, culpa escrita por todo o rosto jovem. O velho diretor se aproximou deles:

– Vocês dois poderiam me responder algumas perguntas?

A hesitação foi palpável, e Hermione tentou dizer:

– Sim, senhor, mas nós não sabemos de muita coisa...

– Srta. Granger – ele disse cuidadosamente –, eu esperava que a senhorita pudesse me dizer se a condição de Harry tem alguma coisa a ver com os pesadelos que ele vem tendo ultimamente. A senhorita sabe, como aquele perto do Natal, com o pai de Ron...

– Oh. – Ela arregalou os olhos. – Oh, acho que não, senhor. Nada desse tipo.

– E vocês sabem o que está causando isso?

Os dois se entreolharam, claramente receosos. Não era preciso ser legilimente para ver que eles sabiam mais do que estavam dizendo. Dumbledore podia entender aquilo, lealdade. Ele era um Gryffindor, afinal de contas. Mas, nas presentes circunstâncias, era desesperante.

O diretor se virou para dar uma insistida gentil, mas foi interrompido pela entrada da Inquisidora de Hogwarts na enfermaria. Com um casaquinho verde, saia combinando e um prendedor de cabelo em forma de uma rosa púrpura, ela trazia um sorriso mais falso do que um Galeão prateado. Dumbledore escondeu sua irritação com um ar alegre e jovial, cuidadosamente treinado durante mais de um século.

– O que está acontecendo aqui?

– Oh, olá, Dolores. Um aluno caiu extremamente doente e Poppy me dizia que talvez tenhamos de transferi-lo.

Ela voltou os olhinhos perniciosos para a cama:

– Potter? O que ele tem?

– Não sabemos ainda – disse Madame Pomfrey. – Mas ele está muito doente.

– Isso é o que ele ganha por espalhar mentiras – zombou Umbridge, na sua voz mais doce. – Bom, felizmente, sabemos que ele não pegou essa doença no campo de Quidditch.

Dumbledore viu os dois alunos de Gryffindor inspirarem fortemente e apertarem os lábios, mal se contendo diante das palavras da Alta Inquisidora de Hogwarts. E ela não tinha terminado:

– Ele tem algo contagioso? Isso pode se espalhar pela escola?

– Não sabemos ainda – respondeu Pomfrey. – Não conseguimos sequer determinar o que o rapaz tem.

– Você fala "nós", mas na verdade esse é o seu trabalho, não é? – Umbridge deu um sorrisinho, e a enfermeira se avermelhou. – Oh, bem há um lado bom nisso tudo: esse caso pode ajudar a rever sua ficha de avaliação.

Dumbledore interrompeu suavemente:

– Você também está doente, Dolores?

– Não, claro que não. – Ela parecia horrorizada com a idéia. – Por que diz isso?

– Oh, bem, você veio até a enfermaria, afinal de contas. E não sabia o que estava acontecendo.

Ela ficou roxa, enquanto Ron e Hermione tentavam disfarçar sorrisos. Umbridge se empertigou e respondeu, de modo frio e arrogante:

– Eu vim procurar por você, Dumbledore. Há algumas avaliações de professores que gostaria de rever em conjunto.

Mais uma vez, Ron e Hermione ficaram tensos. A preocupação deles (e de Harry) era com Hagrid, que certamente deveria ganhar o bilhete azul. Talvez essa fosse a "avaliação" a que Umbridge se referia.

Dumbledore ia responder, mas foi interrompido pela entrada de mais uma pessoa na enfermaria. Severus Snape, pálido como sempre, parecia agitado, notou Dumbledore, sabendo que o número de pessoas capazes de perceber isso era incrivelmente diminuto. Os olhos negros e profundos varreram a enfermaria, detendo-se na cama ocupada por Harry.

– Ah, Severus – saudou Madame Pomfrey. – Eu estava mesmo para chamá-lo. Gostaria que me ajudasse com um caso grave.

A voz dela provocou uma reação nele, reparou Dumbledore, como se só então ele tivesse dado conta de que havia mais gente na enfermaria. Ele parecia mesmo totalmente concentrado em Harry Potter.

O Mestre de Poções se aproximou de Pomfrey, que fazia leituras em Harry, e retirou das vestes alguns frascos e vidros com poções, entregando-os nas mãos da enfermeira.

– Talvez isso possa ajudar.

Pomfrey olhou os frasquinhos:

– Acho que vou precisar de uma poção restauradora das mais fortes que você puder preparar, mas isso tem que ser urgente. – Ela olhou para ele. – Severus, você está bem?

