Capítulo XII

Duas semanas passam rápido, tão rápido quanto nuvens no céu durante o prenúncio de uma tempestade. Luna havia evitado qualquer contato com seus amigos desde que voltara de Hogwarts. Precisava de um tempo para se acostumar com todas as coisas que Severo dissera, com o vazio imenso que sentia, e aprender a conviver com o fato de que ele fizera isso ainda gostando dela. As lágrimas rolaram livres pelo seu rosto mais uma vez. Uma coruja castanha posou na janela, e novamente Luna teve vontade de ignorar a carta de Gina, sabia que a amiga estava preocupada, mas a insistência dela a irritava. Quando conseguisse manter seus sentimentos a salvo das atitudes mesquinhas de Severo, ela estaria pronta para enfrentar o mundo. Pelo menos seu pai nada sabia, e a ignorância do fato em si impedia perguntas e um inquérito familiar.

A carta sugeria uma visita à Toca na tarde seguinte para um chá com bolinhos, Luna riu, aquela era a maneira mais ridícula que Gina e ela tinham imaginado para avisarem uma à outra sobre a reunião da Ordem. Dando um longo suspiro, concluiu que tinha poucas horas para guardar todos os seus momentos com Severo no fundo da mente e enfrentar Gina. A amiga devia ter um pergaminho repleto de perguntas - novo suspiro -, vestiu algo decente e desceu. Encontrou Polly no meio do caminho e deu-lhe instruções caso o pai perguntasse por ela: estaria na Toca com Gina Weasley. Não ia adiantar ficar em casa se escondendo de Voldemort, precisava apenas tomar cuidado para não ser vista, e não lembrava do Lorde freqüentando as reuniões da Ordem. Riu de si mesma, de seu pensamento idiota, provavelmente Severo reviraria seus olhos diante dessa argumentação brilhante. Azuis se tornaram escuros ao pensar isso. Severo - bufou -, Sempre Severo, raios!

Luna voltou ao quarto, colocou uma capa sobre os ombros, e tomou a direção do escritório de seu pai. Entrou na lareira atirando Flu ao chão. Segundos mais tarde, o conhecido cheiro da comida da senhora Weasley ativou seus sentidos. Luna abriu os olhos contemplando a sala de estar da Toca. Um sorriso se formou em rosto, não sabia que sentia tanta falta daquele lugar, era como estar de volta ao lar. Mal saiu da lareira e foi abraçada pela dona da casa com seu jeito maternal e protetor. Luna gostava de sentir o carinho da senhora Weasley, era como ter a mãe perto novamente, alguém que estava sempre pronta para recebê-la fosse qual fosse a situação.

Viu o rosto de Molly sorrir para ela logo depois de soltá-la e ouviu-a fazer as perguntas de praxe. Não pôde deixar de se sentir aliviada ao constatar que ela nada sabia, ou pelo menos evitava tocar no assunto, e com um sorriso nos lábios recebeu a ordem de ir para o andar decima procurar seus amigos. Luna girou nos calcanhares e tomou a direção da escada. Quando chegou ao quarto de Gina, viu a amiga preocupada em encaixar vários itens dentro de uma frasqueira, onde provavelmente não cabia a metade.

― Vai viajar, Gina? – perguntou num tom humorado avisando-a de sua presença.

Gina olhou na direção da porta vendo Luna parada no batente, deixou seus afazeres e se adiantou até a amiga, abraçando-lhe fervorosamente. Luna fez o mesmo, também sentira muitas saudades. Gina a fez sentar do seu lado na beira da cama, e fitando-a discretamente, perguntou:

― Como você está?

― Bem – disse Luna.

― Eu imaginei que depois de tudo que aconteceu, ele lhe pediria para se afastar dele – Gina mordeu seu lábio antes de prosseguir – Foi por isso que você ficou esse tempo todo longe, não é mesmo?

― Sim – respondeu curta. – E ainda não me acostumei com a idéia.

― Sabe - disse com suavidade e tomou a mão de Luna nas suas –, admito que eu não estava inclinada a confiar nele, mas ele a está protegendo e isso é muito mais do que eu esperaria dele caso não estivesse realmente do nosso lado.

― Você tem noção do que foi ouvir tudo o que ele disse para mim? – retrucou Luna.

― Snape fez o que devia fazer – replicou Gina. – O que você esperava? Um pedido de casamento? – fitava a amiga a sua frente e viu Luna baixar os olhos. – Você deveria saber melhor do que eu que Snape fez isso para colocá-la a salvo, para que não caia nas mãos de Voldemort. Se ele tiver uma vaga idéia de que está viva, irá fazer Snape pagar por ter mentido e virá atrás de você por vingança.

― Não, Gina – Luna levou a mão ao rosto secando algumas lágrimas -, ele fez isso porque tem medo do que sente, porque está se entregando a essa guerra de corpo e alma.

― E não é o que todos estamos fazendo, cada um ao seu modo? – retrucou a amiga.

― Sim, mas há várias formas de lutar – a voz de Luna adquiriu um tom sombrio -, não desistindo de si mesmo!

― E por que Snape faria isso? – perguntou Gina. – Ele não me parece uma pessoa que teria esse tipo de atitude.

― Ele também não parecia o tipo de pessoa que amasse, não é mesmo? – Luna encarou os castanhos a sua frente. – Não parecia confiável, era apenas um assassino frio e cruel até poucas semanas.

