Elaborar a maneira como levariam o plano adiante foi o foco principal de Gina e Luna nos dois dias que se seguiram a reunião da Ordem. Os pais de Luna possuíam uma casa na cidade Hellys Helston, Kerrier, no sudoeste da Cornualha. Uma cidade com poucos habitantes, situada nos bancos do rio Cober e que oferecia um cenário maravilhoso para as férias com um clima mais ameno. Era nesse recanto que Luna passava tarde agradáveis com os pais, até seus nove anos, quando a mãe morreu num acidente com feitiços. Desde então, ela nunca mais quisera voltar lá, e o pai manteve a casa fechada. A idéia das meninas era convencer o senhor Lovegood a deixá-las passar um tempo aproveitando o clima de lá, longe daqueles ataques todos. Já que não poderiam sair em nenhuma missão, estariam mais seguras em Hellys. Para não levantar quaisquer suspeitas, levariam Polly com elas. Polly era a elfa que cuidara de Luna desde que a mãe morrera e seu pai se entregara de corpo e alma ao jornal. Certamente, o plano era extremamente frágil e as alegações, as mais corriqueiras possíveis, mas por ser tão banal talvez se saíssem bem. Gina achava difícil que a mãe recusa-se um convite para uma breve estadia em Hellys feito pelo sr. Lovegood, e assim elas puseram o plano em ação.
No quarto dia daquela semana, se viram aparatando até Kerrier. A casa continuava como Luna a vira pela última vez, só os jardins delatavam seu abandono completo. Ela se adiantou a Gina e Polly, entrando na casa depois de conjurar algumas palavras. Lá dentro a atmosfera abafada da sala de estar a recebeu como um afago. Luna constatou que tudo permanecera tal qual se lembrava. Gina parou ao lado dela enquanto Polly sumia pelo corredor lateral. Sem murmurar qualquer palavra, Gina imaginava como a amiga estaria se sentindo voltando ali depois de tantos anos. Luna tomou o caminho da escada, mas Gina não a seguiu, provavelmente levaria aos quartos, e por sua própria experiência, sabia que era o lugar onde as lembranças tendiam a atacar violentamente.
Com um longo suspiro, deixou-se cair sentada no sofá coral ao seu lado. Olhando a sua volta, percebeu que a sala era bem aconchegante. Os móveis eram poucos, mas de bom gosto e de boa qualidade. No canto onde havia o corredor e a escada, a parede se estendia uma pouco mais além da visão do sofá, Gina se pôs de pé e andou até lá. Em frente à escada havia um piano e encima deste, inúmeros quadros, um deles mostrava uma mulher aos trinta e poucos anos, os cabelos de um loiro pálido presos no alto da cabeça, os olhos de um azul acinzentado intenso e um sorriso que iluminava seu rosto. Gina não tinha dúvidas de que se tratava da senhora Lovegood, e a admirou, era realmente uma mulher bonita e Luna herdara muito dela, inclusive o sorriso.
No andar de cima, Luna girava a maçaneta do seu quarto, entrando na penumbra que a falta de luz do dia emprestava ao seu interior. Uma sensação doce invadiu seus pensamentos, e ela fechou os olhos, repassando mentalmente várias cenas de sua mãe ali dentro. Foram momentos tão maravilhosos que Luna se permitiu recordar um a um, como se os tivesse vivenciando mais uma vez. Depois de algum tempo de entrega as suas memórias, foi até a janela, abrindo-a e deixando a brisa fresca inundar o ambiente. Sorriu ao olhar a lua no céu, gostava de pensar que, em Hogwarts, Snape talvez estivesse vendo aquela mesma lua e sentindo a falta dela. Fechou os dedos sobre o pequeno frasco em seu bolso e voltou até a porta, saindo para o corredor. Tinha que apressar os preparativos para a aventura noturna delas e colocar Polly para dormir um sono reparador.
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Os olhos pretos fitavam atentamente os vermelhos a sua frente quando passou à mão descarnada um frasco contendo um líquido róseo. Voldemort recebeu-o com um leve sorriso nos lábios, naquela noite enfim teria de volta o colar. A parte da sua alma que o tonto do Régulo usurpara de seu Mestre. Snape fez uma nova mesura, e se preparou para deixar os aposentos do Lorde, mas este fez um gesto com a mão, impedindo-o de prosseguir.
