Capítulo 45 – Coração da terra
Tema: planos de batalha
Por alguns dias, o baile e quem convidaria quem foram a tônica das conversas em Hogwarts. Até que o Profeta Diário mais uma vez atiçou todos os alertas de Harry com sua manchete principal.
"Fuga de Azkaban!"
Harry leu avidamente a notícia que todos os Death Eaters presos na Batalha do Departamento dos Mistérios tinham escapado da prisão, agora com ajuda de Dementors e Inferi, que tinham feito o serviço sujo. Tinha sido uma batalha cruel, na qual dois guardas da prisão tinham sido mortos, mas vários tinham saído feridos.
Voldemort praticamente tinha seu exército de volta. O que significava apenas uma coisa: ele estava se posicionando para atacar.
Naquela noite, Harry ouviu seu dominante procurá-lo no lugar de poder. Incorpóreos, eles estavam juntos, abraçados em meio ao éter.
– Severus...
– Harry, você está perturbado.
– Sim. A fuga de Azkaban. Voldemort está reunindo as tropas, não?
– Exato. Mas no momento preciso de você. Está se preparando para dormir?
– Não, por quê?
– Então vá deitar. Mas leve um casaco bem pesado, botas e a capa de seu pai. Essa noite nós vamos para a Bulgária.
– Bulgária?
– Iremos até Durmstrang esta noite. A Taça está lá, como você previu.
– Como você conseguiu confirmar?
– Tolga Bjeliac.
– Quem?
– O assistente de Karkaroff. Lembra-se dele? Acompanhou Igor no Torneiro Tribruxo. Falei com ele. O rapaz tem uma mente muito sugestionável. E aberta.
– Sério? Severus, o que você fez com ele?
– Apenas apresentei-me como um servo do Lord. Ele me contou tudo. Nem precisaria, porque estava muito claro em sua mente. Igor recebeu a Taça de um parente de Evan Rosier, morto na Primeira Guerra. A velha senhora não quis ficar com aquele objeto em casa e entregou-o a Igor. Mesmo sem saber exatamente do que se tratava, meu velho amigo Igor percebeu que era um objeto diretamente ligado ao Lord das Trevas, e guardou-o em um compartimento secreto na escola.
– Durmstrang também é protegida, como Hogwarts?
– Não como Hogwarts, mas tem proteções a seu redor, sim. De qualquer forma, Igor informou apenas alguns de seus alunos favoritos sobre a existência dessa sala. Eles pensam que troféus valiosos estão guardados ali. Tolga disse que depois da morte de Igor ninguém conseguiu entrar ali. Tentaram todos os tipos de feitiços e sortilégios para entrar no local.
– E você acha que nós conseguiremos?
– Harry, pense: se nós conseguimos aparatar de Hogwarts, como não entraríamos numa sala em Durmstrang, cujas proteções nem chegam aos pés?
Harry sorriu e ficou confiante. Eles estavam quase lá!
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Severus Snape marchava pelos corredores de Durmstrang a um passo confiante e determinado, tendo a seu lado o jovem de nome Tolga Bjeliac, ex-assistente do falecido Karkaroff. Tolga, porém, não tinha tanta confiança.
– Professor... Eu não sei se isso é permitido... Posso ficar em encrencas... Desde que o Prof. Karkaroff se foi, minha posição aqui é precária, se me entende.
Severus parou inesperadamente e virou-se para o jovem, ameaçador, a voz sedosa:
– Pois imagine como estará encrencado se eu contar a meu Mestre que não quis cooperar, sr. Bjeliac. Claro, a decisão é sua.
O pobre búlgaro arregalou os olhos e indicou:
– É ali adiante.
Os dois continuaram caminhando, no meio da noite. Harry os seguia, quase correndo, embaixo da capa que o deixava invisível, tiritando de frio. A Bulgária era um país frio a maior parte do ano, mas Durmstrang ficava numa cadeia de montanhas. Na verdade, parte do castelo era construída dentro da montanha. Era exatamente onde eles estavam agora: em rocha pura. Por isso o frio ainda era mais cruel naquele lugar. Além da altitude, a temperatura era bem baixa dentro da terra, como as masmorras de Hogwarts.
