As coisas tomaram rumos inesperados nas semanas seguintes. O Lorde das Trevas já não admitia longas ausências por parte de Snape, talvez devido a missão de Draco e de seu humor, que se tornara insuportável. O fato era que Severus agora tinha que ocupar uma residência fora de Hogwarts, uma velha casa em um decrépito bairro londrino.
Dias antes do início das aulas, Narcissa o procurou com o firme propósito de pedir que ele intercede-se por Draco junto a Voldemort. Bellatrix havia ido com a irmã e não parecia nada satisfeita com o pedido feito a Snape. Infelizmente ele não teria como obter tal indulgência do Lorde, porém prometeu cuidar do menino. Aquilo aparentemente não foi o suficiente para a mulher loira a sua frente largar suas vestes, e interromper seu pranto.
Sabia que Draco tinha sido praticamente forçado a se aliar aos Comensais, apesar de que "titia" Bella devia tê-lo atormentado com seu fanatismo em servir a Voldemort incondicionalmente. O menino por sua vez não tinha culpa de ter uma tia louca ao seu lado aconselhando-o. Snape fitou Narcissa, que estava aos prantos, entregue ao desespero, e ouvindo mais uma meia dúzia de provocações de Bella, tomou sua decisão.
Ele tinha consciência das intenções do Lorde em usá-lo caso Draco falha-se. Sabia que estava chegando também a hora em que teria que obedecer o pedido feito por Dumbledore semanas antes, durante uma conversa que ambos tiveram sobre as horcruxes. O Diretor o havia lembrado de seu voto, quando contou sobre uma premonição da professora Trelawney. Parecia que o receio dos dois se tornava real e Dumbledore o impedia de agir na tentativa de evitar o pior.
Aqueles pensamentos cruzaram sua mente como um raio. Rosie, ela sim o preocupava mais qualquer outra pessoa. O que ela diria do que ele estava prestes a fazer naquele ano? E ele não tinha com explicar nada a ela! Snape não poderia ir com o Diretor visitá-la. Estava preso àquela casa com seus móveis bolorentos e seus vidros turvos, estava preso às suas promessas, preso ao seu passado e suas escolhas erradas. Só Merlin sabia quando isso se resolveria. Talvez fosse tarde demais e ele iria perder tudo que mais amava na vida.
Na realidade Severus Snape já não podia voltar atrás. Todas as cenas dos quinze dias com Rosie formaram um filme em sua cabeça, toda aquela felicidade não era para ele. Severus Snape era um Comensal, um traidor, e muito que provavelmente seria um assassino frio e cruel. Ele não era o marido ideal para Rosie, porque acreditara nisso? Por que simplesmente a amava mais do que a si mesmo.
Snape controlou seu próprio desespero e se fixou nos olhos lacrimosos de Narcissa. Afastou seus pensamentos, suas lembranças e suas emoções. Desviou seu olhar sem encarar Bellatrix, aquela mulher o enojava mais do que Pettigrew. Então Narcissa perguntou se ele seria capaz de fazer um Voto Perpétuo, e interiormente ele riu de si mesmo. Repetiu as palavras de Narcissa e logo depois ouviu a gargalhada vitoriosa de Bella. Revoltado com a situação e consigo mesmo, respondeu à mulher loira:
― Certamente, Narcissa, farei o Voto Perpétuo - disse baixinho. - Talvez sua irmã aceite ser nossa avalista.
O queixo de Bellatrix havia caído no momento em que Snape se ajoelhou em frente a sua irmã, quando uniram suas mãos direitas. Mesmo assombrada com a cena, ela aproximou a ponta de sua varinha e a colocou sobre as mãos unidas. Conforme Narcissa ia pronunciando o juramento e Snape aceitando-o, línguas de fogo saíam da varinha e entrelaçavam-se as suas mãos como arame em brasa.
Naquela noite Rosie não conseguiu dormir direito, algo lhe atormentava a alma. Acordara assustada, seu rosto estava embebido em lágrimas, o coração disparado. Sentiu-se sufocar e levantou para abrir a janela. Estava em pé na sacada, com a brisa fria da noite revolvendo seus cabelos soltos. A lua cheia ia alta derramando o luar sobre as casas e ruas. Rosie fitou os oponentes monumentos de pedra no horizonte, que refulgiam a luz da lua, e grossas lágrimas desceram por seu rosto.
Ela fechou os olhos, podia ver claramente a cena que a pouco a deixara tão perturbada. Snape e Dumbledore estavam com as mãos direitas unidas, alguém se aproximou com a varinha em punho. Feixes de fogo saíram da ponta da varinha entrelaçando-se as mãos dos dois, o foco de sua visão mudou para quem empunhava a varinha no momento: o rosto tomou um contorno de mulher, os cabelos castanhos, a pele morena; novamente viu as mãos unidas e dois vultos ajoelhados. Percebeu que o ambiente era outro, o escritório do Diretor sumira dando lugar a uma sala pequena com uma poltrona puída e uma mesa bamba, Snape agora unia a sua mão a de uma mulher loira.
