Capítulo 21 – Deixe meus irmãos em paz
Tema: festa
– E foi só isso que você fez esse tempo todo? – Ron soou ligeiramente decepcionado, ao lado de Hermione, enquanto olhava Harry acomodar algumas roupas no quarto que os dois dividiriam no Burrow.
A garota deu-lhe um tapa no braço:
– E você acha isso pouco, Ron? Harry agora sabe de tudo das horcruxes.
– E não mora mais com aqueles Muggles horríveis. Você deve estar aliviado, né, cara?
Harry deu de ombros:
– Foi a coisa mais estranha. Meu tio estava comemorando, mas tia Petúnia estava quase chorando, dizendo que queria ter me tratado melhor. Não deu para entender nada. Mas ela já vinha estranha antes, desde que Remus apareceu em Privet Drive.
– Prof. Lupin? – indagou Hermione. – Ele não tinha ido para uma colônia de lobisomens?
– Não, McGonagall o chamou para fazer essa tarefa. Dumbledore confiou as garrafinhas de memória para ele me entregar.
– Estranho – concordou Ron. – Ele não esteve aqui em casa nem nada.
– Mas ele foi muito legal. Ele me fez ver que a gente vai conseguir mais se ficarmos em Hogwarts, pesquisando por lá e também em Grimmauld Place.
Hermione quis saber:
– Você vai morar em Grimmauld Place?
– É o único lugar que eu tenho para viver.
– Cara, você pode ficar aqui em casa o tempo que quiser – garantiu Ron. – Mamãe ia adorar.
– Obrigado, Ron. Mas como o Lupin falou, a biblioteca da família Black pode nos ser muito útil. Assim como a biblioteca de Hogwarts.
– Harry, você se esqueceu? Eu já procurei explicações sobre as tais horcruxes em Hogwarts e não fui muito longe. – A moça parecia desolada. – Eu estive olhando na seção restrita e até mesmo nos livros mais horríveis! Tudo que eu pude achar foi uma frasezinha, no livro Introdução para Magia Mais Diabólica: "Sobre a horcrux, a mais maligna das invenções mágicas, nós não falaremos nem daremos instruções"... Por que mencionar isto, então?
– Sim, você tinha me dito isso mesmo. Mas, Hermione, e se alguma horcrux estiver escondida em Hogwarts? Tem algumas que Dumbledore não sabia o que era.
– É que a gente sabe tão pouco sobre isso! – Hermione parecia frustrada. – É um quebra-cabeça, e todo da mesma cor!!
– Olhe, vocês não precisam fazer nada disso. A gente tem uma semana juntos. Que tal fazer outras coisas? Eu sei que ainda preciso comprar uma roupa para o casamento, mas adoraria um jogo de Quidditch, Ron.
– Amanhã os gêmeos vêm almoçar aqui, para o ensaio do casamento. Podemos fazer um jogo com dois times completos.
– Ótimo – disse Hermione. – Assim você vai poder falar com Ginny ainda hoje.
Harry franziu o cenho:
– Ginny? O que ela tem a ver com isso?
– Harry, você está aqui, na casa dela. Ela vai esperar que você seja... amigável com ela.
– Mas ela é minha amiga.
– Você sabe o que eu quero dizer. Vocês namoraram, depois você terminou, dizendo que ia ser perigoso. Mas a verdade é outra, e eu sei que você vai querer pelo menos explicar para ela que... bom, que ela não precisa ficar esperando você.
– Hermione, isso é o Harry quem deve decidir!
– O Harry sabe muito bem que essa é a coisa certa a fazer.
– Mas, Mione, eu não sei...
Harry teve que se interromper quando a própria Ginny entrou no quarto, sorrindo.
– Já está tudo arrumado, Harry?
– Err...acho que sim.
Hermione puxou Ron:
– Acho que sua mãe está te chamando. Vamos lá para baixo.
– É? Engraçado, eu não ouvi nad... AI Tá, tá, já vou!
Os dois saíram, e Ginny sentou-se na cama, ao lado de Harry. A mocinha sorriu:
– Fiquei feliz quando você decidiu passar um tempo aqui em casa, apesar da confusão do casamento do Bill. Mamãe está fazendo um bolo de aniversário para você, mas é surpresa, então aja como se tivesse sido surpreendido.
