Capítulo 53 – Depois do fim

tema: interlúdio

– Sev?

– Já pedi que não me chamasse assim.

– Tá bom. Severus.

– O que é, moleque impudente?

– É tão gostoso ficar aqui assim com você.

– De fato.

Os dois flutuavam no espaço, observando galáxias girando e planetas revolvendo em suas órbitas. Como Sol e Lua juntos, eles criavam um eclipse memorável. Abraçados, cercados pelo éter, eles desfrutavam uma tranqüilidade obtida com extremo esforço e sacrifício.

– Nós o derrotamos, não foi?

– Totalmente, Harry.

– E terminamos salvando Sirius. Você não ficou chateado com isso, ficou?

– Claro que não. Sei o quanto isso deixou você feliz.

– Eu tive uma boa conversa com ele. Na verdade, Dumbledore conversou muito com ele ainda no Véu. Sirius demorou muito tempo para acreditar que estávamos juntos de verdade.

– Admito que seu padrinho possa ser um pouco denso – comentou Severus, com um risinho de cinismo.

– Vocês vão saber conviver, não vão?

– Não se preocupe, Harry. Não vamos nos matar, se é o que teme.

– Não, mas você está tenso. Alguma coisa o está preocupando, não está?

– O que poderia ser? O Lord das Trevas se foi, seu padrinho voltou do Véu e nós estamos aqui juntos.

– É. – Harry sorriu. – A vida é boa.

Severus concordou, sorrindo, e abraçou-o mais forte. Sim, aquele era um momento a ser guardado no coração.

– Não deveríamos voltar, Severus?

– Só se você quiser, Harry.

– Sinto que precisamos voltar. Pode ser alguma coisa importante.

– Você é quem sabe, Harry.

– Você nunca foi tão relapso com seus deveres antes, Severus.

– Antes eu não tinha você só para mim – sussurrou o ex-Mestre de Poções, aninhando-se ainda mais com seu sol-Harry. – Agora não quero outra vida.

– Severus – Harry se virou para ele –, você está me escondendo alguma coisa?

– Só estou evitando que você se preocupe. Agora é hora de relaxar, Harry. Sei que pode parecer estranho me ouvir dizendo isso, mas merecemos isso. Se você quiser voltar, claro que podemos fazer isso.

Harry beijou a ponta do longo nariz e sorriu:

– Adoro como você cuida de mim.

– É um serviço sujo, mas alguém tem que fazer – ele brincou.

Eles continuaram abraçados, flutuando no espaço como um só.

Um longo, longo eclipse.

o0o o0o o0o o0o o0o

Do dia para noite, Hermione Granger virou o centro das atenções do mundo bruxo. Todos a procuravam, todos queriam falar com ela. Nada era decidido sem sua palavra. O Ministério, St. Mungo's, os jornais, até o Wizengamot, o Conselho de Diretores de Hogwarts, praticamente todos a consultavam. Ela jamais tinha imaginado que tal fato pudesse acontecer. Contudo, se tivesse imaginado, ela provavelmente também teria imaginado que estaria adorando tudo isso.

Ela não estava. Na verdade, Hermione estava odiando tudo aquilo.

Felizmente, Sirius a estava ajudando com as decisões concernentes a Harry. Como padrinho do jovem (ainda que ele fosse adulto, diante da sociedade bruxa), ele tomou as rédeas dos interesses de seu afilhado. A complicação é que Sirius tinha sido considerado legalmente morto há três anos, e estava, ele mesmo, emaranhado nas teias da burocracia bruxa para fazer suas decisões terem algum valor jurídico. Assim, Hermione ao menos contava com uma opinião adulta para decidir o destino de Harry.

Em um coma devido ao feitiço de Bellatrix, Harry lutava por sua vida na Unidade de Mágica Intensiva de St. Mungo's. Seu estado era considerado delicadíssimo. Milhares de bruxos vinham de todas as partes para ver seu salvador, a ponto de se tornar um mártir. O hospital tinha problema com as multidões que se aglomeravam para ter notícias do jovem que derrotara Você-Sabe-Quem. Isso sem mencionar os problemas em tentar salvar a vida de Harry.

