CAPÍTULO XVII

Tio Ali andava de um lado a outro do corredor do segundo andar de sua residência, não sabia quanto tempo se passara desde que chamara Sami. Seu rosto estava avermelhado e suava muito, o dia parecia mais quente do que de costume. Jade lhe trouxera água, a qual ele sorveu de um gole só. Não deixara Rosie ir para o hospital bruxo, queria cercá-la de conforto, então nada mais justo que ficar em sua própria casa. Poderia trazer o que fosse necessário para que sua menina tivesse as crianças bem.

Acendeu um charuto e continuou sua peregrinação pelo corredor vazio. Começou a pensar que talvez devesse ter mandado a maldita coruja na noite anterior com o aviso do nascimento, mas Rosie não tinha sintomas nenhum, não sentia nada. Depois, lá para as cinco horas da manhã, foi acordado por um burburinho que vinha do quarto de Rosana, e em segundos, Jade batia em sua porta. Não demorara meia hora para Sami chegar com mais duas enfermeiras. Instalou-se uma verdadeira sala de parto no aposento, de onde infelizmente ele fora expulso. Agora tudo o que podia fazer era esperar. Mandara a mesma coruja, já cansada de volta à Hogwarts. Sami garantira que não havia riscos.

Já estavam lá dentro há quase duas horas, Ali se tornara púrpura e se perguntava: "Por Merlin, onde estará Dumbledore? E aquele professor? Como é mesmo seu nome?", deu uma baforada e sorriu: "Ali, você está ficando velho, não consegue lembrar de um nome!", nesse momento escutou um choro, depois outro, e começou a proferir alguma coisa em sua língua. Sami veio até a porta e o ruído da maçaneta girando o tirou de seus pensamentos.

― Não quer entrar, Ministro? - disse sorridente o medibruxo.

― Sim, claro! - disse Ali não esperando um segundo pedido.

Assim que entrou viu Rosie com as duas enfermeiras ao seu lado, cada uma segurando uma pequena trouxinha de roupas. Ele sorriu para ela, foi até a cama depositou um beijo em sua testa e depois correu a olhar os "netos". Ambos tinham cabelos negros e a pele muito branca. Porém Albus tinha olhos castanhos com os de Rosie e Alan tinha olhos pretos. O nariz pequeno e o sorriso meigo eram definitivamente da mãe. Ali resolveu pegar primeiro Albus no colo, o menino abriu os olhinhos parecendo ajeitar o foco de sua visão, e sorriu em assentimento ao carinho que lhe era feito.

Rosana admirava a cena, nunca vira tio Ali tão feliz, queria sinceramente que Severus e seu pai pudessem estar junto deles. Ela continuou fitando ambos e percebeu paulatinamente o sorriso de tio Ali se desfazer, dando lugar a uma ruga de desespero. Ele foi até a enfermeira, que pareceu também muito assustada, e tomou a criança de seus braços levando-a até Sami. Rosie se mexeu irrequieta na cama, não ouvia nenhum som vindo de Albus, e um enorme vazio se apoderou dela. Olhou para o lado, Alan estava dormindo um profundo e tranqüilo sono no colo da outra enfermeira. Viu Sami se afastar com o pequeno embrulho nos braços, e Ali veio até ela.

― O que foi, tio? - seu olhar preocupado caiu sob o semblante pálido de Ali.

― Querida. Minha menina. - Seus olhos marejaram. - Albus... n-não está respirando n-normalmente.

― Trago-o aqui, tio. AGORA! - Ela já havia se sentado na cama.

O tio mais que depressa deu meia volta e foi ao encontro de Sami, que tentava todos os recursos para reanimar a criança desmaiada. Ele mesmo o levou até Rosie, que o pegou nos braços e colocou sua mão sobre a do menino. Começou a conjurar algumas palavras que pareciam uma cantiga de ninar e eram totalmente desconhecidas de todos os presentes, mas ninguém ousou desviar o olhar dos dois. Não puderam precisar quanto tempo levou para que o choro do recém nascido recomeçasse, forte. Então as crianças foram retiradas do aposento, e Rosie se recostou nos travesseiros, muito pálida e trêmula. Ali se aproximou e tomou as mãos dela entre as suas. Sami a examinou e fez um gesto preocupado com a cabeça, sua pulsação estava muito fraca.

― Os dois meninos estão bem, tio - sua voz era baixa e entrecortada -, fique tranqüilo - encarou o tio e segurou-lhe a mão. - Prometa-me que vai entregá-los a Severus. Por favor.

O tio não conseguia falar, as lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas assentiu com a cabeça. A porta do quarto se abriu e uma figura envolta numa capa negra entrou no aposento, deslizando até o leito. Ali se levantou dando lugar a Snape, que tomou as mãos de Rosie. Ela fechara os olhos, parecia adormecida, ele se inclinou até seus ouvidos e sussurrou baixinho.

― Você não vai a lugar nenhum - disse beijando-lhe os lábios delicadamente. - Eu não vou deixar.

