Capítulo V
Uma xícara de chá repousava na mesa em frente à Luna enquanto ela mantinha os olhos presos na figura de preto parada próximo à lareira. Aqueles olhos pretos refletiam a chama alaranjada, dando-lhe um ar de mistério. Snape se virou para fitá-la, percebendo, ela desviou o olhar para o chá. Não gostara da forma com que se sentira desprotegida na casa dos Weasley, e menos ainda da atitude que tomara indo parar ali naquela hora, mas pensar em Snape a acalmava. Talvez perto dele conseguisse pensar em alguma forma de fazer todos acreditarem nela. Levou a xícara aos lábios, sorvendo um grande gole da bebida quente, tentando fingir que não via o olhar atento de Snape sobre sua figura.
A mente de Snape buscava uma razão lógica para a menina loira estar ali, naquele momento. Não que realmente pensasse que a mente de Luna algum dia tivesse lógica, mas admitia a si mesmo que a sinceridade era uma de suas principais características. E se havia uma coisa que ele apreciava nela era isso, o fato daqueles olhos azuis não tentarem esconder o que se passava na mente. Quando a viu no portão teve certeza de que algo a atingira fundo, mas não foi atrás de respostas, não era certo. Diabos, brigou consigo mesmo, você está ficando velho Snape! Velho demais!
― Vai me contar o que a trouxe aqui, senhorita Lovegood? - ele a abordou, quebrando o silêncio. Luna não respondeu de imediato, parecia ponderar o que diria, normalmente não fazia isso. Snape percebeu, então, que estava muito longe de obter a resposta desejada.
― Eu precisava de um amigo - respondeu simplesmente.
― Um amigo? - arqueou a sobrancelha, tentando assimilar o que ela queria dizer com aquilo. Definitivamente não era a resposta que esperava ouvir, e continuou: - Sinceramente, senhorita Lovegood, vir aqui numa hora dessa, nos expondo e correndo perigo, não foi sensato. Eu devia ter apagado sua memória!
― Não! - ela protestou, fazendo ambos se calarem. Alguns minutos tensos se passaram até que Luna dissesse: - O que pensa realmente de mim, professor?
― O que penso da senhorita? - um leve sorriso de escárnio apareceu em seu rosto, mas se fechou em seguida ao encontrar a ruga de preocupação na testa dela. Ele poderia dizer que Luna sempre fora distraída e uma cabeça-oca, como todos os outros, que seus pensamentos eram tão infantis quanto os de uma criança de dois anos de idade. Suspirou. Não, ele podia dizer coisas melhores, coisas que nunca imaginaria dizer, como por exemplo, que ela tinha lindos olhos azuis, que seu sorriso o aquecia e vê-la no portão o deixara imensamente feliz. Obrigou-se a não pensar naquilo, desviando o olhar dela para as chamas. Luna não deveria estar ali; as lágrimas eram por causa dele, tinha certeza disso, e quis afastá-la. As palavras saíram sem que ele percebesse: - Que você é uma intrometida, não tem a noção exata de seus atos e deveria arrumar um entretenimento melhor para suas tardes de tédio.
Os olhos dela piscaram algumas vezes até assimilarem a informação. Luna sentiu-se esmagada pelas palavras, era a última coisa que pensava ouvir. Levantou-se e tomou o caminho da porta, passando por Snape sem encará-lo, deixando apenas o leve perfume de alfazema atingi-lo como uma bofetada no rosto. Ele não se mexeu, apenas ouviu o farfalhar da capa se afastando. Antes que ela transpusesse o portal, ele falou com a voz seca, fazendo-a parar sem, no entanto, se virar para fitá-lo:
― Aonde vai?
― Não sei - respondeu transpondo o portal e sumindo na escuridão do vestíbulo.
Ouviu os passos dela sumirem pelo corredor enquanto cruzava o aposento, indo até a janela. Viu-a sair para a noite fria, os cabelos loiros tremulando com o impacto da brisa e perdeu-a na imensidão da noite. Ainda ficou algum tempo olhando o vazio lá fora, depois foi até sua escrivaninha e mergulhou em seus pergaminhos.
Luna aparatou na Toca. Ainda era noite, seu corpo estava imensamente dolorido, sua mente rodopiava e se sentia muito infeliz. Venceu a distância que a separava da porta, abriu-a conjurando um feitiço, e alguns minutos depois estava deitada, entregue a um sono profundo e irrequieto.
Os dias passavam rápido, e com eles, a necessidade de derrotar Voldemort crescia. Luna não comentara mais nada sobre sua ajuda misteriosa à Harry, e Gina, por sua vez, evitava o assunto. Era como se nunca tivesse existido, aliás, era assim que Luna estava se sentindo, um nada. No entanto, a notícia da destruição da taça da Lufa-lufa trouxe uma imensa euforia para todos. Harry, Rony e Hermione saíram novamente à procura das outras duas Horcruxes, desta vez, precedidos por Lupin.
O dia em que combinara de encontrar Snape chegara, tinha que ir a Londres. Na hora marcada, ela deixou a Toca e saiu inventando uma desculpa qualquer. Durante o trajeto, se perguntou se o professor ainda estaria disposto a prestar-lhe ajuda. Decidiu que era melhor não pensar nisso, as palavras dele sempre voltavam a sua mente, frias e cruéis. Mas nem mesmo elas a faziam desistir de ajudá-lo e ajudar Harry.
Dobrou várias esquinas até chegar ao pub. A rua estava deserta, ela retirou a capa escura, revelando a calça jeans surrada e a blusa verde com um decote provocante. Colocou a capa dobrada no antebraço e entrou confiante no pub. Recebeu alguns olhares de aprovação e registrou que a pessoa a quem procurava não havia chegado. Tomou a direção do balcão e sentou-se languidamente sobre o banco. O barman se aproximou e, num tom baixo, Luna fez seu pedido:
― Tequila. - Era engraçado pedir aquela bebida assim, sozinha, todas as vezes que a tomara foram ao lado de Hermione e os outros. É verdade que nunca passara de uma dose, e não sabia qual era sua resistência ao álcool, nunca testara. Só que estava impaciente com a demora de Snape e com a terrível sensação de abandono, e depois de virar a primeira dose, exigiu: - Outra, por favor!
O barman não a interpelou, apenas colocou um novo copo a frente dela. Luna deu-lhe um sorriso, correu mais uma vez os olhos pelo salão na esperança de não ter analisado todos os recantos, mas não achou ninguém. Voltou-os para o copo e sorveu seu conteúdo, como faziam os trouxas: de uma vez só. Seus sentidos ficaram imensamente relaxados, acolchoados por uma nuvem invisível, e sentiu que um sorriso não lhe saía dos lábios. Era a melhor sensação que já tivera, o mundo podia cair-lhe na cabeça que não faria diferença. Verificou ao redor que ninguém percebera sua leve agitação interna e se preparou para pedir mais uma dose. Se Snape não chegasse, pelo menos estaria tão anestesiada que não faria diferença, não se sentiria abandonada, não sofreria.
O barman viu seu aceno de cabeça e seguiu em sua direção. Luna sentiu-se feliz consigo mesma, o homem parou a sua frente e ela se preparou para fazer o pedido, mas foi interrompida pela voz rouca atrás dela:
― Dois cafés.
― Não - ela se impôs. - Um café e uma tequila - sorriu, estalando a língua entre os lábios, e virou-se para Snape desafiadora.
Snape não disse nada, apenas fitou-a com atenção, sentando-se ao seu lado, e quando o garçom fez menção de deixá-los para trazer os pedidos, consertou:
― Duas tequilas.
