CAPÍTULO III

Rosana chegou a uma casa confortável na beira de um penhasco, onde o mar batia revolto contra os rochedos lá embaixo. Entrou na sala, um pequeno aposento mobiliado com bom gosto e poucas peças. Um sofá, duas poltronas e uma mesinha entre eles. Havia também vários quadros nas paredes e um tapete em frente à lareira de pedra. No outro lado da sala existia uma pequena estante cheia de livros. Apesar de ser um aposento com algumas janelas, estas ficavam embaçadas por causa da forte maresia e deixavam o pequeno aposento sombrio, mas aconchegante.

Assim que entrou, acendeu a lareira com a varinha. Jogou a capa sobre o sofá e sentou a um canto dele, dizendo:

― Boa dia, Dumbie - ela não se virou para olhá-lo, mas sabia que estava ali. - Não o esperava tão cedo.

Dumbledore se aproximou do sofá onde Rosie estava e se sentou calmamente. As barbas prateadas, os oclinhos de meia-lua, os olhos extremamente azuis; estava tudo ali envolto em vestes turquesa. Ele a fitou com carinho e por fim falou:

― Bom dia, criança. Pelo que vejo não dormiu em casa, não é? - disse pausadamente. - Aliás, não dormiu nada.

― Não - foi seca.

― Não gosta daqui? - seu tom era preocupado. - Posso arranjar outra acomodação, se desejar.

― Aqui está ótimo, obrigada - por fim fitava seus olhos. - Não se preocupe comigo.

― Entendo - a conversa era difícil. - Rosie, conseguiu fazer o que lhe pedi?

― Sim e não - ela desviou o olhar e se levantou. - Saberemos hoje. Malfoy não me adiantou nada, ou seja, teremos que esperar eu me encontrar com Voldemort.

― Sinto envolver-lhe nisso - pela primeira vez ela sentiu uma nota de hesitação nas palavras do maior bruxo do mundo. - Eu não queria expô-la.

Rosie estava de pé e o encarou. Sorrindo com desdém, disse:

― Não queria me envolver? - lhe deu mais um sorriso, ele não se alterou. - Já me envolveu há mais de trinta anos. É muito tempo, não?

― É muito tempo, mas tive meus motivos, e já os expliquei - ele foi firme.

― Porque mandou Severus me seguir? - ela andou pela sala. - Ele não é um agente duplo? Poderia estar arriscando todo o seu trabalho.

­ ― Era o mais indicado para fazer isso, não levantaria suspeitas pelo mesmo motivo que você acabou de citar - falou num tom paternal como sempre fazia. - E eu não queria arriscar. Snape ainda é um fiel Comensal para eles.

― Não faça isso de novo, por favor - disse. - Sei me cuidar, diretor.

― Você não o perdoou, ainda o culpa pelas mortes dos Baker - Dumbledore só mexia os olhos acompanhando-a. - Se tem que culpar alguém, culpe a mim.

― Quem dera fosse só isso, Dumbie - ela sentou de novo no sofá ao seu lado, o tom de rebeldia se fora. - Sabe que há muito mais envolvido. Coisas nas quais eu não gostaria de remexer, o passado não foi fácil de enterrar.

― Nada se enterra, Rosie - ele segurou suas mãos entre as dele. - Quanto mais fugimos de nossos erros, mas eles nos alcançam. Acredite, eu sei - e sorriu complacente.

― Nunca me contou como conheceu minha mãe - ela mudou o assunto e o olhou profundamente.

― Sua mãe - deu uma tossidinha - Era muito parecida com você. Os mesmos olhos, os cabelos... queria ganhar o mundo. Uma excelente aluna. Sentava sempre nas últimas carteiras da sala, mas era atenta a tudo ao seu redor. Sabe que muitas vezes me perguntei se o chapéu não tinha errado ao colocá-la na Sonserina? É claro, havia a influência dos pais, mas...

― Eu já ouvi uma coisa parecida a meu respeito - disse ela sorrindo francamente pela primeira vez ali dentro com ele. - Snape disse isso ontem à noite. Aparentemente não gostou de me ter como colega de casa. Olha que éramos muito amigos ou algo parecido. Trocava mais palavras comigo do que com os outros.