O Ministro e o medibruxo se afastaram devagar, apenas acompanhavam a cena com os olhos. Rosie sorriu, mas deixou-se escorregar pelos travesseiros, como se as forças lhe deixassem. Severus se levantou, tentava manter um pouco de sanidade para poder agir rapidamente. Pediu alguns ingredientes de poções para Sami, e vendo Jade parada a um canto, lhe pediu que trouxesse certas ervas. O que aconteceu em seguida foi tão rápido que só se tomou conhecimento do líquido azulado sendo derramado entre os lábios da doente. Sami se aproximou e falou ao homem de preto:

― Teremos que esperar a noite toda para saber se ela responderá a essa poção - sua voz soou reconfortante. - Agiu bem rápido, acredito que dará certo.

― Sabe que poção é essa? - Snape o encarou curioso, arqueando as sobrancelhas.

― Bom, digamos que sim, mas são poucos os que a conhecessem. Não é usada comumente, portanto não poderia prepará-la com sua eficiência e rapidez - deu um meio sorriso e esticou sua mão em direção a Severus. - Meus parabéns por isso. Sou Sami, o medibruxo que fez o parto de sua esposa.

― Prazer, sr. Sami - falou entre os dentes. - Poderia me dizer exatamente o que aconteceu aqui?

― Tecnicamente falando, seu filho sofreu uma parada cardio-respiratória, a qual eu não estava conseguindo reverter. - Ele fitou Rosie deitada. - Sua esposa simplesmente o salvou, não sei precisar como, mas foi o fato. O menino está perfeito como o irmão.

― Entendo. Obrigado, doutor, mas acredito não ser mais necessária sua presença. - e crispou os lábios num falso sorriso. - Eu vou ficar aqui a noite inteira.

― Então, com sua permissão - virou-se para Ali - e a do Ministro - este assentiu com a cabeça -, me retiro e volto pela manhã. Se precisarem, estarei às ordens - fez uma mesura e saiu.

Severus cobriu Rosana com os lençóis e o cobertor. A respiração dela ainda estava fraca, mas estável. Levantou da cama e foi em direção a Ali, que até aquele momento não pronunciara uma palavra.

― Ministro - ele olhou para o homem pálido a sua frente, seu ar cansado o fazia lembrar de Dumbledore -, tente descansar ou a noite será nossa inimiga.

― S-sim - Ali balbuciou e depois, com um suspiro, pareceu voltar a si. - Sinto-me melhor com você aqui - deu um tapinha nos ombros de Snape. - Não quer conhecer seus filhos?

― Não quero sair de perto de Rosie um instante se quer - falou persuasivo.

― Tem razão. Vou pedir para Jade trazê-los aqui - disse isso e saiu para o corredor.

Snape voltou até o leito da esposa, puxou uma cadeira para perto e se colocou ao lado dela. Levou a mão dela até seus lábios alisando carinhosamente sua pele com eles, e a fitou com ternura. Ficou algum tempo assim, até ser tirado de seus pensamentos pela entrada de Jade, e uma outra mulher mais velha e corpulenta. Cada qual com um embrulho nos braços. Jade se aproximou dele estendendo-lhe a trouxinha de roupa, enquanto ele se levantava e tentava sem jeito manter a criança aninhada em seus próprios braços. Quando conseguiu, com ajuda, colocá-la na posição correta, pôde ver-lhe o rosto. Alan chupava o dedo e o fitava como a um estranho, mas depois sorriu animadamente. Tinha os cabelos e os olhos negros como os seus, mas o sorriso era o de Rosie. Essa lembrança fez com que Snape sorrisse também e inclinasse sua cabeça, dando um beijo terno na pequena testa.

Devolveu o pequeno para os braços de Jade, e a outra mulher entregou-lhe Albus. Para sua surpresa, desta vez não precisou de ajuda para trazê-lo junto a si. Ao contrário de Alan, ele dormia calmamente com as mãozinhas fechadas apoiando as bochechas. Severus não pôde ver seus olhos ou o sorriso, mas os cabelos eram iguais aos seus. Acariciou-lhe a cabecinha e o menino se aninhou mais perto sentindo o calor de seu corpo. Uma onda de alegria indescritível invadiu sua alma, não estava preparado para isso, mas não podia negar que o simples fato de senti-los em seus braços o fizera esquecer de qualquer temor que tivesse. Nada seria mais precioso no mundo para ele, daquele momento em diante, do que aquelas duas trouxinhas de roupa!

Nem Voldemort, nem seus erros, o impediram de estar ali com sua família. Ele a construíra, ele e Rosie. "Rosana, eu preciso de você... mais do que nunca!", pensou. A senhora retirou com cuidado Albus de seu colo. Ela e Jade fizeram uma mesura e saíram. Severus sentou-se novamente na cadeira e ficou ali a segurar as mãos de Rosie entre as suas. A noite se aprofundou, e ele adormeceu.

O dia amanheceu e invadiu languidamente o quarto de Rosana. Ela abriu os olhos e viu o marido dormindo serenamente apoiado em suas mãos. Sorriu, e livrando uma delas, começou a acariciar os cabelos dele. Vagarosamente, Severus levantou os olhos e a fitou. Não houve tempo para palavras, sorrisos ou choro, seus lábios entregaram-se um ao outro com uma sofreguidão desatinada.

