Capítulo 25 – Agulha + palheiro
Tema: teamwork
Ronald Weasley tinha uma expressão de profunda concentração ao olhar os vidros da cristaleira, que continham o medalhão escondido por Regulus Black.
– E agora? Será que é seguro ficar com isso aí?
– Ron, o medalhão não vai morder você – garantiu Hermione. – Nem vai sair andando daí.
– Severus me disse que a cristaleira é encantada, capaz de isolar a magia dos objetos.
– Mas e as outras horcruxes? Agora faltam três para a gente encontrar.
– Uma é a taça de Hufflepuff, outra pode ser Nagini e tem uma horcrux que ainda não se sabe nem o que é.
– É melhor a gente ter pelo menos uma idéia do que seja agora, antes de começar o ano. Quando a gente for para Hogwarts, vai ficar mais difícil.
– Você ainda está querendo voltar à escola, Harry? Apesar de saber que quem deu essa sugestão foi o Snape?
– Ron, estamos trabalhando com ele agora – lembrou Harry. – Precisamos confiar nele. Dumbledore disse que isso era essencial.
O ruivo suspirou:
– Droga, Harry. Eu tô tentando. Mas ele é muito difícil.
– Ele evitou que Mundungus tirasse a horcrux daqui. E fala a verdade: ele não foi cruel agora com a gente, é ou não é?
– Você está defendendo o seboso?
Harry lembrou:
– Nós dois precisamos ficar juntos. Há certas tradições que precisamos cumprir também. Portanto, se ele aparecer mais vezes, sejam gentis, sejam discretos e sejam rápidos.
– Rápidos? – repetiu Hermione.
– Nós precisamos de... er... privacidade.
Ron ficou tão enrubescido que sua pele adquiriu uma cor parecida a de seu próprio cabelo. Hermione também ficou rosada. Tentando controlar seu próprio rubor, Harry esclareceu:
– É para as aulas de Oclumência, suas mentes sujas!
Hermione caiu na gargalhada, enquanto Ron suspirava de alívio. Harry preferiu não dizer que ele tinha acrescentado aquilo de repente, sem pensar muito.
Porque ele queria privacidade também para fazer justamente o que as mentes sujas dos seus amigos estavam pensando...
– Vamos, gente, vamos continuar pesquisando – chamou Hermione. – Eu vi Sirius uma vez com um livro que pode ser útil: "A natureza da nobreza: uma genealogia bruxa". Deve estar lá na biblioteca.
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– O quê?! Não, não, Hermione, diga que você está errada!
– Bom, posso estar errada – admitiu a moça. – Mas o Profeta Diário não está. Aqui diz que o espólio de Hepzibah Smith foi dividido e vendido depois de sua morte.
– Mas se Vold... – Harry se interrompeu com a careta de Ron e corrigiu-se: – Se Riddle roubou a taça de Hepzibah, é óbvio que não está mais com a família. Ele a teria escondido muito bem.
– Num lugar que não fazemos a mínima idéia de onde é – insistiu Ron. – Acho que deveríamos primeiro descobrir a última horcrux.
– Ainda que a gente descubra, precisamos saber onde ela está. Quero dizer, se Você-Sabe-Quem decidiu esconder numa caverna, que nem ele fez com o medalhão, como podemos achar?
– Pesquisando muito, Ron – disse Hermione, fechando a cara para ele. – Segundo o Prof. Dumbledore falou para Harry, Riddle dá importância a lugares e pessoas.
– Estive pensando – disse Harry. – Ainda não sabemos sobre uma das Horcruxes. Dumbledore achava que era algo de Ravenclaw ou Gryffindor. Mas será que isso é possível?
– Não estou entendendo o que quer dizer, Harry – disse a moça. – Vou me repetir: Dumbledore deixou claro que Riddle dava importância a lugares e pessoas com significação mágica. Parece lógico que ele quisesse fazer Horcruxes de cada um dos fundadores.
