Capítulo 59 – Tudo que é bom

Tema: recomeços

Nos próximos dias, Severus e Harry não fizeram muito além de se recuperar e desfrutar um do outro. Eles decidiram passear pelo Reino, os dois usando Vestes Ritualísticas da Nitescência, douradas. E, sendo época de Nitescência, eles estavam ocupados demais para estranhar o fato de que, toda vez que encontravam um local bucólico e frondoso, ele era escondido e mais: sempre havia um banco ou sofá ou poltrona grande o suficiente para que eles pudessem namorar ao ar livre. Eles nem desconfiavam que cada um desses locais iria virar local de romaria para elementais.

Por insistência de Domovoy, assim que a Nitescência terminou, os dois fizeram uma aparição pública do balcão do Palácio Real, que dava para um lindo jardim, onde puderam ver uma multidão de elementais a saudá-los. Depois eles se reuniram com Berenkor, Plonk e Sizz, uma conversa animada e muito sentimental. Plonk garantiu que as notícias que chegaram a Hermione foram recebidas com entusiasmo.

Berenkor comentou:

– Seus amigos vão ficar felizes quando voltarem.

Plonk arregalou os olhos:

– Vão voltar? Para o mundo dos humanos?

– Sim, Plonk. Ficamos muito gratos por tudo que fizeram, e saiba que jamais esqueceremos vocês ou a recepção que tivemos aqui, mas lá é o nosso lugar. Somos humanos – bom, mais humanos que outra coisa.

Severus indagou a Berenkor:

– Podemos voltar qualquer dia?

– Claro, Alteza. Sempre que quiser. Agora que os dois estão recuperados, podem vir com sua própria mágica.

– Sim, sim! – Plonk balançava a cabeça enfaticamente. – Será um dia muito feliz!

Harry falou:

– Er, eu tinha uma pergunta. Domovoy mencionou algo chamado Filho Celestial.

Plonk arregalou os olhos ainda mais:

– Meu Rei quer um herdeiro? Isso seria fantástico! Brilhante, como diz Lord Ronald!

– Mas só pode acontecer na Nitescência – ressaltou Berenkor.

– Foi o que Domovoy me disse – confirmou Severus. – Ainda não sabemos se vamos tentar na próxima Nitescência.

Harry completou:

– Não conhecemos outros Koboldines. Seria triste termos um filho que não tivesse um parceiro. O que Severus e eu temos é... tão lindo. Eu gostaria de pensar que meu filho ou filha poderia conhecer felicidade assim.

Severus pegou a mão de Harry e a beijou. Eles sorriram um para o outro. Berenkor ajuntou:

– Há muitos Koboldines no seu mundo. Mas eles estão espalhados, longe um dos outros. Como estão longe, não despertam sua herança.

– Não é só isso – explicou Severus. – Há muito preconceito em nosso mundo contra outros como nós. Eles não vão se apresentar como Koboldines por causa disso, e sinceramente não posso condená-los por se esconderem e evitar esse preconceito.

– Não quero que nosso filho ou filha cresça solitário... sem um parceiro. Sem a Nitescência.

– Gostaríamos de ajudar, Meu Rei. Sempre que quiser nossa ajuda, ficaremos honrados em ajudar. Os Elementos agora estão em harmonia.

Severus puxou Harry contra si e suspirou:

– Sábias palavras, Berenkor. Agora só falta saber se nosso mundo está em harmonia.

– Vocês pretendem partir em breve?

– Sim. Vai ser uma pena. Adorei esse lugar.

– Mas não fiquem tristes. Podemos voltar mais cedo do que imagina.

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O duende de Gringotts o olhou do alto de sua mesa com uma mistura de arrogância e desprezo:

– Sim?

– Eu gostaria de fazer uma significativa transação em dinheiro. Se fosse possível, gostaria de falar com meu bom amigo Ninerod. Ele é quem cuida da minha conta. A conta Malfoy.

O duende arregalou os olhos e saiu rapidinho, balbuciando desculpas. Severus quis se certificar:

– Harry, tem certeza de que quer fazer isso?

– Não, mas pode ser a única maneira, Severus. Você acha que não devo?

– É seu dinheiro. Você deve fazer o que acha melhor. Mas deve pensar um pouco antes de se entregar a essa sua coragem Gryffindor.

– Talvez eu fale com Sirius. Ou Remus. Ninerod pode me ajudar a conhecer minhas opções.

