Quando Dumbledore chegou a escola, os preparativos para mais uma ano letivo já estavam prontos. Dali à uma hora os alunos novos seriam selecionados para suas casas. Ele sorriu para si mesmo, sempre achara empolgante essa parte da cerimônia de abertura das atividades escolares, assim como fazer o discurso antes do banquete. Aquele ano em especial parecia deixá-lo um pouco mais nervoso. Tratou de se ajeitar, acariciou Fawkes, depois foi em direção à porta de seu escritório e saiu. Afinal, tinha um ano para começar.
Logo após o banquete, que transcorreu muito bem, Dumbledore se retirou para seu escritório. Estava sentado em sua cadeira, perdido em pensamentos, quando uma leve batida à porta o trouxe de volta ao presente. Sua voz soou potente, ordenando.
― Entre, professor.
A porta se abriu dando passagem ao professor de Poções, que se colocou em frente a ele com seus olhos negros a encará-lo. Dumbledore não se levantou, apenas sorriu para a figura de Snape.
― Boa noite, Diretor - ele estava um pouco abatido. - Me perdoe a intromissão, mas não pude esperar até amanhã para uma entrevista - tentando manter-se sob controle, perguntou: - Como ela está?
― Boa noite, Severus - Dumbledore lhe lançou uma olhar paternal por trás dos oclinhos meia-lua. - Acalme-se, professor, não quer se sentar? - disse isso indicando a cadeira vazia ao seu lado. - Drops?
― Não, obrigado - respondeu seco. - Como ela reagiu ao que lhe contou, Albus?
― Evidentemente que não muito bem, meu caro - disse com cautela, analisando o professor -, porém devo dizer que não lhe contei absolutamente nada!
― Como? - Snape estava aturdido.
― Rosie estava ciente de tudo quando a encontrei - ele pigarreou e continuou a falar. - Você sabe melhor do que eu talvez, como ela pode estar a par de tudo. Rosie viu, Severus. Cada detalhe, esteve presente nas cenas. Sabe inclusive de seu voto com Narcissa.
― Não devíamos ter demorado tanto tempo para lhe contar - ele passou as mãos pelos cabelos negros. - O que ela disse?
― Tive que explicar-lhe uma infinidade de coisas que estavam interligadas a esse nosso assunto, mas apesar do susto inicial, ela está começando a aceitar os fatos - o Diretor o fitou com curiosidade. - Não ousaria magoá-la nunca, tentei evitar ao máximo seu sofrimento, mas infelizmente Rosie tem que estar preparada. Ela não será sempre uma fortaleza, professor e no dia em que conversamos não foi diferente.
― Entendo - Snape fitou as paredes do escritório repletas de livros. - E quanto ao voto?
― A princípio creio que ela teve algum receio ou ciúmes - os olhos azuis de Dumbledore encontraram os negros de Snape. - Contudo já não há mais qualquer problema.
― Sim. E a carta? - sua voz denotava uma ansiedade quase infantil.
Dumbledore se levantou e caminhou até ele. Retirou de suas vestes um envelope meio amassado e passou às mãos do genro. O homem de cabelos negros, ao tomar o envelope em mãos, rompeu rapidamente o lacre azul. Correu os olhos ávidos pelo pergaminho e crispou os lábios em um leve sorriso. Recolocou o pedaço de papel no envelope, e olhando para o Diretor, disse:
― Diretor, eu gostaria de pedir - ele foi interrompido por uma aceno de mão de Dumbledore.
― Vá, professor - sorriu voltando a sentar em sua cadeira. - Compreendo perfeitamente que precise de alguns momentos a sós com as ternas palavras dessa carta. Não há o que desculpar, vá aquietar seu coração, meu rapaz.
― Boa noite, Diretor - ele disse ao se virar e sair pela porta do escritório.
Snape percorreu rapidamente os corredores até seus aposentos nas masmorras. Entrou pela porta do vestíbulo, atravessou-o com o coração aos pulos, se sentia um idiota adolescente. Quando entrou em seu quarto, atirou-se na poltrona perto da lareira e pegou o envelope com as mãos trêmulas. Seus olhos negros detiveram-se demoradamente na palavra escrita com caligrafia feminina: Sevie. Ele tornou a abri-lo, retirou o pergaminho e passou a devorar cada palavra dele. Assim que terminou sentiu um alívio indescritível. Apesar de tudo o que fizera ou que iria fazer, Rosie o amava. Esse sentimento era muito maior do que Severus supunha e talvez tão incondicional quanto o dele. Isso fez com que deitasse aquela noite um pouco mais feliz.
Um dia de sol maravilhoso nasceu naquela manhã. Apesar de brilhante e acolhedor, uma suave brisa já demonstrava a mudança de estação. Rosana sorriu ao abrir os olhos, adorava o clima mais ameno, deu uma boa espreguiçada e pulou para fora da cama. Cada vez que descia as escadas para o café pensava em encontrar qualquer carta ou notícia da Inglaterra, mas como nos demais dias deparava-se sempre com a mesma cena: o Tio Ali sentado sorrindo afetuosamente para ela.
Já havia três meses que estava em completo isolamento, fora aconselhada a evitar mandar cartas e também não as recebia. Mesmo sabendo que o tio nada tinha a ver com isso, deixou-se escorregar para o lugar vazio ao seu lado e seu sorriso desapareceu. Ali, por sua vez, tentava ao máximo distraí-la e agradá-la, mas aparentemente cada hora passada o levava à impotência total. Rosana havia se servido de chá e bolachas, não sentia a mínima vontade de comer ou conversar.