– É, mas e se ele não considerasse que algum dos fundadores fosse digno de magia? Quero dizer, hoje existe muita rivalidade entre Gryffindor e Slytherin. Acredito que no tempo que Riddle era estudante a situação também fosse essa. Mas e se isso já vinha desde o tempo dos fundadores? Afinal, Salazar Slytherin discordava dos outros três com suas visões de sangue puro e essas coisas.
– Harry, onde quer chegar?
– Não estou muito certo de que Riddle tenha pego algum objeto de Godric Gryffindor para ser uma Horcrux. Ele pode ter achado indigno ter um pedaço de sua alma Slytherin alojado em algo de Gryffindor por ser amante de Muggleborns e mestiços.
– Ou então – sugeriu Hermione – justamente por isso é que ele tenha escolhido algo de Gryffindor. Para humilhá-lo.
– Ai – gemeu Ron. – Assim minha cabeça dói.
A porta bateu, e Ron se ofereceu para atender, ansioso por sair da discussão. Mas o recém-chegado era Severus. A visão fez os joelhos de Harry tremerem um pouco, e Ron estava mais do que desconfortável.
Para desanuviar o ambiente, Harry chamou-o para a discussão:
– Severus, você chegou na hora. Estávamos discutindo o que podem ser as três Horcruxes restantes.
– Sim – animou-se Hermione, como se estivesse em sala de aula. – Achamos que a Taça de Hufflepuff é uma delas, e Nagini a outra. Mas a terceira pode ser algo de Rowena Ravenclaw ou Godric Gryffindor.
– A menos que uma Horcrux não seja Nagini – ofereceu Harry. – Aí ele poderia ter objetos de todos os Fundadores.
– É! – Ron também gostou da idéia. – Isso faz sentido!
Severus sentou-se, dizendo:
– E uma boa noite a todos também. Vejo que já estão debruçados nesse projeto. Infelizmente, devo dizer que há um projeto prioritário para Potter.
– Prioritário? – Ron torceu o nariz. – O que pode ter mais prioridade do que achar as Horcruxes?
– Oclumência – respondeu Severus, com um ar superior. – Sem isso, o Lord das Trevas pode acabar com essa festinha de vocês em três tempos. Aliás, tempo é algo que não podemos perder. Portanto, se houver algum lugar onde Potter e eu pudermos praticar...
A cara feia de Ron Weasley pôde ser vista até o momento em que a porta da antiga sala de reuniões da Ordem foi fechada. Harry não conseguiu evitar o pensamento em sua mente: "Enfim, sós".
– Muito bem – disse Severus. – Agora que temos privacidade, podemos começar. Mas acho melhor fazermos diferente da primeira vez. Primeiro você tenta entrar em minha mente. Mas eu não a fecharei para você.
Harry franziu o cenho:
– Assim vai ser melhor?
– Assim você se familiariza com as sutis camadas da mente alheia. Sem contar que você também aperfeiçoa seus dons de Legilimência. Eles lhe serão úteis. – Severus empertigou-se. – Estou pronto quando quiser.
– Legilimens!
Harry sentiu algo estranho ao penetrar os olhos pretos de Severus e rever algumas das cenas que aconteceram na enfermaria, alguns anos antes. Depois ele viu Severus tendo que explicar o tempo na enfermaria a Lord Voldemort, e encarou o homem que deveria matar: o corpo esquelético, os olhos vermelhos, a pele assemelhada a escamas...
Quando Severus desviou o olhar, Harry não conseguiu sustentar o feitiço e saiu de sua mente. Mas era engraçado: ele nunca tinha estado longe de si. Durante todo o tempo (mesmo que tenham sido apenas alguns minutos), Harry estava consciente e tinha plena possessão de suas faculdades. Não estava tonto, nem tinha enjôos. Era grande a diferença da última vez que tentaram.
– Nossa, isso foi bem diferente.
– Você tem que ir conquistando aos poucos a habilidade. Aparentemente, você não sente dor ou desgaste. Mas acredite: você pode se desgastar fazendo isso. Acha que conseguiria me impedir de penetrar em sua mente?
– Posso tentar. Acho que agora tenho uma idéia mais clara de como fazer isso.