– Seja lá o que decidir, Harry, você sabe que pode contar comigo.

– Eu sei. Por isso eu amo você.

Depois de algumas horas de estressantes cálculos e projeções, Harry e Severus aparataram direto para Grimmauld Place. O primeiro a fazer festa pela chegada dos dois foi Dobby. Mas Sirius também fez tanta algazarra que Severus quase entrou na lareira para sair dali. Harry e Remus tiveram que contornar a situação, ainda mais depois que Ron e Hermione foram chamados para uma reunião a fim de discutir a idéia de Harry.

Ron estava admirado:

– Harry, isso vai ser grande! Vai mesmo fazer isso?

– Como eu mencionei antes, pretendo anunciar tudo depois do casamento. Eu esperava que Hermione pudesse arrumar a coletiva.

– Coletiva?

– Entrevista coletiva. Conferência de imprensa. Sabe, chamar a imprensa para um anúncio ou coisa assim. Desculpe a exploração, mas os repórteres já conhecem você...

– Harry, farei isso com prazer – disse a moça, pegando sua mão. – Estou tão feliz que esteja bem. Fiquei preocupada.

– Agora está tudo bem, acho. As coisas já estão começando a se ajeitar. Grimmauld Place já está de novo em nome de Sirius. Dobby está ajeitando a casa onde vamos morar depois do casamento, e pedi a ele que também preparasse a Mansão Malfoy em Wiltshire para virar um abrigo. Depois eu ia pedir que Bill, Remus e Severus retirassem maldições e azarações daquela casa. Deve estar cheia de coisas assim. Bom, e o casamento... Precisamos de alguém para tratar do casamento.

– Cara, você vai ter que deixar mamãe fazer isso! – disse Ron. – Ela vai adorar! Precisa ver como ela ficou feliz em organizar todo o casamento de Bill e Fleur.

Severus opinou:

– Eu não vejo ninguém melhor. Você, Harry?

– Nunca pensei em outra pessoa. E... er... Ron, eu também gostaria que fosse meu padrinho.

– E-eu...?

– Você é meu melhor amigo. Se você não quiser, eu posso pensar em outra pessoa...

– Não, eu quero, eu quero. Puxa. Obrigado, cara.

– Severus também vai precisar de um padrinho – lembrou Remus. – Vocês têm alguém em mente?

Severus evitou o olhar. Ele não tinha amigos. A única pessoa a quem realmente amara desde que sua mãe morrera, fora Harry, tinha sido Dumbledore. Nenhum amigo, ninguém que pudesse ser seu padrinho.

– Bom – continuou Remus –, se não for muito presunçoso de minha parte, eu gostaria de ser padrinho de Severus.

– Remus! – escandalizou-se Sirius. – Você vai para o altar e eu não? Vamos ficar separados no casamento de Harry?

– Claro que não – garantiu Harry. – Sirius vai me levar ao altar, não vai? Já que meu pai não vai poder...

O Animago ficou tão emocionado que nem pôde falar nada. Ron sugeriu:

– Por que não resolvemos tudo isso lá em casa? Mamãe vai adorar fazer jantar para todos, ainda mais com as notícias.

Foi a melhor sugestão da noite.

Menos de uma semana depois disso, cerca de 20 bruxos e bruxas se reuniram no gramado da antiga Mansão Malfoy. A casa ainda estava em obras, mas o cuidado de Dobby deixara os jardins impecáveis para a ocasião. O toldo mágico deixava passar não apenas a luz do sol, mas também muito mais calor do que era possível naquele dia gelado de outono. Por cortesia de alguns dos convidados, o clima no local também estava irretocável naquele dia – ao contrário do resto da região, que sofria com chuva e vento. Estavam todos dispostos em círculo, no centro do qual estava o oficiante.

O oficiante Tiberius Ogden, em vestes cerimoniais, sorriu para os convivas e anunciou:

– Que entre a procissão nupcial!

A seu comando, música élfica encheu o espaço. No corredor entre as cadeiras, Sirius entrou, trazendo a seu lado, Harry, vestido num lindo traje preto com detalhes prateados. A passos lentos, o Animago levou seu afilhado para junto do Bruxo-Chefe do Wizengamot. Atrás dele, Molly Weasley entrou acompanhando Severus, vestido num traje semelhante ao de Harry, só que era branco com detalhes dourados. A sugestão de vestes tinha sido de Berenkor, seguindo a tradição da complementação de parceiros Mizarhi, segundo a qual um usava as cores associadas ao outro.