― Eu sei, minha querida - sorriu bondosamente. - E se não me falha a memória você o trocou por Lucius Malfoy naquela época.

― Dumbie, eu era uma adolescente - encarou seus olhos azuis -, que durante três anos amargou o fundo da sala, usava óculos e tinha receio do quem era - e sorriu. - As minhas formas mudaram conforme eu cresci, naturalmente. Você me ensinou a controlar minha magia, me deu segurança, talvez até demais - suspirou. - O que ele esperava receber de mim? Nunca falou nada a respeito de nós ou de seus sentimentos - sua voz embargou. - E depois do que ele fez, esperava receber amor?

― E, por acaso, não é o que você sempre lhe dedicou? - ele a viu corar.

― Não sei aonde quer chegar, professor - Rosie disse fria.

― Eu não posso interceder como gostaria nesse caso, mas poderia tentar ver as coisas por outro ângulo - os olhos de Dumbledore piscaram atrás de seus oclinhos. - Eu confio em Severus, mas não posso fazê-la acreditar nele, pelo menos enquanto não admitir seus sentimentos e ele, os dele.

― Eu puxei a minha mãe, não há dúvidas - brincou com os próprios cabelos, enrolando-os. - Escute, vou lhe contar uma história, talvez o faça entender melhor essa delicada situação. - ela estalou os lábios, e começou: - Você sabe que meus tios eram partidários de Lorde Voldemort, acho que não preciso dizer que eles eram meus pais, nessa época - ela o fitou com curiosidade. - Eu ainda namorava Lucius quando deixei Hogwarts, mas pouco tempo depois terminamos. Uns seis meses antes dos Baker morrerem, Severus se aproximou de mim - Rosie baixou os olhos, sua voz estava embargada. - Como sabe, ele sempre me fascinou, era tão sofrido quanto eu. Não pelos mesmos motivos, é claro, seu pai era um homem irascível, e eu... Bom, os Baker não gostavam do que eu podia ver e ouvir, a manipulação dos pensamentos das pessoas sem o uso de maldições. Aquilo era estranho, mesmo eles sendo bruxos de uma casa tão famosa, e adorarem arte das trevas. Depois eu entendi o porquê. Muito depois - o encarou com tristeza. - Então, como eu dizia, éramos muitos parecidos nesse ponto, nos aproximamos... para mim além da simples amizade, mas ele nunca se pronunciou a respeito de algo mais forte. Enquanto Lucius o fez... E-eu queria namorar, beijar como qualquer moça da minha idade. Malfoy era galanteador, bonito, inteligente e, acima de tudo, um puro-sangue sonserino. Ele era mais velho do que eu uns quatro anos, diferente de Severus - tomou folêgo e continuou a narrativa para um ouvinte muito atento. - Imagina o que isso não ocasionou na família, não é? Enfim, eu começava a parecer normal. E depois, quando Lucius me persuadiu a compactuar com as idéias de Voldemort, virei a normalidade em pessoa. É verdade que se eu tivesse aceitado virar uma Comensal naquela época teria carimbado minha descendência sangüínea e honrado os Baker, mas eu tinha minhas dúvidas, como uma boa herdeira da outra parte do meu sangue.

― Não vai concluir, Rosie? - deu-lhe um sorriso encorajador. - Algumas dessas coisas eu já sabia, outras me reservei ao direito de especular a respeito, e devo dizer que cheguei bem próximo da verdade.

― Bom, já que comecei e você quer saber o final... Lá vamos nós! - ela se acomodou mais confortável no sofá e para surpresa do bruxo, deitou sua cabeça em seu colo. - Não preciso dizer que fiquei completamente abobada com aquela situação. Depois de anos Severus estava ali me pedindo para sair. É evidente que eu não recusei, não sonharia em mil anos fazer isso. Uma semana depois ele entrava com um grupo de Comensais pela casa dos Baker, os torturava até arrancarem deles a confissão de que não eram meus pais e os matara. Sei que não foi ele quem matou ninguém ali, mas assistiu e me levou para Voldemort. Entenda, eu era um troféu e não sabia. O Lorde gostou de me ver ali, saber que a missão tinha sido bem sucedida. Foi quando ele me contou, diante de todos os outros Comensais, quem eu realmente era. Senti o sangue aflorar em minha face, Dumbie... senti ódio de todos, até dos Baker! A maneira sórdida com que ele expôs os fatos! - Rosie encarou Dumbledore. - Então, Voldemort disse que me ensinaria a usar minha magia de forma correta e me ofereceu fazer parte do grupo. Não preciso dizer que eu aceitei e fui marcada naquela noite mesma.

