CAPÍTULO XIX

A primeira coisa que Snape fez ao acordar foi se certificar que o rapaz dormindo profundamente na cama estava fora de perigo. Draco apresentava visíveis sinais de melhora, Rosie fora perfeita. Ele olhou a poltrona ao lado do sofá e para sua surpresa estava vazia. Tinha certeza de que vira Rosana adormecida nela pouco antes do dia raiar. Seu semblante endureceu, lembrou de todas as coisas pelas quais passara na noite anterior.

Ele matara Dumbledore, um homem inocente, e salvara outro, Draco, mas isso não o tornava menos desprezível. Havia sujado suas mãos com o sangue da única pessoa que confiara nele quando mais precisou. O ódio percorreu suas veias como um veneno consumindo-o. Por mais que fosse uma ordem do Diretor, por mais que tivesse como provar sua inocência, nada tornava digno seu ato covarde. Aceitara a tarefa porque não havia escolha, isto era fato, mas havia a possibilidade de triunfo de Malfoy. Ele fora tão tolo quanto o rapaz em acreditar que as coisas se resolveriam tão facilmente.

Nada jamais fora fácil para Severus, um homem tão frio e controlado, senhor absoluto de suas emoções. Para o inferno com essas máscaras! Usava-as todo o tempo! Malditas! Imundas! Arrancaram dele todas as maiores riquezas que poderia ter na vida: amigos! Não os tinha, seus alunos o odiavam... Amor? Sim, ele amava, e como amava. Contrário a todas as suas crenças, aquele sentimento o consumia, minava suas forças. Quando estava com Rosie era apenas Severus Snape, um homem que era amado e amava em igual intensidade. Mas infelizmente esse luxo não lhe pertencia. Fora arrancado dele por ser o Snape de Voldemort... ou talvez o Severus de Dumbledore! Mas acima de tudo por ter sido fraco e ambicioso. No momento em que escolhera ser Comensal, perdera-se de si próprio e perdera o controle sobre sua vida. Agora era tarde para voltar atrás, não deveria tê-la envolvido nisso, era um direito que ele não tinha.

Ao menos evitara que Draco trilhasse o mesmo caminho que o trouxera até ali. Pensou nos filhos e deixou seu quarto em direção ao das crianças. Abriu com cuidado a porta, evitando ao máximo fazer barulho. Assim que pôde ver seu interior, divisou Rosie em pé entre os berços, no centro do quarto azul. Snape parara no portal, fitou-a demoradamente, seus cabelos castanhos cobriam-lhe parcialmente o rosto, mas não encobriam sua beleza. Não demorou muito para que ela percebesse sua presença, e levantasse seu olhar para ele.

Os olhares de ambos se encontraram, Severus percebeu a imensa tristeza no fundo dos olhos dela, ao mesmo tempo em que Rosie sentia emanar de seus olhos negros uma angústia palpável. Não deram nenhum passo. O ar pesava e seus corpos pareciam separados por uma forte tensão. As lágrimas rolaram dos olhos dela e ele desviou seu olhar para os bebês adormecidos.

"Não devia ter vindo!", pensou consigo, "Não podia estar aqui!". E sufocando toda a sua dor quebrou o silêncio.

– Estou de partida - falou seco. - Sei que não tenho esse direito, mas não tenho outra escolha senão lhe pedir que cuide do rapaz. Ele será imensamente procurado, contudo, acredito que aqui esteja em segurança.

Em resposta, Snape só obteve silêncio, e virando-se para a porta, concluiu sem fitá-la:

– Obrigado. - Manteve seu tom de voz distante.

Antes que pudesse transpor o portal de volta ao corredor, ele ouviu um murmúrio as suas costas que o impediu de prosseguir.

– Fique - a voz de Rosie soou baixa e embargada. - Por favor.

Severus voltou-se para encará-la, as lágrimas continuavam lá, mas um pálido sorriso iluminava seu rosto. Devolveu-lhe o sorriso, e só pôde ver uma cabeleira castanha se aninhando entre seus braços. Soluços descompassados a faziam tremer. Por segundos hesitou abraçá-la, seus sentimentos eram tão conflitantes, mas a presença do corpo dela junto ao seu, o cheiro, a pele, foram suficientes para demovê-lo de qualquer outro desejo que não fosse o de acariciar aqueles cabelos, tocar aqueles lábios ardentemente com os seus. E foi exatamente o que Snape fez, que se danasse sua razão, ele a amava mais que qualquer coisa.

Rosie virou seu rosto para fitá-lo, só que dessa vez, ao se encontrarem, seus olhares partilhavam o mesmo desejo. Seus lábios tocaram-se suavemente para depois cederem a beijos mais sedutores e convidativos. O mundo a sua volta deixara de existir, eram apenas um homem e uma mulher se entregando de corpo e alma à uma paixão desenfreada.

As mãos percorriam os corpos, as pernas se entrelaçavam, tropeçaram em si próprios até o compartimento atrás do armário das crianças, que dava para entrada do toillet, ali não tinham como ser vistos por quem entrasse. Seus lábios continuavam grudados, os beijos eram intensos, pareciam se engolir. Severus imprensou Rosie contra a parede, enquanto corria suas mãos por dentro das vestes dela, arrancando-lhe a peça íntima. Ela, por sua vez, retirou com fúria a camisa que separavam seus corpos, deixando seus lábios a devorar os dele. Correu suas unhas pelas costas do marido, arrancando-lhe um gemido, no mesmo momento em que ele a tirava do chão, penetrando-a. Snape sentiu o corpo dela retesar entre as suas mãos, Rosie agarrou seus cabelos negros com força. Ele abaixou a cabeça e mordiscou-lhe os mamilos rijos.

Um lânguido e sensual balé começou, até seus movimentos se intensificarem de tal forma que ele voltou seus olhos negros para encará-la. Com um sorriso e a respiração acelerada, ela devolveu-lhe o olhar. Severus a beijou apaixonadamente, enquanto espalmava suas mãos entre as dele contra a parede. Ela entrelaçava suas pernas na altura do quadril dele. Uma onda de prazer inebriante invadiu suas almas, saciando o desejo de seus corpos e levando-os ao êxtase absoluto. Ele desabou sobre ela, e com o peso ambos deslizaram até o chão frio. Snape deitou sua cabeça no colo de Rosana enquanto seus corpos ainda arqueavam. Ela acariciou os cabelos negros e suados dele, que mesmo assim caíam sobre seu rosto, e esperou pacientemente até que suas pernas permitissem a ambos o controle de suas ações.

Trocaram mais algumas carícias antes de se vestirem, afinal aquele não era o local mais adequado para fazerem amor. Saíram para o corredor ainda atordoados e voltaram para seu aposento. Assim que entraram, perceberam que Draco ainda dormia, e procuraram um canto mais distante do aposento onde pudessem conversar. Severus a fitou profundamente, Rosie pôde sentir o clima tenso invadir o ar, e viu uma rusga de preocupação passar pelos olhos de seu marido.

– Não posso fingir que nada aconteceu, Rosie! - o frio de suas palavras era assustador. - Você sabe o que eu fiz.

– Sim, sei - ela respondeu depois de alguns instantes. - Não o culpo, meu pai assim o quis - continuou firme e calma -, apesar de não concordar com a decisão dele, você foi inocente, Sevie. Estava preso a um juramento. Acredita mesmo que preferiria que fosse você a morrer no lugar dele? - Rosie o encarou com os olhos tristes.

– Creio que não teria enviado seu pai para a morte - ele manteve seu olhar sob ela. - Eu não me perdôo pelo que fiz!

– Teve que fazer - ela o corrigiu. - Não se culpe mais. Não enviaria nem ele e nem você. - Fechou seus olhos e abriu-os devagar. - Isso é uma guerra, Severus, as baixas são inevitáveis dos dois lados. Eu aceitei o fato, faça o mesmo! Tenho certeza que era assim que Dumbie pensava.

– O que direi para meus filhos? - Rosie viu os olhos negros de Snape entristecerem pela segunda vez.

– A verdade. E eu estarei ao seu lado quando esse momento chegar. - Ela tomou o rosto dele entre suas mãos. - Escute, eu o amo e seus filhos também, estaremos sempre juntos, tenha certeza disso. Essa é a sua família! O que vale para nós é quem você é e o que somos juntos! Não tenho nenhuma dúvida sobre o seu caráter e principalmente sobre sua fidelidade. É o que importa e o que me basta. Está me entendendo, Severus?

Snape sorriu levemente para ela e seu olhar adquiriu novamente um brilho intenso. Rosie conseguira amenizar seu sofrimento e lhe dera confiança, era por isso que a amava tanto. Ela o compreendia como ninguém. Abraçaram-se fortemente.

– Diga-me, como conseguiu salvar Draco? - o fitou curiosa.

– Sabia que ia me perguntar isso - ele crispou os lábios. - Não foi fácil. Tive que ser sutil e esperar o momento certo de agir. Como deve ter percebido, devido a natureza dos ferimentos que tratou muito acertadamente, que quem o castigou foi o próprio Lord - encarou-a enquanto a via assentir com a cabeça. - Você sabe quanto prazer em humilhar os outros ele sente, e o quanto não tolera fracassos. Bom, assim que chegamos foi feita uma reunião e Malfoy sofreu as piores torturas que já presenciei. Creia-me, não foram poucas! - As palavras eram duras como as ações descritas por elas. - Não pude fazer nada até ele terminar e entregar o menino a Avery.

– E Narcissa? - ela murmurou assustada com as cenas que surgiram em sua mente - Bella?

– Narcissa é uma fraca, Rosie. Antes mesmo do Lord empunhar sua varinha, ela desmaiara - e com a voz destituída de qualquer emoção, continuou: - e Bella... será que tem alguma dúvida sobre sua atitude? Fria e distante.

– Essa mulher é louca e cruel - falou com ódio fitando o rapaz na cama. - Daria o filho para Voldemort castigar ou até o mataria se cometesse algum erro! Não sei como Rodolphus a tolera.

– Os melhores venenos são assim, atraem pela beleza, mas são cruéis com quem os toma - sorriu maléfico. - Bella é como um veneno. Mas, voltemos ao que nos interessa, depois dessa pequena demonstração de poder e vingança, o Lord pediu a Avery que se livra-se do menino - seu rosto ficou pálido. - Eu os segui, tivemos uma pequena luta onde consegui sobreviver e ele não - Rosie o encarava. - Desculpe trazê-lo para cá, como já disse achei mais seguro.

– Fez muito bem - sorriu compreensiva. - Se encontro Bella eu acabo com ela... aquela vaca!

– Preciso ir, Rosie. Não posso me ausentar muito tempo, corro sério risco de ser descoberto - passou a mão branca pelos cabelos dela. - Eu a amo - beijou-a com ternura. - Esqueça a "vaca" por um tempo. Eu cuidarei dela no momento adequado.

– Está bem, mas não se ocupe muito dela, certo? - sorriu com desdém.

– Não acredito que você tem ciúme de Bella também - devolveu-lhe o sorriso. - As mulheres devem desmaiar ante a minha passagem, não?

– Não se valorize tanto, meu bem - falou com malícia -, Bella adora manipular qualquer um.

– É melhor pararmos por aqui - respondeu rindo -, tenho medo do próximo estágio a que vou ascender... ou pior!

– Tem razão, senhor "gostosão"! Seus dias de glória pertencem somente a mim, compreendeu? - ela o fitou e Snape lhe deu um aceno afirmativo com a cabeça. - Beije-me - ordenou.

Era impossível não obedecê-la. Seus lábios se tocaram com a violência de um furacão, foi preciso um grande controle para não se atracarem novamente pelas paredes. Afastaram-se a contragosto, Snape pegou a capa de Comensal, e saíram pela porta em direção ao andar debaixo. Depois de uma longa despedida, ele entrou na lareira e partiu na rede Flu.