Harry não pôde deixar de observar que era um lugar adequado para uma relíquia de Hufflepuff. Afinal, se Slytherin era associado a água; Ravenclaw a ar; e Gryffindor a fogo, então Hufflepuff estava no local certo: no meio da terra.
Tolga levou Severus a uma porta imensa de madeira maciça que se abriu para uma sala de troféus muito semelhante à de Hogwarts. Harry podia sentir o chamado da terra. A sensação era de um cheiro telúrico, algo que o penetrava nos ossos, nos elementos químicos que formavam seu corpo. Havia algo ali. Se não fosse o que estavam procurando, era algum outro objeto mágico de muito poder.
– É essa porta. Mas ninguém nunca conseguiu abri-la.
Severus fez um breve exame com a varinha e detectou apenas algumas proteções básicas. Portanto, bastou um simples Alohomora para a porta se abrir. Ele se virou para Tolga:
– Daqui para frente, prefiro prosseguir sozinho.
– Está bem – disse o jovem, ao sair sem precisar de novo convite, sem esconder o alívio por estar bem longe daquela sala. – Estarei esperando lá fora, então.
Severus esperou que ele deixasse a sala de troféus para então virar-se para Harry:
– Vamos.
Severus entrou na sala escura, com a ponta da varinha acesa. Harry tirou a capa, foi atrás de Severus e...
BONK.
Ele foi jogado para trás e chamou:
– Severus?
– O que foi, Harry?
– Eu não consigo entrar.
– Como assim?
– Tem uma espécie de barreira. Ela me repeliu quando tentei entrar.
– Hum... Não sabia que Igor conhecia esse feitiço. Mas isso explica por que ninguém conseguiu entrar nessa sala além dele.
– De que feitiço está falando?
– Constrói um escudo que só permite que alguém com a Marca Negra o ultrapasse. É muito usado por seguidores do Lord, mas não imaginei que Igor usaria aqui, se quisesse manter a Horcrux longe de seu mestre.
Harry lembrou-se de que esse feitiço fora usado pelos Death Eaters que invadiram Hogwarts na noite em que Dumbledore morrera. Sentiu uma pontada no coração, mas comentou:
– Talvez ele estivesse tentando fazer dessa Horcrux uma espécie de seguro de vida.
– Não me parece ter tido muito sucesso com isso. Espere, deixe-me baixar a proteção.
Harry finalmente conseguiu entrar no local. Era uma salinha muito pequena, como um depósito ou armário de vassouras. Harry percorreu os olhos no pequeno compartimento, procurando usar ao máximo seus poderes.
– Engraçado. Eu estava sentindo a presença da Horcrux, mas agora ela sumiu.
– Não, não sumiu. Veja.
Com a varinha, ele apontou para um pedaço de parede de pedra e um nicho veio à frente. A sensação telúrica voltou a Harry, que sorriu:
– É ela! A Taça de Hufflepuff.
O nicho de pedra se abriu ao comando da varinha de Severus e revelou a pequena taça dourada, com duas asas e a figura diminuta de um texugo – símbolo de Hufflepuff. Com cuidado, Severus tirou um pedaço de pano de dentro da roupa e embrulhou a preciosa taça.
– Agora temos tudo para fazer o ritual.
– Vamos embora. Já amanheceu.
– Isso aqui. Ainda é noite na Inglaterra. Mas quero que volte direto para Hogwarts e espere notícias minhas.
Harry beijou seu dominante:
– Amo você, Severus. Logo isso tudo vai acabar e vamos poder ficar juntos.
Severus apenas retornou o beijo. Ele era o Koboldine que podia ver o futuro, e tudo que ele disse foi apenas:
– Eu também amo você, meu pesseguinho.
Próximo capítulo: Ron mostra suas novas vestes de gala
Capítulo 46 – Dia D, Hora H
Tema: festas
À medida que a data do Baile do Dia das Bruxas se aproximava, a agitação dos alunos de Hogwarts aumentava. As conversas giravam em torno da festa, dos pares, dos namorados e quem finalmente teria coragem para chamar quem para ser seu par. Harry podia entender o alvoroço dos colegas, mas ficou feliz por ser um Koboldine casado. As lembranças do Baile de Inverno do quarto ano não eram nada agradáveis para ele. Aliás, ele quase se convenceu a ir pedir desculpas às gêmeas Patil pelo vexame daquela ocasião.