Hermione deu uma declaração lacônica a Rita Skeeter sobre a saúde de Harry, e o Profeta Diário publicou três páginas de especulações e pieguices sobre o Eleito, agora chamado de Conquistador. Então, ela comunicara que dali para frente, seria emitido um boletim médico por dia, mas declarações só seriam fornecidas ao Quibbler. Rita Skeeter, que já tinha lidado com Hermione anteriormente, sabia que aquilo não era brincadeira.

Contudo, o que mais angustiava Hermione era a batalha para tentar tirar Severus Snape da cadeia. Ela ainda se lembrava, com horror, da cena da prisão de seu ex-professor. Alastor Moody tinha sido o autor do disparo que incapacitara Severus, e os gritos de Hermione de que ele era inocente tinham sido ignorados. Desde então, ela se dividia entre acompanhar a saúde de Harry em St. Mungo's e tentar brigar com as autoridades para provar a inocência de Snape.

Para tal, ela contava com o total apoio da família Weasley. Na verdade, os Weasley não tinham saído totalmente incólumes da derrota de Voldemort, e consideravam Harry seu filho postiço. Mas a família se reunia em torno de Ginny, que tinha sido raptada por Death Eaters em Hogwarts e tinha sido salva por Harry e Sirius, mas não antes que as torturas dos bruxos das Trevas a tivessem deixado quase desmemoriada. Molly estava sob ação de uma poção sedativa leve, embora o pessoal de St. Mungo's a tivesse posto sob forte sedação assim que ela vira a filha. A matriarca Weasley só se acalmou quando os exames mostraram que Ginny tinha sofrido apenas umas torções e ferimentos leves, consistentes com uma pessoa que tinha sido amarrada pelos pulsos e tornozelos. Claro, os medibruxos não eram nem malucos de mostrar à Sra. Weasley o que sua filhinha realmente tinha sofrido. Eles contaram ao Sr. Weasley, que ficou muito abalado e decidiu nada revelar a Molly. Hermione só soubera depois que Ron contara o que o pai lhe revelara.

Felizmente os Weasley cuidavam de si mesmos, e Hermione não precisava se preocupar com eles. Aliás, agora eles na verdade cuidavam dela: Hermione passara a ocupar o quarto de Ginny nos raros momentos em que ela conseguia descansar. Mas ela estava muito ocupada, preocupada especialmente com a situação de Snape. Porque a sobrevivência de Harry podia depender do homem preso em Azkaban.

Ela perguntou:

– Você vem comigo?

Ron mexeu a cabeça:

– Eu não entendo por que você precisa ir para aquele lugar horroroso...

– Era o que Harry iria querer que fizéssemos! – rosnou Hermione para o namorado. – Você pode continuar odiando Snape o quanto quiser, mas ele é o marido de Harry! Os dois derrotaram Voldemort!

– E pagaram o preço. Um em Azkaban, o outro quase morto. Desculpe, Hermione. Acho que estou nervoso.

– Você esteve em Grimmauld Place? Conseguiu as memórias de Dumbledore?

– Sim, eu fui lá e peguei umas garrafinhas. Acho que elas são o que queríamos, mas não sei qual delas é a queremos.

A garota se entusiasmou e abraçou-o:

– Ron, você é ótimo! Precisamos de um Pensieve. Precisamos fazer o Wizengamot ver essas garrafas, mas não aquela que fala sobre a natureza dos Koboldines. Isso pode ser ainda pior do que pedir que liberem o Prof. Snape.

– Você não vai a Azkaban?

– Ainda estou esperando permissão. Só espero que o Prof. Snape esteja bem. Você sabe que eles são muito... er... unidos. Tenho medo que aconteça de novo aquilo que houve no quinto ano: os dois doentes por ficarem separados.

Ron abaixou a cabeça e falou, mais baixo:

– Hermione... e se o Harry não melhorar?

Ela estremeceu, sem querer imaginar essa possibilidade, e tentou animar o namorado:

– Que bobagem, Ron. É claro que Harry vai se recuperar. Mas ele deve ter usado muita energia. Você ouviu os medibruxos: as reservas mágicas dele estão exauridas.

– Mas... ele não é um bruxo normal!

– Eu sei. Por isso a minha esperança é soltar o Prof. Snape. Com sorte, o contato com ele fará Harry se recuperar mais rápido. Para isso, essas garrafinhas podem ser fundamentais. – Ela beijou a ponta do nariz dele. – Vá ao Ministério o quanto antes. Quero passar no hospital mais tarde.

