A porta da casa de Ali se abriu e Rosie entrou por ela. O dia já havia raiado há algumas horas, e ela dirigiu-se diretamente para seus aposentos. Ao passar pela sala principal foi tirada de seus pensamentos por uma voz conhecida que conversava com seu tio Ali. Ela empurrou a porta e entrou. Assim que a viram, foi saudada.
― Rosie! - disse Ali. - Onde estava? Pedi a Jade que fosse lhe chamar, mas ela me disse que você deveria ter saído cedo.
― Bom dia, criança - falou o outro homem de barbas prateadas.
Os olhos de Rosie estavam perdidos na figura de Dumbledore em pé ao lado do tio. Ela não respondeu a nenhum dos dois, apenas correu na direção do pai e se atirou em seus braços. Apesar de estar tão aturdido quanto o amigo, ele a acolheu carinhosamente. Ali sorriu e fazendo uma leve mesura se retirou da sala, deixando-os a sós.
― Querida - Dumbledore passou a mão sob os cabelos dela -, o que está acontecendo?
― Eu vi! Você, Severus... Por quê? - foi tudo que ela conseguiu dizer antes de perder o pouco controle que tinha mantido até então.
― Acalme-se, Rosie - ele a fez sentar numa cadeira ali perto e sentou-se também.
― O que aconteceu a sua mão, papai? - disse olhando espantada a parte enegrecida no braço do Diretor.
― Primeiro me conte o que está acontecendo, depois falamos deste pequeno incidente - ele falou firme, encarando-a por detrás dos oclinhos.
― Me conte você, porque escolheu morrer! - ela o fulminava com seus olhos castanhos.
― Ah - ele respondeu calmamente -, eu deveria ter adivinhado, apesar de não possuir o mesmo dom que você, mesmo assim era fácil supor. - Dumbledore a fitou pensando: "Como ela é parecida com Melanie", e retomou suas palavras: - Rosie, eu sou dispensável nessa batalha, existem coisas muito maiores em jogo. Irei ajudar Harry a destruir as horcruxes e impedir o retorno de Voldemort através delas até chegar o meu momento... temo apenas que ele esteja próximo demais. - ela ia falar, mas calou-se a um gesto dele. - Infelizmente é preciso escolher entre perder uma batalha e ganhar uma guerra. Voldemort acha que me destruindo estará impedindo Harry de continuar, essa será sua ruína. Ele ficará mais vulnerável do que nunca.
― Pensou em mim? Ou só em Harry e na salvação do mundo? - sua voz era fria.
― Compreendo o que sente e entendo mais do que ninguém sua revolta - ele a fitava com seus olhos azuis mais profundos do que nunca. - Sei que não fui um bom pai. Nunca estive tão presente em sua vida quanto agora. Eu sinto a mesma coisa, Rosie. Só que antes de pensar em Harry e no mundo, como você colocou, estou pensando em você. Voldemort espera que com isso você saia do seu esconderijo.
― Eu o traí - Rosie baixou seus olhos -, mas sou eu quem deve pagar por isso, não você ou Severus.
― Você vai ficar exatamente onde está. - Aquelas palavras eram uma ordem. - Não vou permitir que ele manipule as vidas que bem quiser, eu já vivi a minha plenamente. E você e Severus terão seu tempo de fazê-lo também. Eu lhe disse isso uma vez e mantenho. Acha que eu permitiria que minha única filha se entregasse no meu lugar, Rosana?
― Não - murmurou. - Porque escolheu Severus para fazer isso?
― Criança, não sabemos ainda se será necessário que ele o faça - ele argumentou.
― Ele o fará, Dumbie - Rosie o fitou com os olhos suplicantes. - Acredite em mim, você já foi avisado e fez sua escolha... Por que ele?
― Severus ficará numa posição privilegiada ao lado de Voldemort - o Diretor falava com cautela. - Não pairará dúvidas sobre sua fidelidade ao Lorde, assim ele obterá informações preciosas sobre as horcruxes e ajudará Harry a liquidá-lo.
― Para seu plano dar certo todos deve, acreditar que ele é culpado do que fará - Rosana controlou sua voz embargada. - Como irá inocentá-lo?
― O professor Snape já está de posse de sua inocência: meus pensamentos! - ele colocou sua mão boa sobre as dela. - Confie em mim, se faço isso é principalmente por você. Eu a amo muito. Não iria me perdoar se algo lhe acontecesse ou se lhe deixasse desprotegida. Ele voltará para você são e salvo, eu lhe prometo. Tenho orgulho de Severus como pessoa, professor, amigo e, devo admitir, genro.
Rosana não falou nada, apenas beijou-lhe a mão e o abraçou. Foi um abraço profundo, o abrigo de ambos, a simplicidade de estarem ali como pai e filha e desfrutando ao máximo disso.
― Como conseguiu isso? - apontou com a cabeça a mão morta.
― Destruindo uma horcrux - deu-lhe um pálido sorriso. - E se não fosse por seu marido, eu provavelmente já estaria conversando com Merlin.
― Você não tem jeito, não é? - ela devolveu-lhe o sorriso meneando a cabeça.
― Creio que a juventude seja mutável, mas sendo a velhice um estado de alma... acho que me tornei um jovem aventureiro! - disse Dumbledore. - Sinto, minha querida, por Severus não ter vindo, mas ele lhe mandou isso - e passou as mãos dela um envelope lacrado.
― Obrigada, papai - Rosie fitou com carinho a caligrafia do envelope e o guardou. - O que vão fazer com Draco?
