Capítulo XV

Estavam sentados de frente um para o outro, os olhos pretos fitavam os azuis. Havia chegado numa encruzilhada, tinha que revelar à Luna a verdade sobre seu passado, e esperar que compreendesse os seus atos. Não se achava mais no direito de esconder de sua futura esposa, o motivo pelo qual Dumbledore confiava tanto nele, o motivo que o levava a proteger e ajudar Harry Potter. Os doces olhos verdes de Lílian passaram pela sua mente como um raio.

― Luna – começou a falar no tom mais calmo que conseguia. – Lembra-se de quando lhe falei que precisava proteger Harry a qualquer custo, e que nada nem ninguém me impediria de fazer isso?

― Sim... – ela o fitou preocupada.

― Você me colocou contra parede dizendo, acertadamente, que havia algo por trás desse fato – ele a encarou em pretos brilhantes, e com um suspiro, disse: - pois bem, chegou a hora de lhe contar o que há de errado, o que aconteceu há pouco mais de 17 anos.

Luna não disse nada, apenas permaneceu fitando-o com a ruga de preocupação delineando-se em sua testa. Snape se levantou, andando até as janelas e pousou os olhos sobre o horizonte antes de recomeçar a falar.

― Por algumas vezes eu quis esquecer que um dia havia conhecido Lílian Evans, e em muitas outras, quis dar minha vida para tê-la de volta em meus braços – calou-se por algum tempo, e depois continuou: - Lílian e eu mantivemos um namoro que durou um ano e meio. Começou pouco antes do último ano escolar e terminamos três meses depois que saímos de Hogwarts. Ela era uma criatura adorável. – Luna não pode ver, mas os lábios de Snape crisparam num sorriso – Diferente de todas as meninas que eu conhecera e muito esperta para uma Grifnória, devo acrescentar. Acho que nos apaixonamos entre uma aula de poções e outra, e, talvez, se não fosse pelo Sr. Potter e seus amigos, teríamos ficados juntos há mais tempo. Estavam sempre aprontando alguma coisa nos corredores, nos jardins, ou onde lhes conviessem. Irresponsáveis. Não davam o mínimo valor às regras e não se importavam em expor os outros a uma humilhação ou ao perigo. – A voz de Snape tornou-se dura e fria, e continuou: - Não muito obstante disso, a felicidade sempre foi apenas uma sombra tênue sobre mim, nunca durou muito. Não tenho recordações de muitos dias felizes em minha vida, e até o presente momento em que conheci Lílian, tudo o que vivenciara bem era dor e maus tratos. Se de alguma forma eu aprendi sobre o amor, foi através de minha mãe, a única pessoa que o tinha não só para si, mas para todos que ela amava, inclusive o traste do meu pai. – Snape notou que havia desviado um pouco do centro da conversa, limpou a garganta, e continuou:- Eu era jovem e ambicioso, estava prestes a me formar, mas os tempos se tornaram difíceis e negros. Fui estúpido o suficiente para deixar Lílian sozinha e me dedicar incondicionalmente às Artes das Trevas achando que aquilo iria me dar tudo o que almejava. Eu conseguiria me impor em meio àqueles que me consideravam um nada, um mestiçozinho de merda! – rosnou. – Não percebi que a estava perdendo, deixando de lado o que me era mais precioso, mais caro. Fiquei cego pela ambição e escravo do poder, e esqueci das coisas simples que se tem quando se ama.

Pretos estavam escuros como as nuvens que se acumulavam no céu do lado fora das vidraças. Luna nada dizia, abaixara seus olhos para fitar suas mãos, em azuis tristes.