A correspondência era frenética, com corujas fazendo verdadeiras revoadas com bilhetinhos e convites. O que surpreendeu Harry foi quando uma coruja lhe trouxe uma carta. Ron indagou:
– Novidades?
– Sim! – Harry falou alto. – É do Plonk! Ele confirmou que vem para o baile!
Como Harry planejou, toda a mesa de Gryffindor ouviu. Houve gritos e muita gozação.
– Aí, Harry!
– Quer dizer que finalmente vamos conhecer o namorado misterioso?
– Hum, como ele é, Harry?
– Ele é baixinho – Harry respondeu a Seamus. – E meio louquinho também, mas é muito legal.
– Ele é esquisito e possessivo – reclamou Ginny. – Aposto como ele vai querer vigiar Harry o baile todo.
– Ginny, não implica com o Plonk.
– E que raio de nome é esse, Plonk? Parece membro de gangue.
– É um apelido da terra natal dele – disse Harry. – Os pais dele são de outro país.
– São de onde?
Harry deu de ombros:
– Algum lugar na Europa Central, eu acho. Mas eles moram na Inglaterra há anos. Hum, e será que mais gente vai trazer pares de fora?
– Os Slytherins não falam em outra coisa. Dizem que trazer gente de fora é a grande chance de arrumar um casamento dentro da pureza de sangue.
A mesa de Slytherin era a mais vazia no Salão Principal, notou Harry. Ele também notou que muitos dos alunos de lá o olhavam de um jeito bem inamistoso. Provavelmente diziam tudo que ele fazia a seus pais Death Eaters.
Quando puderam falar com segurança, Hermione quis saber:
– Harry, o que está acontecendo?
– O ritual vai ser no Dia das Bruxas. Parece que é o dia ideal porque é quando os mortos estão mais próximos da dimensão dos vivos.
– Não deveria ser no Dia de Finados?
– Não, diz a lenda que em Finados os mortos podem aparecer para suas famílias e amigos. Mas eles vagueiam pela terra no Dia das Bruxas. Por isso vai ser melhor fazermos o ritual nesse dia. E o baile, na verdade, vai me ajudar a sair daqui sem ninguém perceber.
– Harry, pode ser arriscado.
– Mas vou ter que arriscar, Hermione. É muito importante. De qualquer modo, todos estarão tão ocupados com o baile que ninguém vai desconfiar de coisa alguma sobre o ritual.
– Tomara que sim, Harry.
– É uma pena que você vai perder o baile – disse Ron. – Parece que vai ser animado. Todo mundo está tentando se arranjar.
– Ron, eu sou um homem casado, esqueceu? Meu par e eu somos para sempre.
O ruivo olhou para Harry de olhos arregalados como se estivesse vendo o amigo pela primeira vez. Hermione ralhou:
– Ron, você sabia que isso era assim!
– Bom, eu... Tá, mas... para sempre? Harry, não é por nada, mas seu par é uma peste!
– Eu sei, Ron. Mas somos diferentes. Nossa espécie acasala pela vida toda. Monogamia forçada. Aliás, se tentássemos trair um ao outro, haveria conseqüências horríveis.
– Mesmo? – Hermione não sabia disso. – De que tipo?
Harry abaixou a voz:
– Diz a lenda que se um Koboldine como eu tiver um amante, essa pessoa engravidará e dará à luz a demônios terríveis. Ninguém poderá matá-los, exceto o próprio pai das criaturas.
Ron fez uma careta:
– Isso é horrível, cara. Já pensou? Podem nascer monstros com cara de Snape!
– Mas você já pensa isso agora, Ron. Não vai mudar muita coisa.
– Verdade.
– Vamos, vamos para a aula – chamou Hermione, puxando Ron. – O baile é daqui a alguns dias e depois vocês podem fofocar à vontade.