O próprio Berenkor estava sentado na frente, junto com Plonk, Sizz e Domovoy, todos em vestes régias. Ron e Hermione vieram em seguida, e Remus entrou, acompanhando Minerva McGonagall. Antes mesmo do início da cerimônia, Molly já estava com seu lencinho a postos. Tiberius Ogden manteve o ar solene:

– Espírito Maior que criou a todos nós, abençoa esta união feita em tua homenagem. Ouve os votos, faz com que a fé em Ti se estenda para que eles mantenham a fé um no outro. Eles prometem amor, lealdade, fidelidade e confiança um no outro. Que suas vidas possam testemunhar a todos a realidade de um amor sem fim. Que sua união seja para sempre abençoada e fértil. Que eles sempre sejam contentes um no outro como são nesse momento.

Molly fungou alto, arrancando sorrisos de afeição e um abraço de Arthur. Ogden ergueu as mãos e uma energia diferente cercou a todos, num círculo colorido. Como se fosse um cântico, evocou:

– Invoco os representantes dos elementos a testemunhar essa união. Convido nossos amigos da natureza a se apresentarem diante deste casal.

Domovoy foi o primeiro a se erguer, magnífico, e a cor de todo o ambiente tornou-se amarela durante sua invocação:

– Abençoada seja essa união. Recebam do Ar estes presentes: entendimento claro um do outro e de si mesmo, sabedoria de que cada dia é um novo começo, alegria no conhecimento e no aprendizado para cada um e para a família.

Em seguida, Sizz ergueu-se, e a cor tornou-se vermelha:

– Abençoada seja essa união. Recebam do Fogo estes presentes: a coragem de descobrir novas experiências, oportunidades de empreendimentos e de grandes recompensas juntos, paixão um pelo outro e pela família.

Então foi a vez de Plonk, muito emocionado, fazer o ar adquirir um tom azulado:

– Abençoada seja essa união. Recebam da Água estes presentes: entendimento perfeito do desejo de cada um, determinação de dedicar-se um ao outro, discernimento de suas paixões, paciência quando seus filhos exigirem muito de cada um.

Por último, Berenkor ergueu-se, os olhos doces para o casal, enquanto o ar adquiria um tom esverdeado:

– Abençoada seja essa união. Recebam da Terra estes presentes: força nas coisas que precisam fazer, unidos como se fossem um, fertilidade em todas as formas e estabilidade para que nada falte à família.

Ogden indagou:

– Você, Harry, aceita os presentes dos elementos e aceita Severus como seu esposo para cuidar, amar, honrar, respeitar e reverenciar?

– Aceito.

– E você, Severus, aceita os presentes dos elementos e aceita Harry como seu esposo para cuidar, amar, honrar, respeitar e reverenciar?

– Aceito.

– Alianças, por favor.

Hermione se adiantou e levou as alianças até o oficiante. Ogden pronunciou um encantamento, os padrinhos também, e por fim, os elementais, com novo show de luzes e cores. Os noivos trocaram as alianças e o bruxo-Chefe se dirigiu aos convidados:

– É com alegria em meu coração que pronuncio os dois unidos por casamento, unidos pelos elementos, juntos nesta vida e além dela. Que ninguém tente quebrar esta união, abençoada pelo Espírito Maior. Convido todos a despejarem suas próprias benções sobre o casal, enquanto os maridos selam sua união com um beijo.

Uma aura de amor e felicidade estendeu-se por toda a Mansão Malfoy. As pedras da mansão tinham perdido a conta de quanto tempo se passara desde a última vez que esses sentimentos eram vistos naquele lugar.

Mas as coisas estavam mudando. Definitivamente.

Próximo capítulo: As mudanças não param, e desta vez atingirão todo o mundo bruxo.

Capítulo 60 – A visão do Clarim

Tema: militância

– Sr. Potter! Sr. Potter!

Por mais que se esforçasse para ser ouvido, Jayson Blair (que gostava do seu apelido, Jay) achava que não teria a menor chance naquela concorridíssima entrevista. Ninguém menos do que Harry Potter iria fazer uma grande declaração, a primeira desde que derrotara Você-Sabe-Quem e convocara praticamente toda a imprensa bruxa. Havia jornalistas dos maiores veículos, até a WNN, a poderosa Wizarding News Network! Ele era apenas o enviado de um jornalzinho pequeno, o Clarim de Hogsmeade. Como poderia competir com gente desse quilate?