― Lilly tentou me dissuadir várias vezes de meu intento, me mostrar o quanto estava errado, mas eu não lhe dei ouvidos. – Luna estremeceu ao ouvi-lo dizer o nome da mãe de Harry com tanto carinho, era como se ela estivesse presente naquele aposento junto com eles. A voz de Snape, no entanto, continuou impassível: - Eu estava obcecado pelo reconhecimento de minhas habilidades, e com ele, a aceitação no mundo bruxo por todos aqueles que me subjulgavam. Foi numa noite de nevasca intensa que eu conheci o Lorde. Régulo Black havia me convidado para uma festa na Mansão dos Malfoy e resolvi ver de perto quem era o homem que poderia me dar o que eu queria. Não vou negar que ele sabe seduzir com seu discurso embrenhado de soberba e promessas, milhares a segui-lo, principalmente quando se é jovem e tolo. – Ele respirou fundo antes de prosseguir, ela, por sua vez, sentiu seu coração se enterrar no fundo do estômago – Quando deparei-me com Lílian no dia seguinte a esse encontro, estava acompanhada de Potter, e se despediu dele com um sorriso assim que me avistou. Aquela visão não deveria me agredir tanto, em algum momento ela havia me contado que trabalhavam juntos no Ministério, mas o fato era que eu tinha que ter minhas emoções sobre controle se quisesse fazer parte do círculo dos partidários do Lorde. Lílian era uma fraqueza, não só porque a amava, mas porque meu relacionamento com ela não seria bem visto entre os de sangue-puro, não naquele momento. Primeiro eu tinha que conquistar a confiança do Lorde, depois de ter conquistado poder e respeito, poderia conduzir minha vida como quisesse. Tolo idiota! – Luna pôde sentir os lábios dele crisparem num escárnio de si mesmo, teve vontade de abraçá-lo, tocá-lo de alguma forma, mas se sentiu tão distante dele que o deixou prosseguir. - Quando se entra para as Trevas não há volta... apenas dor e ilusão. Então, deixei que meus pensamentos se tornassem negros, que o ódio por Potter fluísse em minhas veias e, com isso, justificasse o fato de eu a estar tirando de minha vida. Eu a vi sair pela porta sem derramar uma lágrima, apenas seus olhos verdes me fitavam com toda a dor que eu havia proporcionado. - Luna agora crispara as mãos sobre o tecido de sua veste, podia sentir toda a dor das palavras dele, fechou os olhos deixando-o continuar mais uma vez. – Meu segundo encontro com o Lorde também foi na Mansão Malfoy, mas desta vez foi-me dispensada uma atenção especial. Já era de seu conhecimento minha afinidade com as Artes das Trevas, especialmente no que tangia o preparo de poções, o que ele muito apreciou. Depois dessa entrevista, eu recebi o convite para ser aprendiz de um Mestre de Poções respeitado e, evidentemente, não menos colaborador do Lorde das Trevas. Tão logo terminariam meus estudos, eu teria um lugar garantido ao lado dele, e na minha concepção na época, uma posição privilegiada. De fato, quando retornei um ano depois, era o novo brinquedinho do Lorde, e nada melhor do que testar a lealdade daquele que ele ajudara a moldar. Tinha ganho a Marca Negra há apenas dois dias, mas ao contrário do que era reservado aos novatos, fui escalado ainda naquela semana para uma pequena tarefa ao lado do Lúcio. – Snape não a encarou um minuto sequer durante a conversa, e agora as lágrimas começavam a escorrer dos olhos de Luna, com a certeza do que iria ouvir. – Quando eu sai, naquela noite, não conseguia sentir medo ou pesar pelos que cruzaram meu caminho. A dor que eu via nos olhos deles era a minha certeza de me tornar o servo mais leal do Mestre, e o único doutrinado por ele. Resultado da missão: Severo Snape, fiel Comensal do Lorde. – As lágrimas correram livres pelo rosto dela, mas mesmo assim, seu coração batia forte pelo homem a sua frente. Sentiu que ele suspirara antes de prosseguir: - Alguns dias depois eu soube que Lílian ia se casar com Potter, o estúpido grifinório com quem eu tinha uma dívida de vida, fruto de mais uma brincadeira inconseqüente de Sirius Black, e que me proporcionou a pior recordação de minha vida... – a voz dele sumiu por segundos. Luna sabia do episódio que envolvia Lupin, mas mesmo assim se espantou ao ouvi-lo dizer aquelas palavras tão impregnadas de ódio. Quando Snape voltou a falar, estava novamente seguro de seus sentimentos. – Durante muito tempo eu me perguntei por que ela me procurou em Spinner's End àquela noite; ela sabia que não mudaria minha escolha, não depois de tudo, mas mesmo assim veio até mim. Foi a primeira vez que tive nojo do que me tornara, e senti ódio de tudo o que me levara a cometer aquela violência comigo mesmo. E pela última vez eu a ouvi dizer que ficaria comigo... Ela não sabia o perigo que corria ao meu lado? – pensei na época. Lílian representava tudo o que o Lorde combatia, no entanto, eu descobri que ainda a amava, e que por ela ainda seria capaz de fazer qualquer coisa. Isso me assustou, eu já havia chegado longe demais para voltar, simplesmente, mesmo que houvesse uma possibilidade de volta, implicaria nos mesmos riscos de a manter ao meu lado na vida que escolhera para mim. Eu a mandei embora, agora, pelos motivos certos.