Gina se calou, sabia que isso era verdade. Luna, por sua vez, também sabia que aquele não era o único motivo para Snape tê-la afastado, havia algo mais, algo que dizia respeito a Harry. Entretanto, ela achou melhor não comentar nada com ninguém, nem mesmo com Gina. Foi arrancada de seus pensamentos quando a porta do quarto se abriu dando passagem ao outros três amigos: Harry, Rony e Hermione.

Gina se colocou de pé e foi até Harry, abraçando-o, enquanto Rony e Hermione sentavam ao lado de Luna. Vendo o semblante sério do ex-namorado, Gina indagou:

― O que aconteceu?

― Nós fomos até o Largo Grimauld e tivemos uma conversa com Lupin a respeito do paradeiro das duas últimas Horcruxes – explicou Hermione.

― E? – os olhos de Gina correram pelo rosto dos três.

Harry olhou para Luna e depois para os amigos. Hermione fez um gesto quase imperceptível de cabeça para que ele falasse, e ele praticamente cuspiu as palavras:

― Lupin não estava só quando chegamos lá.

― Estava com a Tonks? O Moody? – arriscou Gina. – Vamos, Harry, diga logo.

Demorou vários minutos até que as palavras saíssem de seus lábios, os olhos fixos em Luna que fitava atentamente as mãos crispadas sobre a capa.

― Snape estava com ele – disse rapidamente tentando impedir que a amiga o ouvisse, mas ela erguera os olhos azuis e o encarava.

― Ele trouxe alguma informação importante? – quis saber Gina ao mesmo tempo em que lançava um olhar de canto para a amiga.

― Ao que tudo indica, sim – respondeu o menino.

― Como ele está? – a voz de Luna soou, no quarto, firme e calma.

― Aparentemente bem – respondeu Hermione.

Rony ia contestar a informação, mas um leve estocada do cotovelo de Hermione acertou-o na costela e o fez calar.

― Você mudou de idéia Harry? – questionou Luna. – Vai confiar em Severo?

― Lupin não me deixou escolha – retorquiu. – Não me agrada ver minha vida nas mãos dele. Dumbledore confiava nele e morreu por suas mãos, é um risco não é mesmo? – Harry falava com os olhos verdes faiscantes.

― Eu posso afirmar que ele está disposto a ajudá-lo de qualquer forma, Harry. – Luna se colocou de pé, encarando-o. - Acho que ele já provou isso. Você não concorda?

― Acho que ele tem que explicar muita coisa – rebateu rispidamente -, e espero que ele possa fazer isso antes de ir para Azkaban. – Harry viu os olhos azuis de Luna se tornarem escuros, mas continuou no mesmo tom: - Entretanto, Lupin me convenceu a aceitar a ajuda oferecida por Snape, afinal, se o que ele diz é verdade, Dumbledore premeditou tudo isso. Ele nos fez chegar a uma Horcrux e destruí-la, pode fazê-lo de novo e provar que está do nosso lado.

― Eu espero, sinceramente Harry, que você nunca tenha que se arrepender de suas palavras. – Luna o olhou com desprezo, antes de sair pela porta do quarto.

Harry olhou para os amigos, deu um longo suspiro se jogou na cama ao lado de Hermione e Rony, enquanto Gina saiu atrás de Luna.

― Como ela pode acreditar tanto nele? – indagou Harry ao fitar o teto do quarto.

― Ela sempre me pareceu maluca – ponderou Rony.

― Maluca ou não, ela nos trouxe uma Horcrux – disse Hermione –, e talvez, se Luna não pensasse tão diferente de nós, estaríamos batendo a cabeça para achá-las – completou olhando os dois amigos. – Podemos não gostar de Snape, mas ele parece estar muito obstinado em fazer Harry destruir Voldemort, e isso não é a atitude que esperávamos dele.

― Pode ser uma armadilha – disse Rony.

― Voldemort não arriscaria perder parte de sua alma numa armadilha para por as mãos em Harry... – e com os olhos brilhantes, acrescentou: – Lembrem-se que essa Horcrux nem ele mesmo sabia onde estava. Snape deu a poção certa para Luna e a adulterada para Voldemort, isso é um fato, e por mais que queiramos ignorá-lo, é um fato significativo porque ele se expôs, e muito – e concluiu fixando seu olhar em Harry. – Gostaria só de saber porque ele arriscou tanto.

Os três se olharam, enquanto Rony fazia um muxoxo. Gina descera atrás de Luna, e a viu sair para os jardins da Toca. Aproximou-se sem falar nada, apenas vendo os cabelos loiros da amiga tremularem com a brisa do final da tarde, os olhos azuis fixos no infinito.

O dia seguinte chegou com seus pálidos raios de sol e, no meio da tarde, eles partiram para o Largo Grimauld como combinado. A reunião começou pontualmente às oito horas, presidida por Lupin, que primeiramente fez uma longa explanação sobre a audácia dos ataques de Comensais a trouxas, e terminou o discurso dizendo que mais do que nunca concentrariam seus esforços nessa direção enquanto Harry continuaria a busca pelas últimas Horcruxes. Passou, então, a palavra ao rapaz, a quem coube a missão de revelar que estavam bem próximos de conseguirem o penúltimo pedaço da alma de Voldemort. A reunião encerrou com Moody pedindo para todos redobrarem a atenção quando saíssem de casa para fazer o que quer fosse.