Dumbledore notou Ron e Hermione trocando olhares quando Severus respondeu:

– Vou tentar preparar o que puder no mínimo tempo possível.

– Hum...

Harry Potter gemeu na cama, mexendo-se em movimentos lentos, os olhos fechados. Madame Pomfrey tentou chamá-lo:

– Sr. Potter? Sr. Potter, pode me ouvir? – Harry manteve-se imóvel, mas ela espantou-se. – Pude jurar que as leituras dele oscilaram por alguns segundos.

Dumbledore, Ron, Hermione e até Umbridge se aproximaram da cama de Harry Potter e ficaram observando a reação do garoto. Ele continuava inconsciente, mas estava longe de estar imóvel. No momento, parecia estar tendo um pesadelo. Daqueles bem feios. Então um barulho suave atrás deles chamou a atenção de todos, inclusive Pomfrey.

Severus Snape estava desmaiado no chão.

Próximo capítulo: Hogwarts entra em alerta sanitário e as surpresas continuam

Capítulo 6. Não entrem em pânico

Tema: segredo

– Eu lhe digo, eles estão morrendo!

Hermione e Ron ouviram o lamento de Madame Pomfrey com preocupação. Ela não costumava ficar agitada, especialmente na frente do Prof. Dumbledore.

– Fique calma, Poppy – insistiu o diretor. – Assim você não será útil a nenhum dos dois.

Parecendo angustiada, a enfermeira matrona repetiu:

– Eles estão em coma, Albus, em coma! Isso é muito grave. Não estão em condição de serem transferidos para St. Mungo's. Vou criar uma área de isolamento perto daquelas colunas. Serão ideais para criar uma bolha mágica e evitar a contaminação do castelo.

– Tenho plena confiança nas suas habilidades de cura, como sempre. No momento, porém, eu gostaria de falar com vocês dois. Quem sabe na minha sala vocês se ficam mais à vontade? Poppy, eu vou procurar algo nos meus livros, ver se encontro algo para ajudar. Vamos, por favor, meus jovens.

Ron e Hermione se entreolharam, receosos. Eles não queriam trair a confiança de Harry, mas a vida dele estava em perigo, bem como a de Snape. Eram duas vidas que eles podiam salvar, se o Prof. Dumbledore pudesse fazer alguma coisa.

Por isso, eles contaram. Dumbledore ouviu atentamente, e os dois jovens ficaram aliviados quando a reação dele foi comedida, para dizer o mínimo.

– Entendo o receio de vocês, mas quero assegurar que fizeram o correto ao contar o que sabiam. Acho que, sim, posso ajudar Harry e Severus. Eu tive contato com alguns dos últimos Koboldines conhecidos na época do Lord das Trevas Grindelwald. Hum, acho que tenho alguns volumes aqui capazes de nos dar alguma luz sobre o assunto.

– Vai poder ajudar, Prof. Dumbledore?

– Vamos ver o que posso fazer. Mas acredito que Harry e Severus tenham razão ao pedir sigilo. O pavor de Koboldines é bem forte no mundo bruxo. Por isso, preciso contar com a discrição de vocês dois. E de um sacrifício.

– Discrição?

– Sacrifício?

– Gostaria que fossem discretos em não deixando ninguém, e digo absolutamente ninguém, saber sobre isso. Entre nós três, mais Sirius e Remus, já é gente demais a par de um segredo tão grave. Se o Ministério desconfiar disso, Harry e Severus poderão estar em grandes apuros. Há muitos altos funcionários do Ministério da Magia que têm uma atitude francamente desfavorável a criaturas mágicas e seus descendentes.

Hermione nem precisava pensar muito para saber que ele se referia a Dolores Umbridge e gente como ela. O Prof. Dumbledore continuou:

– Para tal, lamento ter que elaborar uma estratégia também para desviar a atenção de Poppy sobre a verdade.

Ron ficou alarmado:

– Mas se não contarmos para ela, como ela vai tratar do Harry?

– Diremos que se trata de um vírus mágico raríssimo e muito perigoso, como o causador da hidrofobia hipogrífica. Com isso, eles ficarão no isolamento. Mas deixem essa parte comigo. Por enquanto, podem ajudar Harry ao dar dicas de que ele esteve muito tempo em contato com Hagrid e seus animais. Não que eu seja a favor dessas práticas, mas, como indiquei antes, precisamos fazer sacrifícios. Agora vão. Acho que vou pessoalmente preparar uma poção para ajudar os dois.

– O que mais podemos fazer, professor?

– Estamos fazendo tudo que podemos, Sr. Weasley. Esperemos que isso seja o suficiente para salvá-los.