O salão do Leaky Cauldron tinha ficado pequeno para tanta gente. Mal Harry Potter entrara no recinto, os flashes começaram a disparar. Felizmente, pensou Jay, o fotógrafo dele era Carter Bresson, um dos mais experientes do Clarim. Ele era um dos que mais disparavam flashes sobre o Conquistador. A foto estava garantida para a capa do jornal.

Potter chegou com Snape, o misterioso homem e reputado assassino que, soube-se mais tarde, tinha trabalhado ao lado de Albus Dumbledore. Jay olhou a figura magra e alta, de olhos penetrantes, e teve um arrepio. Ele não cursara Hogwarts, mas ouvira coisas medonhas a respeito do homem. Como Potter tinha se casado com ele?

Os dois nada disseram. Ignoraram os chamados dos repórteres (incluindo Jay), suportaram os flashes e luzes das câmeras sem se perturbar. Simplesmente se sentaram à mesa montada para a coletiva, acompanhados do Bruxo-Chefe do Wizengamot, dois Aurores e uma moça que Jay reconheceu como Hermione Granger. Foi ela quem se ergueu e usou um feitiço Sonorus para projetar sua voz:

– Aham. Boa tarde! – A moça esperou o burburinho diminuir antes de insistir: – Boa tarde! Agradecemos a presença de todos. Se tiverem a bondade de se sentar, vamos explicar a dinâmica desta entrevista. Harry pretende fazer um breve pronunciamento e, em seguida, ele responderá a suas perguntas. Ele está disposto a responder perguntas de todos os presentes, mas cada um só poderá fazer uma pergunta por repórter, para dar chance a todos. O Auror Shacklebolt gentilmente aceitou em organizar as inscrições das perguntas. Basta que ergam suas varinhas e o nome será magicamente escrito naquele pergaminho em branco. – Shacklebolt ergueu o objeto, mostrando-o. – Eu chamarei seus nomes por ordem de inscrição. Não haverá entrevistas exclusivas, não haverá réplicas de perguntas. Eu lamento, mas isso é para dar chance a todos de fazerem perguntas. Todos os que estão aqui concordam implicitamente com essas regras. Quem não concordar com isso pode se retirar. Mas qualquer um que tentar burlar ou fugir delas vai ser expulso e banido não por Harry, nem por mim, mas pelo Prof. Snape. Espero que não levem esse aviso na brincadeira. O Prof. Snape não vai levar na brincadeira.

Jay seguiu os olhos da Srta. Granger para ver quem ela olhava com tanta insistência quando disse isso, e viu a mulher loura, de terninho apertado e pena verde gritante. Claro, era Rita Skeeter. A fama da repórter do Profeta Diário era bem conhecida entre os colegas. Jay questionava como uma publicação como o Profeta mantinha alguém como Rita entre seus repórteres.

Todos se sentaram nas poltronas, penas e caderninhos a postos. A Srta. Granger se sentou e fez um sinal a Harry Potter. O rapaz continuou sentado e fez o mesmo feitiço antes de cumprimentar.

– Obrigada, Hermione. Olá a todos. Obrigado por virem. Vou procurar fazer um apanhado geral antes de passarmos às perguntas. Chamei todos porque não costumo lidar muito bem com a imprensa. – Mais olhares para Rita, notou Jay. – Mas o que tenho a dizer é importante. Em vista de tudo que aconteceu com Voldemort, aliás, é muito mais que importante. É primordial para a sobrevivência do mundo bruxo.

Jay nunca se sentiu tão inexperiente. Ele estava emocionado. Alguma coisa lhe dizia que aquele era um dia histórico. Harry Potter continuou:

– Primeiro, gostaria de agradecer aos que se preocuparam com minha saúde. Graças à ajuda de vários amigos de terras estrangeiras e à incansável atenção de Severus Snape, estou totalmente recuperado. Confirmo que Severus e eu nos unimos em matrimônio. Para evitar maiores perguntas a esse respeito, posso adiantar que fomos nos aproximando durante a guerra contra Voldemort e tomamos a decisão mais lógica: a união. Durante essa guerra, contamos com ajuda valiosa de criaturas mágicas, o que me leva ao motivo desta entrevista. Uma ajuda fundamental para a derrota de Voldemort veio de Koboldines.

