Capítulo 31 – Turistas de verão

Tema: city tour

Mac, o estalajadeiro, levou o quarteto para fora da estalagem, que dava de frente para a praça do mercado, e apontou para a igreja no final da rua, para onde eles estavam indo.

– Ali era a igreja que seus pais freqüentavam. – Diante do espanto, ele explicou. – Apesar de serem bruxos, eles tinham que escolher uma igreja, ou isso chamaria a atenção numa comunidade tão pequena. Então eles escolheram a maior, uma da Igreja Anglicana. Você foi batizado nela, Harry. É lá que eles estão.

Havia um pequeno e antigo cemitério atrás da igreja. Na frente, Harry viu um marco, e Mac explicou:

– Aquele miniobelisco é uma homenagem aos mortos de Helmsley na Primeira Guerra Mundial. Uma unidade de infantaria inteira de Yorkshire pereceu na Europa, ao lado de canadenses. Você gostava muito desse cantinho, Harry, quando começou a andar. Sua mãe se sentava ali – apontou para um banquinho – e ficava olhando você aprendendo a andar, dando voltas e voltas em torno do obelisco. Ainda posso ver vocês três caminhando em direção à igreja. Sabe, você odiava ter que andar de carrinho.

– Como assim?

– Desde bebezinho, você nunca gostou de andar de carrinho de bebê. Preferia ir no colo de James ou Lily. Mas você aprendeu a andar muito novinho, e gostava de caminhar com eles, no meio deles. De vez em quando eles o erguiam pelos bracinhos, você ria muito. Era uma família linda.

Ron ia fazer alguma gozação, mas Harry não se importava. Ele fez um quadro mental, e gostou do que viu. Por um minuto, ele imaginou como sua vida teria sido diferente se Peter Pettigrew não tivesse traído seus pais para Voldemort. Ele teria crescido com pais, amado, talvez tivesse sido criado como um Muggle.

– Ali. – No cemitério atrás da igreja, Mac apontou para um grupo de túmulos embaixo de uma árvore frondosa. – Lá estão eles. Prefere ir sozinho?

– Não, por favor. Prefiro ter alguém comigo.

Foi realmente a decisão mais acertada. As duas lápides eram de pedra, e cada uma tinha uma placa em granito. "James Potter, 1960-1981, dedicado pai e marido", estava na direita, e à esquerda, "Lily Evans Potter, 1960-1981, dedicada mãe e esposa".

Hermione conjurou um pequeno buquê de flores do campo coloridas e entregou-o a Harry. Ele arrumou as flores no túmulo de Lily.

– Foi um dia terrível. Explosão de gás, essa foi a desculpa dada aos Muggles. O enterro de seus pais atraiu muita gente. Eles eram conhecidos na comunidade, excelentes vizinhos. Houve uma campanha pela modernização da tubulação de gás de toda a cidade depois do ocorrido.

– O senhor estava aqui naquele dia?

– Eu cheguei à cidade horas depois que tudo aconteceu. Dumbledore logo tomou conta de tudo, e ouvi dizer que levou você para um lugar seguro em Gales assim que você foi resgatado.

– Gales? – repetiu Tonks. – Mas isso é do outro lado do mapa.

– Ainda não se sabia direito o que tinha acontecido com Você-Sabe-Quem, e acharam melhor deixá-lo o mais longe possível da cena. Foi o que eu soube depois. Então houve tudo aquilo com Sirius...

– Conheceu Sirius?

– Sim, ele vinha aqui com freqüência. Você adorava passear com ele e aquele rapaz alto, cheio de cicatrizes. Lupin, acho.

– Quem me retirou dos escombros foi Hagrid, parece. Um sujeito bem alto, de barba.

– Não o vi. Mas, como eu disse, só cheguei depois.

– E a casa? Sobrou alguma coisa dela?

– Não muito. Posso levá-los até lá, se quiserem.

Hermione puxou Mac para um lado, engajando-o numa conversa sobre os bruxos locais enquanto Harry continuou a olhar o túmulo de seus pais. Ele se sentiu um tanto mal-preparado para aquilo, porque agora ele olhava para as lápides, tentando imaginá-los com o que ele tinha visto no Espelho de Erised e no cemitério, durante o renascimento de Lord Voldemort. Harry teria gostado de ter pais, mas – e isso ele sabia – jamais seria o Harry Potter que ele era. Não que ele gostasse muito daquela bobagem de Menino-Que-Sobreviveu, mas ele se perguntava se ele teria sido uma criança bruxa com uma infância normal. Talvez alguém como Ron, ou como Malfoy.

