Capítulo XI
Snape despertou antes dela. Dessa vez foi ele quem providenciou e abarrotou uma bandeja de víveres matinais. Ele a fitou por algum tempo preso à imagem da mulher adormecida entre seus lençóis. Os cabelos caiam parcialmente sobre o rosto, o corpo estava coberto apenas até a metade, revelando toda a graciosidade das curvas e formando uma visão tentadora demais a seus olhos. Snape sorriu diante daquele pensamento, depositou com cuidado a bandeja ao pé da cama, e inclinou-se sobre ela, beijando-lhe carinhosamente os lábios. Luna despertou, recebendo-o com um sorriso, enlaçando-o pelo pescoço e mantendo-o preso àquele beijo. Soltou-o languidamente e cobriu-se com o lençol e fitando-o imensamente encabulada, viu-o crispar os lábios. Com seu jeito simples, quebrou o silêncio:
― Então, hoje é você quer pretende me engordar? - disse marota, puxando a bandeja até eles e mordendo os lábios enquanto escolhia o que ia beliscar.
― Decididamente eu acho que é uma coisa com a qual não deve se preocupar - rebateu irônico. - Você está ingressando na vida adulta agora e ouso dizer que está se saindo muito bem - o olhar que lhe lançou era extremamente malicioso.
― Isso é a coisa mais cafona que já ouvi, Severo! Parece meu pai falando - zombou dele, dando uma sonora gargalhada e viu-o bufar enquanto fechava o cenho.
Ainda sorrindo, Luna colocou-se na frente dele, beijando-o na testa, nas bochechas, no queixo e parou sobre os lábios, mas ele a ignorou. Ela se afastou e fitando-o, travessa, disse:
- Bom, se vai fazer birra, seu crianção, está bem - começou a se virar de costas para ele, mas Snape foi mais rápido e a trouxe num puxão para seus braços.
Os olhos negros nos azuis, os lábios roçaram sobre a superfície dos dela e murmurou baixinho:
― Era para ser um elogio, senhorita madura. Luna sorriu e rebateu:
― Eu prometo que vou aceitar como tal, professor - e antes que Snape respondesse, colou seus lábios nos dele.
Aos poucos, sentiu-o entrelaçar os dedos ao seu cabelo e tomar sua boca, retirando-lhe completamente o fôlego. Quando se afastaram seus corpos arfavam e Snape ordenou:
― Coma! - Ela assentiu com a cabeça, encostou-se nele como de costume e fez seu desjejum.
Snape a acompanhou. Algum tempo depois a viu apanhar as roupas espalhadas pelo chão e vesti-las vagarosamente. Seus olhos negros absorviam cada detalhe da cena, por mais que lhe doesse o que iria fazer, vê-la correr perigo por sua causa era inaceitável. Infelizmente se envolvera demais, não devia ter deixado que chegassem tão longe, mas Luna tinha o dom de tirá-lo do sério, e como Snape amava isso nela. Afastou tais pensamentos da cabeça e vendo-a pronta, começou a falar num tom pausado e sério:
- Luna, quero lhe pedir desculpas, não fui justo com você - disse fitando-a intensamente. - Eu a usei para chegar até Potter e quase a matei por conta disso.
― Eu me ofereci, se lembra? - respondeu fazendo uma ruga de preocupação na testa.
― Não, Luna eu a induzi a fazer isso - rebateu seco. - Eu a fiz crer que sua intuição estava certa, que eu era inocente e tinha como provar isso - Ele desviou o olhar dela. - Precisava de alguém que trouxesse Potter até mim, mas a coloquei num plano arriscado, e quase a perdi.
Os olhos azuis de Luna o fitavam atentamente, algo apertou em seu coração, e aos poucos os olhos nublaram se tornando úmidos e avermelhados. Num gesto rápido, ela os secou.
― Você está querendo dizer que mentiu para mim? - balbuciou. ― E o matei, Luna, isso é um fato - rosnou. - Entretanto, tive motivos para fazê-lo, isso não é mentira. Dumbledore estava envenenado quando voltou aquela noite da busca com Potter, e nós tínhamos traçado um plano de ação, um plano que implicaria a morte dele, da forma que foi, apesar da minha oposição. No entanto, devo dizer que mais uma vez ele estava certo. Conseguimos impedir um destino cruel para Draco e tal situação me colocou numa posição privilegiada aos olhos do Lorde.
Luna assimilava cada detalhe do que ele dizia em sua complicada cabeça. Snape, ao contrário, tentava não pensar em como ela reagiria a tudo.
― Dumbledore não iria querer vê-lo preso em Azkaban - ela rebateu quase aos prantos.
― Isso não tem a menor importância diante do fato do Lorde ser derrotado - disse ríspido.
― Tem para mim - murmurou. - Não vou deixar que isso aconteça.
― E como pretende impedir minha prisão? - retorquiu com escárnio.
― Ainda não sei, mas deve haver um jeito - seus olhos cravaram nele. - Você gosta tanto de lutar, por que não quer lutar por sua vida?
― Eu estou lutando por vidas, senhorita Lovegood! - esbravejou. - Pela sua e de Potter. A minha não terá o menor valor caso Potter falhe, no entanto, se ele for bem sucedido... - a voz dele se tornou baixa -, eu talvez tenha uma chance de provar que lutei ao lado dos bons e que tive de fazer o que fiz! - completou com escárnio. - Não vale a pena se apegar a algo tão frágil como essa esperança, senhorita Lovegood.
― Acha mesmo que quero esse tipo de sacrifício de sua parte? - ela se aproximou e tentou tocá-lo, mas ele desviou. - Eu acho que Potter deixou bem claro que não quer sua ajuda, talvez esse seu altruísmo seja em vão. Por que insiste tanto em ajudá-lo?