Muitas pessoas soltaram exclamações de admiração, outras, de repulsa. Jay anotava furiosamente, enquanto Carter continuava a bater fotos bruxas. O Conquistador continuou:

– Como cresci entre trouxas, jamais tinha ouvido falar dessa espécie, e acreditava-se que ela esteja extinta. Pois ela não está. E, daqui para frente, pretendo me dedicar à proteção desta e de outras espécies mágicas que são tratadas como inferiores junto a nós, bruxos. Refiro-me a elfos, elementais, duendes, lobisomens, vampiros, centauros, sereianos e outros. A maioria dessas espécies possui inteligência, cultura e sistema de valores próprios, que não estão sendo respeitados por nós. A exemplo dos Muggles, a bruxandade se considera muito superior a estas espécies. Dentro do Ministério da Magia, autoridades de alto escalão disseminam esta crença. Bom, foi justamente esse tipo de declaração que levou à ascensão de Voldemort. É minha opinião que, enquanto nós bruxos agirmos e pensarmos desta maneira, não estaremos agindo melhor do que ele. Não apenas isso: estaremos dando margem à ascensão de um novo Voldemort, pregando superioridade e supremacia. Estaremos também repetindo os erros do passado, da mesma forma que os atos após a derrota de Grindelwald deram origem à ascensão de Voldemort. Convoquei essa coletiva para pedir que vocês, jornalistas e jornais, engajem-se nesta campanha, num esforço de educação e de pressão política para que a igualdade entre espécies mágicas seja reforçada em nosso sistema legal também. Reconheço que é uma tarefa de grande monta, mas grandes conquistas só são alcançadas após o primeiro passo ser dado. Sei que sou apenas uma pessoa. Em minha vida, fui empurrado à condição de celebridade por força das circunstâncias, mas estou disposto a usar essa condição para levar adiante essa causa. Na minha opinião, essa é uma causa pela qual vale a pena emprestar a minha fama.

O burburinho tinha parado, e o único barulho no salão era o de penas escrevendo em bloquinhos e as máquinas fotográficas tirando chapas e chapas. Jay admirou a determinação e a segurança do rapaz, que deixou claro:

– Para demonstrar que estou realmente empenhado nessa causa, quero anunciar a criação da Fundação Albus Dumbledore para Proteção de Criaturas Mágicas. Não só é uma homenagem a um grande homem, que sempre pregou e promoveu a interação entre espécies, mas também vai ser um local de abrigo a qualquer uma destas criaturas que se sentir assediada, ameaçada ou prejudicada. Ele vai funcionar em Wiltshire, nos terrenos da antiga Mansão Malfoy. Neste intuito, gostaria de fazer um convite a todos os bruxos que tiveram ou têm sangue Koboldine na sua árvore genealógica, para que se apresentem a fim de podermos repopular o mundo com essa espécie tão rica e que tanto fez pela bruxandade. Todos serão tratados com dignidade e respeito, e terão suas identidades preservadas, se assim preferirem. Desejo aqui enfatizar a importância de reunirmos os últimos descendentes desta espécie, que corre o risco de realmente se extinguir se nada for feito. Bom, pretendo fazer alguma coisa para evitar que esse patrimônio tão rico simplesmente desapareça do mundo bruxo e de nossa herança genética.

O silêncio era sepulcral. Então as varinhas começaram a se acender. Mais do que depressa, Jay também acendeu a sua. O pergaminho rapidamente se enchia de nomes, e Harry Potter finalizou:

– Em seguida, passaremos às perguntas. Quero assegurar que nesta entrevista não há, dentro do limite do razoável – Novo olhar fulminante contra Rita Skeeter –, perguntas proibidas. Mas posso me reservar ao direito de não responder perguntas que violem minha privacidade ou de minha família. Podemos começar.

Jay notou que Harry Potter procurou o seu marido, Severus Snape, só com os olhos. Os dois certamente trocaram alguma mensagem não-verbal, porque o Conquistador visivelmente pareceu ficar mais relaxado. Então, a voz portentosa de Kingsley Shacklebolt desviou a atenção de Jay, ao chamar o primeiro inscrito:

– O primeiro a perguntar será Sacha Borat, do Diário da Romênia.

