CAPÍTULO XVIII

Haviam se passado três meses desde a última vez Rosie que vira Severus, e como de costume não houve notícias ou cartas. A angústia maior, ela sentiu naquela noite: acordara suando frio e sem ar, se precipitara até a sacada e tentara sorver o máximo de ar que seus pulmões permitissem. Ela arquejou muitas vezes antes de conseguir controlar-se, mesmo assim a inquietação que sentia não diminuíra em nada. Olhou a quietude das ruas naquela hora, e a falta de lua no céu dava um ar sombrio às águas do Nilo.

Colocou um xale por sobre a camisola, abriu a porta de seu quarto e esgueirou-se pelo corredor até chegar ao quarto das crianças. Os filhos estavam dormindo tranqüilamente, haviam se desenvolvido bem nesses meses. A cada dia que se passava, Rosie os achava mais parecidos com o pai. Alan era a cópia fiel de Snape: os cabelos lisos e negros, os olhos da mesma cor, o feitio do rosto... Muita vezes Rosie pensava que o humor também. Sorriu para o bebê que chupava o dedo. Albus, no entanto, era calmo e sorridente como Dumbie, mas puxara os cabelos e as feições de Severus. Ela suspirou olhando para o outro menino no berço ao lado, e alisou com ambas as mãos o rostinho mimoso de cada um. Por alguns instantes lembrou-se do dia em que Abus quase perdera a vida, lágrimas vieram aos seus olhos, e depois pensou no pai, a saudade apertava-lhe o coração. Naquele dia ela poderia ter ficado sem os dois. Um grande vazio invadiu-lhe a alma, e Rosie pensou consigo mesma: "Dumbie, eu sei que está próximo. Eu posso sentir, não falta muito!". Seus olhos turvaram e as lágrimas começaram a correr grossas por suas pálpebras semicerradas.

A segunda quinzena de junho começou com um dia abafado. Rosie desceu para o café como de costume. Tio Ali já estava em seu lugar de honra como dono da casa, quando ela se aproximou e sentou-se ao seu lado.

― Bom dia, minha querida. Chá? - saudou-a com um largo sorriso.

― Bom dia, tio - ela respondeu com um leve sorriso. - Preciso de um favor seu.

Ali interrompeu seu desjejum bruscamente e a fitou com curiosidade. Se havia uma coisa que ele conhecia bem era aquela expressão no rosto de Rosie. Algo terrível estava para ser dito, alguma coisa da qual ele não iria poder fugir. O olhar decidido com que ela o encarava nesse instante não deixava margem a dúvidas. Apesar de temer o que estaria por vir, seria mais imprudente não deixá-la falar.

― Bom, e o que quer de mim, princesa? - disse isso mantendo seu largo sorriso.

― Que tome conta de seus netos por mim - respondeu com o mesmo tom decidido, e mordeu a maçã em suas mãos.

― E o que pretende fazer para me pedir tal favor? - Ali a olhou com interesse.

― Vou para Londres, preciso voltar - seu olhar duro encontrou o dele, e uma nova dentada na maçã foi dada.

― Sinto muito, Rosie, mas não posso permitir tal insanidade - suas feições se tornaram sérias como nunca Rosie as vira antes. - Dumbledore me fez um pedido e não pretendo desapontá-lo.

― Como vai impedir-me de ir, tio? - ela manteve seu olhar frio sob a figura a sua frente.

― Com isso! - e estendeu um envelope. - Não é a falta de notícias que a atormenta? Esta carta acabou de chegar, talvez não seja necessário esforço para mantê-la aqui.

Rosana tomou o envelope abruptamente das mãos do tio, e rompeu o lacre da mesma forma, quase rasgando o seu conteúdo junto. Retirou o pedaço de pergaminho de seu interior, e começou a lê-lo.

Rosie,

Primeiramente, peço desculpas por não ter estado ao seu lado quando Albus e Alan nasceram. Fiquei muito honrado com sua homenagem a mim, esse velho insano! Confesso que posteriormente a essa felicidade fui tomado pela preocupação de perdê-los, você e ele, como seu marido me contou. Contudo, ele também aquietou meu coração, garantido que ambos estavam bem. Você sabe que confio nele, sei que fez um bom trabalho. Creio, então, que minha decisão de mandá-lo foi bem acertada. Quase posso ver o seu sorriso, minha querida, por tê-los aí consigo. Acho que serei tão distante como avô como o fui como pai, talvez até mais... Saiba que queria estar aí e abraçar-te e aninhá-los em meu colo, porém há coisas que só pertencem a nossa vontade, não a nossa razão. O tempo a mostrará isso.

