Capítulo 33 – Voldemort, o marqueteiro

Tema: marketing

Macnair era o retrato do pavor.

– Mestre... Não houve nada que eu pudesse fazer... As proteções ruíram sem os donos da casa... Mal pudemos fugir.

Lord Voldemort olhou para seus dois Death Eaters e garantiu:

– Acalme-se, Macnair. A tomada da Mansão Malfoy, felizmente, não foi um prejuízo tão grande quanto você supõe. Claro, eu posso calcular que Lucius não vá ficar nada feliz quando souber que perdeu sua residência ancestral...

Severus deu um passo à frente:

– Meu Lord, os Aurores podem ter encontrado Draco nas masmorras. Se eles usarem Veritaserum...

Foi interrompido:

– Os Aurores não encontraram nada. A meu pedido, Bellatrix havia retirado Draco mais cedo. Resolvi dar uma chance ao jovem Malfoy de se redimir e provar que é capaz de cumprir ordens de seu Lord. Ele ganhou uma nova missão. Sei como você se preocupa com o filho de Lucius, Severus, e graças à minha querida Bella, fui convencido de que Draco ainda pode ser de muita utilidade à causa. Bella estava certa: Draco é capaz de desempenhar um papel fundamental para o nosso lado. Ele terá a eterna gratidão de Lord Voldemort por seus... esforços.

O sorriso no rosto de serpente provocou um arrepio involuntário em Severus, um que ele precisou se esforçar para reprimir. Estava na cara que a tal missão de Draco era mais ou tão suicida quanto o assassinato de Albus Dumbledore.

Inquieto, Severus curvou-se diante de seu Lord, a mente em ebulição.

O que teria acontecido com Draco?

O próprio Lord das Trevas interrompeu seus pensamentos:

– A sorte foi lançada, meus amigos! O mundo bruxo agora deve estar tremendo, totalmente em pânico. Os tontos amantes de Muggles não saberão para onde correr, agora que o tolo Dumbledore não está aí para liderá-los, e eles perderão a confiança em seu símbolo maior. Estarão todos maduros para serem colhidos, e nós estaremos ceifando todos, fazendo a nossa colheita e semeando a nova ordem bruxa.

Murmúrios de apreciação.

– As coisas acontecem neste exato momento em que falo com vocês! Lord Voldemort prepara-se para o seu triunfo final!

o0o o0o o0o

– Oh, Merlin! – O grito de Molly Weasley era inacreditável. – Eles não estão aqui, Arthur! Não estão! Eu procurei! Procurei por tudo!

– Molly, querida, tenha calma. Eles apenas ainda não chegaram de Godric's Hollow.Você sabe que eles estavam viajando da maneira Muggle. Eles demoram mais dessa maneira.

– Mas por que eles não responderam às corujas? Nós mandamos corujas! – Ela gritava, histérica, as lágrimas rolando pelo rosto. – Eu sabia que algo assim ia acontecer, eu sabia, eu sempre soube!! Oh, meu Ronnikins!

Sem muita convicção, Arthur tentou dizer:

– Molly, tente se acalmar. Eu sei que foi a pior hora para aquele relógio enguiçar, mas ainda acho que você pode estar exagerando um pouquinho...

– Exagerando?? – A mãe de sete Weasleys vociferou. – Como, exagerando?! Meu filho está morto, Arthur, o meu caçulinha! Morto!! Oh, Merlin, Merlin, Merlin...!

Ela soltou um longo uivo, e Arthur a abraçou. Molly choramingou:

– Nós devíamos ter tentando falar com os Granger mais uma vez! Talvez eles sabiam de algo. Talvez eles tenham notícias de Hermione!

– Eles estão na Austrália, querida. Sem feletone por lá.

Nesse momento, eles ouviram os estalidos de várias pessoas Aparatando ao mesmo tempo na sala principal de Grimmauld Place. Harry, Ron, Hermione e Tonks materializaram-se na sala, provocando reações extremas.