A enxurrada de perguntas começou. Como prometido, Harry Potter só se negou a responder perguntas sobre sua intimidade e sobre seus amigos. Ele confirmou ter se tornado herdeiro do patrimônio das famílias Black e Malfoy, mas, com o retorno de seu padrinho Sirius Black, ele teve que devolver parte desses bens. O Conquistador, o Menino-Que-Sobrevivera, polidamente sugeriu a Rita Skeeter procurar o Ministério da Magia para saber detalhes da anistia concedida a seu marido, lembrando-a que ele estava num coma mágico na ocasião. Ao repórter do Wizarding London, Potter também confirmou o casamento com Severus Snape, por amor, e Hermione Granger atestou que nada houvera de impróprio entre os dois durante os anos de Hogwarts. Então chegou a vez de Jay, que usou o Feitiço Sonorus em si mesmo para indagar:

– Sr. Potter, se realmente ainda existem Koboldines no mundo bruxo, podia nos apontar alguma evidência? Talvez possa nos dizer quem são os Koboldines que ajudaram na derrota do bruxo das Trevas?

Harry Potter sorriu para ele, como se agradecesse a pergunta, e então respondeu:

– Infelizmente, um dos Koboldines que mais nos ajudou também deu sua vida pela derrota de Voldemort. Nenhum de nós jamais se esquecerá deste grande homem. Como ele morreu e não está mais entre nós para falar sobre esse assunto, prefiro não divulgar seu nome. Mas ele não foi o único, posso garantir.

Mesmo sabendo que só podia fazer uma pergunta, Jay arriscou:

– Poderia nos dar o nome de outros Koboldines?

O sorriso se ampliou ainda mais:

– Vocês vêm falando com um Koboldine há mais de três horas. Viu como existem muitos de nós ainda pelo mundo bruxo?

E a confusão estava formada.

Nunca, em toda a sua vida, Jay viu outra coletiva como aquela. E ele nunca esperou ver.

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Ele recebeu um tremendo sorriso da secretária.

– Bom-dia, Elisa. Cada vez mais charmosa. Quando você vai deixar aquele seu namorado sem graça e fugir comigo para uma ilha romântica no Caribe?

Elisa já sabia de cor e salteado todas as tiradas galantes de Sirius Black. Nunca tinham sido a sério, mas fazia tão bem ouvir os galanteios mesmo assim...

– Bom-dia, Sr. Black. Deixarei meu namorado assim que o senhor deixar o seu namorado.

Touché. Linda e irredutível. Meu coração sangra com sua beleza cruel. – Ele não perdeu o bom-humor. – Harry está muito ocupado?

– Não, ele só está falando com alguns dos legisladores. Ainda não foi marcada a data da votação da nova lei.

– Meu afilhado virou um político. Um lobbista, ainda por cima.

– Ele disse que vai passar alguns dias fora – cochichou a secretária. – Ele nunca fez isso antes, desde que criou a fundação.

– Mesmo? – Sirius franziu o cenho. – Acho melhor falar com ele. Posso entrar?

– Claro. Ele está com o Sr. Severus.

– Eu já estava adivinhando. – Sirius fez uma careta. – Seria bom demais conseguir falar com Harry sem o morcegão por perto.

Sorriu para a moça, passando ao gabinete na antiga Mansão Malfoy. Encontrou Harry falando com uma pessoa na lareira:

– ... e isso implica que precisamos dar uma grande demonstração de força. A votação precisa ser esmagadora. Conto com você.

A pessoa do outro lado encerrou a comunicação e o rapaz se virou, dando de cara com o padrinho:

– Sirius! Que milagre vê-lo aqui cedo.

– Sim – concordou Severus, sem erguer a cabeça da escrivaninha, lotada de papéis. – Você geralmente só nos graça com sua presença muito depois do almoço.

O Animago respondeu:

– Teria vindo mais cedo mesmo antes de ouvir a notícia que acabo de receber. Você pretende passar alguns dias fora?

Harry procurou não enrubescer:

– Sim, Severus e eu pretendemos visitar alguns amigos. Não vamos demorar muito, só uma semana, talvez mais.

– Sei – falou Sirius, desconfiado. – Agora me explique que amigos são esses e por que você está se afastando de uma causa que defende há quase 10 anos num momento tão crucial.

– Sirius, eu não tenho escolha. Estou indo visitar Berenkor e Plonk no Reino. Severus e eu precisamos de um tempo.

– Mas a lei vai ser votada a qualquer momento!

– Eu sei. Mas não posso adiar isso, você sabe.