– É muita gentileza, não precisava. Ginny, posso falar com você um minuto?
– Isso é sobre Voldemort? Olhe, sei que não estamos mais namorando, e entendo suas razões.
– Ginny, eu menti. Voldemort não é o motivo pelo qual não estamos mais namorando. Quero dizer, naquela hora, eu estava dizendo a verdade, mas eu estive pensando... e... bem... eu preciso falar...
– Você esteve pensando? Como assim, você esteve pensando – Ginny juntou as sobrancelhas e levou as mãos à cintura. – Foram apenas cinco semanas desde o funeral de Dumbledore! O que você esteve pensando em apenas cinco semanas?!
Harry sentiu a garganta ficar seca:
– Por favor, não fique brava...
– Como você quer que eu fique? O que aconteceu? Conheceu alguma piranha, foi?
– Não é nada disso!
– Porque eu não vejo outra explicação! Você não pode ter simplesmente acordado um dia e decidido parar de me amar!
A voz dela parecia ecoar pela casa toda, a pele sardenta rapidamente estava ficando da cor do cabelo, e Harry decidiu a explicação mais rápida:
– Ginny, eu sou gay!
Ela estava no meio do processo de gritar alguma coisa, mas só ficou de boca aberta, encarando Harry com uma expressão inédita. Ela estava sem palavras.
Harry aproveitou a chance para falar:
– Desculpe. Eu não quis enganá-la, nem fiz por querer. Eu realmente achei que gostasse de você como namorada, mas me dei conta de que garotas não me atraem tanto assim.
Ginny continuava a encará-lo como se o tivesse visto pela primeira vez na vida e ele sentiu um buraco no estômago, tamanho o desconforto. Mas continuou:
– Você é uma das minhas melhores amigas, Ginny, e é irmã do meu melhor amigo. Não queria que as coisas ficassem estranhas entre nós.
– Mas que porra... – ela xingou baixinho. – Que merda, Harry.
– Desculpa, Ginny, desculpa.
– Eu te adoro desde que eu tinha 10 anos... Eu nunca desisti... esses anos todos. E agora você está me dizendo que prefere meninos? – Ela se virou. – Desde quando? E quem é ele? Sim, porque você deve estar de olho em alguém. Oh, Merlin, não diz que é um dos meus irmãos, Harry, tudo menos isso!
– Não é nenhum dos seus irmãos! – ele garantiu rapidamente. – Não é ninguém! Eu não tenho ninguém! Ginny, pode acreditar. Você... está com raiva de mim?
A ruiva o encarou, e Harry imaginou que deveria ter caído morto, pela intensidade do olhar.
– Mas... – ele tentou esclarecer – Está com raiva por causa do que eu lhe falei ou é por que não gosta de gays?
– Você não está mesmo a fim de nenhum dos meus irmãos?
– Eu já falei que não tenho ninguém. Não estou mentindo, Ginny. Acha que eu mentiria sobre isso?
Ginny suspirou, e Harry achou que era um som feio, com jeito de derrota, o que era totalmente fora do estilo de Ginny. Felizmente, depois ela inspirou fundo e confessou:
– Eu vou estar estranha alguns dias, Harry. Isso não significa que eu te odeie... ainda. Mas preciso digerir isso de alguma maneira, e no momento, meu irmão Bill está para se casar. Depois do casamento, eu vou ver se te odeio. Ou vou ver o quanto te odeio.
E saiu, deixando Harry com um sentimento de peso no coração.
Pelo menos, ele não mentira.
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Poucas vezes Harry se divertiu tanto quanto na festa de casamento de Bill e Fleur. Para começar, foi uma ocasião em que ele pôde verificar n loco o quanto a família Weasley era realmente numerosa. Contudo, quando se juntavam aos Prewett, então, podiam formar uma verdadeira multidão. Não havia muitos Delacour, mas eles eram franceses... Muito estranhos, notou Harry.
A festa foi no jardim, e também nos gramados ao lado, incluindo a área onde os rapazes geralmente se juntavam com Ginny para jogar Quidditch. Havia gente por todos os lados, verificou Harry. O ambiente era festivo, mesmo que muitos dos presentes relembrassem a morte de Dumbledore e os últimos acontecimentos na guerra contra as trevas.