Snape se calou, mais uma das breves pausas de sua narrativa, mas não ousou olhar para Luna até tudo estar terminado. Ela enxugou as lágrimas que caíam de seu rosto, e ele recomeçou a falar:

― Ela estava certa em ter vindo, eu compreenderia isso no ano seguinte, ao ouvir a frase que mudaria definitivamente as bases já não tão sólidas, nas quais eu acreditava ter sustentado minha vida. Eu estava no bar, sentado perto da mesa na qual a professora Trelawney aguardava por Dumbledore. É claro que eu não sabia o motivo dela estar ali, aquilo não fora premeditado, mas podia me render algum benefício. Eu os vi subir assim que o diretor chegou, e quando tive oportunidade, fiz o mesmo. Apesar de ser flagrado ouvindo uma parte da profecia, Dumbledore apenas me retirou do bar. O que me pareceu estranho na ocasião, mas depois revelou seu real motivo. Evidentemente, eu contei ao Lorde o que ouvira, e para minha surpresa, e cabe mencionar também, posterior aversão, ele empreendeu uma busca sem limites para achar a criança da profecia. Não havia uma noite em que não houvesse uma busca com vítimas, como se já não bastasse os ataques aos trouxas que eram cometidos deliberadamente, como uma orgia sangrenta, tangendo a loucura. Então, eu comecei a analisar cada palavra da maldita frase que ouvira, e seguindo uma linha óbvia de raciocínio, cheguei até alguns nomes, dentre os quais havia os Potter. Lílian tinha tido um filho e o menino se encaixava perfeitamente dentro daquelas palavras. Não seria difícil para o Lorde chegar à mesma conclusão que a minha mais cedo ou mais tarde. Ela corria perigo, e foi isso que me fez ir até Dumbledore. Quando se aceita servir ao escuro, você perde mais que sua alma, você não tem dignidade, não tem valor. Quando se curva diante do poder, você é absorvido por ele e deixa de ser, passa apenas a subsistir na escória Eu precisava mantê-la a salvo e para isso não importava que preço pagaria, mesmo que minha vida valesse alguma coisa, eu abriria mão dela por Lílian. Afinal, se um dia abri mão da minha vida para alcançar o poder, sem dúvida, eu poderia fazer isso de novo para simplesmente salvar a vida daquela que sempre confiou em mim. Não tive dúvidas em propor a posição de espião dentro do campo inimigo para poder manter Dumbledore ciente de qualquer ameaça à vida de Lílian, e pudesse avisá-la. Para não levantar suspeitas, Dumbledore sugeriu que eu persuadisse o Lorde com a mesma idéia, a de ser um espião em Hogwarts; foi assim que ganhei o cargo de professor, e com isso, a chance de provar ao Lorde que eu lhe era mais fiel do que nunca. Você não imagina o sorriso de triunfo que ele deu quando eu lhe mostrei minha intenção, chegava a ser palpável. Entretanto nada disso teve o efeito desejado, eu não fui rápido o bastante para salvá-la... – as feições dele se tornaram duras, Luna podia sentir, mas não o interrompeu. – Eu queria poder matá-lo com toda a raiva que sentia quando soube da morte dela, e depois apodrecer no mais profundo buraco da terra, mas havia a carta... a maldita carta...

