Capítulo III
Snape acordou depois de algumas horas, sentia-se plenamente descansado. Verificou que ainda era noite e, olhando a sua volta, achou Luna debruçada sobre um livro de capa preta e vários pergaminhos seus. Trincou os dentes enquanto levantava-se rapidamente da cama, e ao fazê-lo, percebeu que estava de pijamas. Revirou os olhos e bufou; definitivamente aquela situação estava indo longe demais. Em passos largos alcançou a mesa onde a menina estava; ela parecia tão entretida com sua leitura, que não notara a aproximação dele.
― Senhorita Lovegood - era definitivamente um rosnado -, o que pensa estar fazendo?
Luna não estremeceu ao ouvir suas palavras, apenas levantou os olhos até os dele e, com uma calma pungente na voz, disse:
― Bem, eu estava tentando entender o que fez aqui.
― E devo presumir que encontrou o que procurava? - sua voz agora oscilava entre o rosnado e o escárnio.
― Oh... - seguiu o olhar de Snape até os pergaminhos em desordem, caindo em si, e balbuciou: - Eu não tinha a intenção de deixá-lo irritado, mas me pareceu que trabalhava em algo extremamente importante, e eu... - os olhos dela encontraram os dele e se sobressaltaram com o brilho que emanavam. Ela pôs-se a arrumar os pergaminhos sobre a mesa, sem fechar o livro que colocara no colo. Com simplicidade, completou: - Encontrei muitas coisas interessantes e devo acrescentar que vê-lo ainda trabalhando com poções é gratificante...
― Você está querendo me fazer de tolo, senhorita? - Snape avançara contra Luna, debruçando-se sobre ela com os olhos cintilantes de raiva. - Está me espionando - vociferou, colocando as mãos sobre os ombros dela, sacolejou-a. - Se não é para o Potter, para quem é?
Luna fitou-o assustada, não tinha a menor idéia do que ele falava e não parecia que ele estivesse disposto a acreditar em sua palavra. Seu cérebro trabalhava inutilmente, tentando achar uma resposta convincente, mas tudo o que lhe vinha à mente era verdade. Mesmo temendo que ele não a aceitasse de imediato, era sua palavra.
― Sinceramente, professor, não estou espionando-o. – Seus olhos azuis brilharam intensos, refletindo-se nos dele. - Não vou negar que o segui, porque é perda de tempo já que estou aqui - parecia-lhe uma conclusão adequada, e Luna continuou: - no entanto, você estava adormecido e eu sem ter o que fazer... apenas li seus relatórios e - olhou furtivamente para o livro aberto em seu colo, fechando-o abruptamente em seguida, e corou ao dizer: - tomei a liberdade de consultar seus livros.
― Você apenas tomou a liberdade de fuçar em minhas coisas - corrigiu ele num tom mais ameno, mas não menos aborrecido.
― Bom, se quer colocar nesses termos - ela sorriu -, acho que fiz exatamente isso.
Snape fechou os olhos, balançando negativamente a cabeça, e retirando as mãos dos ombros dela. Luna parecia vinda de outro mundo. Ele bufou.
― Senhorita Lovegood, eu agradeço imensamente - Snape começara a falar num tom pouco peculiar a sua pessoa, era quase uma seda; tentava manter a calma que lhe restava para levar aquela conversa infrutífera adiante, mas foi interrompido pela menina.
― Eu achei que se sentiria mais confortável com pijamas. Que bom que gostou. - Um sorriso agora iluminava todo o rosto de Luna. Snape soltou um longo suspiro, fitando a menina, e pela primeira vez ali dentro resolveu adotar uma postura passiva. Deixou-a falar sem ter vontade de estrangulá-la. Luna pareceu perceber e completou: - Fique tranqüilo, professor, foi apenas uma transfiguração de roupas! - O sorriso se escondeu rapidamente dos lábios dela. - Mas fiz café e providenciei alguns croissants... Eu não sei se realmente gosta de café, mas se prefere chá, eu não teria problema nenhum em conseguir.
Os olhos de Snape pousaram sobre a mesinha em frente à poltrona, onde uma enorme bandeja de prata descansava com um serviço completo, e ao seu lado, uma cesta cheia de pães. Ele voltou seu olhar para Luna, os olhos azuis estavam brilhantes ao encontrar os dele.
― Não havia necessidade disso, senhorita Lovegood - rebateu -, sei me cuidar sozinho...