Harry pôde ver e rever diversos membros da Ordem da Fênix, incluindo o barman do Hog's Head, um homem que Hermione lembrou ser o irmão de Dumbledore, chamado Aberforth. O simpático Kingsley Shacklebolt também foi cumprimentá-lo, assim como Héstia Jones. Uma coisa chamou a atenção de Harry (que também estava preocupado em manter certa distância de Ginny): Tonks estava sozinha, marcando ritmo da música com a cabeça. O cabelo estava num violeta vivo, que contrastava profundamente com o conjunto bruxo verde-musgo. Ela estava bonita e parecia alegre.
– Oi, Harry! – Ela o cumprimentou quando ele se aproximou. – Bela festa, hein?
– Muito boa, mesmo. Notícias de Remus?
– Você sabe que não. Ele não entrou em contato desde que entrou na colônia.
– Ele parecia bem antes de ir – comentou Harry. – Tenho certeza de que tudo vai dar certo.
– Você o viu antes de ele partir?
– Sim, mas eu calculei que ele também fosse falar com você.
– Quando foi isso?
– Ora, pouco antes de ele ir. Faz umas três semanas, talvez um mês.
Tonks o encarou com uma expressão bem séria, o rosto franzido.
– Harry, tem certeza do que está dizendo?
– Claro. O que foi? Alguma coisa errada?
– Harry, Remus embarcou para a colônia logo após o enterro de Dumbledore e está lá desde então.
– Claro que não. Ele esteve em Hogwarts, falando com a Profª McGonagall, e...
– McGonagall foi a Londres tentar resolver a situação de Hogwarts e depois foi para a Escócia, visitar a família. Hogwarts está fechada desde o enterro de Dumbledore.
Só então uma possibilidade terrível passou pela cabeça de Harry, fazendo-o perder toda a cor no rosto. A mesma possibilidade passou pela cabeça de Tonks também, porque ela disse:
– Harry, você não falou com Remus. Não sei com quem você falou, mas não foi com Remus.
Harry pensou rapidamente, revendo as conversas na cabeça, tentando lembrar do que tinha sido dito...
– Mas... tinha que ser ele! Ele sabia tudo que Remus sabia.
– Vamos, precisamos contar isso a alguém da Ordem agora mesmo. Eles vão querer fazer algumas perguntas.
– Não! – Harry resistiu. – Eu não vou responder.
– Harry, não percebe o perigo que você passou? Obviamente era alguém sob efeito de Polissuco, alguém disfarçado de Remus para se aproximar de você. Talvez fosse um Death Eater!
– Provavelmente era um Death Eater, sim, mas não posso falar sobre isso.
Tonks o encarou.
– Harry, acha que era Snape?
Não tinha outra explicação, pensou Harry. Contudo, ele rapidamente pensou em outra coisa:
– Ele não teria conseguido se passar por Remus sem que eu desconfiasse, aquele nojento. Não, tinha que ser outra pessoa. Mas não vou falar sobre isso, Tonks.
– Harry!
– Se você insistir, eu nego tudo... Nymphadora.
Ela arregalou os olhos. Depois suspirou, desistindo de bater boca com o rapaz teimoso.
– Está bem. Mas você vai tomar cuidado, não vai? E vai me contar tudo que está acontecendo. Você precisa ficar em segurança.
– Olhe, prometo me mudar para Grimmauld Place. Concorda que lá estarei seguro?
– Pelo menos até você ir para Hogwarts de novo. Mas Snape ainda pode aparecer por lá.
– Não se preocupe. Se ele tiver a audácia de aparecer, eu sei como cuidar de gente como ele.
– Não! Avise a Ordem! Mande o Patronus.
– Não se preocupe, já disse.
– Por que não convida Ron e Hermione para ficar com você? Posso ir também.
– Não será necessário. Convidarei Ron e Hermione. Se quiser visitar, será bem-vinda, claro. Mas Ron, Hermione e eu estaremos seguros lá.
Harry imaginou o quanto aquilo era verdade. Tonks o encarou, como se estivesse refletindo se podia ou não confiar no rapaz. Mas não perseguiu o assunto, para alívio de Harry.