– Ajuda se você se concentrar em um pensamento que não lhe cause incômodo ou desconforto. Agora olhe para mim. – Harry obedeceu. – Legilimens!
Naturalmente, Harry tentou resistir. A princípio, ele sentiu o corpo entrar em tensão, mas concentrou-se em erguer barreiras mentais. Pela primeira vez, ele não deixava imagens se formarem. Mas um rosto apareceu.
Ginny. Sorrindo para ele, radiante, o rosto tão iluminado, tão franco e aberto.
De repente, tudo cessou. Harry estava arfando, dobrado em dois, tonto, engolindo o ar em golfadas, suando. Ele ergueu o olhar e viu Severus encarando-o, os olhos pretos transbordando de tristeza. Mas o ex-professor de Hogwarts não sustentou o olhar. Inspirou fortemente, evitando Harry e dizendo, de maneira tão seca que as palavras eram pronunciadas em bloco:
– Vejo que... er... houve progressos significativos. Parabéns. Você progrediu muito.
Harry sentiu seu coração despedaçar-se ao sentir o tom de angústia e rejeição:
– Severus, não é o que está pensando. Eu não sinto mais nada por ela. – Ele tentou se aproximar. – Quando eu disse que queria tentar entre nós dois, eu falava sério.
Severus permaneceu sem encará-lo, mas soltou um suspiro.
– Desculpe. Eu sabia que você tinha saído com ela neste ano. A verdade é que eu não prestei muita atenção. Com tudo que estava acontecendo, eu... acho que só me dei conta disso agora.
– Eu não tenho mais nada com ela. Terminei tudo no enterro de Dumbledore. Mas só faz alguns dias que eu a informei que era gay. Ela não gostou muito.
Harry observou que agora Severus já o olhava. Era duro para o rapaz ver os olhos pretos que ele conhecera tão cheios de vida com aquela sombra opaca.
– Você foi sincero?
– Totalmente – garantiu Harry. – Precisamos ficar juntos, Severus.
Severus o encarou em silêncio por alguns segundos, e desta vez Harry não entendeu o que acontecia por trás dos carvões incandescentes. Havia um sentimento ali indecifrável. Ah, Severus podia mesmo usar uma máscara quando queria.
– Melhor continuar o treino, então. Mais uma vez, agora com mais dificuldade. – Ergueu a varinha. – Legilimens!
Próximo capítulo: Durante o treinamento, reflexões
Capítulo 26 – Monólogos do pesseguinho
Tema: sentimentos
Os treinamentos continuaram para Severus e Harry, enquanto Ron e Hermione se dedicavam ostensivamente à caça das Horcruxes. Claro que era a maneira delicada e nem tão sutil de deixar os dois a sós. Harry agradeceu o esforço deles, mas ele sentia que a receptividade de Severus não era a mesma.
Droga, eles precisavam ficar juntos. Harry tentava se aproximar de Severus, tentava fazer as coisas acontecerem. Mas Severus só olhava para ele, parecendo triste, e não respondia aos avanços de Harry. O rapaz conseguiu ignorar aquele comportamento um dia, dois. No terceiro, ele estava inquieto.
No quarto dia, Harry foi direto ao ponto.
– Você não me ama mais?
– De onde você tirou essa idéia?
– Severus, eu estou aqui tentando me aproximar, mas você... parece que não quer.
– Eu preciso de um sinal seu.
– Mais do que eu estou dando? Há dias tenho me esfregado em você, tenho tocado em você, olhado para você! Que mais está esperando?
– Bastava falar comigo. Acho que precisamos conversar.
O rapaz revirou os olhos.
– Não acredito nisso. Você quer conversar? Conversar o quê? Já dissemos tudo o que era preciso!
– Harry – Severus disse suavemente. – Entendo que esteja impaciente, mas há uma coisa que precisa saber. Precisamos estar juntos se queremos derrotar o Lord das Trevas, mas precisamos estar inteiramente juntos. Temos que ter corpo, alma e mente envolvidos, um com o outro. A parte mais difícil disso vai ser esconder dos outros, mas é necessário que você não seja contido.
