Capítulo IX

Snape viu o corpo inerte de Luna surgir diante de seus olhos e não pôde fazer nada, a não ser ouvir a explicação tola de Bellatriz ao Lorde.

― Milorde, eles chegaram antes de nós - disse Bela com a voz calma -, mas deixaram para trás a menina. Não parece lhe restar muito tempo de vida, no entanto, se ela voltar a si pode nos ser útil.

― É só isso que tem a me dizer sobre o seu fracasso? - sibilou Voldemort.

― Nós cumprimos suas ordens, Mestre, como ordenado - respondeu Bella, ainda ajoelhada aos pés dele.

Voldemort soltou um grito lancinante e todos estremeceram a sua volta. Voltou seu olhar vermelho para Bela e firme ordenou:

― Crucius! - Bela caiu sobre o próprio corpo e se contorceu no chão, os olhos vidrados pela dor. Severo, no entanto, fitava Luna atentamente perguntando-se o que dera errado. Viu um movimento leve do braço dela, em breve ela voltaria a si, mas isso seria péssimo naquele momento. Precisava se aproximar dela e fazê-la beber a poção que estava em seu bolso, o que a levaria a um estado de quase morte, única maneira de mantê-la viva. Furtivamente, Snape andou pela roda, enquanto todos estavam presos à cena de tortura de Bela, e se colou ao lado do corpo da jovem.

Assim que acabou sua pequena demonstração de poder e raiva, Voldemort se virou para Severo.

― Agora, diga-me você, Severo - sibilou mais uma vez -, como eles desenvolveram a poção antes de você? Está perdendo a mão?

― Meu Lorde, a julgar o estado de quase morte da menina, eu diria que não usou nenhuma poção para proteger-se - respondeu frio. - Ouso dizer que arriscaram e foram, por assim dizer, bem sucedidos.

― Você quer me dizer que a menina pode ter alguma tolerância ao veneno de dezenas de escorpiões? - disse quase num escárnio.

― Pode ser, estamos falando de bruxos, Milorde - a voz soou como seda, mas por trás dela, havia um tom de bravata -, não de trouxas, e a senhorita Lovegood é uma puro-sangue, descendente de uma família tradicional. Não deve ser menosprezado o fato que eles conheciam e dominavam muito bem a magia antiga.

Os olhos vermelhos e os pretos se enfrentaram por segundos, era com se medissem suas forças em silêncio. Snape se manteve impassível diante da figura altiva do Lorde, Voldemort por sua vez, possuía levemente as feições contraídas, demonstrando o duelo velado que ambos travavam. O Mestre de Poções não era um adversário comum, e depois de algum tempo a tensão se desfez no ar como uma nuvem.

― Você me convenceu por hora, Severo - disse sorrindo -, mas vou lhe deixar a incumbência de se livrar do corpo. Não quero que essa menina desperte agonizante para morrer no chão da minha sala. Ela não me serve para nada nesse estado - e fazendo um gesto rápido com as duas mãos, gritou: - Saiam! Todos! Preciso pensar!

Aliviado por ter conseguido retirá-la dali sem se quer usar a poção em seu bolso, Severo desaparatou com Luna nos braços. Assim que ultrapassou os portões de Hogwarts, a viu recuperar a consciência e com um sorriso maroto, beijar-lhe os lábios. Sem pensar duas vezes, estacou, deixando que ela lhe retirasse toda a sanidade. Algum tempo depois, deslizou-a até chão, mantendo-a em seus braços, apertada contra seu corpo e a boca presa a sua. Como era doce tê-la de volta a seus braços, só sua. Luna se afastou dele e vendo a preocupação estampada em seu rosto, sorriu abertamente.

― Vai me contar o que aconteceu lá? - perguntou Snape enquanto seguiam a trilha até o castelo. - Por que foi você que tomou a poção e não o Potter?

― Porque ele não acreditaria em mim sem provas - ela interrompera a caminhada e o encarava. - Porque eu quero ajudar você.

― Porque você é um tola! - esbravejou. - Você quase morreu! Não lá, é claro, mas pelas mãos de Voldemort !

― Você se importaria se algo acontecesse comigo? - Luna o fitou mordendo o lábio inferior e os olhos brilhando.

― Sim, Luna - deu um suspiro -, eu me importaria muito - e a abraçou, enterrando seu rosto na linda cabeleira loira a sua frente.

― Preciso te contar uma coisa, Severo - murmurou, fazendo-o encará-la preocupado. - Eu não estava sozinha lá.

― Não? - rebateu seco.