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– Olá, Severus.

O Mestre de Poções de Hogwarts mal tinha aberto os olhos e a visão mais improvável estava diante de si: o diretor de Hogwarts, confortavelmente instalado numa poltrona, olhinhos azuis brilhando por trás dos óculos de meia-lua.

– Eu... – ele tentou falar, mas parecia que alguém havia posto algodão seco dentro da sua boca. Depois de alguns minutos, ele tentou de novo. – Eu... estou morto?

Dumbledore deu um meio sorriso:

– Oh, dificilmente, meu caro. Mas eu preparei uma Poção Restauradora com mandrágoras adultas, para que pudéssemos ter esta conversa antes que você entrasse em coma. Se isso acontecesse, poderia ser irreversível. Na verdade, ainda pode.

– Coma? – Severus alarmou-se e olhou em volta.

Estava ainda na ala hospitalar, mas havia uma espécie de cortina mágica ou barreira opaca separando aquele canto do resto. Na cama ao lado, Harry Potter estava deitado, aparentemente adormecido, mas havia um tom acinzentado na sua pele que não parecia ser bom presságio. Severus sentiu o coração se contrair e franziu o cenho.

O velho diretor suspirou, perdendo o ar de jovialidade por alguns segundos:

– Ah, Severus... Gostaria que tivesse confiado em mim. Teria sido tudo tão fácil.

Com breve uso de Legilimência, Severus descobriu que seu segredo estava exposto para Albus. Tudo culpa daqueles Gryffindors metidos e do maldito guri, que não tinha conseguido manter a boca calada!

– Fácil? – Severus riu sarcástico. – Claro, mais fácil para me demitir. A escola tinha que tomar uma providência. Afinal, um monstro demoníaco não pode ser professor.

– Não, minha criança. Quero dizer que seria mais fácil para entender algumas das suas características. Eu devia ter percebido. Seu poder, sua capacidade... São típicos de Koboldines. E não me fale sobre monstros na escola. O episódio de Remus Lupin ainda está fresco na memória. Ou Rubeus Hagrid. Eu jamais daria minhas costas a qualquer um apenas por causa de sua herança genética.

Era verdade, lembrou Severus, um tanto quanto vexado. Se alguém era capaz de olhar acima das ascendências, esse alguém era Albus Dumbledore.

– E eu seria capaz de entender Koboldines, em especial. Conheço a compulsão; entendo perfeitamente a loucura do acasalamento.

– Albus... – Severus estava envergonhado. – Olhe para ele. Ele tem apenas 15 anos. Eu não sou um pervertido.

– Se ele está passando pela compulsão, ele está maduro para acasalar, Severus. Você sabe disso. Eu mesmo tinha menos de 15 anos quando senti o chamado.

Só então Severus deu-se conta do que tinha ouvido. Ele arregalou os olhos para o diretor de Hogwarts, encarando-o como se o visse pela primeira vez – o que, num certo sentido, era bem verdade.

– Albus...! Você...? Mas... como?

– Eu disse que deveria ter confiado em mim. Teríamos poupado tanto sofrimento. Imagino que deve ter sido difícil para você, pensando que estava totalmente sozinho.

– Meu avô me ajudou quando minha época chegou. Nunca conheci um outro... de nós.

– Meu próprio irmão não tem o gene, acredita? O único que conheci foi meu dominante. Como indiquei, eu tinha 14 anos. Ele era um mago poderoso e impressionante. Eu o amava profundamente.

– O que aconteceu?

– Eu o amava muito, mas tive que matá-lo. – Dumbledore deixou transparecer uma tristeza infinita nos olhos azuis tão brilhantes. – Ninguém mais poderia fazê-lo. Como eu disse, ele era um bruxo de poderes impressionantes.

– Mas... Como pôde? Digo, ele era seu próprio dominante. O laço entre dominante e submisso é forte. Como pôde se voltar contra ele?

– Esse laço foi quebrado. Sabe, sangue de dragão na verdade tem muito mais de 12 usos. Claro que eu não tinha intenção de quebrar essa ligação; foi uma descoberta puramente acidental. Passei a não mais sentir a compulsão do acasalamento. Eu estava livre de nossa conexão. Foi bem afortunado, eu diria. Sem isso, afinal, nada teria sido capaz de detê-lo. Provavelmente seu sangue Koboldine era responsável por seus poderes impressionantes. Foram dias muito negros. Então, eu o derrotei.

Severus estava cada vez mais assombrado:

– Está tentando dizer que seu dominante era o próprio Grindelwald?