― A atitude de Severus impedirá que o menino vire um Comensal de fato - o Diretor ia continuar a falar mas foi interrompido por ela.
― Por isso ele fez um Voto com Narcissa - ela o encarou. - Sabia disso, não?
― Sim, soube hoje antes de vir - juntou as palavras um gesto de assentimento com a cabeça. - Ele fez bem, pensou rápido, se recusasse poderia levantar suspeitas indesejáveis sobre si mesmo.
― Parece que não posso lutar contra o que vocês dois decidiram fazer, ou melhor dizendo, contra o que você fará - Rosie ajoelhou aos pés dele e colocou sua cabeça em seu colo. - Eu queria que me deixasse ir, ficar com vocês lá! Estou com medo - fitou seus olhos extremamente azuis. - Eu o amo e não acho que tenha sido um mau pai, acho que foi o melhor presente que Merlin poderia me dar.
― Eu sei e fico feliz em ouvir isso, Rosie. Ia lhe contar tudo hoje, mas para minha surpresa você já sabia, sua sensitividade foi mais rápida do que eu. Lembra-se que lhe prometi não termos segredos? - ela assentiu e ele acariciou seu rosto com os dedos. - Porém acho melhor eu subir e tomar um banho, daqui a pouco servirão o almoço.
Dumbledore se levantou e imediatamente Rosie passou seu braço envolta do de seu pai e saíram da sala em direção a seus respectivos aposentos. Conversaram sobre amenidades até chegarem a porta dos quartos. Ela deu-lhe um beijo suave no rosto e entrou na porta a sua frente.
Rosana suspirou, as palavras de Dumbledore ainda ecoavam em sua mente. E ela por sua vez procurava força dentro de si mesma para aceitar tudo aquilo como deveria ser feito. Sentou-se na beira da cama, fitou o teto pintado do quarto e colocou a mão dentro das vestes, retirando o envelope lacrado que Snape lhe mandara.
Ela o levou ao rosto, e respirou fundo na tentativa de sentir o cheiro do marido no pergaminho. Olhou a frente do envelope e viu seu nome, Rosana D. Snape. Sorriu e rompeu o lacre com as pontas dos dedos. Retirou um pedaço de pergaminho escrito com a mesma caligrafia do envelope.
Meu amor,
Nunca escrevi uma carta, ainda mais romântica. Só sinto a imensa necessidade de estar aí com você, mesmo sendo assim, em palavras e pensamentos. Esperei tanto tempo para sentir o que sinto, que agora tenho medo de perder você a qualquer instante. Meu refugio são as lembranças dos seus beijos, seus cabelos, do seu toque. Não sei quando poderei vê-la de novo, você sabe o que me prende aqui, e não vou remoer esse assunto que tanto nos machuca. Tenha certeza de que não a esqueço um só segundo, e tudo que faço é por você. Eu a amo, Rosie. Como nunca amei outra mulher. Já que não posso estar aí presente, reservo a esta carta o direito de tocar seus lábios com toda a ternura que eu gostaria de poder fazer, e com a qual ainda hei de faze-lo mais uma vez. Peço desculpas se a magoei, ou se ainda o fizer. Não o fiz por querer, daria todos os meus dias para impedir cada lágrima sua de rolar porque só sei viver ao seu lado. O quarto está vazio sem você, a cama já não me aquece. Você é o calor da minha existência, tudo pelo qual vale a pena lutar e viver. E no momento me mantenho vivo por você existir. Eternamente seu, S.S.Rosie levou a carta aos lábios e fechou suas pálpebras, enquanto isso duas grossas lágrimas rolaram por baixo delas. Sabia o quanto custara a ele escrever aquelas doces palavras, mas era tudo que Rosana precisava para saber: o quanto ele a amava. O importante era o simples fato de Severus escrever uma carta, como ele mesmo dissera. Ele estava sofrendo tanto quanto ela. Foi até a mesa, pegou uma pena e um pedaço de pergaminho e começou a escrever.
Assim que desceu e sentou-se ao lado do pai para a refeição, passou a ele o envelope onde se lia: Sevie. Dumbledore sorriu-lhe bondosamente e guardou a carta sem que ninguém a visse. Rosie e ele passaram cinco dias maravilhosos um ao lado do outro. Não havia nada que não tivessem feito juntos, pela primeira e única vez passearam, sorriram e compartilharam suas histórias como pai e filha. De repente, todos os anos que passaram longe haviam desaparecidos, estavam tão completos de seus sentimentos e tão próximos que pareciam ter passado a vida inteira assim.
Na noite do sétimo dia Dumbledore se despediu de Rosana e Ali ao pé da mesma lareira na qual Snape partira. Despediu-se do amigo de longa data com um longo aperto de mão. Foi até Rosie e abraço-a com força, emocionando-se quando sentiu ela correspondeu com a mesma intensidade. Esta seria a lembrança que levaria sempre consigo. Sorriu para ela e dando-lhe um tapinha de leve no rosto, entrou na lareira. Rosie sorriu também, seu coração doía muito, abraçou-o mais uma vez dizendo baixinho ao seu ouvido: "Amo você, papai!" Ela guardaria para sempre o calor de seus braços, de suas palavras, o calor de um pai. Dumbledore atirou Flu ao chão e disse: "Hogwarts!"
Ao ver o pai sumir entre as chamas verdes, Rosie abraçou Ali deixando os soluços a sufocarem.