– Nem você. Não deve se conter também.
Severus encarou-o fundo nos olhos verdes, e Harry até se assustou ao ver dois carvões incandescentes de paixão, amor e devoção.
– Eu só refreio as minhas demonstrações. Não pense que eu reprimo minhas emoções, ou meus sentimentos por você. Mas você tem que ter essas emoções no seu íntimo. Você parece duvidar de meus sentimentos.
– Não é que eu pense que você não é sincero, eu só... Eu não sei, Severus.
– Não sou bom com palavras, mas deixe-me tentar dizer que... eu sou seu. Todo seu. Nem sei direito como dizer isso. Tenho certeza de que jamais olharei para outra pessoa enquanto viver. Você é tudo que eu quero, tudo que eu quis, tudo que eu vou querer.
Dessa vez Harry não respondeu, só o encarou, o coração palpitando, como se estivesse batendo nas costelas.
– Jamais deixei de amá-lo – garantiu, sem sequer enrubescer. – Todo esse tempo que passamos separados deu-me certeza de que também jamais deixarei de amá-lo. Não posso mentir: muita da minha resistência em cumprir as ordens de Dumbledore vinha da idéia de que você me odiaria pelo que fiz. De fato, minha previsão se confirmou. Mas jamais deixei de amá-lo. Sou seu, Harry, e sempre serei seu, pelo resto de minha vida. Não é uma questão de biologia. Agora sei que foi uma escolha. Só a biologia nos deixaria juntos apenas de nove em nove anos. Mas eu escolhi você. Chamam você de Escolhido, de Eleito. Mas eu é quem fiz a escolha. Fui eu quem o elegi no meu coração. Esse lugar é só seu, Harry. Nunca será ocupado por nenhuma outra pessoa.
O rapaz estava engasgado, admirado. Nunca pensou que pudesse ver tanta emoção no seu frio professor fora do período de acasalamento. Ao mesmo tempo, não pôde deixar de notar que Severus estava tranqüilo, não desesperado ou passional. Talvez isso fosse devido à tal tranqüilidade inerente de quem tinha descoberto uma grande verdade, e estava seguro de seus sentimentos. Sim, era isso: segurança.
Severus continuou:
– Você também tem que ser assim. Quero dizer, você precisa colocar seu coração nisso. Em mim. Em nós. Assim teremos uma chance, uma chance de derrotar nosso inimigo e uma chance de vivermos como a natureza nos pediu: parceiros, complementando-se.
– Eu... eu quero isso... Mas você diz como se fosse fácil.
– É a coisa mais fácil do mundo. E a mais difícil também. Pensadores Muggle usam a expressão "salto de fé". Nunca quis pressioná-lo, Harry, mas você precisa conhecer essa realidade. Dumbledore achava que você estava pronto para lidar com essas coisas. Bom, essa é uma das mais importantes. Pode vir a ser a chave para a guerra contra as Trevas. Mas não pode ser feito sob pressão. Sinto que você se sente pressionado, que você quer fazer isso funcionar, mas pelos motivos errados: só como um meio para conquistar seu objetivo. Não. Primeiro você tem que ser o que deve ser, depois poderá usar isso como instrumento de guerra.
Pela primeira vez, Harry conseguiu enxergar as palavras de Severus dentro de seu coração. Ele pôde ver que seu coração só estava aberto a Severus como um parceiro de luta, talvez um mentor. Não como um parceiro para sua vida, nem como um amor.
Nesse momento, outras palavras sábias vieram a sua mente: "Amar o amor de sua vida é preferível a matar o amor de sua vida".
Num impulso, Harry abraçou-se a Severus. O cheiro dele tinha mudado um pouco, mas não tanto que não pudesse reconhecer, mas mais do que isso: a sensação de conforto e de segurança era a mesma. Envolvido por aqueles braços, Harry sentia que nada poderia atingi-lo, nem mesmo as piores maldições lançadas por Voldemort. Podia parecer um simples abraço, mas para Harry era algo profundo, que acalentou até o fundo de seu ser.