– RONNIKINS!!

– Oh, Merlin!

– Vocês estão bem!!

– Meus meninos! Meus meninos!

Sem ter tempo de reagir, os recém-chegados foram efusivamente abraçados. Molly chorava copiosamente, beijando Ron, que tentava resistir, mas Arthur também estava agarrado a ele. Depois foi a vez de Harry e Hermione, e até Tonks.

– Oh, meu Ronikkins, meu querido!

– Mãe!!

– Harry, querido! – Agora Molly apertava o outro rapaz, chorando copiosamente. – Harry, Harry! Graças a Merlin nada aconteceu com vocês.

– Sra. Weasley? Sr. Weasley?

– Pensamos que tivéssemos perdido todos vocês.

– Nós só nos atrasamos. Como assim, perdido a gente?

Agora que Molly tinha certeza de que todos estavam bem, ela estava brava:

– Mas por que demoraram tanto? Por que se atrasaram?

– Culpa do Ron e Tonks – dedurou Hermione. – Eles quiseram ir até Kilburn para olhar um cavalo gigante branco na montanha. Não sabia que o bicho era tão famoso.

– E por que não responderam às corujas? Mandamos um monte delas!

– Bem que nós vimos uma revoada de corujas... – lembrou Tonks, admirada. – Mas o que aconteceu, afinal?

Arthur mostrou a manchete do Profeta Diário, alertando:

– É uma edição extra.

"HARRY POTTER MORTO!

Menino-Que Sobreviveu perece em tragédia em Privet Drive"

O QUÊ?

"O choque se alastra por todo o mundo bruxo em reação às notícias da morte do Menino-Que-Sobreviveu, após um comunicado direto e inédito do bruxo das Trevas conhecido como Vocês-Sabem-Quem.

As autoridades Muggle foram chamadas na madrugada de hoje para apagar um incêndio no número 4 de Privet Drive, a residência da família de Harry Potter. Infelizmente, para assombro dos Muggles, todo o tipo de obstáculo se apresentou, retardando-os tanto para atender ao chamado que, quando chegaram ao local, quase nada restava a fazer. A casa inteira ardeu até só restarem escombros.

Quatro corpos carbonizados foram retirados da pilha de detritos: dois adultos, um homem e uma mulher; e dois adolescentes, ambos do sexo masculino. A descrição corresponde aos corpos de Harry Potter, seus tios e seu primo. Exames Muggle poderão identificar cada um dos corpos, mas como todos sabem, a tecnologia Muggle é lamentável, para dizer o mínimo.

A tragédia de Privet Drive, segundo os próprios Muggle, teve origem criminosa. "Nenhuma força conhecida poderia ter causado esse incêndio", disse o chefe dos pombeiros (Muggles que combatem o fogo) Jay Gould. "Vamos investigar detalhadamente o motivo deste incêndio ter atingido apenas essa casa, deixando intacta todas as demais, mesmo as bem próximas. Foi muita sorte dos vizinhos. Contudo, em 30 dias, o inquérito deverá determinar as causas do acidente".

Boa sorte para os pombeiros determinarem as causas desse acidente, digo eu, Rita Skeeter. Afinal de contas, eu recebi pessoalmente a correspondência fatídica entregue a este jornal nas primeiras horas da manhã, enquanto a tragédia se desenrolava na pacata região de Little Whinging, onde morava o Menino-Que-Tinha-Sobrevivido. Sim, leitores, porque num ato inédito, totalmente sem precedentes, o bruxo conhecido como Vocês-Sabem-Quem emitiu um comunicado oficial, conforme publicado na última edição extra do seu Profeta Diário, o único jornal que publicou com exclusividade o comunicado do Lord das Trevas. A íntegra do comunicado está republicada na página 4 desta edição. "

– Mas que merd...

– Ronald Weasley! – gritou Molly. – Ou você se controla, ou eu vou lavar sua boca com sabão!

– Anda logo, Hermione! Abre a página 4!