― Não - Luna respondeu firme. - Eu fui com Gina Weasley - viu Snape bufar diante do nome da amiga e revirar os olhos, mas continuou: - Quando os Comensais chegaram, eu estava muito fraca e quis tirá-la logo de lá com o colar. Então dei a ela a moeda que você me presenteou.

Por alguns momentos Snape a fitou incrédulo, não por ela ter dado a moeda para a amiga, mas por ter raciocinado tão rápido a ponto de usar a mente como ele próprio faria. Snape a beijou levemente e disse:

― Vamos ver como está sua amiga. Filch deve tê-la deixado entrar, foi bom o terem deixado como vigia do castelo - crispou os lábios. - Grande idéia, a do Ministro.

Sem falar mais nada, ele continuou a trilha com Luna atrás de si. Percorreram, em silêncio, os corredores até as masmorras, mas ao entrar em seu aposento, não encontraram somente Gina. Harry, Rony, Hermione e Lupin estavam parados bem no meio de seu quarto. Harry o olhava com ódio e assim que o viu, sacou a varinha na direção do antigo professor de Poções. Luna entrou logo depois, os olhos azuis correram os rostos a sua frente, e sorriu quando Gina e Hermione vieram em sua direção, abraçando-a efusivamente. Os olhos de Gina marejaram enquanto segurava o rosto da amiga entre as mãos, e ela perguntou com voz embargada:

― Eram Comensais, não eram? - e sem esperar pela resposta de Luna, acrescentou: - Voldemort te fez alguma coisa? Você está bem?

Hermione sorriu não conseguia formular uma pergunta para Luna, já que Gina parecia ter incorporado o espírito da mãe e não as deixavam falar. Luna, a muito custo, conseguiu articular uma frase em resposta a dela.

― Eram, e graças a Merlin, Severo estava a lá quando me levaram até Voldemort - e sorriu, olhando na direção de Snape, que tinha seus olhos presos na figura de Harry. Luna desfez o sorriso e silenciou fazendo com que as outras duas também se virassem naquela direção e vissem Harry e Snape se medindo com os olhos cintilantes de ódio mútuo. Harry tinha a varinha apontada para o peito do ex-professor e Snape o encarava com seu olhar frio e impassível, a varinha segura entre os dedos por debaixo das pesadas vestes de Comensal.

― Vai me azarar, Potter? - perguntou, crispando os lábios em deboche. - Ou pretende me matar?

― Viemos numa missão de paz, Severo - disse Lupin. - Soubemos o que tem feito para conseguir descobrir o esconderijo das Horcruxes e, especialmente, como ajudou Luna e Gina a encontrar o colar - e mirando as duas, continuou: - Não que eu aprove o que elas fizeram, foi muito arriscado, mas devo admitir que surtiu efeito.

― Não era para elas terem ido sozinhas. Era para o senhor Potter, aqui, ir atrás do colar - rosnou -, mas o fato é que não acreditariam em Luna se ela simplesmente contasse o que sabia, menos ainda, se revelasse que sua fonte de informações era eu.

― Tem razão, o aconselhável no momento não seria confiar em você, Severo - respondeu Lupin. - Entretanto, eu gostaria muito de ver a prova de sua inocência, de acreditar plenamente que está do nosso lado.

― Perda de tempo, Lupin - rebateu. - Só irei apresentá-la quando minha missão terminar, o que não é o caso. No entanto, o que a senhorita Weasley levou até vocês esta noite, e eu espero que já não exista mais, serve muito bem de atenuante.

― Eu não vou aceitar sua ajuda, Snape - gritou Harry. - Não enquanto eu não souber por que fez aquilo! Eu vi você matar Dumbledore!

― Potter, se sua mente fosse um pouco mais brilhante, enxergaria a verdade por trás dos fatos - respondeu com escárnio -, mas isso nunca foi seu forte. É melhor continuar brincando de caça às Horcruxes enquanto eu faço o papel sujo! Agora, se não vão me delatar ao Ministério, peço que se retirem.

― Severo, eu gostaria que me procurasse caso mude de idéia e queira nos revelar o que realmente aconteceu naquela noite. Suas informações são valiosas e bem vindas, eu espero ainda poder contar com sua ajuda - disse Lupin antes de deixar o aposento. Snape não respondeu nada, e todos se retiraram, menos Luna, que se adiantara até ele. Snape tomou a mão dela entre as suas, apertando-a intensamente.

Houve um leve ruído na porta, e Luna pôde ver Hermione parada no batente com um olhar interrogativo e, segundos depois, as palavras brotaram de seus lábios:

― Você não vem, Luna? - sorriu.

― Não, Mione - e lançando um olhar carinhoso para Severo, completou: - Vou ficar mais um pouco.

Hermione assentiu de leve com a cabeça, deixando-os a sós.