– Ah, você sempre foi esperto, Severus – riu Dumbledore, mas havia uma certa melancolia nele. – Mas essas são lembranças tristes. Coisas das quais não tenho orgulho em lembrar. Nenhum submisso deveria destruir seu dominante, não acha?

Mas o cérebro de Severus continuava funcionando:

– Você alguma vez suspeitou que o Lord das Trevas também pudesse ser... um de nós?

– Sim, mas felizmente as suspeitas se provaram falsas. E agora, mais do que nunca, confirmaram-se. Afinal, você nunca o detectou, não é verdade?

O Mestre de Poções foi obrigado a concordar. Se o Lord das Trevas fosse um Koboldine, certamente eles teriam se reconhecido – e engajado em feroz combate. Porque dois Koboldines dominantes eram atraídos irresistivelmente para uma disputa violenta e que geralmente só terminava com a morte. Severus, porém, partia do princípio de que Tom Riddle jamais seria um submisso.

– Acho que tem razão. Pessoalmente, sou grato que ele não tenha chance de ter mais poderes do que já tem.

– Sim, talvez você tenha razão. Agora, meu rapaz, tente me dizer apenas por que você e Harry estão nessa situação.

Severus baixou a cabeça, envergonhado, mortificado até o último fio de cabelo:

– Receio que seja minha culpa, Albus. Eu rejeitei o rapaz. Digo, rejeitei mesmo. Então só posso deduzir que isso se traduziu em alterações metabólicas de nossos corpos Koboldines. Algo em meu corpo deve ter alterado os feromônios, e ele se sentiu rechaçado além de qualquer esperança. Seu corpo reagiu e se fechou em si mesmo. Ele foi induzido ao coma.

– Boa dedução, Severus. Acredito que muita dela realmente tenha fundamento na verdade. E agora, como se sente em relação a seu submisso?

Severus olhou para o rapaz adormecido na outra cama: pálido, quase acinzentado, uma textura de cera na pele, conferindo-lhe uma aparência sombria. O coração do dominante se apertou, sabendo que ele era responsável por isso.

– Oh, Albus... – Ele mal conseguiu conter uma lágrima. – Só espero que não seja tarde demais. Falhei com Harry. Por causa de uma história antiga, uma memória, uma lembrança, eu quase o perdi.

– Vai ter chance de cuidar dele agora, Severus. Estou deixando vocês dois isolados nesta ala inteira da enfermaria. Poppy pensa que vocês dois pegaram hidrofobia hipogrífica, uma doença extremamente rara e contagiosa. Felizmente, é inofensiva para os que ultrapassaram os 100 anos. – O velho diretor sorriu. – Ela entrará nessa ala uma vez por dia, para verificar sua condição, mas a porta ficará fechada e só vocês poderão abri-la. Assim ela não será pega de surpresa em algum momento... inapropriado. A comida e os remédios serão trazidos por Dobby, que me fez um juramento solene de jamais revelar a quem quer que seja o que vir neste aposento. Tudo foi planejado para que vocês fiquem confortáveis durante sua estada. Há um banheiro, poções, apetrechos e literatura para entretê-los. Ah, e Harry tem seus deveres para fazer.

Severus olhou ao redor e viu as duas pilhas de livros numa mesa grande. Aliás, o quarto estava bem mobiliado. Esperava-se que os dois passassem um bom tempo ali.

– Diretor, o que posso fazer por Harry? Diga-me que não é tarde demais.

– Oh, não, minha criança, de jeito algum. Você só precisa proteger Harry de si mesmo. Se você o assegurar de que ele será protegido e bem cuidado, seus instintos Koboldines o aceitarão, e ele vai começar a melhorar. Mas se ele não se sentir seguro a seu lado, Severus, receio que haja pouco que Poppy ou qualquer medibruxo possa fazer. Gostaria de me oferecer para conversar com Harry, mas temos o pequeno problema de Lord Voldemort tentando controlar a mente do rapaz. Além disso, a presença ubíqua de Madame Umbridge torna a tentativa deveras arriscada.

Severus quase se esquecera da mulherzinha sicofanta do Ministério que estava infernizando Hogwarts. Pior do que isso: ela fizera um voto pessoal de perseguir Harry, por causa do que ele andava dizendo sobre a volta do Lord das Trevas.

Seu instinto de Koboldine dominante cantou em suas veias. Aquele sapo rosa recalcado e obtuso travestido de funcionária pública não iria chegar perto de seu submisso sem antes Severus se certificar de que ela sentisse dor, muita dor.

Umbridge que se cuidasse.

Próximo capítulo: Harry acorda e dá de cara com seu dominante