De nada adiantava pensar naquilo, garantiu. Ele era o que era, e embora não se lembrasse do tempo que passara ali, em Godric's Hollow, ele fora feliz. Tinha sido amado.

Em silêncio, agradeceu a Lily pelo supremo sacrifício. Agradeceu a James, esforçando-se para conter as lágrimas. Acariciou a placa de granito, feliz por estar ali, mas triste por só ter esse momento com seus pais. Naquele momento, ele sentiu a força do que o ligava a Voldemort. Ele podia ser outra pessoa, se não fosse pelo auto-intitulado Lord das Trevas. Voldemort podia arrasar ainda a vida de muita gente, e cabia a ele, Harry, evitar isso. Com a ajuda de Severus, ele faria o que era preciso.

O grupo tinha se afastado um pouco, e estava mais para perto da igreja. Mac tagarelava alegremente sobre a cidade, e saudou Harry:

– Ah, sim, meu jovem Harry. Gostariam de andar um pouco pela cidade? Ou vocês estão a caminho de Scarborough, talvez? Não muito distante daqui está o Cavalo Branco de Kilburn, se tiverem interesse nesse tipo de monumento. É engraçado, os Muggles pensam que foram eles que construíram o Cavalo. Na verdade foi um bruxo bastante inventivo. Mas há também a Abadia de Rievaulx, que tem tanta história para a cidade.

– Falando em história – virou-se Hermione –, eu sempre tive uma curiosidade. Esse lugar tem alguma coisa a ver com Godric Gryffindor? Por que tem o nome de Godric's Hollow?

– Em primeiro lugar, porque aqui é um vale, uma baixada, daí o nome hollow (oco, vazio, côncavo), devido à proximidade com as Colinas Hambleton, ali bem perto da Abadia Rievaulx. Em segundo lugar, porque você está certa, mocinha. Diz a lenda que Godric Gryffindor veio desta região.

– Sim, isso mesmo. Lembram-se da canção do Chapéu Seletor? Gryffindor vinha das charnecas, ele cantou isso. E o Chapéu era, na verdade, o chapéu do próprio Gryffindor.

– Legal – disse Tonks, sorrindo. – Então ele veio mesmo daqui?

– Não há qualquer confirmação – garantiu Mac. – Além do mais, os Muggles também o confundem com um homem que mais tarde foi canonizado. Esse Muggle santo era chamado Godric de Finchale. Ele era um contemporâneo de Gryffindor.

Tonks sorriu:

– Aqui somos todos Gryffindors.

– Que bom! Estão todos em Hogwarts?

Hermione olhou para Tonks:

– Ela já se formou, mas nós deveremos nos formar esse ano, se a escola reabrir.

– Espero que reabra. Sempre achei estranho que nunca ninguém tenha vindo pesquisar sobre a veracidade das lendas sobre Gryffindor aqui na nossa cidade. Parece que uma vez esteve um rapaz aqui, mas isso foi há muitos anos, antes até do meu tempo, na época do meu pai. Aliás, meu pai sempre dizia que o tal rapaz parecia muito com Você-Sabe-Quem.

Harry teve um choque e Hermione evitou olhar para Tonks, ao perguntar:

– E há muitas lendas sobre Gryffindor? Adoraríamos saber.

– Ah, sim. Por que não visitam até a Abadia? Ali perto ficava a antiga vila, chamada Gryff. Essa vila foi a primeira aglomeração da região, mas foi dada de presente à abadia pelo proprietário da terra, o antigo Lord Helmsley, em 1088. A cidade então se mudou para um pouco além do riacho Rye, que corta a cidade, e até hoje dá o nome antigo à região, Ryedale (dale é antigo nome para vale). Os abades, na época, transformaram Gryff em sua granja, por isso hoje ali se chama Griff Grange, com a grafia melhorada.

– Mas e esse tal homem santo?

– Quando Godric Gryffindor vivia aqui, segundo as lendas, ele era um homem bom e justo, e muito corajoso – mais ou menos como Godric de Finchale, que enfrentou autoridades da Igreja na época, até o Papa Alexandre III em pessoa. Diz-se que ele era muito bom e ele também protegia os animais. Santo Godric teria abrigado em sua caverna um cervo, por isso ele é reconhecido como tendo um cervo de símbolo. Fala-se até que uma relíquia dele seria justamente o chifre de Godric

Quanto mais Mac falava, mais a cabeça de Harry girava. Seria possível? Poderia ser possível que as lendas fossem baseadas em fatos reais? Pior: será que Voldemort estaria por trás disso?

Ele tentou não olhar para os demais, mas deu para ver que ele não era o único pensando nessas linhas. Tonks parecia curiosa, mas nada além disso. Hermione, porém, estava percebendo rapidamente o que as palavras do tagarela Mac poderiam significar.

Disfarçando, a moça virou-se para o simpático anfitrião:

– Acho que seria legal a gente conhecer essa abadia. Vamos ter o que falar quando voltarmos a Hogwarts.

– O senhor poderia nos indicar o caminho?

– Nada me daria mais prazer. Eu gostaria de ir com vocês pessoalmente e mostrar a região, mas a Abadia fica a alguns quilômetros daqui. Infelizmente não posso me ausentar por tanto tempo da estalagem.

– Não se preocupe, por favor – disse Harry. – Fico muito grato. Todos nós apreciamos sua atenção. O senhor já fez muito.

– Fiz apenas o mínimo pelo filho de James. Olhem, podem seguir por essa estrada e não têm como errar para chegar lá. Quando voltarem do passeio, eu estarei esperando com suco de maçã geladinho e biscoitos com chutneys de Helmsley, especialidade local.

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– Bem-vindos, Death Eaters – saudou Lord Voldemort.

Estavam todos juntos, convocados para esta reunião, e o uso das máscaras ritualísticas sinalizava um anúncio de grandes proporções. Severus notou que o cenário estava montado. Ele gostaria de conseguir avisar Harry. Maldita hora que o rapaz arrumara para viajar.

De qualquer modo, a questão de comunicação como rapaz já o vinha preocupando. Quando ele voltasse a Hogwarts, os dois teriam muito mais dificuldade de se falar. Embora seus poderes Koboldine estivessem se desenvolvendo rapidamente, Severus não tinha qualquer garantia de que eles conseguissem algum tipo de contato mais instantâneo. Ele não sabia como poderiam fazer isso, mas isso tinha que ser feito de algum modo.

Seu devaneio só demorou alguns segundos, pois o Lord continuou:

– Aproxima-se a hora de nossa grande vitória, meus amigos. Em breve, desferiremos uma ofensiva que fará nossos opositores caírem de joelhos a nossos pés. Todo o mundo bruxo se prostrará diante de nós em muito pouco tempo. Sua confiança e seus esforços em nossa causa serão recompensados além de seus sonhos mais ousados. Lord Voldemort não esquece de seus leais Death Eaters. Mesmo os recém-recrutados terão direito a uma generosa fatia de nosso sucesso. Só mais um pouco, meus amigos. Todos terão oportunidade de provar sua lealdade e exercer suas habilidades em prol de nossa causa.

Houve alguns gritos de ordem e de incentivo. O Lord pediu silêncio antes de continuar:

– A ordem natural das coisas será restabelecida. Quando ocuparmos nosso lugar de direito na sociedade bruxa, os Muggles perceberão a diferença. Eles são inferiores a nós, bruxos, e passarão a ser tratados como tal. E isso, meus amigos, será apenas o começo. Temos grandes planos, planos que vão muito além do que é aparente. Lord Voldemort será um nome a ser temido por Muggles e bruxos em todo o mundo.

Severus sentiu um frio na espinha. Claramente o momento do confronto se aproximava. Ele precisava avisar alguém. Mas agora ele não tinha a menor chance de contato com a Ordem da Fênix ou com as autoridades do Ministério da Magia. Só lhe restava acionar seu pesseguinho, que tinha resolvido visitar o túmulo dos pais.

Droga, Harry, onde você está?

Próximo capítulo: Hermione flerta com um quarentão na frente de Ron

Capítulo 32 – Indiana Potter

Tema: magiarqueologia

Por sugestão de Ron, Tonks decidiu que o melhor a fazer era se misturar aos Muggles que faziam seu passeio naquele dia ensolarado à Abadia de Rievaulx. Os turistas alegremente caminhavam por entre as belas ruínas, tirando fotos e consultando os guias que eram distribuídos ou vendidos na porta de entrada, junto com os bilhetes de ingresso.

– Mas por que cobrar entrada? – indagou Ron. – Esse troço é tão grande que dá para ver da estrada!

– O dinheiro é usado na manutenção do sítio arqueológico. Há equipes de especialistas ainda trabalhando no local – explicou Hermione. – Por isso há locais onde as visitas não são permitidas.

– Acho melhor a gente arrumar uma máquina daquelas – apontou Tonks. – Todos os Muggles estão com uma.

– Aquilo se chama máquina fotográfica. Consegue conjurar uma?

– Claro! – A moça de cabelos espetados tirou discretamente sua varinha de dentro da mochila e fez surgir uma. – Não precisa bater foto de verdade, precisa?

Ron mostrou curiosidade em ver o artefato Muggle, mesmo que de mentira, e enredou-se numa conversa com Tonks. Aproveitando essa deixa, Hermione pegou os folhetos do lugar e chegou perto de Harry:

– Você está pensando o mesmo que eu, não está, Harry?

– Que Voldemort esteve aqui procurando alguma relíquia de Godric Gryffindor para transformar em Horcrux? Ah, claro.

– E o que podemos achar aqui?

– Não sei, Mione. Mas talvez a tal extinta aldeia de Gryff possa nos dar mais dicas.

Ela abriu o folheto comprado na entrada e leu:

– Aqui diz que Griff é mencionada em 1086, quando era propriedade do irmão do rei,o Conde de Mortain. Depois Griff é mencionada em 1132, quando a vila fazia parte de uma doação de terras feita por Walter Espec, Lord de Helmsley, à Abadia de Rievaulx, por ocasião de sua fundação. Então, a vila mais tarde virou uma granja, uma fazenda monástica que supria a abadia.

– Não foi assim que o nome de sua família foi formado? Grangers, ou seja, os que trabalham na granja?

– E o seu também: Potter, os que trabalham na olaria. – Hermione mostrou a língua para ele, como se tivesse oito anos.

Harry riu:

– E o que aconteceu com a Granja Gryff?

– Depois que Henrique VIII promoveu a Dissolução dos Monastérios, ao fundar a Igreja Anglicana, a Granja se tornou parte da Propriedade Duncombe, e permanece assim até hoje. A terra é escavada por arqueólogos que alertam, contudo, que algumas das estruturas de pedra de muros e paredes medievais estão bem próximas do chão.

Harry apontou adiante:

– Acho que é aquela parte ali.

– Você pode ver alguma coisa?

– Claro – Ele se espantou. – Olhe ali. Bem perto do chão.

– Harry – alertou Hermione. – Eu não consigo ver nada. Ali só tem uma área descampada, com umas pedras soltas. A placa diz que é parte do sítio arqueológico. Não podemos entrar ali.

– Então acho que é ali que temos que olhar. Mione, eu posso ver... traços de mágica.

– Temos que ser discretos. Tonks está por perto.

– Você pode fazer isso, Mione. Você pode combinar uma coisa com o Ron: ele pode reclamar que a visita está chata e aí ele leva Tonks para outro lugar, enquanto nós vasculhamos aquele lugar.

A garota sorriu para Harry, de modo matreiro:

– Afinal, queremos apresentar um belo trabalho para a Profª McGonagall, não é mesmo?

Eles riram e foi bem a tempo, porque Tonks voltava com Ron, mostrando a máquina fotográfica conjurada:

– Agora vai dar até para bater fotos!

Mione pegou Ron pela mão:

– Excelente! Isso vai ser ótimo na apresentação do nosso trabalho para a Profª McGonagall. Venha, vamos ali tirar fotos da Ala Norte.

O ruivo ainda teve tempo de indagar, desolado:

– Trabalho? Hermione, não me diga que isso é para a escola!...

Tonks viu os dois se afastarem e se aproximou de Harry:

– Tudo bem?

– Sim.

– Tem certeza?

– Claro. Do que está falando, afinal?

– A visita ao túmulo de James e Lily... Ela foi o que você esperava?

– Não pensei que alguém aqui conhecesse meus pais. Foi uma surpresa.

– Sim, foi mesmo. Mas, o resto da visita, foi o que esperava?

– Acho que sim. – Harry deu de ombros. – Quero dizer, é estranho. Eles parecem ser mais presentes agora. Talvez eu devesse ter feito isso antes.

– Agora você é um adulto. Foi bom só ter feito isso agora.

– É. – Ele sorriu. – De qualquer forma, foi bom. Gostei de ter vindo. E esse negócio de Gryffindor também é bem interessante.

– Hermione parece bem empolgada – observou Tonks.

– Ela sempre fica assim quando tem um trabalho de escola. A gente tem estudado muito esses dias por causa dela. Não saímos mais de casa.

– Vocês precisam ficar em segurança, Harry. Quando a escola for retomada, vocês vão poder sair mais.

– Tomara que Hogwarts reabra.

Nesse momento, Hermione foi se aproximando, lendo o folheto, ao lado de um Ron que parecia bem entediado. A moça recitava:

– ... "É possível chegar até Gryff pela Trilha Cleveland, que começa em Helmsley e vai até a Abadia de Rievaulx."

– Foi esse caminho que tomamos, não foi?

– Isso mesmo. As escavações para localizar a granja foram patrocinadas pelo escritório local de uma sociedade privada e histórica, a English Heritage. É bom não esquecer que essa área inteira ainda está dentro do Parque Nacional de North York, portanto há diversas autoridades envolvidas, mesmo que a terra seja de uma pessoa física. Aliás, ela tem sido propriedade particular desde a época de Henrique VIII, que baixou o Decreto de Dissolução dos Monastérios, quando da fundação da Igreja da Inglaterra.

A voz de Mione foi se tornando um zumbido no ouvido de Harry, interessado na área adiante, possivelmente os restos da antiga vila de Gryff. Ele podia ver claramente os traços de mágica no local. Engraçado, para Harry, é que esses traços eram em forma de raios ascendentes todos juntos, como se fossem ramos. Ou galhos, pensou ele.

De repente, ele se arrepiou. Seus olhos finalmente captaram uma forma definida nos traços mágicos.

Não eram galhos de árvore. Eram a galhada de um cervo. O cervo de ouro de Godric Gryffindor.

De repente, Harry soube que a relíquia existia, e que ela tinha sido retirada daquele local. A coisa apareceu diante de seus olhos, aquela visão estranha: a galhada, no meio de uma fogueira mágica, uma que não fazia o chifre se incendiar, mas que o protegia.

Nesse momento, a imagem de Severus também apareceu diante dos seus olhos. De alguma maneira, sabia Harry, Severus estava ciente do que estava se passando com ele, ali no Norte de York. Era estranho ter a certeza e não saber de onde ela vinha. Esses tais poderes Koboldine eram mesmo muito esquisitos.

Os pensamentos e sensações foram interrompidos nesse momento por um grito:

– Com licença! Com licença, por favor!

Eles se viraram: um homem alto nervoso, de calça de lã, camisa branca e um colete de tweed, totalmente distraído do calor de mais de 30 graus, caminhava a um passinho apressado na direção deles.

– Desculpem, mas vocês não podem entrar ali.

– Não? Mas não tem placa nenhuma – tentou argumentar Hermione, disfarçando. – Será que eu não vi? O senhor me desculpe, se eu estiver entrando em algum lugar proibido...

O homem apontou:

– Ali diz: "Interditado para visitantes".

– Oh, que vergonha! – Hermione continuou fazendo o maior teatro, para espanto dos demais, inclusive Harry. – Desculpe, moço! Ficamos um pouco entusiasmados lendo os folhetos… Ali parece haver umas formações rochosas bem antigas, não é verdade?

– Oh, sim, são antigas. Na verdade, acreditamos que se tratam dos vestígios da antiga vila medieval de Griff.

Hermione partiu para flertar abertamente com o homem – mesmo que ele tivesse mais de 40 anos. Ela se abriu em sorrisos e chegou perto dele:

– Oh!! O senhor é arqueólogo e trabalha nesse sítio?

Morto de ciúmes, Ron fechou a cara e cruzou os braços, enquanto o homem se empertigou todo, crente que estava fazendo sucesso com a moça:

– Na verdade, eu sou representante da English Heritage Foundation. Meu nome é Alistair Graham.

– Hermione Granger – Ela sorria, toda coquete, fazendo Ron espumar. – Nossa, deve ter sido há muito tempo que isso era uma vila. Depois foi uma granja?

– Acreditamos que essa área especificamente fosse uma cozinha, ou um forno. Há indícios de carvão vegetal, provavelmente pela queima de madeira. Mas agora pode ser que isso seja devido à presença de um suposto homem santo que vivia na região e era conhecido por acender fogueiras, falar com animais...

Ao ouvir aquilo, Harry teve a certeza. Aquele era o lugar de onde o chifre de cervo, símbolo de Godric Gryffindor, tinha sido retirado por Voldemort para a confecção de um Horcrux. E mais: Voldemort o protegera com uma fogueira mágica, pois fogo era o símbolo elemental de Godric Gryffindor.

Naquele momento, fez todo o sentido do mundo que o medalhão que tinha ido buscar no sexto ano tivesse sido escondido num local marcado por água. Harry se lembrou de que precisara atravessar de barco a estranha lagoa cheia de Inferi, e que precisou tirar água (ou uma poção) de um poço até resgatar o medalhão. Afinal, água era o elemento ligado a Salazar Slytherin, assim como Gryffindor era ligado ao fogo. Helga Hufflepuff era simbolizada por terra, e Rowena Ravenclaw pelo ar.

Harry se virou para o tal representante Alistair Graham e disse:

– Então desculpe a gente. É melhor a gente voltar, não?

– Sem entrar no Museu? – Hermione se decepcionou.

– Posso convidá-los pessoalmente – sorria Alistair, só encarando Hermione.

– Talvez um outro dia – disse Ron, de modo possessivo, passando os braços em volta da moça. – Minha namorada perde a noção do tempo quando está de férias.

Tonks olhava os garotos, como se percebesse alguma coisa errada. Certamente eles não estavam agindo como de costume.

Ainda mais quando Harry teve a visão de Severus num aposento muito requintado, olhando para o chifre de Gryffindor em chamas.

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Foi rápido. Muito rápido.

Severus não estava preparado para o impacto de ver Harry num clarão na sala de desenho da Mansão Malfoy. De algum jeito, o garoto estava interagindo com ele à distância.

O clarão se intensificou num baú de madeira centenário. Com cuidado, Severus abriu-o. Um fogo mágico fez o Koboldine reconhecer que ali estava o que ele procurava.

Na verdade, Severus tinha simplesmente tido um palpite de que o Lord das Trevas poderia ter escondido outro Horcrux com Lucius Malfoy. Claro que Lucius jamais teria desconfiado de que estaria com pedaços da alma do seu Lord, mas era típico do ego daquele maníaco. A sala de desenho era o local mais protegido da Mansão, com senhas, feitiços e proteções especiais para que o Ministério não descobrisse possíveis artefatos das trevas.

Só depois de Draco fornecer a senha é que Severus pôde romper as demais proteções para entrar na sala de desenho. Ele percorreu os objetos, alguns tinindo de tanta magia residual. Foi quando Harry apareceu na frente dele, e então ele soube que naquele baú antigo estava o objeto de sua busca.

O fogo mágico era de uma cor dourada tão viva que por vezes parecia chegar ao vermelho, uma mistura furiosa que também incluía o amarelo, o laranja e o vermelho-escuro. Obviamente era a magia de Gryffindor atuando.

Severus se aproximou do baú, temeroso pelo fogo bruxuleante. Poderia ele tocar nele? E o que estaria escondido dentro daquele fogo?

Com uma ousadia definitivamente nada Slytherin, Severus pôs a mão no fogo. E não se queimou. Na verdade, ele sentiu uma superfície aveludada e nesse momento o fogo se extinguiu. Nas suas mãos havia um objeto embrulhado num veludo negro. Seguindo uma intuição que não sabia dizer de onde vinha, Severus simplesmente embolsou o objeto no meio das vestes.

Bem a tempo, porque do lado de fora, havia uma comoção bem grande. Ele deixou a sala de desenho e ia se dirigindo à escada, quando encontrou Macnair, subindo:

– Aurores! Estão tomando a casa! Se nos acharem aqui, iremos direto para Azkaban!

– Rápido! – chamou Severus. – Sei de um ponto de onde podemos aparatar!

Os Aurores não ouviram sequer o espocar dos dois ao desaparatarem para longe da batida.

Próximo capítulo: O mundo bruxo entra em polvorosa com as últimas notícias