Por favor, não cometa nenhuma atitude imprudente. Nós estamos bem e as coisas seguem seu fluxo normal. Diante disso, a certeza de nossa vitória toma contornos mais definidos. Tudo sairá como tem que sair. E eu cumprirei o prometido. Prometa-me que ficará onde está, segura.

Tenha certeza do profundo amor que sinto por vocês, e que gostaria de ter podido estar mais tempo com você.

Afetuosamente, Albus Dumbledore.

Rosana fechou os olhos, gostaria tanto que ele estivesse ali para abraçá-lo mais uma vez. A vida toda procurou justificar o motivo de sua ausência, o que sempre alimentou sua revolta e seu ódio. Fazia as coisas tentando puni-lo de alguma forma. Fora marcada sem consentimento, mas fora com ele que Voldemort tivera acesso a certas lembranças. Isso os atingira como um raio, mas foi assim também que passara a conhecê-lo. Percebeu o quanto errara, o quão injusta fora e tudo se dissipou de sua mente. Rosie o amava profundamente, mais talvez do que pudesse supor, afinal não era tão difícil se apaixonar por Albus Dumbledore, ainda mais sendo sua filha.

Ali a olhou curioso, mas vendo a expressão de seu rosto, nada disse. Rosie guardou a carta nas vestes, e pedindo permissão ao tio, se retirou. Infelizmente o dia mal começara a se delinear. E a inquietação permaneceu com Rosie o dia inteiro, ela estava visivelmente abalada. Ceou com o tio, mas ao se deitar, não conseguiu dormir. Quando entrava no mundo dos sonhos, gritos e pessoas correndo eram tudo que a assombrava. Decidiu se manter acordada, enquanto sua mente fervilhava com tudo aquilo. O silêncio penetrava pelo quarto de Rosie pelas janelas e portas, aquela parte da cidade dormia. Ela se preparou para fazer o que sempre fazia quando se sentia assim: dar uma volta pelas ruínas. Colocou sua capa e deslizou silenciosamente pelos corredores da casa até a porta.

Tinha acabado de cruzar uma esquina, quando avistou dois vultos encapuzados se aproximando trôpegos. Rosie mais do que depressa se escondeu entre as paredes das duas casas ao lado, imersa na penumbra. Fosse quem fosse não a pegariam desprevenida, e aparentemente não a tinham visto, contava com o elemento surpresa.

Eles já estavam bem próximos, os passos arrastados eram nítidos. Rosie empunhou a varinha por debaixo das vestes e viu-os passar bem de perto. Um misto de pavor e alegria percorreu seu corpo, Snape acabava de surgir diante de seus olhos, mas suas vestes estavam cobertas de sangue. Não reconheceu de imediato o outro homem mais baixo, mas era notório que estava muito mal, pois praticamente era arrastado por Severus. Rosie saiu às costas deles e num sussurro falou:

― Severus - seu olhar caiu sobre a figura a sua frente.

Eles interromperam a caminhada, e ele se virou para olhá-la com a varinha empunhada em sua direção. Assim que distinguiu as feições sob o pálido luar que iluminava a rua, disse:

― Rosie? - a voz estava mais baixa e fria do que a sua.

Ela se aproximou e vendo a dificuldade com que ele arrastava o outro encapuzado, tomou o braço livre do homem e o amparou. Nesse momento, ela pôde ver a quem auxiliava. Sentiu um frio percorre-lhe a espinha, sabia o que isso significava, sufocou seu desespero, permitindo que apenas as lágrimas inundassem seu rosto. Não havia mais nada a fazer, e era visível que os dois precisavam de ajuda urgente. Seu choro foi contido até percorrem o caminho que os separavam da casa de tio Ali. Dumbledore estava morto.

Rosie enxugou de qualquer maneira as lágrimas que ainda escorriam, encostou a varinha na porta, e em segundos esta se abriu. Entraram arrastando o corpo inerte até sua cama, e lá o deitaram. Ela fitou Severus que estava mais pálido do que de costume, um fio avermelhado descia pela testa e empapava-lhe os cabelos. Havia um corte no braço e outro mais profundo na perna direita. Ele deixou-se escorregar vagarosamente para o sofá em frente à escrivaninha, e ficou ali com olhos fechados. Procurou por sua varinha, mas percebeu que Rosie se antecipara com a varinha em punho e começava a cuidar de seus ferimentos. Ela aproximou-se de seu rosto, passou levemente a varinha sobre o corte em sua testa, limpou a área e fechou-o.

