Quando desceu na manhã seguinte, encontrou um Tio Ali mais sorridente do que nunca. Rosie devolveu-lhe o sorriso e sentou-se, como fazia sempre, ao seu lado. Sem saber como exatamente abordar o assunto, resolveu começar com cautela.
― Tio, preciso lhe pedir um favor imenso - ela o fitou mordendo o lábio inferior.
― Sim, claro! O que quiser, Rosie - e se serviu de mais comida.
― Bom, tio, não quero que conte isso a ninguém. Principalmente da Inglaterra - Rosie observou sua reação.
― Mas, mas Albus precisa saber, e o seu marido, o S... Por Merlin! Como é mesmo seu nome? - coçou displicentemente suas barbas fazendo um ar pensativo e deu de ombros, continuando - Seja lá o nome que for, precisa ser avisado.
― Severus, tio. Eu concordo que sejam avisados, mas não agora - sua feição havia se tornado séria. - Sabe muito bem que não é a hora apropriada, sei que papai deve ter trocado confidências com o senhor sobre "certos" assuntos.
― Sim, mas isso muda muita coisa, minha querida. - Ali a fitou curioso.
― Eu sei e é por isso mesmo que vamos ficar quietos aqui - ela suspirou fechando os olhos. - Não podemos intervir no que está por vir, não mais... Isso poderia trazer Voldemort até aqui e acabar com a chance que teremos de destruí-lo.
Ali concordou com a cabeça e parou repentinamente de comer ao ouvir aquele nome. Rosie beijou o tio carinhosamente e levantando-se disse:
― Vou para meu quarto.
― Sami virá mais tarde vê-la, está bem? - ele indagou.
― Claro, tio - deu um meio sorriso e se retirou.
As mudanças que até então não se notavam em Rosana, começaram a surgir repentinamente. A barriga cresceu, os seios também, mas no geral a impressão que se tinha ao olhá-la era a de uma grávida que não passava dos quatro meses. Talvez por sua constituição, por ter sido sempre magra, não houvesse engordado tanto. Uma coisa era certa, estava mais radiante do que nunca. Tio Ali costumava dizer que ela ficara mais bonita. Na opinião de Rosie era tolice. O sétimo mês chegou sem muitas novidades e sem notícias nenhuma.
Sami foi visitá-la no início do oitavo mês e com ele veio a revelação de serem dois meninos. Rosie intimamente já sabia e por sua vez tinha escolhidos os nomes Albus e Alan. Tio Ali, no entanto, fumara quase uma caixa de charutos. Passara os dias seguintes tratando da decoração do quarto dos "netos" homens! Rosie achava aquilo engraçado, mas não tinha o menor ânimo de ajudar a decorar nada, não conseguia tirar de sua cabeça Dumbledore e Severus. Quando foi levada ao quarto das crianças, tudo já havia sido providenciado em tons de azul celeste e dourado. Ela tinha que admitir que tudo estava lindo, não faltava nada, e Tio Ali tinha se superado!
A noite cobria o céu de estrelas quando Rosie se sentou na cadeira em frente a escrivaninha. Já estava no nono mês, apenas alguns dias a separava da maternidade. Tomou a pena nas mãos e puxando um pedaço de pergaminho da gaveta, começou a rabiscar algumas palavras. Meia hora depois havia lacrado a carta com um selo dourado. Saiu do quarto, desceu as escadas e foi encontrar o tio, que se entretinha com um narguilé.
― Tio, preciso enviar essa carta - ela estendeu-lhe o envelope.
― Acha que é apropriado fazer isso a tal hora? - disse ele dando uma baforada.
― Sim, usei o selo do Ministério. Acho que não levantará tantas suspeitas. - Rosie o fitou. - Não poderia usar o meu pessoal.
― Está bem, mandarei pelos meios oficiais - dizendo isso pegou a carta e saiu da sala.
Rosana voltou para seu quarto, sentia um misto de alívio e apreensão. O alívio se devia ao fato de contar o que se passava e saber que agora nada poderia ser alterado com essa revelação. O medo era o de que eles não a perdoassem, porém se esse era o risco que teria que correr para manter seus filhos a salvo, ela pagaria! Recostou-se nos travesseiros e adormeceu.