A moça quase rasgou as páginas de tão rápido que as folheou. Quando eles encontraram o tal comunicado, quase perderam a respiração:

"Comunicado de Lord Vold ao Mundo Bruxo

"Eu, Lord Vold, dirijo-me diretamente aos concidadãos bruxos que acreditam no nosso poder sobre Muggles para anunciar uma grande vitória. Havia uma pessoa cuja simples existência era um desafio a Lord Vold. Mas não mais. Em sua curta existência, Harry Potter, o Menino-Que-Sobreviveu, só conseguiu numa única ocasião obter vantagem sobre Lord Vold. Agora ele foi destruído.

"Que isso sirva de aviso aos tolos que acharam que um garoto de colégio seria capaz de derrotar Lord Vold. Que isso deixe claro a todos que desafiar Lord Vold será inútil.

"Uma turma de leais Death Eaters destruiu o dito garoto que ousava desafiar Lord Vold. Os tolos que depositavam suas esperanças num mero adolescentes agora não têm dúvidas de que não há qualquer bruxo capaz de enfrentar o poder de Lord Vold.

"Em breve, Lord Vold ocupará o seu lugar de direito, como o bruxo mais poderoso. Os incompetentes do Ministério da Magia correm em círculos, como baratas tontas, pois sabem que não poderão enfrentar o poder do Lord Vold.

"Compatriotas interessados em devolver aos bruxos de linhagem seu lugar de direito, regozijem-se! Nossa hora de vitória se aproxima. Lord Vold saudará a todos que percebam a ordem natural das coisas: bruxos são superiores a Muggles, e mesmo os bruxos que carregam sangue Muggle são inferiores. É assim que as coisas são, e em breve será assim que as coisas serão! Raiou a aurora, e os mentirosos foram desmascarados! Lord Vold traz a verdade a seu lado. Em breve, a vitória total será nossa! E nossos planos são grandes, cidadãos, grandes! A palavra de um bruxo logo voltará a ter seu devido valor, e os infiéis estarão condenados!"

Tonks observou, horrorizada:

– Essa baboseira ocupa mais de uma página! Como eles podem dar tanto espaço para essa barbaridade?

Ron se virou para seus pais, muito irritado:

– Eu não entendo é como vocês puderam acreditar nessas coisas! Vocês não sabiam que Harry estava viajando? Não sabiam que Harry tinha deixado a casa dos tios desde antes do aniversário? Era óbvio que Harry não estaria naquela casa!

Molly o abraçou:

– Eu sei, meu filho, eu sei. Mas é uma coisa de pais. Até eu vir você aqui na minha frente, milhões de coisas passaram pela minha cabeça. Quando você tiver seus próprios filhos, você vai entender.

Aquilo fez o caçula dos Weasley ruborizar, olhando Hermione, que também ficou vermelha. Arthur chegou perto de Harry:

– Você está bem, filho?

– Sim, eu acho... – Mas Harry continuava de olhos fixos no jornal. – Eu não sei. Eu cresci naquela casa, e os meus tios... Bom, eles não gostavam muito de mim, mas eles não mereciam isso, sabe?

– Eu sinto muito, Harry. – Arthur pôs a mão no ombro do rapaz, solidário.

Hermione estava muito intrigada:

– Não entendo o que aconteceu. Por que Voldemort – Ron, não faça essa cara! Por que ele teria feito isso?

– Ora, ele queria matar Harry. Não leu o tal comunicado?

– Não sei. Isso tudo me parece muito estranho. Como Voldemort não sabia que Harry tinha saído da casa dos tios? É claro que ele sabia que Harry não estava lá. Então por que atacar?

Tonks sugeriu:

– Só para efeito, eu acho. Sabe, ele parece gostar muito de um toque dramático.

– Hermione pode estar certa. Por mais que goste de um dramalhão, Voldemort não desperdiça recursos. Ele tinha um objetivo qualquer.

– Provocar pânico? – sugeriu Ron. – Semear a discórdia?