Dumbledore continuava fitando-a com interesse, esperando, analisando cada palavra. Rosie continuou:

― Não nego que cometi alguns delitos dos quais não me orgulho nenhum um pouco, mas nunca matei ninguém. Uma vez Snape me livrou de uma enrascada. Tínhamos saído para comemorar a missão bem sucedida do dia anterior, estávamos bebendo. Todos já haviam passado do limite da sanidade e quiseram se divertir com um trouxa que acabara de sair do bar. Nós o seguimos, é engraçado o efeito que o álcool em excesso provoca nas pessoas. Normalmente não me empolgaria com tal situação, mas me vi seguindo os outros. Severus estava ao meu lado, tentou me impedir, mas foi inútil. Ainda me lembro da cara de desaprovação dele. Então, depois de nos divertirmos bastante com o pobre homem, me pediram que, como prova de lealdade ao Mestre, matasse-o. Ele estava ali estuporado, sangrando, praticamente sem rosto... - ela ficou pálida e Dumbledore passou as mãos em seus cabelos, acarinhando-a – Eu apontei minha varinha na direção dele, mas Severus se colocou na minha frente, empurrando-me para longe. Foi a única vez que o vi matar alguém, e eu teria feito se ele não tivesse me impedido, isso me aterrorizou. Instantes depois ele se voltou para mim e eu me vi desmaiando em seus braços. Quando acordei estava deitada em sua cama, num quarto de pensão. Deve ter me dado alguma poção para relaxar, eu ainda estava meio grogue. Ele dormia ao meu lado, tão sereno - Rosie parou como se duvidasse em prosseguir, mas respirou fundo e continuou a narrativa. - Foi ali naquele quarto de pensão que Severus Snape se tornou o primeiro homem da minha vida e mesmo assim nunca falou sobre seus sentimentos.

Ela sentiu que ficara igual a um pimentão, mas Dumbledore não falou nada.

― Depois desse dia só vi Severus mais uma vez. Posterior a umas das sessões de autocontrole de Voldemort. Acho que ele tinha medo que você usasse de legilimência comigo - deu um pálido sorriso para o rosto acima de sua cabeça. – Voldemort queria que eu lhe revelasse qual menino era o da profecia ouvida por Snape no bar, e eu não soube dizer, não conseguia ver seu futuro, mesmo que eu pudesse sentir suas vibrações não era o suficiente. Não fui eu quem profetizara nada daquilo. Lembro-me que Voldemort ficou alucinado, fora de si. Tentou penetrar na minha mente para ver se eu mentira, mas eu não deixei, ele cometera um erro, me ensinara muito bem oclumência, até mais do que isso, e mesmo que soubesse eu não diria. Voldemort me lançou algum feitiço e saiu. Não pude me defender, estava sem minha varinha - Rosie se sentou novamente ereta no sofá. - Só me lembro de acordar, naquele mesmo dia, na enfermaria de Hogwarts e você me contar a outra parte da história.

― Você não sabe que quem a levou para lá foi Severus? - ele a fitou.

― Não - as palavras morreram em sua boca.

― Eu lhe contei que Snape sempre soube quem você era. Desde que veio para o nosso lado. Bom, ali ele já estava conosco - Dumbledore completou calmamente.

Rosana, estupefata, o olhou. Ele não só a salvara novamente como ainda lhe dera cobertura para voltar.

― Porque não me contou antes? - ela falou.

― Cada coisa a seu tempo! Essa é a hora de você saber quem é Severus Snape - ele sorriu para ela. - Venha, deite-se. Eu tenho uma outra história para lhe contar.

Rosana começou a ouvir a narrativa sobre a vida de Snape. Ela prestava atenção a cada detalhe do que o professor dizia. E passou a tomar consciência de fatos que pertenciam somente aos dois e tudo começou a fazer sentido em sua cabeça.