Snape estava a algum tempo olhando pela janela, Luna apenas o fitava, de pé, no mesmo lugar em que ele a deixara desde que Harry e seus amigos haviam saído. Ele não lhe dirigira uma palavra e ela por sua vez, não ousou se aproximar; por algum motivo, que só seu coração conhecia, respeitava a atitude dele. No fundo de sua alma, queria tocá-lo e trazer-lhe algum conforto, mas a razão impedia-a de penetrar num momento tão íntimo dele consigo mesmo. Sentia que algo o atormentava a alma, mas não tinha o direito de questionar nada, quando fosse o momento ele contaria e ela estaria ali para ouvi-lo.
Seus olhos escuros procuravam uma explicação racional para se sentir tão envolvido pela menina de dezesseis anos parada no meio de seu aposento. Quando Luna apareceu, a primeira reação que despertou em seu ser foi a vontade incontrolável de cometer um homicídio. A menina sempre lhe pareceu uma completa idiota, não que fosse realmente uma cabeça-oca, diria até que era suficientemente inteligente para se manter acima da média nos estudos, mas seu aspecto negava-lhe uma mente brilhante. O colar de rolhas de cerveja amanteigada, que graças a Merlin ela abandonara, e o ar avoado que adotava, a faziam ser motivos de piadas na escola. Não que algum dia a tivesse visto se queixar com alguém, admirava isso na Corvinal, muitas vezes a vira ir apanhar seus pertences espalhados por algum aluno - mais idiota ainda -, nos gramados ou entre outros cantos da escola. Uma vez, a pegara vagando pelo corredor em horário impróprio aos alunos, estava prestes a dar-lhe uma detenção, mas ao questioná-la sobre suas ações e vê-la soçobrada de livros, ignorou que a tinha visto. Não era uma atitude muito comum a sua pessoa, mas o fato era que odiava injustiças, e aquilo era um absurdo. Pensando melhor, essa não fora a única vez que sentira pena da pequena Corvinal.
Engraçado pensar nela assim, não lhe parecia mais tão pequena, muito pelo contrário, nada daquilo que pensava sobre a menina se concretizou. Ela mostrara ser mais esperta do que ele supunha, apesar de seu pensamento não caminhar por uma lógica linear - era extremamente verdadeira. Encontrar aquele brilho de sinceridade em seu olhar quando dissera acreditar em sua inocência, quebrara suas defesas. Ela sabia como fazer isso de um jeito furtivo e intrometido que ele não conseguia repelir, mas foi pensando em Harry que usou isso a seu favor. Precisava de alguém junto a Harry, dentro da Ordem, que pudesse tentar convencer o menino a seguir suas informações até as Horcruxes, e Luna acreditava nele. Acreditava que podia convencer Harry, arriscaria tudo para fazê-lo, e era tão bom ter alguém assim ao seu lado. Alguém que não se importava com sua condição, que acreditava, mesmo sem provas concretas, que ele ainda lutava do lado da justiça. Alguém disposto a confiar nele em qualquer condição, que o fazia sentir que ainda existia uma chance de volta, de absolvição. Uma mulher - sorriu ao constatar que podia dizer isso dela -, uma mulher que ele ajudara a nascer e que atormentava seu juízo desde aquela noite, jogando seu sorriso em tudo, fazendo tudo parecer fácil. Fazendo-o esquecer de quem era e das coisas que fizera, ensinando-o novamente a ser feliz, a se sentir bem ao lado de alguém. Luna o fazia lembrar de alguém com quem sorrira muitas vezes a beira do Lago Negro, alguém que ele mandara à morte por querer ser melhor que todos, por sede de poder.
Não podia dar a Luna o mesmo destino, não era justo, mas ele a colocara em perigo para trazer Potter para perto. Trazer o menino até ele era uma prioridade, não podia abrir mão disso, mas não podia abrir mão de Luna também. Ela lhe trazia vida e luz, coisas que há muito tempo havia esquecido que existia. Ele sabia que a mandara sozinha atrás do colar, tinha consciência de que estava arriscando muito, mas era preciso, precisavam acreditar nela e, consequentemente, nele. Só não esperava que voltasse a ver Harry naquelas circunstâncias, e nem tampouco sentir o que sentiu ao ver Luna ali no chão, no meio do aposento de Voldemort; não estava preparado para nenhuma daquelas emoções que lhe inundavam, agora, a alma. Proteger Harry era tudo o que lhe importava desde que recebera a estúpida carta de Lílian. Dumbledore não precisou lhe pedir nada, nenhuma prova de seu arrependimento, absolutamente nada. O diretor sabia que apenas seu conteúdo era o suficiente para levá-lo para o lado do bem, o lado do qual ele nunca deveria ter se afastado, o lado no qual estava ela...