– Certamente, essa notícia abalou muitas pessoas – concordou Arthur Weasley. – Afinal, Harry, você desapareceu desde o enterro de Dumbledore. Presumia-se que estivesse protegido pelo Ministério, mas nós sabemos que você recusou a proteção do ministro Scrimgeour. Então, é bem possível que haja muita gente acreditando na manchete do Profeta Diário. Falando nisso, Harry, seu elfo está internado.

– Dobby? O que houve, ele está doente?

– Ele leu a história no jornal e quase morreu – disse Molly Weasley. – Fred e George o levaram ao St. Mungo's.

– Por isso, Harry, é melhor você aparecer logo em público e esclarecer tudo. Isso vai tranqüilizar o público e vai expor aquele bruxo como um mentiroso.

Hermione ficou pálida:

– Ai meu Deus, Harry. Os dois corpos carbonizados... Não é à toa que todos pensam que você está mesmo morto. De quem seriam esses corpos?

– Um deve ser mesmo do meu primo Dudley – disse Harry pesadamente, tentando não imaginar a cena. – Mas o segundo... Não faço idéia. Pode ser de alguma vítima, talvez um Muggle. Aqui diz que também é um adolescente.

– Harry, que horror! Uma pessoa morreu...

– Morreu para que todos acreditassem que era eu, eu sei. – A idéia lhe revirava o estômago. – Não posso fazer nada quanto a isso, agora.

Tonks sugeriu:

– Talvez seja melhor aumentarmos a segurança desse lugar.

Ron ia protestar, mas Molly logo concordou:

– Sim, sim, meninos. Vocês estão muito sozinhos aqui.

Harry agiu rapidinho:

– Sra. Weasley, com todo o respeito, este é o lugar mais seguro que existe. Estamos sob o Feitiço Fidelius. Ninguém pode nos achar aqui. Nenhum Death Eater tem acesso a essa casa.

– Aquele traidor do Snape pode entrar – lembrou Tonks.

– Sim, maldito – reforçou Arthur Weasley.

– Mas ele não pode trazer ninguém, e ele é covarde demais para tentar qualquer coisa sozinho – argumentou Harry, com o coração doendo. – Só que eu não descartaria a chance de Voldemort ter um outro espião dentro da Ordem.

– Você acha? Mas quem poderia ser?

– Não sei quem, só estou especulando – garantiu Harry. – É que Voldemort tentaria se garantir de várias maneiras, porque eu não tenho muita certeza de que ele confie no Snape tanto assim.

– Bom, eu diria que Snape está com grande cartaz agora, não é mesmo?

– Não tenho muita certeza. Voldemort não confia em ninguém, e isso é uma verdade. Acho que não há motivo para alarme. Mas talvez eu devesse falar com alguém do Profeta Diário a respeito de uma ligeira retificação nessa reportagem.

Próximo capítulo: As necessidades de um se sobrepõem às necessidades de muitos

Capítulo 34 – As necessidades de um

Tema: aconchego

– Eu quero o garoto! – Lord Voldemort vociferava, e não eram poucos os Death Eaters que estavam encolhidos de medo. – Você disse que ele sairia correndo de sua pequena toca para desmentir o jornal, Crabbe! Onde ele está?

– Desculpe, meu Lord – curvou-se desajeitadamente o volumoso Death Eater. – Obviamente o garoto ainda está protegido.

– Ele deve aparecer – garantiu Severus, com desdém que estava longe de sentir. – Ele adora reparar uma injustiça, o grande Harry Potter. Ele passou muito tempo com Dumbledore, e eu aposto como tem essas mesmas noções.

– O moleque com certeza está escondido, petrificado de medo! Severus, você já foi ao tal quartel-general da ordem dos tontos?

– Como era de se esperar, eles mudaram a sede e abandonaram o antigo lugar.