― O que dizia a carta, Severo? – balbuciou Luna

― Lílian me pedia que cuidasse da criança, que fizesse de tudo para protegê-la... – a voz dele era quase como um sussurro perdido no frio das masmorras. – Porque apesar do tempo perdido em falsos caminhos, ela acreditava que o meu verdadeiro lugar era onde eu estaria quando essa carta chegasse as minhas mãos, e que eu teria oportunidade de provar isso para mim mesmo protegendo Harry... Protegendo o meu filho.

O ar se tornou tão pesado que Luna encontrou dificuldade em respirar e se manter calma, e não viu pretos nublarem. Snape esperou até que ela assimilasse completamente todos os fatos. Quando ele a fitou, pretos estavam calmos como a superfície de um lago.

― Por que nunca contou a Harry? – perguntou enfim.

― Porque protegê-lo na ignorância do fato era o melhor a se fazer – rebateu. – O meu papel de espião passou a ser fundamental para mantê-lo seguro, e claro, ajudou muito a evitar inúmeras catástrofes..

― Ele acha que você é um assassino frio – a voz de Luna embargara -, não pode deixá-lo acreditar nisso. Harry tem que saber o que você fez, e faz, por ele.

― Não é o momento ainda, Luna – e a fitou em pretos cansados -, mas eu precisava lhe contar tudo o que aconteceu... Acredite não foi fácil dizer-lhe cada palavra, mas eu queria fazê-la compreender quem sou; o que fiz e porque fiz.

Snape andou até ela e pôde ver azuis pálidos e úmidos. Luna se levantou, deu a volta na mesa e se colocou a frente dele. Pretos agora aguardavam tensos.

― Eu não vou julgá-lo pelo modo errado como conduziu sua vida no passado, acho que já pagou um alto preço por isso... e ainda paga – tocou de leve o rosto dele com a mão fazendo-o fechar os olhos. – Posso não concordar, mas compreendo porque agiu assim, e mesmo que pudesse significar alguma coisa para mim, nesse momento não faria diferença... Eu o amo.

Snape abriu os olhos encarando-a em pretos brilhantes, como gostara de ouvir aquelas palavras, como agradecia à Merlin ter colocado-a em seu caminho. Luna esboçou um leve sorriso e disse:

― Diga-me, Severo, você não está querendo resgatar Lílian através de mim, está? – Os olhos dela nublaram novamente. – Eu não quero um sentimento que seja a sombra do que você sentiu por ela.

― Lílian está morta – retrucou Snape.

― E o que você sentia por ela? – rebateu Luna, as lágrimas correram.

― Eu dediquei esse sentimento à Harry... Ele é a parte dela que sempre terá meu amor – Snape a fitou em pretos escuros.

― E o que sente por mim? – os soluços cortavam o choro dela. Snape se colocou mais próximo, levou sua mão até o rosto dela, num toque suave e gentil. Ela fechou os olhos sentindo o calor daquele contato.

― Eu achava, até você aparecer, que nunca teria uma segunda chance de ser feliz, mesmo existindo o Harry, porque infelizmente, ele nunca foi de fato uma realidade para mim. Não como filho, ou como família, apenas algo distante e intocável - deslizou as pontas dos dedos até os lábios dela. – Eu não podia imaginar que você fosse me tocar da mesma forma como ela fez um dia, que me fizesse acreditar que eu ainda podia ser amado, mas você o fez... Rompeu todos os anos de amargura e sofrimento, jogando sua luz em tudo, me fazendo esquecer que a dor é insignificante quando se ama, quando esse pequeno detalhe se torna maior que qualquer coisa. – Tocou de leve os lábios dela com os dedos, acariciando-os. - Palavras e sentimentos nunca foram meu forte, Luna, mas posso dizer que eu a quero, muito... Que eu preciso de você como do ar, e se isso não for amor, eu acho que estou ficando velho demais para entender meu próprio coração.

Os olhos de Luna se abriram, azuis estavam em pretos. Snape deixou os lábios posarem suavemente sobre os dela, e depois os sorveu como paixão.