― Está uma bela manhã, não acha ? - disse o tio sem encará-la.
Rosie apenas assentiu com a cabeça e empurrou para longe o prato de bolachas e a xícara. Pôs se de pé, balbuciou algumas palavras para Ali, e pegando uma maçã se retirou da sala. Refez todo o caminho de volta ao seu aposento e lá chegando foi até a sacada. O sol banhava de dourado todas as casas em volta do Nilo e tornava suas águas mais azuis. Ela fechou os olhos e lembrou do passeio com o marido, das horas que passaram juntos naquele lugar lindo. Rosana adorava o Cairo, o calor das pessoas, sua cultura, seus mistérios. Mas nada agora parecia servir de consolo. Precisava sair dali, andar como sempre fazia quando estava angustiada.
Jogou o miolo da maçã no lixo e dirigiu-se ao toillet para um banho. Pouco tempo depois ganhava as ruas tumultuadas da cidade. Vagou durante uma hora e entrou numa mesquita. Rosie sempre se sentia reconfortada ao entrar naquele tipo de construção, era como se o tempo parasse lá dentro. Ficou parada fitando os afrescos nas paredes, e de repente eles começaram a rodopiar, seus pensamentos se embaralharam... um zumbido... náuseas... Puf! Tudo escureceu. Quando abriu os olhos, a primeira coisa que vislumbrou foi o rosto com barbas grisalhas de tio Ali, depois notou que estava em sua cama, e por último, que sua cabeça doía terrivelmente. Percebeu que havia mais uma pessoa no quarto, e que seu tio e ela trocavam algumas palavras. Eram sons tão distantes... voltou a cerrar os olhos e sentindo-se muito cansada, adormeceu.
A lua já ia alta quando tornou a acordar, desta vez estava sozinha. Tentou se por de pé, mas sentia-se muito fraca, não havia comido nada dia inteiro. Nesse momento a porta se abriu e Jade entrou trazendo uma bandeja. Sorriu para Rosie, depositou-a a sua frente e disse:
― Falarei a Sahib que acordou, com sua permissão - Rosie assentiu e então a outra fez uma mesura e saiu.
Assim que ela terminara sua refeição, Ali entrou pela porta. Veio sorrindo como sempre fazia, puxou uma pequena cadeira para perto da cama e sentou ao lado de Rosie.
― Deu-nos um susto, minha querida - tomou as mãos dela entre as suas -, porém Sami disse que se mantiver repouso absoluto transcorrerá tudo bem - deu-lhe um tapinha no rosto.
― Será que poderia ser mais claro, tio? - seus olhos castanhos estavam assustados. - É grave? Repouso absoluto? Eu me sinto muito bem...
― Ora, Rosie - se colocou de pé e começou a andar pelo aposento com as mãos para trás. - O que me surpreende é sua atitude! Porque não disse nada a seu pai ou a mim?
― Escute bem, tio, não sei do que está falando - Rosie se mexia na cama -, esse seu discurso já está ficando chato...
― Você não sabe o que tem? - ele a encarou com seus olhos verdes. - Rosie, você andou tomando alguma coisa para... para...
Rosana o acompanhava ansiosa com os olhos, mas seu tio estava emperrado na mesma palavra havia segundos. Sua paciência estava definitivamente sendo testada. Que raios devia significar aquele bando de palavras sem sentido ditas pelo tio? Contar o quê? Tomar o quê? Começou a se sentir tonta e sorriu, acabou desatando numa gostosa gargalhada para espanto de Ali que ainda continuava travado no "para".
― Será que o quer me perguntar, tio, é se por acaso meu marido me deu alguma poção para engravidar ? - Ela sorriu para um Ali escarlate, que continuava a balbuciar coisas inteligíveis. - Sua resposta é sim. Não sou uma garota de vinte anos, já tenho trinta e sete e essas coisas começam a ficar mais difíceis - Rosie resolveu parar seu discurso porque o tio parecia precisar mais de ajuda do que ela.
Saiu da cama e tentou acalmar o pobre velho, por fim, trouxe-lhe uma xícara de chá. Sentou-se ao seu lado na beira da cama e começou a lembrar quando tinha seus doze anos. Sua tia Louise fora quem conversara com ela sobre as "coisas" de mulher. Imaginava tio Ali, que nunca tivera filhos. logo ele iria abordar esse assunto com uma mulher feita e casada?. Se pelo menos sua avó Samira estivesse viva seria mais fácil. Ela sorriu para si e olhou o senhor de aparência cansada, mas refeita ao seu lado.
― Está se sentindo melhor, tio? - ela disse com calma.
― Sim, minha querida, obrigado - ele deu-lhe um tapinha, agora nas mãos. - Sabe, às vezes me atrapalho um pouco...
― Poderia me dizer o que mais Sami falou? - ela deu-lhe um sorriso encorajador.
― Bom, ele me falou sobre sua idade... que isso requeria cuidados... Mas tudo estava muito bem - ele a fitou e continuou -, afinal é uma gravidez de gêmeos, não é mesmo?
― Gêmeos? - Rosie tentava digerir a informação e se controlar. - Tem certeza que ele disse isso?
― Sim, com todas as letras - agora Ali sorria entusiasmado. - Vou ser avô!!! Ah, a propósito, você está de quase cinco meses. Acho que isso é importante!
― Sim, é - mas Rosie se afundara em seus pensamentos e nem percebeu Ali saindo do quarto sorridente.
Deitou-se na cama e fitando o teto pensou consigo mesma: "Isso muda tudo. Não podia acontecer agora. Não agora!"