Severus assistiu irrequieto a isso, mas estava sem as mínimas condições de retrucar. Rosana retirou-lhe, então, a pesada capa de Comensal que o abrigava, desabotoou-lhe a camisa empapada de suor e sangue e concentrou-se no corte em seu braço. Era fundo, mas não tanto quanto o da perna, possivelmente perdera muito sangue. Ela se concentrou, posou a varinha sobre o ferimento e conjurou um feitiço mudo. O ferimento se fechou instantaneamente como se nunca tivesse existido. Rosie retirou com cuidado suas calças, teve acesso ao corte profundo em sua perna, aquele exigiria muito mais do que um feitiço comum.

Ela olhou para Snape, que fechara novamente os olhos, parecia adormecido. Apontou a varinha para o ferimento e, conjurando algumas palavras em árabe, fez com que todo o tecido atingido se regenerasse. Podia se ver o processo todo sendo feito rapidamente, e como nos outros dois, não restou o menor sinal de corte na região. Ao ouvi-la proferir aquelas palavras tão habilmente, Severus abriu os olhos e a encarou. Viu o que aconteceu logo em seguida e viu também ela se afastando e retornando com um copo nas mãos.

― Tome, Sevie - disse-lhe Rosie -, vai se sentir melhor e relaxar.

― Não sou eu o professor de poções? - sorriu malicioso para ela. - Ou invertemos nossas posições?

― Acredito que por hoje não terá alternativa. Provará do meu veneno - devolveu-lhe um sorriso. - Preciso ver o rapaz, fique quieto, entendeu?

Ele simplesmente meneou a cabeça em assentimento e sorveu o líquido do copo em um gole. O corpo na cama continuava imóvel. Rosie se aproximou, afastou os cabelos loiros do rosto e retirou as vestes com cuidado. O rapaz estava coberto de sangue da cabeça aos pés, seus cortes eram muito mais profundos e em maior quantidade do que os de Snape. Alguém abusara dele barbaramente, e Rosie só conhecia uma pessoa capaz de fazer isso... vira de perto. Afastou seus pensamentos, que de nada adiantariam naquele momento, e agitou a varinha fazendo desaparecer o sangue em volta das feridas. Ela temeu que as partes mais atingidas, como a perna quase dilacerada, não se recuperassem com apenas o uso da varinha, ou que deixasse grandes cicatrizes.

Seus olhos castanhos posaram sob o rosto branco de Draco Malfoy. Pensou em Lucius e sentindo a respiração do menino fraquejar mais uma vez, agiu rápido. Entoou a mesma cantiga que usara para salvar Albus, afinal aquele era um caso de vida ou morte. A maior parte dos ferimentos fechara, apenas os mais profundos ainda permaneceram como se fossem pequenos arranhões. Rosie aproximou a varinha, usou um feitiço comum e pronto, o rapaz parara de arquejar. Sua respiração agora era calma e cadenciada. Colocou-lhe uma veste seca, deu-lhe a mesma poção que dera ao marido, depois o cobriu. O pior tinha passado, os lábios dele haviam adquirido a cor rubra normal, e o suor frio cessara.

Rosana cambaleou um pouco até onde Snape estava; o uso daquele tipo de magia a deixava fraca, mas se recuperaria melhor do que na vez anterior. Bebericou um pouco de poção, e dirigiu-se ao sofá onde o marido adormecera. Conjurou uma bacia com água quente e compressas para acabar de limpá-lo descentemente. Emergiu a compressa na água e suavemente passou-a pelo seu rosto, desceu até o pescoço e tórax. Deteve-se demoradamente no abdômen, umedeceu mais uma vez a compressa, deslizou-a pelo restante de seu corpo até não restarem vestígios de suor ou sangue. Fitou-o com carinho, desejando que ao invés das compressas, fossem seus lábios a percorrem cada pedaço de sua pele. Rosie sorriu de seus pensamentos impróprios para a ocasião, vestiu o marido e o aqueceu com um cobertor. Segundos depois desabava na poltrona ao lado do sofá, exausta.