– Não, não sei. Como você e Snape não podem...? – Ele se interrompeu, desconfortável. – Ah, hum. Claro. A tal... er, lua-de-mel de vocês, não?

– O nome é Nitescência – esclareceu Severus, claramente divertindo-se com o desconforto de Sirius. – Só acontece a cada nove anos. E na verdade, vamos ao Reino para tentar uma gravidação.

– Que diabo é isso?

Harry enrubesceu, e Sirius fez uma careta:

– Não, pensando melhor, não quero saber. E já se passaram nove anos? Droga. Justo agora?

– Não precisa se preocupar. Remus vai acompanhar as votações como representante da Fundação. Vou deixar um pronunciamento gravado para ser transmitido com um Pensieve durante a sessão preliminar, de discussão da proposta.

– Está bem, então. Espero que desta vez vocês aproveitem mais daquele lugar.

– Oh, esperamos aproveitar, sim – garantiu Harry, sem nem ficar vermelho. – Com sorte, traremos até uma lembrancinha...

Severus tentou esconder um sorriso sarcástico, mas Sirius percebeu tudo e gritou:

– Eu não quero saber!

Harry riu-se, e a porta abriu-se. Elisa entrou com o resto da correspondência, saindo em seguida. Uma delas fez Harry perder o sorriso.

– Umbridge está tentando reverter os votos da Cornualha. Ela mandou Percy Weasley garantir direitos a alguns dos delegados na Confederação dos Bruxos.

Severus ironizou:

– Eles não têm nem imaginação. É o mesmo truque que usaram na regulamentação da Lei Lupercalia, de direitos dos lobisomens. Perderam antes, vão perder de novo.

– Ainda assim, preciso apagar esse incêndio – disse Harry, levantando-se. – Vou dar um pulo no Ministério e falar com Ron. Posso deixar vocês dois sozinhos sem se matarem?

Sirius sorriu:

– Se conseguimos nos manter vivos esse tempo todo, por que iríamos mudar agora?

Severus só ergueu uma sobrancelha, e Harry teve que rir antes de deixar a sala, via Floo. Sirius então olhou para Severus e sentou-se perto dele.

– Então. Nove anos, hein?

– Precisamente. Aposto que você não imaginou que ficássemos juntos tanto tempo.

– Bom, na verdade eu mais esperava do que imaginava. Mas admito: Harry está feliz com você. Isso, sim, é um mistério.

– Para mim, mistério é Lupin agüentar você esse tempo todo. Desta forma, acredito que seja um empate.

– Snape, é um milagre que tenhamos permanecidos vivos esse tempo todo. Especialmente Harry. Ele pode estar se dando bem como lobbista e político de bastidores, mas ainda tenho calafrios e pesadelos com os lacaios de Voldemort que conseguiram escapar.

– Não seja exagerado, Black. Há anos não se ouve falar em nenhuma atividade de Death Eaters.

– É? E quanto a Ginny Weasley?

– O que tem ela?

– Ela pode não ter a marca, mas você sabe tão bem quanto eu que ela traiu Harry. Ela quase o vendeu para Voldemort!

– Espero que você não ande repetindo isso por aí, Black. Harry ficaria muito decepcionado.

– É claro que eu nunca falei nada sobre isso para ninguém. Mantive segredo esse tempo todo. Mas nunca entendi por que ele me fez obliviar aquela traidorazinha.

Severus o olhou com atenção para ver se ele estava mesmo falando sério.

– Mas vamos ter que discutir isso de novo? Black, se depois de todo esse tempo, você ainda não conseguiu entender o motivo, você é um idiota ainda maior do que eu sempre pensei.

Irritado, Sirius comentou:

– E eu que pensei ter dito a Harry que não nos mataríamos. Do que está falando, Snape?

– Pense um pouco. O que você acha que aconteceria se a Srta. Weasley tivesse sido exposta como espiã? No mínimo, teria havido um inquérito. Você tem uma idéia de como isso afetaria os Weasley, eu presumo. E os Weasley são a coisa mais próxima de uma família que Harry teve. Sempre foram sua família substituta. Ele faria qualquer coisa para evitar o sofrimento deles. Incluindo a própria Srta. Weasley. Ele também gostaria de evitar o que ela sofresse.

– Ainda assim, ela deveria ter sido punida.

– O Lord das Trevas a deu como diversão para Fenrir Greyback. Isso não é punição suficiente?