– M-Mas... Hermione, você é quem lida com aqueles caras do Ministério!

– Eles não mordem, Ron. Seu pai talvez ajude.

– Está bem.

Hermione abraçou Ron, que respondeu a seu abraço com calor e carinho. A moça pôde sentir a tensão no rapaz, e beijou-lhe o cabelo ruivo, sussurrando:

– Vai dar tudo certo, Ron. Confie nisso.

Ron assentiu. Hermione o beijou nos lábios de maneira doce. Depois se afastou e pegou a lareira para ir direto à entrada especial de St. Mungo's, uma longe das multidões de fãs de Harry.

Assim que Hermione viu-se no hospital, correu para o banheiro. Lá, certificou-se de que não havia ninguém antes de entregar-se às lágrimas. Ela estava morta de medo. Ela podia perder Harry e também podia não conseguir soltar o Prof. Snape. Se isso acontecesse, era como estivesse traindo a confiança de seu melhor amigo. Ela tinha que fazer a vontade de Harry, já que ele estava incapacitado. Harry contava com ela para lutar a batalha que ele não podia combater. Hermione tinha certeza de que, se os papéis fossem invertidos, Harry estaria fazendo tudo para resolver a situação.

Mas tinha horas que tudo parecia tão difícil, tão cheio de obstáculos...

Hermione enxugou as lágrimas e abriu a torneira para lavar o rosto, quando uma sensação de familiaridade a invadiu. Então ela olhou em volta, mas não viu nada. Sem querer acreditar, com muita hesitação, ela cochichou ao banheiro vazio:

– Plonk? Você está aqui?

Foi quando o elemental surgiu de uma das cubas da pia, os grandes olhos a encarando.

– Sim, Srta. Hermione. Desculpe, eu não queria espiar. Eu só queria ficar perto do Meu Rei.

Hermione notou como a criatura parecia triste. Até a cor da pele parecia meio desbotada, como se tivesse perdido o viço.

– Obrigada, Plonk. Eu sei que você gosta muito de Harry.

– Meu Rei é bom, é generoso, é amoroso, justo e poderoso. Estamos todos aqui, esperando por ele.

– Esperando?

– Quando ele for para o Reino.

– Como assim?

– O Rei vai para o Reino, não vai? Depois que os habitantes aqui de cima o reverenciarem como ele merece, o Rei precisa ir para o Reino com o Príncipe. Lá ele pode se curar.

Hermione sentiu o coração parar.

– Ele pode se curar lá no seu Reino?

– Sim – disse Plonk. – Com a ajuda de sua Alteza, claro.

– E como ele pode ir para lá?

– Podemos ajudar, já que o Rei está tão fraco. A Srta. Hermione gostaria que eu falasse com Berenkor? Estamos todos aqui, invisíveis.

Hermione sentiu, pela primeira vez, seu coração se encher de esperança. Ela respondeu:

– Plonk, você foi mesmo mandado pelos deuses. Vamos ter que formar um plano.

Próximo capítulo: Harry pode ter uma esperança, mas e Severus?

Capítulo 54 – O plano de Hermione

Tema: articulação política

– Srta. Granger – saudou Severus pesadamente. – Eu devia saber que seria tenaz o suficiente para vir até este lugar.

– Olá, professor. – Ela entrou na cela, trazendo cobertas pesadas. – Espero que isso amenize o frio.

– Eu não sou mais seu professor.

– Desculpe. É o hábito. Mas eu não trouxe apenas cobertores: também trago boas notícias.

– Primeiro me diga como está Harry.

– Como sabe que não são essas as minhas boas notícias?

Ele a encarou com seu olhar patenteado para alunos menos brilhantes. A moça sentiu-se envergonhada:

– Tá, desculpe. Ele teve uma melhora ontem. Os medibruxos não souberam explicar. O senhor teve algo a ver com isso?

– Sim. Estivemos juntos, de uma maneira difícil de explicar.

– Mas pode dizer se ele estava sofrendo? Com dor?

– Não. Ele está em coma profundo, não sabe o que lhe aconteceu.

Hermione se animou:

– Isso é bom. Isso é muito bom. Sabe, estamos organizando a transferência de vocês dois para o Reino.

– Para o Reino?