Saciado cada minuto de desejo mútuo, eles se deixaram ficar abraçados por um longo tempo. Entregues simplesmente a sensação de estarem juntos, unidos. Um leve ruído do lado de fora e uma batida a porta, os trouxeram a realidade. Ali entrou seguido por Sami, ao perceber que Rosie estava acordada, o tio se antecipou até a cama. Snape se levantou da cadeira dando passagem ao Ministro.

― Minha filha - ele falou com voz embargada e levando a mão até o rosto de Rosie. - Por Merlin, você está bem!

Rosana assentiu sorrindo para o tio, enquanto ele rapidamente virava-se para Severus e o abraçava. Snape fora pego de surpresa e não teve com se desvencilhar dos braços do velho. Enquanto isso, Sami fazia um exame minucioso em sua paciente, o qual não escapara ao olhar atento do marido. Assim que conseguiu escapar dos abraços efusivos de tio Ali, ele se dirigiu para a outra extremidade da cama e sentou-se.

― Bom, como eu já previra - disse o medibruxo -, ela está bem, recomendo apenas repouso - e olhou para Snape. - Fez um bom trabalho. Muito bom, mesmo. Meus parabéns - disse isso estendendo a mão em cumprimento a Severus.

― Como você muito apropriadamente citou, é meu trabalho - ele falou finalizando a conversa e recusando o aperto de mão.

Vendo que o clima estava tenso, Rosie fez um gesto de cabeça para que o tio retirasse Sami dali. O medibruxo parecia ainda aturdido, mas Ali se aproximou dele murmurou algo em seu ouvido, e ele, assentindo com a cabeça, deixou se levar para fora do quarto pelo Ministro. No corredor, Ali lhe deu uma palmadinha nas costas e disse:

― Vamos ver as crianças - e pigarreou sorrindo amarelo -, sabe, casal novo... com o tempo esse ciúme passa - e arrastou o pobre médico em direção ao quarto dos gêmeos.

Rosie e Snape ficaram a sós novamente. Ela havia se recostado em seu colo, enquanto ele afagava-lhe os cabelos.

― Rosie, gostaria de lhe fazer uma pergunta - falou continuando a acarinhá-la.

― Sim, faça-a - ela respondeu.

― O que fez ontem com Albus? - Rosie havia se virado e o encarava.

― Algo muito antigo - ela o fitou com ternura enquanto passava a mãos em seu rosto. - Uma coisa que minha avó me ensinou, uma magia antiga... uma lenda do povo daqui. Uma história que sempre me fascinou sobre o poder que as pessoas podiam extrair de si próprias para ajudar os outros. Quando vi Albus pensei na cantiga descrita na história em que uma mãe retirava das águas do Nilo o filho quase sem vida... a força com que ela entoara aquelas mesmas palavras. Sabe, o menino voltou a si instantes depois, mas a mãe deixou sua vida ali, nas margens do rio - Rosie deu-lhe um sorriso pálido. - Eu só queria salvar meu filho, e consegui! Você me fez voltar... - Rosie continuava a encará-lo com seus olhos castanhos. - Eu escutei quando disse: "Eu preciso de você mais do que nunca!", e era tudo que eu precisava ouvir.

Snape não disse nada, apenas a abraçou. Ele adoraria poder permanecer assim o resto de seus dias, mas tinha que voltar, precisava voltar. Rosie sentiu sua inquietação e se afastou um pouco. Fechou seus olhos e suspirou, sabia exatamente no que ele estava pensando, o que sentia, e sabia também que não podia fazer nada!

― Você tem que ir, não é? - ela murmurou.

― Não vou responder a essa sua pergunta tola, Rosie - respondeu ríspido. - Sabe a resposta tão bem quanto eu.

― Sim. Meu pai? Ele está bem? - falou mudando de assunto.

― Ótimo - seu rosto adquirira um aspecto sombrio. - Não podíamos vir os dois, então ele achou melhor que eu viesse. Talvez preferisse que...

― Cale-se, Severus! - sua voz se tornou dura. - Talvez tenha razão, eu deveria ter vindo para cá desde o início... ou nunca voltado ou quem sabe deveria ter ficado definitivamente ao lado de Voldemort e casado com Lucius.

Fez-se um silêncio sepulcral até que Snape trouxe-a para mais perto sussurrando: "Sou um tolo!", e Rosie respondeu baixinho: "Sim, você é!", ela enlaçou o pescoço dele e entregaram-se a um longo e apaixonado beijo.

Nem Rosie, nem Severus desceram para o almoço. Todas as refeições foram trazidas para ambos no quarto. Os bebês vieram conforme os horários das mamadas, e o dia se aproximou paulatinamente do fim. Quando iriam ver-se novamente? Só o tempo e os acontecimentos poderiam dizer. Estavam mais ligados do que em qualquer outro momento de suas vidas, porém o destino ainda ia tramar contra eles. Ao ver seu marido sumir nas labaredas verdejantes da lareira, Rosie teve a certeza disso.