Luna mordeu o lábio inferior e baixou a cabeça, fazendo cair vários fios de cabelo loiro sobre seu rosto. Snape crispou os lábios, não era sua intenção ser tão rude, mas não sabia lidar com aquela inocência de Luna. Num gesto rápido, abaixou-se em frente a ela, aproximou vagarosamente as mãos dos cabelos loiros, e por instantes hesitou em tocá-los. Viu o corpo dela tremer num soluço mudo e desceu de leve os dedos longos sobre os fios pálidos de cabelo. Afastou-os com cuidado, percebendo os olhos vermelhos e as lágrimas que corriam livres pelo rosto, empapando-lhe a blusa. Luna levou os olhos até os dele enquanto o ouvia dizer:
― Não quer me acompanhar no café, senhorita Lovegood? - Ainda incerta, ela assentiu de leve com a cabeça, levantando-se da cadeira. Ambos ajoelharam em torno da pequena mesa e fizeram o desjejum.
Os primeiros raios de sol começavam a entrar pelas brechas das cortinas quando eles terminaram a refeição. Snape a fitou com curiosidade - Luna olhava o fogo da lareira a sua frente com olhos terrivelmente arregalados -, e perguntou:
― Em que está pensando, senhorita?
― Eu estava imaginando que você vai precisar de ajuda em breve. - Ela ainda mantinha seus olhos fixos nas chamas, mas continuou: - Eu já conheço seu esconderijo e sou também o único elo entre você e a Ordem - Luna abriu os lábios surpresa com seus pensamentos. - Eu posso fazer isso.
― O que exatamente está querendo dizer? - Snape perguntou receoso da resposta.
― Quer provar sua inocência, não quer? - Ela o fitou. - E pelas minhas conclusões, acredito que Dumbledore tenha feito o que fez para colocá-lo em uma posição que nos daria vantagem - seus olhos brilharam -, ou seja, você não serve a Voldemort, já que está entregando relatórios adulterados da poção na qual vem trabalhando.
Foi a vez de Snape encará-la estupefato, Luna apenas sorriu e completou:
― Eu xeretei mesmo os seus pertences - disse sem se sentir constrangida. - Você está deliberadamente enrolando Voldemort e ganhando tempo para descobrir algo... - Ela olhou para Snape triunfante. - As Horcruxes!
Sua excitação era tão grande que se pôs a andar pelo quarto de um lado a outro. Snape limitou-se a acompanhá-la com os olhos, seria inútil intervir nesse momento, mas tinha que pensar como agir em relação a ela. Não podia deixar que Luna saísse dali com aquelas informações todas. Além de arriscado, ela poderia se colocar em perigo. Vendo que a garota havia parado e o fitava longamente, como se esperasse por uma resposta as suas conjecturas, Snape tomou a palavra.
― Sua dedução foi surpreendente, senhorita Lovegood - disse seco. - Eu não esperava tanto da senhorita. Acho que lhe devo desculpas, a subestimei - Snape se colocou de pé e caminhou até ela, continuando a dizer: - No entanto, eu temo que essa sua descoberta não nos leve a lugar algum. - Nesse momento parou em frente a Luna, encarando-a.
― Mas, professor, eu poso levar as informações para Harry! - Ela o olhava com incredulidade. - Você não tem como aparecer sem se expor, é arriscado demais! Além disso, não acreditarão tão facilmente em suas palavras.
― Agradeço sua explanação sobre a minha situação, e agradeço também por sua gentileza, mas não posso deixar que se arrisque - disse com rispidez. - Eu tenho meios de fazê-los acreditar em minha inocência no momento certo.
― Sim, imagino que Dumbledore tenha pensado nisso, claro... - disse com calma -, mas de qualquer forma estaria se expondo e nós não lucraríamos nada com você sendo descoberto, não é mesmo? - Luna sorriu. - Eu posso fazer isso sem levantar suspeitas e sem que arrisque sua posição.
― Isso é uma guerra, senhorita Lovegood, não um passeio no parque - rosnou. - Você vai sair daqui sem se lembrar de nada do que viu!
― Eu prometo que vou ajudá-lo quando chegar o momento de provar que é inocente - a voz de Luna adquiriu um tom sério e firme -, mesmo que o Ministério tente fazer algo, eu posso acionar os jornais. Existem tablóides sensacionalistas que adorariam ter sua história na primeira capa, e isso o manteria longe de Azkaban até ser julgado. O que me diz, Severo? - Luna, marota, o encarou. A surpresa de Snape era palpável, não só pelo seu raciocínio rápido como pelo fato dela terminar a pergunta com seu primeiro nome.
― Eu acho que me enganei novamente com você, senhorita Lovegood - disse crispando os lábios.
Uma Luna sorridente surgiu na sua frente e Snape se pegou devolvendo-lhe o sorriso.
Em que mais ela me surpreenderia? - pensou.