― Não, Severo - sibilou entre os dentes -, hoje você fica. Irá esperar o retorno de seus companheiros - encarou-o. - Hoje, se houver algum fracasso de sua parte, os verá morrer em sua frente. E sofrerá as conseqüências de seu engano... talvez isso o faça não cometer mais erros.
O olhar frio de Snape se estreitou sobre a figura cadavérica do Lorde, mas ele não demonstrou qualquer emoção diante da ameaça imposta. Simplesmente moveu seus lábios num murmúrio:
― Sim, meu Lorde.
Voldemort o deixou sozinho no aposento e Snape se pegou pensando em Luna. Desejou intensamente que ela estivesse segura e que o tolo do Potter não escolhesse aquela noite para resgatar o colar. Ele estava pronto para sofrer as conseqüências de seus atos, mas não suportaria que ela pagasse por seus erros, ou o garoto. Tinha uma dívida de vida com o Potter, e não descansaria enquanto não fosse paga. Esvaziou sua mente.
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A noite já ia alta quando dois vultos deixaram o distrito de Kerrier. Luna e Gina aparataram nos jardins da casa, certificando-se que a elfa dormia um sono profundo e ninguém as via. Assim que o zumbido cessou em seus ouvidos, abriram os olhos vislumbrando a silhueta das ruínas do castelo sob a luz do luar. Luna fitou Gina e ambas sorriram. Atravessaram a ponte de pedra escondida sobre as sombras da construção e depois o campo aberto em direção ao portão da edificação. O lugar parecia abandonado há séculos e a madeira do portão não ofereceu resistência nenhuma. Com cuidado, conseguiram passar entre as tábuas podres. Entraram num ambiente escuro e mal cheiroso, andando, durante um bom tempo, por salões que sucediam uns aos outros. Finalmente surgiu uma bifurcação, ou se subia uma escada, ou se seguia por um corredor estreito. Luna segurou a mão de Gina e tomou a direção do corredor. Ao primeiro passo dado tentando transpor o arco inicial, foram arremessadas contra o chão frio do salão. Luna se ergueu rapidamente e ajudou Gina a fazer o mesmo. As duas novamente olharam para o corredor escuro, não divisavam nada e Gina falou:
― É uma barreira mágica, Luna! E eu não faço a menor idéia de como vamos passar por ela.
― Preste muita atenção no feitiço que vou dizer e me siga, está bem? - olhou para a amiga e viu-a assentir em resposta. Luna se adiantou e apontou a varinha para o corredor, proferindo algumas palavras em latim, passando, logo em seguida, pela barreira. Gina a imitou.
Do outro lado, no entanto, Luna não pôde evitar o interrogatório da amiga.
― Não dou mais um passo se não me disser exatamente como sabia aquele feitiço - disse Gina. - Eu já o ouvi antes, mas me recuso a acreditar que a procedência seja a mesma!
Os olhos azuis de Luna encontraram os dela, e ela puxou Gina pelo braço dizendo:
― Tá, eu conto - disse baixo -, mas temos que continuar andando, mantenha seus dedos sobre a varinha e não hesite em usá-la, pelo amor de Merlin. Podemos ter que enfrentar qualquer coisa, inclusive Comensais. - Gina ia protestar, mas Luna a fez calar e recomeçou a falar num tom mais baixo ainda: - Sem nomes, amiga. Não sabemos se estamos realmente sozinhas aqui, mas a resposta que deseja é essa mesmo que lhe veio à cabeça. - Luna continuava descendo o corredor, a varinha empunhada e a outra mão no pulso de Gina.
― Ele te ensinou Legilimência também? - perguntou num sussurro à amiga.
― Não - respondeu com um sorriso lembrando da noite que passaram juntos -, mas eu não me oporia.
― E você espera que eu acredite nele? - rebateu Gina. - Ele matou...
― Shhhh - retrucou Luna. - Sem nomes! - bufou. - Não acredite em tudo o que vê e ouve!
― Mas teve gente que viu - ponderou Gina.
― Viram o que tinham que ver, só isso - disse Luna com tranqüilidade, percorrendo mais um corredor.
― O que tinham que ver? - protestou Gina. - Você está apaixonada ou enfeitiçada para não ver o que ele realmente é?