― Merda, Lílian! - esbravejou consigo mesmo. - Por que demorou tanto para me pedir ajuda?
Um caminho sem volta, era tudo o que lhe restava até ter Luna em seus braços; até sentir seu perfume e se impregnar de seu gosto; até descobrir que podia gostar de alguém além de Lílian, sentir seu coração disparar até que seus tímpanos explodissem. Entretanto, havia Harry e ele não podia apenas se afastar e deixá-lo só, nunca faria isso! Os olhos de Snape turvaram. Não! Por mais que o menino não o suportasse, por mais que não quisesse sua ajuda, ele a teria! Nem que fosse a última coisa que fizesse, ninguém o impediria de protegê-lo, ele o levaria a vitória sobre Voldemort! Esse tinha sido o motivo de não desistir de viver nos últimos dezessete anos, não conseguira impedir a morte de Lílian, mas ela o impedira de morrer naquele dia, colocara a vida de Harry em suas mãos. E para mantê-lo a salvo, fizera o menino odiá-lo dia após dia, enquanto se esgueirava como uma sombra tentando evitar que o mal o tocasse. Agora estava colocando o mal perto de Luna, outra mulher estava a ponto de se sacrificar por causa do menino. Tinha que manter Luna longe dele e de Harry, afastá-la daquela maldita história. Tudo o que importava no momento era a segurança de Harry e a derrota de Voldemort, e talvez, quando fosse o momento certo, Harry lhe daria a chance provar por que fez aquilo tudo.
Finalmente olhou na direção de Luna e aqueles lindos olhos azuis lhe receberam com um sorriso. Um sorriso que aquecia a alma, que tirava sua sanidade, que o fazia ter dezessete anos de novo, na beira do lago. Snape se aproximou dela devagar, Luna o deixou chegar mais próximo, tão perto que podiam sentir seus corações baterem apressados. Ela estendeu a mão até tocar suavemente o rosto de Snape, num carinho tão profundo que o fez ter certeza de que a queria mais perto, entregue. Snape a tomou nos braços, beijando-a ardorosamente, enterrou os dedos nos cabelos loiros, trazendo-a presa pela nuca, possuindo-lhe a alma. Luna correspondeu, devorando-lhe os lábios com a mesma intensidade. Minutos depois, desarrumavam os lençóis da cama com seus corpos.
Ao contrário de Luna, que adormeceu enrolada ao seu corpo, Snape permaneceu acordado durante parte da madrugada, acariciando ternamente o corpo encaixado ao seu, os cabelos loiros espalhados sobre seu tórax, guardando aqueles toques no fundo de sua alma. Pensar em Luna era como sentir a brisa fresca da manhã, era como se não existisse dor ou injustiça no mundo, só luz. A luz que o sorriso dela jogava em tudo, a alegria que sua inocência despejava em seus dias. Como gostava de senti-la perto... Abraçou-a mais forte. Fechou os olhos, vendo seus momentos juntos passarem em sua mente e adormeceu entregue aos braços dela.
Leite, torrada e mel torna um sábado chuvoso em ensolarado, he-he-hey
Leite, torrada e um pouco de café faz desaparecer do dia as coisas que você odeia, você realmente odeia
As novidades da manhã passam lentamente por mim
Eu tento não analisar mas ele não distorceu minha mente?
Ele não distorceu minha mente?
Refrão
(aqui vem ele)
Trazendo um pouquinho de amor, querido
Levando embora a dor aqui de dentro, é tudo o que importa pra mim
É tudo que eu quero na vida
Leite, torrada e mel
Não é engraçado como as coisas às vezes parecem tão claras e tão próximas?
Os sonhos que sonho, meu favorito pensamento de desejo
Oh, ele marcou cada lugar, cada lugar
Amor verdadeiro devia cair do céu
Você nunca sabe o que encontrar, mas ele não distorceu minha mente agora?
Ele não distorceu minha mente?
(aqui vem ele)
Oh deixe um pouquinho de amor, baby
Sentir que você está ficando perto de mim, é tudo o que meimporta
É onde eu quero estar
Refrão
Oh deixe um pouquinho de amor, baby
Sentir que você está ficando perto de mim, é tudo o que meimporta
É onde eu quero estar
Trazer um pouquinho de amor, querido
É tudo que eu quero
Deixar um pouquinho de amor
É tudo que eu quero
( Milk and Toast and Honey – Roxette )