– Sinceramente, para mim, parece pouco. Ela está viva e sequer se lembra do que fez. Deveria estar sofrendo, sabendo que traiu Harry e toda sua família. Aliás, é outra coisa que não entendo. Eu só dei um Obliviate. Como ela ficou tão... lesada?

– Os médicos disseram que foi a combinação de feitiços, mais do que a sua incompetência com feitiços de memória. Pode ficar tranqüilo quanto a isso. Eles também não descartam síndrome pós-traumática.

– Você acha possível que Voldemort tenha conseguido exercer algum tipo de controle mental sobre a moça? Afinal, ele já a tinha possuído naquele episódio da Câmara Secreta.

– Claro que isso pode ser possível. Pessoalmente, porém, estou convencido de que a iniciativa partiu da própria Srta. Weasley. Ela mesma tentou um acordo com o Lord das Trevas, sem ajuda de feitiços, possessões ou coisas semelhantes.

Sirius revelou, ainda abalado:

– Ela confessou. Quando eu fui até ela, disfarçado de Harry com Polissuco, ela confessou que não merecia ser salva e que tinha traído todos. Sabia o que tinha feito.

– Interessante. Então ela tem uma consciência.

– Viu? Por isso é que não entendo por que Harry iria querer salvar essazinha. Se eu tivesse algum poder de escolha, eu a teria levado até os Aurores e a trancaria em Azkaban. – Sirius encarou Severus. – O que você teria feito?

– Eu a teria dado aos Dementadores primeiro, e o que sobrasse iria para Greyback, que com certeza a devolveria com suas entranhas expostas. Mas isso sou eu. Harry é pura compaixão. É sua natureza. Ele jamais poderia fazer algo assim com ela, do mesmo jeito que não poderia usar uma Maldição Imperdoável, nem para matar o Lord das Trevas. Harry simplesmente tem amor demais dentro de si para fazer essas coisas. Você deveria saber disso, Black. Harry o ama demais.

As palavras foram duras, mas o tom de Black não era nem de longe ácido:

– Se ele é capaz de amar você, Snape, ele pode amar o mundo todo. Harry é incrível. Espero que você se dê conta de como você tem sorte.

Severus ficou em silêncio um segundo, antes de responder:

– Mais do que imagina.

– E se você algum dia o magoar, você sabe o que o espera.

– Você não me assusta, Black. Você late, mas não morde. Já o seu namorado...

– Não quando se trata de Harry. Se você o magoar ou o machucar, vou fazer você se arrepender do dia em que nasceu, e também de tudo que você fez depois desse dia. Estamos entendidos?

Um barulho na lareira interrompeu o diálogo. Harry entrou nesse momento e franziu o cenho:

– Eu ouvi direito? Vocês estão se entendendo?

– Para você ver – sorriu Sirius. – E, er, estávamos combinando que Remus vai molhar suas plantas enquanto vocês estiverem fora. Tudo bem?

Harry os encarou, e quando viu Severus desviando o olhar sem responder, ele teve certeza de que tinham mentido para ele. Tentando suprimir um sorriso, beijou a testa de Severus, dizendo:

– Que bom que vocês dois estão se entendendo. Mas ainda há muito a fazer antes de arrumar as malas. Podemos cuidar das plantas mais tarde.

Severus ergueu o canto do lábio, sentindo um calorzinho por dentro. Os primeiros sinais do inebriante aroma de pêssegos começavam a aparecer no ar, atraindo-o para Harry. Logo ele estaria no Reino com seu pesseguinho, desfrutando-se mutuamente, trazendo equilíbrio e contentamento. Com sorte, eles trariam algo mais. Um filho, que Harry pretendia carregar.

Mas essa era uma surpresa para mais tarde. Surpresas como as que Severus estava começando a se acostumar. Sempre muito metódico, o introspectivo mestre de Poções por toda sua vida cultivou um genuíno horror a surpresas. Contudo, desde que unira a Harry, ele descobrira que nem toda surpresa queria dizer morte, tortura ou caos. Surpresa, agora, podia ser algo bom. Podia fazer bem. Podia produzir esse calorzinho. Era uma sensação nova para ele.

Com sorte, essas surpresas ainda ficariam muito tempo com ele. Assim como seu pesseguinho.

E, quem sabe, com mais um novo pessegozinho para cuidar e amar.

The End

E é isso. Acabou. Obrigada por lerem tudo isso. Desculpem as noites mal-dormidas e eventuais ataques de ansiedade.