Próximo capítulo: Homens mortos não deixam pistas
Capítulo 22 – A fala do homem morto
Tema: pesquisa
Foi um dia inteiro procurando referências ao medalhão, a horcruxes, a qualquer coisa que ajudasse. Ainda bem que não foi um dia em vão.
Hermione disse que já tinha uma desconfiança antes mesmo que eles voltassem para casa nas férias de verão. Depois ela juntou umas peças, umas deduções e chegou a uma conclusão:
– Foi o irmão de Sirius!
Ron quase caiu da cadeira.
– O quê?
– R.A.B. Acho que as iniciais são do irmão de Sirius! Veja aqui!
– É isso que você pesquisou o dia inteiro?
– Mas é claro! R.A.B substituiu o medalhão de Slytherin por essa cópia que você carrega no pescoço, então precisamos saber quem é R.A.B para perguntar onde está o medalhão verdadeiro. Eu acho que R.A.B significa Regulus A. Black.
– E esse A é de...?
Hermione se ergueu e apontou para a tapeçaria com a árvore genealógica da família:
– Veja aqui: os Black costumam repetir nomes. Então o A pode ser de Arcturus. É o mais provável. Tem um Arcturus nas duas últimas gerações de Black. É lógico pensar que Regulus seria o Arcuturs da geração dele.
– Em que isso nos ajuda, Hermione? – Ron fechou a cara. – Sirius não disse que o irmão dele morreu? Como vamos perguntar a ele qualquer coisa?
Harry arregalou os olhos. Segundo Dumbledore, se é que alguém poderia falar com Regulus, esse alguém era Severus. Mas só se... eles estivessem juntos.
De costas para Harry, Hermione continuou discutindo com Ron:
– Ele pode ter deixado alguma pista para trás – sugeriu ela. – Se for esse o caso, ele certamente deixou as pistas aqui, nessa casa.
– Quem sabe ele deixou o medalhão? Lembram quando limpamos a casa, com Sirius e sua mãe, Ron? Tinha um medalhão que ninguém conseguia abrir...
– Nossa! – exclamou o ruivo. – Bem que podia ser aquele.
– Podemos perguntar a Kreacher se ele sabe onde está.
– Amanhã, por favor – gemeu Harry. – Estou caindo em pé. Hoje não vou conseguir fazer mais nada.
Hermione concordou. Eles tinham ficado o dia inteiro pesquisando sobre Horcruxes e debatendo as idéias de Dumbledore, e já estavam ameaçados de criar fungos nos olhos. Harry tirou os óculos para coçar a ponte do nariz e sugeriu:
– Vamos dormir. Continuamos isso amanhã.
Eles fecharam os livros e foram para seus quartos. Harry caiu na cama depois de escovar os dentes rapidamente, realmente sentindo-se exausto e esgotado.
No meio da madrugada, Harry se levantou e saiu do quarto, sem saber direito o que o tinha acordado. Resolveu ir até a cozinha beber um pouco de água, e passou pelo quarto de Hermione, notando os ruídos de lá dentro. Aparentemente, no meio da noite, seus amigos tinham resolvido procurar outras coisas além de horcruxes...
Com um sorriso, Harry desceu as escadas de sua casa, com cuidado para não acordar o retrato da mãe do Sirius. De novo, sem saber o motivo, ele passou pela sala de estudos, uma que a Ordem costumava usar para suas reuniões, na época que a casa era sede do grupo.
E a lareira estava acesa, em plena noite de verão em agosto.
Harry amaldiçoou-se por ter deixado a varinha no quarto, mas entrou na sala, observando a cor das chamas mudarem para verde. Alguém estava querendo se comunicar.
Para sua surpresa, não era comunicação que a outra parte tinha em mente. Os olhos verdes de Harry se arregalaram quando uma pessoa foi depositada no tapete com pó de Floo, de forma graciosa e fluida, levantando cinzas e fuligem. O rapaz observou o homem retirar a sujeira de suas vestes.
Severus Snape estava em sua sala.
Harry não sabia direito como reagir. Ele sabia que esse momento ia chegar, claro, mas nunca imaginou precisamente qual seria sua reação.
Olhos esmeralda se encontraram com ônix. O tempo ficou suspenso.
– Eu sabia que você viria.
Severus manteve o olhar para ele.
– Devo temer por minha vida, Sr. Potter?
Harry foi sincero:
– Se você tivesse aparecido há algumas semanas diante de mim, eu o teria matado sem nem piscar.
– Ah. – Snape ergueu uma sobrancelha. – Posso inferir corretamente que você tomou conhecimento das memórias do Prof. Dumbledore?
Harry quase rosnou, encolerizado:
– Você sabe tão bem quanto eu que você mesmo as entregou a mim disfarçado de Lupin, e depois veio me dar... conselhos!
– Então finalmente você descobriu meu estratagema. Estaria impressionado, Potter, se não tivesse sido tão lerdo em descobrir meu plano.
– Não deveria estar me insultando, Snape. Afinal, você veio me pedir algo, não veio?
– Não exatamente. Só vim lhe fazer uma pergunta. Uma única pergunta, Potter, e não lhe imporei mais minha presença em sua casa.
– E que pergunta seria essa?
– Você está disposto a cumprir o que Albus pediu?
Harry sabia do que ele estava falando. Era o trabalho em conjunto, a chance de destruir Voldemort. Juntos... mais uma vez.
– Eu... não sei o que responder.
Ríspido, Severus rosnou:
– Bom, leve o tempo que quiser, Potter, porque não temos pressa nenhuma!
– Quer parar de ser assim? Como espera que trabalhemos juntos se você continua sendo um babaca?
O ex-Mestre de Poções de Hogwarts pareceu refrear-se de dar uma resposta, notou Harry. Ao invés de novo ataque, ele desviou o olhar do rapaz e diminuiu a voz para pedir desculpas:
– Não foi minha intenção. Apenas estou... sob muita pressão. Peço que... me perdoe.
– Isso é outra coisa que não sei se posso fazer – confessou Harry, que obviamente não estava falando sobre a rudeza de Severus.
Aquilo fez o ex-Mestre de Poções estremecer e encará-lo.
Harry teve um choque. Os olhos negros traziam uma dor infinita, como Harry jamais tinha visto antes. Severus logo exerceu seu autocontrole, e desviou o olhar. O rapaz podia senti-lo emitir ondas de profunda tristeza, saturando o ambiente já lúgubre da casa dos Black.
– É perfeitamente compreensível – foi o que Severus conseguiu dizer, incapaz de encarar Harry. – Não posso sequer dizer que isso seja inesperado.
– Pode falar comigo sobre isso? – Harry teve flashbacks daquela noite fatídica, a noite que ainda povoava seus pesadelos. Ele perdeu a postura de defesa, suspirando. – Como... você pôde fazer aquilo? E o que...?
Severus fechou os olhos, tentando fechar sua mente para as imagens que insistiam em aparecer.
– Eu... não pude evitar.
– Por que tinha que ser você? – indagou Harry, as lágrimas se juntando. – Oh, Severus, por que você?
Severus se mexeu pela sala, desconfortável, inquieto. Ele odiava pensar naquilo, mas não conseguia pensar em outra coisa.
– Não havia outra pessoa. Você viu as discussões. Dumbledore não confiava em mais ninguém. Eu resisti, Harry, eu resisti. Merlin sabe como resisti. Mas ou eu desobedecia a Albus ou eu o enganava. Eu nunca o desobedeci, e a segunda alternativa... sinceramente, eu nem sei se poderia conseguir enganá-lo, o bode velho.
Harry notou, com uma ponta de alarme, que a voz portentosa e firme agora estava miúda e hesitante, como se ele fizesse força para não ter um colapso emocional. Naquele momento, Harry percebeu em Severus o desgaste a que ele deveria estar submetido durante todas aquelas semanas que se passaram desde a morte de Dumbledore. E era mais do que provável supor que, mais uma vez, Severus tinha passado por essa crise sem ninguém para lhe dar apoio emocional, isolado, esforçando-se para sobreviver, para não ser detectado por Voldemort.
Severus interpretou o silêncio de Harry de uma outra maneira e ergueu os ombros, a voz tão seca que podia ser usada num martini:
– Eu voltarei daqui a alguns dias, quando me for possível desvencilhar-me de meus presentes... compromissos. Espero que tenha uma decisão até lá. Eu a respeitarei, seja qual for. Se quiser me entregar aos Aurores, eu serei preso. Se decidir que não pode trabalhar junto comigo, eu mesmo me entregarei.
– Você se entregaria? Por quê?
Severus deu um passo à frente, e os olhos faiscavam de tanta determinação, notou Harry. Com uma voz calma e maviosa, ele explicou:
– Francamente, Albus e eu discutimos a situação à exaustão. O plano de Albus é o único que tem alguma chance de sucesso. Mas se você não consegue fazer, então não há chance alguma. O Lord das Trevas vencerá, e você morrerá, provavelmente tentando inutilmente derrotá-lo sozinho, contando apenas com o apoio de seus outros dois amiguinhos. Não tenho o mínimo desejo de ver a vitória do Lord ou sua morte. Minha natureza Koboldine – a mesma que compartilhamos – não se dispõe a aceitar isso. Sem contar que meus instintos provavelmente me levarão a ajudá-lo e compartilhar de seu trágico destino. Então, de uma maneira ou de outra, estarei morto e incapaz de contribuir para a derrota do Lord, portanto, melhor me entregar às incompetentes autoridades, que não conseguirão derrotá-lo. Mas só trancado eu poderei ser impedido de tentar salvar você de cometer alguma loucura. É preciso derrotar esse homem louco. Só você pode fazer isso, Harry, mas precisa de mim também. Eu vim aqui me oferecer para ser seu parceiro. Se você não pode fazer isso, não vejo por que continuar esse esforço.
Harry ouviu as palavras com pesar crescente. Ele realmente não sabia o que fazer!
Severus continuou, entre formal e controlado:
– Como já indiquei, voltarei em alguns dias. Apreciaria que fizesse o obséquio de ter uma resposta na ocasião mais próxima de sua conveniência.
Fez menção de que iria voltar para a lareira, mas Harry o deteve:
– Espere. Você veio aqui me fazer uma pergunta. Importa-se se eu também lhe fizer uma?
– Não. Por favor, pergunte.
– Seja sincero. Quando você veio me ver disfarçado de Remus, disse que tentou impedir Sirius de ir ao Departamento dos Mistérios. Isso é verdade?
– Sim, eu tentei impedir seu padrinho de ir com os demais naquele dia. Como sempre, ele não só não me deu ouvidos como me insultou.
– E você sabia o que estava para acontecer? Dumbledore disse que você pode prever o futuro.
Os olhos negros adquiriram um ar mais doce e Severus tentou dizer:
– Sim, eu às vezes posso ver coisas que ainda não aconteceram. Mas essas coisas podem ser mudadas. Como durante nosso... isolamento. Eu vi Pomfrey testemunhando uma situação embaraçosa entre nós. Imediatamente, pedi que você se erguesse e se vestisse. Ela não viu coisa alguma. Aquele futuro que eu vi não se concretizou.
Harry sentiu um desespero antigo crescer em seu peito:
– Então por que não insistiu? Por que não impediu Sirius de ir ao Ministério? Por que você não fez mais?
Severus olhou a dor de seu pesseguinho e garantiu, em voz baixa:
– Harry, eu não poderia impedi-lo naquele dia mais do que posso interferir na sua decisão hoje. O futuro está sempre mudando.
– E você teve uma visão de Voldemort?
– Não, Harry. Estou usando lógica e estratégia, como Albus e eu combinamos. Como você bem sabe, esse poder de antevisão (além de outros) precisa de sua... contribuição para ser efetivamente ativado.
Harry sentiu a boca do estômago se apertar. Parecia que o peso do mundo inteiro estava nas suas mãos. Severus devia estar lendo sua mente, porque garantiu:
– Mas não pense que está sozinho. Você não precisa fazer isso sozinho. Aliás, se tentar, muito provavelmente não vai conseguir. Não quero influenciar sua decisão, Harry, mas pense no que estou lhe dizendo.
E dessa vez ele entrou na lareira antes que Harry pudesse pensar em algo para dizer.
Próximo capítulo: Harry tem uma decisão a tomar