Para Severus também. Ele sentiu a conexão se estreitando. Finalmente o rapaz tinha entendido a profundidade do que eles tinham que alcançar, a honestidade existencial que eles precisavam atingir para que houvesse chance de vitória na guerra. Muito promissor foi o nível de magia que passou entre eles.
"Mais toques", pensou Severus. Mentalmente, ele se censurou por não ter pensado nisso antes. O contato físico sempre ajudava a estabilizar Koboldines submissos. Talvez fosse disso que Harry precisava para se sentir mais seguro. Preocupado em não pressionar seu pesseguinho, Severus tinha negado a seu submisso uma medida simples que poderia ajudá-lo numa hora em que Harry provavelmente se sentia sozinho e carente, carregando a responsabilidade de destruir o homem terrível que tantas vidas tinha arruinado. Severus prometeu a si mesmo corrigir esse erro, e ir adiante: oferecer a seu pesseguinho a solução Koboldine de intimidade como fator de estabilidade.
O abraço se aprofundou, e Severus ergueu Harry em seus braços, levando-o para o sofá. Lá ele o depositou com cuidado, mas não o soltou. Com cuidado, encarou o rapaz e viu os olhos verdes brilhando para ele, o rosto fogueado, a respiração curta. Severus não pôde deixar de reagir a uma visão tão tentadora. Porém, por mais que seu corpo exigisse o contato com seu pesseguinho, ele garantiu:
– Harry... Só vai acontecer alguma coisa se você quiser. Ou quando você quiser.
Harry puxou-o contra si:
– Só me abrace, por favor. Desculpe se você queria mais do que isso, mas eu prefiro só ficar com você, assim como estamos agora. Isso é tão bom.
Os dois ficaram abraçados no sofá, envoltos um no outro. Harry suspirou, contente. Seria muito bom se eles pudessem ganhar a guerra assim: juntos, abraçadinhos.
– Eu me sinto meio culpado de ficar assim, aqui, com você, quando precisamos fazer tanta coisa para enfrentar Voldemort.
Severus sorriu, e Harry sentiu o movimento, encaixado no queixo dele.
– Acredite, isso faz parte do esforço de guerra.
– Eu iria adorar se pudéssemos derrotar o monstrão assim, juntinhos.
– Relaxe, Harry. Sei que está ansioso, mas se você relaxar, afrouxar essa tensão, sua magia fluirá melhor. Importa-se de fazermos um rápido exercício de Oclumência?
– Agora?
– Não vai demorar nada. Só olhe para mim e procure fechar sua mente.
Harry não largou dele, mas obedeceu. Desta vez, ele teve algumas sensações inéditas. Havia uma invasão, que ele sentiu clara, mas não chegou até seus pensamentos. Também não houve dor ou mal-estar. Era como se alguém estivesse mexendo numa parte anestesiada dele, ou algo coberto por algum tipo de revestimento ou couraça.
A imagem de Dumbledore caído aos pés da torre apareceu brevemente. Harry não pôde conter o choque inicial da imagem que ele enterrara no fundo de sua mente, no fundo de sua dor, de sua decepção com Severus. Mais do que isso, o choque aflorou uma dúzia de sentimentos.
Os olhos verdes se encheram de água e ele encarou Severus, vulnerável e tremendo. A dor era interna, emocional, e muitas vezes pior do que qualquer enxaqueca por treino de Oclumência. Severus notou isso e indagou:
– Você nunca chorou propriamente, não é?
– Chorar...?
– Chorar por Dumbledore. Lamentar. Sentir a perda. Entrar em luto para poder aceitar que tudo mudou.
Harry deu de ombros, as lágrimas descendo-lhe pelas faces:
– Não sei, eu... Eu acho que estava mais ocupado odiando você e fazendo planos de vingança. Nunca parei para... oh, Severus...
Incapaz de conter seus sentimentos, Harry agarrou-se a seu dominante, de repente caindo em pranto inconsolável, engolfado numa onda de dor e perda que até então não tinha se permitido sentir.