– Plonk ia organizar tudo com Berenkor. Eles dizem que Harry poderá se curar lá.

– Como?

– Ainda não sei. Mas sua presença também é necessária para isso.

– E como chegamos lá?

Ela deu de ombros:

– Essa é mais uma missão para Plonk e Berenkor. Assim que eles tiverem tudo pronto, ajudarão a fazer com que o senhor e Harry cheguem lá.

– O que nos leva a uma pergunta interessante: como pretendem me levar até lá? Digo, como saio dessa prisão?

– Achamos as garrafinhas com as memórias do Prof. Dumbledore. Ron ficou de levar ao Ministério, e com sorte pode ajudar a uma obter liminar do Wizengamot.

Severus revirou os olhos:

– Sabe quanto tempo o Wizengamot pode tomar uma decisão? Até 30 anos. Não me parece que Harry possa esperar tudo isso até que eu saia daqui.

– Nem se a gente pedir pressa?

– E, ainda que nos atendessem, por que pediríamos pressa?

– Ora, por causa da situação de Harry. – Então ela arregalou os olhos, entendendo aonde ele queria chegar. – Mas eles não sabem de vocês dois.

– Nem podem saber.

– Mas então o que faremos? Talvez Plonk e Berenkor possam tirá-lo daqui.

– Menina tola. Eu posso Aparatar de dentro de Hogwarts. Acha que Azkaban é empecilho? Posso sair daqui num piscar de olhos.

– Então qual é o problema?

– O problema é que isso fará de mim um fugitivo. Se Harry e eu fugirmos para o Reino, isso pode significar, para mim, exílio. Posso prever grande estresse para Harry, que deverá querer voltar para ver os amigos e o cachorro do padrinho.

– Professor, por que não reconsidera a decisão de esconder a verdadeira situação? Tudo ficaria mais fácil.

Severus comentou, sarcástico:

– Pode ter razão. Assim, eles podem simplesmente me exterminar como uma criatura demoníaca. Com sorte, alguém se ofereceria para me estudar, me conservaria numa jaula e faria todo o tipo de experiências comigo. Como matador do Lord das Trevas, Harry seria poupado, é claro, mas ainda assim seria discriminado. Apenas eu seria alvo de tudo isso. Provavelmente até me deixassem conservado em formol.

– Talvez o senhor esteja exagerando – tentou dizer Hermione. – Hoje em dia é possível que esse preconceito tenha diminuído.

– Harry me relatou a reação de Black quando Lupin contou tudo, há alguns anos. Tenho poucos motivos para acreditar que a situação tenha mudado.

Hermione tinha que admitir que ele tinha razão. Ainda assim, ela não queria desistir:

– Mas precisamos de um aliado lá dentro! Se alguém soubesse disso e pudesse falar com o Wizengamot...

– Seria irrelevante. Além do mais, já há gente demais sabendo.

– E eles não poderiam ajudar?

– Que ouvidos o Ministério daria a Lupin, um lobisomem sem dinheiro ou prestígio? Mesmo Black, com todo o peso de seu sobrenome, dificilmente conseguirá alguma confiança na condição de redivivo.

– Droga. Que falta faz Dumbledore. – Hermione logo acrescentou. – Sem ofensa, professor.

– Não me senti ofendido. Também sinto muita falta dele. Infelizmente, isso não nos ajuda na nossa atual conjuntura.

– Deve haver alguma coisa que possamos fazer. Apesar de que eu tenho certeza de que seus... encontros com Harry têm ajudado.

– Obrigado.

– Vou insistir junto ao Sr. Shacklebolt. Ele pode nos ajudar. Será muito mais difícil, porém, se eu não puder dizer a verdade a ele.

– Por favor, não faça isso.

– Não, não farei. – Ela virou-se para ele, os olhinhos brilhando. – Mas acabo de ter uma idéia. Infelizmente, isso pode transformá-lo num vilão ainda maior diante do público. O senhor se importa?

Ele olhou para ela, amargo:

– Exatamente como isso iria mudar minha situação atual?

– Bom, se meu plano der certo, o senhor pode ser perdoado. Não precisa virar um fugitivo.

– E que brilhante plano é esse?

Hermione contou, elaborando em alguns detalhes. Severus ouviu atentamente e suspirou:

– A senhorita em razão. Minha imagem não vai mudar. Mas, como tenho a convicção de que nada mudará essa imagem, acho que vale a pena arriscar esse plano.