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A noite estava bem fria, com uma lua nova que deixava tudo ainda mais escuro. Mas nada impedira um clima festivo para a ocasião tão esperada. Tradicionalmente, no Dia das Bruxas, havia uma apresentação dos fantasmas do castelo, com a Performance Deslizante, evento que fazia parte do calendário de Hogwarts. O castelo estava iluminado, todo decorado para a ocasião, e havia música ao vivo. Não eram as Weird Sisters, infelizmente, porque o grupo tinha compromissos na Transilvânia, mas a cantora Celia Wishbone tinha vindo com o grupo Deathwishers para animar a noite.
A agitação era grande. No portão de entrada, alunos esperavam os pares de fora, e na entrada do Salão Principal, os pares formados por estudantes se encontravam. Foi lá que Harry e Ron desceram, encontrando Hermione. Ela usava um belíssimo vestido azul de tafetá, o cabelo preso num coque, maquiagem e brincos de safira. Ron estava boquiaberto.
– Nossa, Hermione – disse Harry, também impressionado. – Você está mesmo... Bom, está tão... er, está muito...
Ela riu, envergonhada.
– Obrigada, Harry. Você está muito elegante também. E você também, Ron. O novo traje de gala ficou ótimo.
– Ob-obrigado...
Harry e Hermione riram do amigo, e Harry quis saber:
– Neville desceu antes de nós, ele já apareceu?
– Sim – respondeu Hermione –, eu o vi com Luna. Ela tem flores de alho na cabeça! Não tem como errar o cheiro!
Ron indagou:
– Você desceu com Ginny? Eu não a vi. Quero saber quem vai ser o par dela. Ouvi dizer que Michael Corner já tinha convidado Hannah Abbot, de Hufflepuff.
– Eu ouvi falar que era Wayne Hopkins, aquele rapaz misterioso de Hufflepuff do mesmo ano de Harry – disse Hermione.
Ron fechou a cara:
– Só espero que não tenha sido ninguém de Slytherin. Aquele baixinho Harper, que é do mesmo ano que ela, disse para quem queria ouvir que ele levaria qualquer bruxa de sangue puro.
– Depois vocês me contam tudo – disse Harry. – Eu vou para a porta da frente... er... esperar Plonk chegar. Vocês sabem.
– Certo. Harry – Hermione chamou, mas não soube como continuar – Er... Procure não demorar.
– É, cara – disse Ron, desajeitado. – Vê se não... demora.
– Vai ficar tudo bem, gente.
Harry saiu sem se preocupar em não ser visto. Afinal, o que ele mais queria era que as pessoas se lembrassem de que ele estava no baile. Ele desceu as escadas para os grandes portões e saiu do terreno da escola. Então Aparatou para Grimmauld Place, onde Severus o esperava.
Sua entrada não foi espetacular, mas Severus deu uma olhada para ele de uma maneira que parecia tão faminta que Harry até enrubesceu.
– Er... oi.
– Harry – Severus deixou seus olhos percorrerem todo o corpo de Harry enfiado no traje de gala e ainda o circundou, apreciando a vista. – Você parece... gostoso para se comer.
O jovem indagou, sugestivo:
– Quer provar?
– Com certeza.
Severus o tomou em seus braços, beijou-o apaixonadamente e apertou-o contra si. Harry se entregou ao beijo, mas Severus separou-se antes que a temperatura aumentasse:
– Infelizmente isso terá que ser mais tarde. No momento, temos muito que fazer.
Harry gemeu de frustração, mas Severus chamou:
– Plonk?
O elemental surgiu ao lado deles, em sua forma humana.
– Sim, meu Príncipe?
– Talvez seja melhor você ficar aqui – sugeriu Severus. – Isso pode ser muito perigoso.
– Mas meu Príncipe, eu devo protegê-los!
– Plonk, vamos levar agora as Pedras de Toque para liberá-las da Ameaça sem Alma. Preciso que fique com Berenkor. Breve poderá nos ajudar, mas agora precisa se proteger.
– Sim, meu Príncipe. Sois generosos e sabereis proteger o Rei. Boa sorte a ambos.
Harry sorriu para o elemental e seguiu seu dominante até a sala onde estava a cristaleira. Ao entrar, porém, ele não contava em encontrar mais alguém ali.
A sala estava cheia de gente. Harry voltou-se para Severus:
– Severus, o que está acontecendo?
Próximo capítulo: Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve
