CAPÍTULO XX

Draco acordou sobressaltado, as cenas da tortura que sofrera ainda giravam em sua cabeça. A dor intensa que sentira percorreu-lhe o corpo num arrepio. Sentou-se na cama com cuidado e analisou o quarto a sua volta. Não lembrava de ter estado num aposento como aquele, tão colorido e ricamente decorado, desde os móveis até os tecidos que revestiam as paredes. O sol do crepúsculo invadia o quarto através das frestas das janelas, dando-lhe uma tonalidade mais dourada do que a de costume.

Levantou cambaleante, foi até uma das janelas e abriu-a. Estreitou os olhos azuis diante da luminosidade do dia, pôde ver as ruas apinhadas de gente, a paisagem do Nilo e as Grandes Pirâmedes e sentir o calor da brisa quente no seu rosto. Draco respirou o ar seco e teve que admitir para si mesmo que não estava na Inglaterra, muito que provavelmente não se encontrava nem na Europa.

Foi tirado de seus pensamentos pelo leve ruído da maçaneta da porta girando devagar. Virou-se com rapidez no mesmo instante que no limiar da porta surgiu a figura de uma mulher. Draco a fitou por alguns segundos, também não a conhecia, não poderia esquecer o rosto de uma mulher tão bonita. Não era jovem como ele, devia ter seus trinta anos, um corpo esguio, cabelos castanhos, olhos intensamente castanhos e brilhantes, pele clara, lábios rubros "sedutores", pensou, trajava uma linda veste rosa chá. Rosie havia parado, o encarou profundamente, após alguns segundos entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.

– Vejo que se sente melhor - ela sorriu. - Acha que consegue cear conosco?

A voz melodiosa e calma chegou até ele tão placidamente que o fez esquecer de seus sonhos horríveis. Mas o fez pensar que talvez tivesse atingido algum patamar mais perto de Merlin: definitivamente ela não era real.

– Sim, me sinto melhor. Um pouco confuso, mas melhor - Draco gostaria de ter dito alguma coisa mais consistente.

– Ótimo, fico feliz - Rosie se aproximou dele, colocou a mão em sua testa. - Sua febre se foi, eu estava muito preocupada.

Por instantes ele gostaria de estar deitado ardendo em febre, para poder sentir seu toque suave de novo.

– Como vim parar aqui? - Draco a encarou. - E quem é você?

– Draco, você não se lembra de nada do que aconteceu? - ela estreitou os olhos.

– Algumas coisas - ele se sentou no sofá, continuava a olhá-la. "Ela sabe meu nome!", pensou.

– Severus o trouxe há dois dias - ao dizer isso, Rosie sentou ao lado dele. - Os dois estavam muito feridos e você estava inconsciente. Fechei suas feridas e cuidei de você até agora. Voldemort não me recompensaria por isso.

Draco não falou nada, a fitou curioso enquanto Rosana lhe sorria. Ouvira o nome do professor de Poções, fora ele quem o deixara ali. Ela conhecia o Lord, então agora devia sua vida a uma estranha. Refletindo sobre isso, chegou à conclusão de que Severus o salvara uma vez. E na segunda sua salvadora não era um anjo. o Lord não tinha contato com esse tipo de gente. Sorriu de seus pensamentos.

– Então você conhece o Lord e Snape? - ele a indagou.

– Sim, e muito bem - ela o fitou. - Contudo, sou sua amiga. Esta é minha casa e aqui estará seguro.

– Poderia me dizer em que região do planeta estamos? - ele pôs-se de pé e andou pelo aposento.

– No Cairo, Egito - Rosie foi curta.

– E... desculpe-me se me repito, mas - seus olhos azuis encontraram os dela, se aproximou novamente do sofá e fazendo uma mesura, levou a mão de Rosie aos lábios. - Minha salvadora não tem um nome?

– Aprendeu isso com Lucius? - deu-lhe um sorriso cínico. - Guarde seus galanteios para alguém da sua idade. Tenho idade suficiente para ser sua mãe, e creia-me, Narcissa não gostaria de saber que esteve comigo.

– Vejamos... você conhece meu pai, minha mãe... e eu não sei quem você é - ele sorriu. - Poderia ser mais gentil, não?

– Não com um Malfoy - ela se levantou, livrando-se da mão dele. - Eu e seu pai fomos grandes amigos. Sinto muito por ele estar em Azkaban. Sinto-me...

– Saudosa? - Draco falou sarcástico.

– Deixemos claro que está sob minha proteção, não vou tolerar gracinhas - ela o fitou séria. - Coloco-o na linha em um segundo, fui clara?

– Claro até demais - ele não modificou seu tom de voz. - Como se sente mesmo?

– Um tanto quanto... culpada - foi a vez de Rosana ir até a sacada, onde a Lua começava a emoldurar o céu. - Acaso o Lord ou sua "titia" Bellatrix não contaram quem foi a responsável pela prisão dele?

– Até onde sei meu pai foi responsável por ser preso junto com os outros - Draco agora a fitava curioso. - E papai não me contou nada diferente na vez que o visitei.

– Houve alguém que os colocou dentro do Ministério - sua voz morreu.

– Alguém que os traiu - um leve brilho passou pelo olhar de Draco. - Já ouvi essa história. Não acredito nela. Se fosse verdade ele teria falado e eu não deixaria o responsável por isso vivo!

– Sorte a minha, não? - Rosie sorriu maliciosa. - Estamos quites então - estendeu-lhe a mão delicada. - Prazer, Rosana Baker.

– Srta. Baker - tomou a mão dela e depositou-lhe um longo beijo. - É um prazer conhecê-la, meu pai já falou muito de você. Namoraram, não? - sorrindo prosseguiu: - Quanto à minha tia, bom, particularmente não a culpo por não gostar de você. O Lord sempre a teve em alta conta e tia Bella é... digamos... admiradora incondicional dele, não suporta concorrência.

– Acho que me enganei, pensei que levasse mais a sério sua tia - virou-se para encará-lo. - Já demoramos muito, é melhor descermos.

Draco assentiu com a cabeça, abrindo espaço para que ela passasse a sua frente e a seguiu em silêncio. A ceia foi servida assim que chegaram, tio Ali ficou feliz pela pronta recuperação do rapaz e puxou conversa com Draco a noite toda. Ele pôde ver Rosie se levantar umas duas vezes, se ausentar por minutos, e depois retornar até o lugar ao seu lado. Quando se despediram para dormir, ela o levou até a porta de seus novos aposentos.

– Acredito que se sentirá bem aqui, o quarto é tão grande quanto o meu - deu-lhe um leve beijo no rosto, como uma mãe ao seu filho. - Boa Noite. Tente descansar.

Ela não deu chance para que ele respondesse ou executasse qualquer outra atitude, voltou-se na direção de seu quarto, enquanto Draco a acompanhava com os olhos. Ao perdê-la de vista, abriu a porta do quarto e entrou. Rosana tinha razão, era tão luxuoso quanto o dela. Ele suspirou, atirou-se na cama e adormeceu com as imagens de Rosie em sua mente.

No dia seguinte desceu atrasado para o café, parecia que todos já haviam comido. Draco fez um breve desjejum e subiu rapidamente as escadas em direção ao quarto de Rosana. Quem sabe ela não gostaria de passear? Seu coração disparou quando ergueu a mão para bater na porta, mas parou-a no ar ao ver uma outra porta adiante se abrir e dela sair Rosie com um bebê no colo. Ambos se olharam e ela avançou em sua direção com o menino a brincar.

– Bom dia, Malfoy - ela falou calma. - Espero que tenha dormido bem.

– Sim, obrigado - ele tentava assimilar a cena. - Não falou que era casada.

– Não me perguntou - ela sorriu com o embaraço do rapaz. - Não costumo falar de minha vida particular para qualquer um.

– Disse que éramos amigos - Draco sorriu com triunfo e brincou com Albus que pulara para seu colo. - Imagino que Snape também o ache uma gracinha.

– Os ache... são gêmeos. - devolveu-lhe o sorriso e abriu a porta de seu quarto. - Alan está dormindo, é muito mais parecido com ele. Depois o apresento. Entre.

Draco passou por ela segurando o pequeno nos braços, que o olhava intrigado. Rosie tomou-lhe Albus e colocou-o de bruços na cama, sentando ao seu lado a fim de controlar seu engatinhar pelos lençóis.

– Por que não vai dar uma volta? - ela o fitou enquanto entregava um pequeno brinquedo para o menino. - Talvez ache alguma garota da sua idade, se é tão namorador quanto seu pai...

– Não somos tão parecidos assim - desviou seu olhar deles. - Pensei que pudesse me acompanhar, afinal não conheço nada por aqui.

– Está bem, mas não reclame se o fizer andar muito - Rosie tornou a pegar Albus no colo. - O Cairo é muito bonito! Vou pedir para Jade olhá-los por mim.

Ela saiu pela porta com o bebê nos braços, e Draco resolveu não permanecer ali sozinho. Desceu as escadas e voltou ao salão aonde fizera o desjejum. Rosana surgiu envolta em azul e dourado, e sorrindo anunciou:

– Podemos ir.

Virou-se na direção da porta de entrada da casa, Draco a seguiu, e segundos depois se acotovelavam na multidão. Rosana não gostava do mundo trouxa inglês, mas ali se sentia completa, em casa. Percorreram as ruínas, que ela adorava, dois museus, uma mesquita e um mercado. Pararam exaustos num café e se deliciaram com um bom chá.

– Eu disse que andaria - ela sorriu brincalhona.

– Foi perfeito - ele falou sério. - Sabe...

– Rosie - completou. - É como todos me chamam.

Rosie - sentiu a palavra sair tão doce. - É potencialmente difícil pensar em Snape como pai.

– Imagino que seja - Rosie bebericou o chá. - Ele não era muito popular quando o conheci, igual a mim.

– Custo a creditar nisso. Você não era popular? - ele sorriu divertido.

– Não, só depois fiquei... atraente, se é que posso me expressar assim - sorveu o resto da chávena. - Foi quando namorei seu pai.

– Sorte dele - ele balbuciou baixinho.

– Só que infelizmente seu rabugento professor de Poções sempre foi minha paixão! - Rosie proferiu essas palavras com tanta emoção que seus olhos marejaram. Ela desviou seu olhar para a janela esfumaçada ao seu lado, enquanto as lágrimas desciam.

– É duro ficar sozinha, longe de quem se ama, não é? - não fingiu que não a tinha visto chorar. - Agora tem a mim. Vamos rir juntos.

Rosie enxugou seus olhos e levantou, enquanto Draco fazia o mesmo. Saíram para rua e tomaram a direção da casa de tio Ali. O caminho de volta foi feito em silêncio. Assim que chegaram, ela pediu licença, se retirou para seu quarto e não desceu para o jantar.