Luna estacou no meio do corredor, virando-se de frente para a miga, os olhos intensos sobre ela.
― Gina, por favor, tente se conter - disse com calma -, está falando igualzinho a sua mãe. Eu posso até estar apaixonada, mas não a traria até aqui por conta disso. E não quero mais entrar no mérito da inocência dele, quando chegar a hora certa todos saberão a verdade. A mim basta o que vi e o que sei. Podemos continuar?
Ainda com os pensamentos rodopiando na cabeça, Gina a seguiu. Dobraram mais um corredor e uma luz prateada iluminou o chão pouco mais a frente de onde estavam. Luna se adiantou a Gina andando com cuidado até lá. Um enorme aposento surgiu diante de seus olhos, havia uma estrutura de pedra bem ao centro iluminada por essa luz brilhante que vinha do teto.
Gina fitou Luna preocupada, aquilo parecia fácil demais. Luna deu alguns passos em direção a peça e constatou que era igual ao que Snape descrevera: côncava e cheia de anéis sobrepostos, ali dentro estaria o colar. Fez sinal para Gina se adiantar e assim que a amiga chegou perto o suficiente para ouvir-lhe o sussurro, disse:
― Escute - soltou um longo suspiro -, preciso colocar meu braço naquele buraco para poder retirar o colar. Não é uma coisa fácil, mas precisa ser feito. Quero que me prometa uma coisa, Gina, caso algo saia errado e eu não consiga completar a tarefa, use isso - e passou às mãos da amiga uma sacola de veludo verde. - Ela contém uma moeda encantada para servir de portal que a levará até Hogwarts. Lá você encontrará ajuda para voltar à Toca. Não tenha medo, ele é inocente do que o acusam - os olhos azuis de Luna sorriram bondosamente para Gina, que assentiu com a cabeça, fechando os dedos sobre a sacola. - Ele vai se assustar ao ver você lá, é claro, mas... - engoliu em seco -, eu terei conseguido proteger você.
― Ele lhe deu isso para sua proteção? - perguntou Gina.
― Sim - ela desviou o olhar da amiga -, na última noite em que me ausentei da Toca.
― Eu não acredito que você passou a noite com ele! - protestou Gina.
― Eu não acredito que lhe contei isso - Luna sorriu. - Não podemos perder mais tempo, tenho que tomar a poção - disse, mostrando o frasco com um líquido róseo para Gina -, antes de colocar o braço dentro dos anéis.
― Para que serve isso? - questionou a ruiva. - O que exatamente tem lá dentro?
― É um antídoto - respondeu Luna calmamente -, para escorpiões. E sem esperar mais qualquer protesto por parte da amiga, levou o frasco aos lábios, sorvendo todo seu conteúdo e depois dobrou a manga da capa. Deslizou o braço para dentro da peça e, um a um, os anéis se fecharam sobre seu braço impedindo que ela o retirasse dali até o final da missão.
Gina olhava atentamente a amiga e jurava para si mesma que se algo acontecesse a Luna, mataria Severo Snape. Depois de algum tempo viu as feições de Luna se contraírem e, um pouco mais a frente, viu-a empalidecer. Gina começou a arregalar os olhos diante do estado de Luna, tinha vontade de gritar, mas refreou seus impulsos. Foi com os olhos brilhando de felicidade que viu os anéis se abrindo e revelando o braço e a mão de Luna. A menina cambaleou para longe da estrutura, escorando-se na parede de pedra, enquanto Gina foi até ela se colocando de costas para a entrada do aposento. Luna estava muito pálida, a mão apresentava várias escoriações, fruto das picadas dos escorpiões, mas entre os dedos finos, pendia o colar. Gina a abraçou, tentando passar-lhe um pouco de calor e carinho, mas passos repercutiram pelo corredor avisando-as da chegada de alguém. Luna a fitou e deslizou o colar para a mão dela e murmurou:
― Use a moeda - continuou ofegante. - Ande, Gina! Severo irá ajudá-la, confie nele! - tirou a sacola do bolso da amiga, abriu-a de cabeça para baixo, fazendo a moeda cair na palma da mão de Gina, que num piscar de olhos desapareceu. Luna escorregou amparada pela parede até o chão e a última coisa que viu foram Comensais entrando pela porta.