O dia já havia raiado quando uma grande coruja parda entrou voando pela janela do escritório do Diretor de Hogwarts. Ele a fitou com interesse e ela abriu o bico deixando um envelope cair, então ajeitou as penas e retornou por onde havia entrado. Dumbledore pegou o envelope e observou o lacre. Levantou-se e andou pelo aposento tendo a carta em mãos. Fez um meneio de cabeça e saiu pela porta em direção às masmorras.
Snape estava se preparando para ir ao Salão Principal, quando uma batida soou em sua porta. Dando alguns resmungos e um pouco contrafeito, foi abri-la. Assim que o fez, deparou-se com a figura alta e de barbas prateadas de Albus Dumbledore. O Diretor por sua vez sorriu e perguntou-lhe:
― Bom dia, professor - olhou-o por detrás dos oclinhos meia-lua. - Posso entrar?
― Sim, claro. Desculpe-me, Diretor, mas não tive uma noite muito boa - indicou-lhe uma cadeira perto da mesa.
― Acredito que sim - acenou-lhe negativamente na intenção de se sentar. - Creio que isso possa nos trazer um pouco de conforto.
Ao dizer isso, estendeu o envelope em sua direção. Severus demorou um pouco a tomá-lo em mãos, mas quando o fez rompeu o lacre sem dar-lhe a mínima importância. Desdobrou o pergaminho com rapidez, seus olhos correram pelas linhas e uma palidez colossal emoldurou seu rosto. Ele se sentou na cadeira e passou a carta a Dumbledore.
Meus Amados,
Relutei muito comigo mesma em escrever a vocês, mas acredito que agora já não haja motivos para não fazê-lo. Peço que antes de mais nada me compreendam, diante de todos os perigos que corremos, precisei agir rápido. Tio Ali foi contra minha decisão, mas não teve com impedir-me, ele não tem a menor culpa sobre meus atos.
Pai, com todo carinho e amor que tenho por ti peço, perdão pelo que fiz. Creio que me entenderás mais do que qualquer um.
Meu amor, por tudo que irei causar quando leres, peço desculpas e sua compreensão. Se fiz o que fiz foi por amor a você. Espero que essa carta o encontre ao lado de meu pai, e que ambos possam desfrutar do momento em que revelo que Albus e Alan estão para nascer. Sim, meu anjo, você irá ser pai! E papai, você será vovô! Guardei isso muito bem, mas não posso mais me impedir de partilhar esse momento com vocês. Eu os amo demais, tenham a certeza disso. E a ignorância desse fato durante todo esse tempo nos manteve a salvo. Tio Ali irá avisá-los do nascimento, e eu estou passando muito bem.
Sinceramente me desculpo por tudo.
Com amor, R..S.
Dumbledore já havia lido todo o seu conteúdo, quando dobrou novamente a carta e a recolocou no envelope. O rosto de Snape continuava pálido, enquanto passava as mãos pelos cabelos negros. Ele levantou os olhos em direção ao Diretor, que deu-lhe um tapinha nos ombros antes de sentar na cadeira vazia a sua frente.
― Severus, imagino como se sente, mas acho que Rosie agiu muito acertadamente - ele encarava os olhos negros do professor.
― Sua filha não tinha o direito de esconder-me isso, Albus - ele rosnou para o homem a sua frente. - São meus filhos!
― E meus netos - piscou compreensivo para Snape. - Acalme-se, professor. Pense no que poderia acontecer a Rosie acaso Voldemort soubesse disso... carregar esse segredo durante meses não é uma tarefa fácil. Iria ser difícil esconder por muito tempo suas emoções. Acredite-me - sorriu encorajando-o. - Não fica feliz por saber que estão bem? Ou que vai ser pai? - ele se pôs de pé. - Tem hidromel, Severus?
― Não, apenas firewhisky - falou mais calmo e meditando sobre o assunto. - Albus e Alan? São meninos!
― Sim, imagino que possamos deduzir isso. Aonde colocou o whisky? - Dumbledore já tinha entrado no quarto de Severus e vasculhava sua estante. - Ah, aqui está. Cálices?
― Já providenciei, Diretor - sua voz soou mais alto, vindo do vestíbulo para onde o Diretor se dirigia nesse momento.
― Brindemos, Severus - disse enchendo os cálices. -Parabéns, professor.
― Obrigado. Ao senhor também, Diretor! - disse um Snape mais animado.
― Saúde! - disseram em uníssono e esvaziaram seus cálices.