― Porque fiz uma promessa, porque eu preciso... Porque existem coisas sobre as quais você não imagina... - a sua voz abaixou novamente, e tentando afastá-la a qualquer custo de si, rosnou: - Basta! Eu aceitei as regras do jogo e pagarei o preço necessário para que ele fique vivo. Há coisas mais importantes envolvidas do que um Comensal em fim de carreira.
― O quê, por exemplo? - ela sustentou o olhar no dele. - Sua tendência a ser mártir? Conte-me, Severo, por que manter Harry vivo é tão importante?
― Só ele pode matar o Lorde das Trevas, caso esqueceu da profecia? - crispou os lábios para ela.
― Essa me parece ser a justificativa para o mundo bruxo querê-lo vivo - seu tom era mordaz como o dele -, mas e o seu motivo?
― Não há meu motivo - rebateu frio -, tenho uma dívida de vida com Tiago, só isso.
― Há muito mais do que isso, Severo - Luna disse num tom baixo e sofrido. - Algo que você não quer me contar, mas que justifica o que você irá me pedir daqui a alguns minutos - tentou não embargar a voz ao completar: - Só não tente mentir, dizendo para mim que não sente nada, porque eu senti seu amor e não vou aceitar que negue isso. Snape a encarou, as lágrimas escorriam pelo rosto dela em pares, teve vontade de abraçá-la, impedi-la de sofrer, mas era tarde demais.
― Não vou negar que... - engoliu em seco -, você foi a melhor coisa que me aconteceu em muitos anos, e por isso eu não posso expô-la mais. Voldemort acha que está morta, e estará se eu a mantiver ao meu lado. Eu não quero perdê-la com já perdi alguém. Eu quero que viva anos e anos! Quero que tenha lindos filhos e que encontre alguém que a ame e nunca a faça sofrer como eu estou fazendo agora! - Snape se aproximou dela e enxugou as lágrimas com as pontas de seus dedos. Luna fechou os olhos, sorvendo o toque dele enquanto o sentia deslizar os dedos até seus lábios.
― Eu o amo - mexeu os lábios sob os dedos dele, a voz saiu baixa e pausada -, e nada do que tenha feito ou faça mudará o que sinto. Entenda, Severo Snape, não há nada que possa acabar com isso, nada! - Ela abriu os olhos, mergulhando nos pretos, beijando-lhe os dedos, fazendo Snape tomar-lhe os lábios numa fúria incontrolável.
Durante minutos infinitos ficaram entregues ao sabor de seus beijos. Foi Luna quem se afastou e, ainda com o rosto molhado, disse:
― Eu vou, mas isso não é um adeus, Severo - a voz fraquejou. - Eu não vou permitir que me deixe sozinha, você vai ver que não pode fugir do que sente para sempre.
Ela pegou a capa, colocou sobre os ombros e sem olhar para trás, saiu para o corredor. Snape viu-a sair, as palavras ecoando em sua mente, a dor tomando conta de cada pedaço de seu coração, esmagando-o contra o frio chão daquela masmorra. Ele se aproximou devagar das janelas e seus olhos escureceram ao ver a figura feminina cruzar os jardins. Sabia que ela ia chorando e que cada lágrima que caía sufocava-lhe o coração.
Seus dias se tornaram tristes, frios e vazios. Não havia mais luz para encher sua vida de cor. Seus olhos sempre se voltavam para a janela, fitando o gramado, mas não havia nada nem ninguém, só a solidão do homem em que se transformara. Pegou a capa e saiu. O frio da noite se intensificara, Snape percorreu as ruas de Londres até chegar ao pub onde ela o encontrara. Entrou, não havia muita gente, mas viu o mesmo garçom que os atendera, limpando o balcão, e pediu:
― Whisky.
Segundos depois, uma dose era colocada a sua frente, e ele a sorveu de uma vez só. Pegou um cigarro no bolso da capa, acendeu-o e levou-o aos lábios. Olhou para os lados, e não havia nem sinal dela. O cigarro chegou ao fim, Snape pediu mais uma dose e sorveu-a rapidamente como a primeira. Apoiou a cabeça entre as mãos, escorregando-as pelos cabelos lisos e murmurou para si mesmo:
― Merda, Snape! Onde ela está? - levantou-se, atirou umas moedas sobre o balcão e saiu para a noite fria. Ao longe, os olhos azuis choravam...
Eu estive acordada a noite toda, você esteve erguendo uma luta,
Parece que nada que digo ajuda
Como nesta cama velha coube um mundo entre eu e você?
Nós dissemos "boa-noite", mas o silencio era tão íntimo que se conseguia cortar com uma faca
Nós batemos com a cara na parede de novo e não há nada que eu possa fazer
Você é o único, coloquei toda minha confiança em suas mãos
Venha e olhe nos meus olhos, cá estou, cá estou
Você não me entende, meu querido
Você parece não saber que preciso demais de você
Você não me entende, meus sentimentos,
a razão pela qual estou respirando, meu amor
A manhã chega e você está procurando por mim como se tudo estivesse igual
E me permito acreditar que as coisas vão mudar
Quando você beija minha boca e você puxa meu corpo para perto
Você imagina quem está por dentro?
Talvez não haja jeito de sentirmos cada um a dor do outro
Conte-me por que fica mais difícil saber onde eu estou
Imagino que a solidão encontrou um novo amigo, cá estou
Você não me entende, meu querido
Você parece não saber que preciso demais de você
Você não me entende, meus sentimentos,
a razão pela qual estou respirando, meu amor
Você não parece me compreender, meu querido
Você realmente não vê que vivo pelo seu toque
Você não me entende,
Meus sonhos ou as coisas em que acredito, meu amor
Você não me entende
Você não me entende
Me entende
( You don't understand Me – Roxette )