O Lord das Trevas olhou Snape, e durante alguns minutos pareceu considerar aquelas palavras. Depois, assentiu:

– Pois que o pirralho demore, então. Quanto mais ele demorar, mais o impacto de nossas ações se alastrará entre o mundo bruxo. Tenho recebido relatórios de que o pânico tem se espalhado como nunca antes. Os idiotas do Ministério estão como tontos, agindo mais lentamente do que se fossem Muggles. – Voldemort se divertiu. – O plano correu às mil maravilhas. Quero fazer um agradecimento público a você, minha querida Bella, por sua participação. Sem sua colaboração – e a do jovem Draco, claro –, não teríamos obtido essa repercussão tremenda!

Bellatrix Lestrange fez uma profunda reverência, e os alarmes se acenderam todos em Severus. Num átimo, ele compreendeu o que tinha se passado.

Era tarde demais.

Seu plano de salvar Draco tinha acabado de ruir. Pois Draco já estava morto. Draco tinha sido usado para bancar o Harry Potter na casa de Privet Drive e agora jazia carbonizado com a família morta no incêndio.

Draco tinha morrido, e Severus não tinha podido cumprir sua palavra. Falhara com Draco, falhara com Narcissa e também com Dumbledore. Os três tinham morrido confiando que Severus cumpriria sua palavra e salvaria Draco das mãos daquele lunático.

Severus não tinha cumprido sua palavra.

Sua angústia era tamanha que Severus se arrepiou ao imaginar se aquela notícia fosse verdade. Ele não saberia o que fazer se, ao invés de Draco, Harry estivesse ali. Sentiu a angústia triplicar com a mera perspectiva. Por um momento, achou que fosse entrar em pânico, só de pensar naquilo.

Então se deu conta de onde estava.

Ele não podia perder a pose ali, naquele momento. O risco era inaceitável. Contudo, ele se limitou a ouvir, embora seus ouvidos pouco captassem.

Quando a reunião acabou, ele se sentiu perdido, amargurado, sozinho. Mais do que nunca, ele pensou em Harry. Ele queria tanto ficar com seu pesseguinho. Arriscaria ir a Grimmauld Place sem receber o aviso.

Ele precisava de Harry.

o0o o0o o0o

– ARGH!

Harry acordou assustado de um sono profundo. O rosto de Severus surgiu diante dele, angustiado, ansioso, interrompendo-lhe o sono, fazendo com que ele pulasse na cama.

O rapaz estava suado, ofegante, ainda assombrado pelas sensações do sonho vívido. Ele olhou em volta, no seu quarto em Grimmauld Place, na penumbra, iluminado apenas pela lareira mágica. Harry não pôde deixar de sentir uma pontadinha de saudade, imaginando que a lareira bem que podia se iluminar de verde, e Severus podia aparecer. Ele estava com saudade de seu dominante. Além disso, também queria comentar o progresso que eles tiveram em Yorkshire.

Foi só pensar, e uma luz esverdeada dominou o quarto.

– Severus?

O rapaz saiu da cama e ficou em frente à lareira. O rosto de seu dominante apareceu entre as chamas verdes, e Harry sentiu o coração se acelerar.

– Você está seguro?

– Sim, Severus – garantiu Harry. – Não há mais ninguém da Ordem aqui. Ron e Hermione estão no outro quarto. Por favor, entre.

Harry viu o homem sair da lareira, alto, as vestes girando, e os olhos... O rapaz sentiu uma dor no coração ao ver os olhos de Severus: apagados, assombrados, totalmente diferentes do que ele conhecia.

– Severus, o que houve?

De repente, quando Harry se deu conta, ele estava envolvido por todas aquelas vestes negras, e Severus parecia trêmulo ao abraçá-lo com firmeza, mas sem sufocá-lo.

– Severus?...

– Você está bem? Nada aconteceu a você, não foi?

– Claro que sim. Fala do que aconteceu na casa de meus tios? Severus, você sabia que eu não estaria lá.

– Eu sei, eu sei, mas... – Ele não completou a frase. – Creio que aquilo me afetou mais do que eu imaginei, só isso.

Harry estava espantado. Mais do que isso, estava intrigado. Severus tinha um controle bem maior de suas emoções do que estava demonstrando. Gentilmente, ele o levou a sentar-se na cama, indagando:

– Aconteceu mais alguma coisa, não foi? Severus, fale comigo, por favor.

– Estou ótimo – foi a resposta, sem convicção.

Harry notou que Severus evitou olhá-lo. O rapaz se admirou:

– Você está tentando mentir para mim. E não está conseguindo.

– Fiquei preocupado com você. Você vai tentar desmentir a notícia e vai se expor, não vai?

– Bom, as pessoas precisam saber que eu não morri.

Severus agora parecia irritado. Como sempre, quando isso acontecia, a voz dele se tornava baixa, sedosa:

– Sabia que foi justamente para isso que o Lord ordenou que a casa de seus tios fosse incendiada? Que foi para fazê-lo sair de seu esconderijo e intimidar todo o mundo bruxo?

Harry teve a inspiração de beijá-lo e assegurar:

– Severus, eu estou bem.

Então Harry viu os olhos negros se cobrirem de dor, e Severus pediu, num fiapo de voz:

– Olhe em minha mente. Por favor.

Harry viu que Severus estava exausto e obedeceu. Foi um choque ver o turbilhão de emoções naquela mente normalmente tão organizada e controlada. Havia uma confusão muito grande diante de Harry, e a intensidade era atordoante.

O rapaz viu a dor de Severus, viu o quanto seu dominante se sentia deprimido, e então ele soube que o adolescente que morrera em Privet Drive tinha sido Draco Malfoy. Severus se sentia triplamente derrotado: não salvara Draco, não fizera o que prometera a Dumbledore, e como ele poderia proteger Harry? Se Harry morresse, como ele poderia sobreviver?

A mente de Severus guardava as imagens vívidas dos últimos encontros com Draco Malfoy. Ele prometera ao rapaz que o salvaria. Falhara. Ele prometera a Dumbledore que salvaria o rapaz. Falhara pela segunda vez. Ele prometera a Harry que o protegeria. Falharia pela terceira vez?

Harry tentou suprimir o choque que os sentimentos de Severus lhe provocavam. Nunca o vira tão vulnerável, tão deprimido.

Em sua união mental, Severus apareceu com uma auto-imagem fraturada, corroída. Era um traidor, o verdadeiro traidor.

"Não!", gritou Harry. "Nunca um traidor."

"COVARDE!"

"NÃO!!" Agora Harryé quem estava se sentindo péssimo. Ele chamara Severus de covarde, mas não tinha idéia do quanto aquilo tinha ferido seu dominante. Naquele momento, sentia-se terrível. "Não, não, Severus, nunca um covarde!"

"Sim. Eu sou."

"NÃO! Você enfrenta um monstro terrível há anos. Você não pode se mostrar como realmente é. Você é um homem nobre, um homem altivo. Não é um covarde. Sei que você odeia rastejar aos pés dele, cumprir as ordens dele. Ele não é mais seu Mestre! Você tem coragem de enfrentá-lo, Severus. Ninguém mais tem essa coragem. Portanto, você NUNCA foi um covarde."

"Tive medo. Medo de que a farsa na casa de seus tios fosse verdade. Medo de perder você, pesseguinho."

"Você também está desesperado por causa de Draco."

"Falhei com Draco. Eu prometi... Oh, eu prometi...!"

"Você não tinha como saber, Severus. Além disso, você está se culpando à toa. O verdadeiro culpado chama-se Lord Voldemort."

"Ele pediu, Harry... Ele queria..."

"Olhe, eu vi. Vi que você queria muito salvá-lo. Até fiquei com ciúmes..."

"Nunca. Sou só seu. Só temo... não ser digno de estar a seu lado... Não protegê-lo... Temo que, por minha causa, você possa falhar... no que temos de fazer..."