Para assombro de Rosana, a imagem se definiu e ela viu surgirem as figuras de Bellatrix e Narcissa. Bella empunhava a varinha enquanto a mão de Ciça e Snape estavam unidas, as grossas línguas de fogo selaram o pacto. Rosie estendeu a mão tentando tocá-lo, mas foi arrastada para fora da cena por alguma coisa invisível, como sempre acontecia. Agora estava numa das torres de Hogwarts, Dumbledore a sua frente, amparado na parede de pedra, muito fraco e pálido. Ela sentia sua pulsação diminuir conforme ele falava com um menino loiro, que estava de costas para ela naquele instante. Rosie não precisava ver-lhe as feições para saber que era Draco Malfoy. Havia mais alguém ali, ela podia sentir sua respiração, seu desespero perante a cena, mas não o via. Sabia que Harry não podia se mexer, estava imobilizado por um feitiço. Rosie tentou ouvir o que o Diretor dizia, mas as frases chegavam entrecortadas aos seus ouvidos. Ela então percebeu que Malfoy lhe apontava a varinha e hesitava em matá-lo.
Rosana estava tão impotente quanto Harry na cena, mas a angústia de ambos era a mesma. A porta ao lado de onde o menino estava imobilizado se abriu, e por ela entraram alguns Comensais conhecidos de Rosie e mais uma figura de quem ela já ouvira falar muitas vezes e reconhecera imediatamente, o lobisomem Greyback. O que se seguiu foram minutos de horror puro, era como se voltasse aos seus dezoito anos. Viu os Bakers, sua casa, o medo percorreu-lhe o corpo como naquela noite, e fechou seus olhos suplicando a Merlin que tudo desaparecesse. A porta se abriu mais uma vez, e Severus entrou por ela, Rosie sentiu um alívio momentâneo. Ele empunhava sua varinha, houve um alarido por parte dos presentes e Snape virou-se para Dumbledore. Tudo que ela conseguiu ouvir da boca do Diretor foi: "Severus". Então Snape retirou Draco do caminho, ergueu sua varinha e a apontou na direção de Dumbledore. Ele ainda fitou o Diretor por alguns segundos e este lhe sussurrou novamente: "Severus, por favor". Um jorro de luz verde saiu da ponta de sua varinha atingindo Dumbledore no peito. "Nããooo! Paai!", o grito de Rosana foi sufocado pelas lágrimas que caíam em cascatas pelo rosto e molhavam as veste. Ela correu na direção da murada, mas já era tarde demais, o corpo flutuou até colidir com o chão. Rosana fechou os olhos e deixou-se cair de joelhos no chão frio de pedras da torre de Astronomia, e levando as mãos ao rosto, cortou o silêncio da noite com soluços.
Rosie tinha que sair dali, aquelas visões eram verdadeiras. Precisava andar, pensar. Vestiu uma capa preta e desceu as escadas, àquela hora não havia ninguém andando pelos corredores da casa. Deslizou sem fazer barulho até a entrada do prédio e, pronunciando algum feitiço, abriu a porta do edifício. Alcançou as ruas ainda cheias do Cairo e perdeu-se na noite.
Já devia estar andando a mais ou menos duas horas quando chegou as ruínas. Eram casas construídas com areia no tempo em que os cristãos chegaram ao Egito, ou algo parecido. Rosie entrou no pedaço de deserto que surgia a seus pés, o luar fazia a areia reluzir e iluminava seu caminho. Sua vontade era se enterrar ali no meio do nada. A brisa continuava soprando fria.
As lágrimas voltaram aos seus olhos, fitou a lua e os fechou. Escorregou até o chão de areia e escondeu seu rosto sob os joelhos. A única cena que via era o rosto transtornado de Severus. Então ela temeu, temeu mais ainda o que vira. Lembrou-se das palavras do pai, da conversa que tivera com ele. Dumbledore pedira a ela que confiasse incondicionalmente nos dois. Controle era tudo do que precisava naquele momento. Tinha que usar a razão, mas "Droga! Dumbledore era seu pai e iria morrer pelas mãos do seu marido!?" Nada mudaria isso, as escolhas já haviam sido feitas, caso contrário Rosie não teria tido a visão. E o pior: sabia exatamente quem fizera a escolha. A dor que sentia era lancinante e o grito rouco dela se perdeu no deserto.
Bittersweet
Apocalyptica
Ville
Eu estou desistindo do fantasma do amor e de uma sombra moldada em devoção
Lauri
É ela que eu adoro, rainha do meu silêncio sufocante
Ville e Lauri
Quebre este feitiço amargamente doce em mim, perdido nos braços do destino
Ville
Amarga doçura
Lauri
Eu não vou desistir, estou possuído por ela
Ville
Estou carregando uma cruz, ela está se tornando minha maldição
Ville e Lauri
Quebre este feitiço armagamente doce em mim que está perdido nos braços do destino
Lauri
Amarga doçura...
Lauri
Eu quero você...
Ville
Eu só quero você...
Lauri
E eu preciso de você...
Ville
Oh eu só preciso de você
Ville and Lauri
Quebre este feitiço amargamente doce em mim que está perdido nos braços do destino
Ville and Lauri
Amarga doçura.