Nesse momento, um guarda abriu a porta:

– Seu horário terminou.

Hermione deixou as cobertas que trouxera no banco e disse a seu antigo professor, com um sorriso encorajador:

– Olhe, não perca a esperança. Estamos fazendo tudo que podemos.

– Eu agradeço – disse Severus sinceramente.

– Voltarei assim que puder.

o0o o0o o0o o0o o0o

– Ele o quê? – A voz de trovão do ministro da Magia encheu o gabinete com o urro de indignação que ele soltou. – Como ele ousa fazer exigências?

Hermione confirmou:

– Foi o que ele acabou de me dizer, senhor. Ele chamou de acordo.

– Isso é chantagem! Ele quer o perdão em troca da poção para curar Harry Potter!

Alastor Moody indagou à moça:

– Como sabemos que isso não é um plano para ele envenenar Potter?

– Senhor, ele está do nosso lado – garantiu Hermione. – Ele e Harry trabalharam juntos secretamente durante muito tempo para derrotar Voldemort. Esse era o plano do Prof. Dumbledore.

Rufus Scrimgeour resmungou:

– E Dumbledore certamente não se incomodou em dizer isso para mais ninguém. O Winzengamot está analisando aquelas memórias que o filho de Weasley trouxe.

Kingsley parecia apreensivo:

– E que exigência é essa de só conseguir curar Harry num lugar secreto?

– O Prof. Snape garante que não é só uma questão de poção. Há outros rituais para desfazer a maldição que atingiu Harry. Quanto mais demorarmos, diz ele, mais difícil será a recuperação do Harry. A poção não é rápida para fazer.

– Em resumo: ele quer que nós o entreguemos o rapaz e suma com ele? – Scrimgeour parecia insultado. – Eu não gosto disso, Shacklebolt! Não gosto nem um pouco!

– Sr. Ministro – disse o negro com seu vozeirão –, Arthur Weasley falou com os especialistas de St. Mungo's, e eles estão temerosos pela saúde de Potter. Em breve, eles ficarão sem opções.

– E nós ficaremos nas mãos de Snape?!

– Ou isso ou o senhor terá deixado o herói do mundo bruxo morrer – lembrou Shacklebolt. – Isso pode refletir de maneira desastrosa em suas futuras aspirações políticas.

Aquilo fez o homem de cabelos fartos se deter repentinamente. Hermione teve que reprimir o instinto de se indignar de que o ministro pensasse não na saúde de Harry, mas sim em sua própria sobrevivência política. Mas Kingsley jogou bem com a vaidade de Scrimgeour: ele estava mudando de idéia.

E Moody tinha que estragar tudo.

– Rufus! – gritou o Auror, escandalizado, a perna de madeira fazendo toc-toc quando ele se aproximou. – Você não pode estar pensando em concordar com essa sandice! Isso é um disparate! Snape é uma cobra traiçoeira, que provavelmente só ajudou o garoto para salvar a própria pele. Agora ele está tentando salvar a própria pele de novo. Ele matou Dumbledore! É um assassino!

– Mas ele é o único que pode salvar Harry – lembrou Hermione. – Além do mais, as memórias de Dumbledore podem explicar toda essa história do assassinato. Sr. Ministro, por favor. Harry não tem muito mais tempo.

As feições duras de Rufus Scrimgeour ficaram ainda mais severas enquanto ele considerava as opções à sua frente. O silêncio ficou profundo no gabinete, e ele finalmente disse:

– Vou tentar obter uma resposta do Bruxo-Chefe do Wizengamot a respeito das memórias. Se eles admitirem a prova no tribunal, vou pedir um perdão especial a Snape.

– Absurdo! – gritou Moody. – Isso é chantagem, Rufus!

– Seja como for, Alastor, eu estou ficando sem opções. Shacklebolt tem razão. Se eu não fizer tudo o que puder para salvar o garoto, o mundo bruxo vai me massacrar. Virarei um fiasco pior do que Fudge.

– Humpf! – soltou Moody. – Isso não quer dizer que eu tenha que gostar disso.

Hermione fez o possível para não parecer muito esperançosa. Será que finalmente as coisas estavam começando a melhorar?

Próximo capítulo: Hermione usa a política para curar Harry