"Não! Não quero que nunca mais diga isso novamente. Eu é que não sou digno de alguém como você. Você É um príncipe, em todos os sentidos. Eu preciso de você, Severus. Você me ensinou tudo o que eu sei. Quero dizer, tudo o que é importante: quem sou eu, de onde vim, e para onde vou. E eu vou para onde você quiser. Eu sou só seu. Você me domina, e eu amo você, Severus Snape."

"Meu pesseguinho..."

Harry quebrou a conexão mental e viu que ambos choravam. Abraçou Severus profundamente, instintivamente respondendo à necessidade de ambos de se unirem, de se tocarem. O ar se encheu de magia, e nenhum dos dois teve consciência de que já estavam tirando as roupas um do outro. Era preciso se unir.

Então eles simplesmente se atracaram um com o outro, tentando se completar e compensar o tempo que passaram distantes. Havia algo mais do que mero desejo; era magia profunda com uma pitada de desespero.

Harry não pensava em nada disso quando afundou os dedos nos cabelos de Severus, no momento ocupadíssimo em sugar o que podia da ereção de seu pesseguinho. O dominante absorvia o cheiro, o gosto, a textura; tudo se impregnando no seu cérebro, renovando as memórias. Os dois se perdiam em sensações.

Para Harry, era demais. Ele ergueu Severus para beijá-lo de modo lascivo, sua paixão se acendendo ainda mais ao sentir seu próprio cheiro nos lábios do outro. Separando-se de Severus, ele se pôs de bruços, apoiado nos joelhos e cotovelos, as pernas separadas, oferecendo-se com se estivesse na estação de acasalamento.

– Severus... – Sua voz estava implorando, arfando. – Preciso de você...!

Severus se ajoelhou atrás dele, acariciando seus lados, massageando entre as pernas do seu pesseguinho, que quase ronronou quando Severus brincou com suas bolas, rebolando intensamente. O dominante então começou a esfregar sua ereção, cada vez mais firme, entre as nádegas de Harry, que gemeu de impaciência.

Impaciente ele também estava, por isso, murmurou um feitiço lubrificante, e introduziu um dedo na aberturinha de seu pesseguinho.

– Agnh! Vem, Severus, vem!

Harry parecia miar enquanto uivava. O som era algo inédito para Severus, que rapidamente colocou outro dedo, ouvindo mais daquele som, até retirá-los para colocar o que Harry queria.

Aí, sim, a magia começou de verdade.

A lareira parecia rugir, e por um instante, parecia emitir luz por todo o lado. Harry agarrou o lençol da cama, enquanto Severus agarrou seus quadris e começou a puxá-lo, num ritmo crescente. Os dois se movimentavam com sincronia, mas não havia graça em seus movimentos. Havia apenas fome, instinto.

Severus fechou os olhos, seu corpo cantando com a intensidade das sensações, o ritmo alucinado fazendo Harry soltar mais desses sons. Nenhum dos dois estava em condição de se preocupar se Ron e Hermione estavam ouvindo.

Então, aconteceu.

Harry gozou primeiro, e achou que, mais uma vez, fosse ouvir a canção do Sol, e Severus o iria acompanhar naquele lugar deles no meio do espaço. Mas desta vez foi diferente. Harry não ouviu a canção do Sol.

Ele era o Sol. Podia se sentir gigante, irradiando luz e calor para todo o Universo, cantando para seu dominante, que também estava no espaço, junto com ele. Severus era a Lua, uma Lua cheia, iluminada pela luz de Harry. A Lua não cantava, mas suas vibrações eram tão profundas que afetavam toda a Terra, influindo nas marés, nas colheitas, nas mulheres, nas criaturas.

O casamento celestial se renovava.

A canção do Sol também perpassava todas as órbitas, os astros, as coisas vivas e as coisas naturais, da mais gigantesca à mais minúscula.

Ninguém sabia o nível que as coisas poderiam tomar.

Próximo capítulo: Certas coisas não podem ficar em segredo muito tempo