Sim, ele sabia que Dumbledore estava morto, que ele tinha ido embora e não mais voltaria, os olhos azuis faiscantes fechados para sempre. Não era a inexorabilidade do fato que o oprimia. Era a maldita saudade. E a solidão.
Harry se lembrava de ter consolado Ginny, e Hermione, e também ter trocado algumas palavras com Ron e alguns dos colegas. Eles também tentaram confortá-lo. Mas nada, nem ninguém, tinha tocado tanto sua alma e seu coração quanto aquele contato com Severus naquele momento. Só ali, naquele instante, ele se sentia consolado e confortado diante de uma perda tão terrível.
Severus abraçou-se a Harry, tanto quanto Harry se abraçou a ele. Se Harry não tinha tido com quem elaborar tamanha perda, Severus muito menos. Ele sequer tinha podia demonstrar sua dor, sua imensa culpa em ter sido obrigado a fazer aquilo com uma pessoa a quem tanto amava. Não quando ele estava infiltrado junto aos Death Eaters, o próprio Lord comemorando o assassinato de seu arquiinimigo.
Ele tinha que cumprir o seu papel de espião, fingir que também se regozijava e pior: nem podia sequer pensar diferente, ou o Lord descobriria a sua dor, a devastação. Não, ele tinha que empurrar aquilo para o fundo de sua mente, fortalecer suas barreiras oclumentes, reprimir a memória.
A memória dos dois pedacinhos de céu numa noite de grande ignomínia.
No último momento, naquela hora terrível no alto da torre, os olhos de Dumbledore encararam Severus com amor, com confiança. O Slytherin sentiu uma vida inteira passando diante de seus olhos. Essa era uma memória que Severus carregaria consigo para o resto de sua vida, uma que sempre abriria uma ferida imensa em seu peito, um buraco em seu estômago. De todas as lembranças que ele carregaria de sua convivência com o velho sábio, dos chás com doce de limão no gabinete do diretor de Hogwarts às tensas reuniões da Ordem da Fênix, aquela lembrança jamais se apagaria de sua mente.
Não demorou nada até que os dois estivessem consolando não só o outro, mas a si também. Ambos misturavam as lágrimas, abraçavam-se buscando conforto mútuo pelas razões mais diversas.
Afinal de contas, Dumbledore era um ponto em comum que Harry e Severus compartilhavam. Para ambos, o homem fora mais do que importante em suas vidas. Ele tinha tido um papel fundamental, e mudara suas vidas de uma maneira que jamais tinham previsto.
Severus tinha ainda um longo caminho a percorrer até se perdoar pelo que fora obrigado a fazer, mas Dumbledore lhe estendera a mão quando ele achava que tudo estava perdido. Confiara nele, dera-lhe uma segunda chance. Mais do que isso, ele se abrira para Severus, com seu coração. Não o tinha aceitado como simples aliado, mas como amigo, quase como um filho amado, um que tinha fugido de casa e retornara.
Harry também tinha que lidar com a perda de seu mentor, a pessoa a quem ele mais admirava em todo o mundo mágico, uma pessoa que lhe ensinara valores de um verdadeiro bruxo da Luz. Dumbledore tinha sido o pai e o mentor que ele nunca tivera, e mesmo que Harry tivesse ficado abalado com os acontecimentos que culminaram na morte de Sirius, ele confiava em Dumbledore acima de tudo. O impressionante era que Dumbledore admirava Harry e confiava no garoto muito mais profundamente do que o rapaz tinha se dado conta até então.
Dumbledore era extraordinário. Portanto, sua perda também tinha uma dor extraordinária, uma que deveria ser profundamente lamentada.
Juntos, Harry e Severus continuaram abraçados, chorando, lamentando. Suas dores eram parecidas, e eles se solidarizavam no conforto mútuo.
Até esse acontecimento doloroso parecia ser capaz de aumentar o laço entre ambos. Obstáculos ainda haveria, mas agora eles estavam mais fortes.
E mais juntos.
Próximo capítulo: Uma morte inusitada e a magnanimidade de Lord Voldemort
