Capítulo XVI

Snape deixou os lábios dela, indo em direção ao seu armário, enquanto o olhar atento de Luna o acompanhava. Sem virar-se para ela, perguntou:

― O que quer me perguntar?

― Não é propriamente uma pergunta – falou com calma sentando-se na cama, os olhos azuis fixos nas costas dele. – Eu queria apenas te agradecer...

Ele abrira seu armário manuseando algo em seu interior, mas parou ao ouvir as palavras dela. Luna não pareceu ter reparado e continuou:

― Por confiar em mim e falar tão abertamente de seu passado – Luna o fitava com ternura – , sei o quanto deve ter sido difícil. Eu mesma não saberia ser tão franca sobre o meu. O sentimento de perda não é uma coisa fácil de se lidar, e é doloroso de ser abordado. – Ela percebeu, então, que os movimentos dele haviam parado, e com cuidado continuou: - Eu o admiro pela sua determinação e perseverança, Severo. Acho que Lílian fez muito bem em não desistir de você, eu também não o faria. Mesmo que você não tivesse ido atrás de mim, eu viria até você... de uma forma ou de outra.

Snape se virara e a encarava em pretos surpresos. A sinceridade de Luna era invejável, era uma característica dela que o desarmava sempre, e para completar o quadro, ela ainda sorrira. Aquele sorriso franco que o fazia esquecer de tudo, inclusive que ela iria partir daqui a algumas horas, e Merlin sabe quando a veria de novo. Luna o fitou, os olhos intensos nos dele, parecendo sentir o mesmo. Ele se aproximou dela, sentou-se na beira de cama e a beijou suavemente. Segurou as mãos dela entre as suas e disse:

― Quero lhe pedir um último favor – Luna assentiu em resposta. – Quero cuide disso para mim – passou as mãos dela dois envelopes. Um muito amarelado, o outro com uma caligrafia bem cuidada, onde se lia: Severo.

― É o que estou pensando? – indagou Luna.

― Sim – respondeu curto. – Uma é a carta de Lílian. A outra é de Dumbledore, onde ele explica as circunstâncias de sua morte. – Snape manteve a mão dela nas suas. – Eu quero que me prometa uma coisa, Luna, caso eu não possa fazê-lo, você mostrará a carta de Dumbledore à Harry.

― Você vai mostrá-las, não quero ficar com essas cartas! – retrucou irritada.

― Sua tola, elas estarão seguras com você – retorquiu seco.

― E de que adianta inocentá-lo quando estiver morto? – rebateu. – Não quero essa responsabilidade! Se quer que Harry saiba que você é pai dele, é bom não morrer, Severo Snape, ou esse segredo irá comigo para o túmulo, me entendeu?

― Perfeitamente – respondeu irônico ao vê-la tão irritada - , mas alguma ordem, sra. Snape?

― Sim... – sorriu-lhe marota. – Me ame...

― Mais? – rebateu cínico, arqueando a sobrancelha. Luna revirou os olhos, enquanto ele puxava-a para mais perto. Seus olhos se encontraram brilhantes, as bocas se tocaram desejosas, enquanto enterrava os dedos nos cabelos pretos dele. Sentiu as mãos de Snape espalhando-se por seu corpo pela última vez, tocando-a da forma mais carinhosa que conseguia, fazendo com que esse momento se eternizasse em suas almas.

O céu começava a mostrar os primeiros tons alaranjados do crepúsculo, quando Snape a viu pela primeira vez dentro do novo uniforme. Não era o que ele tomaria por uma visão comum. A veste de seda azul assentava perfeitamente bem sobre as curvas de Luna, realçando detalhes que nunca seriam revelados pelas de Hogwarts, o que provocou um certo desconforto. Ela alisou displicentemente o tecido por cima do corpo, verificando o caimento no reflexo do espelho a sua frente, contudo, não pôde fingir que não viu nos olhos pretos refletidos uma nota de reprovação.

― Gostou? – perguntou, mordendo o lábio e encarando-o pelo reflexo.

― O azul lhe assenta muito bem, e apesar dos meninos que provavelmente irão flertar com você, eu diria que posso conviver com elas – crispou os lábios num consentimento velado.

― Eu acho que também posso conviver com o fato de deixá-lo aqui sozinho entregue a todos os tipos de risco e ataques – devolveu com malícia.

― O que exatamente quer dizer com isso? – inquiriu seco.

― Absolutamente nada – recomeçou -, em específico. Quem me garante que não vai dar suas escapadelas entre uma missão e outra?

― Eu não acredito que estou sendo vítima de ciúmes – rebateu irritado. – Era o que me faltava!

― Quer me convencer que nunca reparou em nenhuma mulher em 17 anos? – encarou-o marota.

Snape bufou, revirando os olhos, antes de responder:

― Esqueci como sua mente funciona! – concluiu, lançando-lhe um olhar furtivo. – Sem mencionar, que de assassino cruel passei a amante insaciável. – Ele ainda a fitava pelo reflexo vendo o sorriso aflorar nos lábios dela, e Luna escondê-lo, propositalmente. – Eu imaginei que minha reputação de professor arrogante e irascível, construída com afinco durante esses anos todos, me mantivesse distante desse tipo de intriga, mas vejo que enganei. Nem minha noiva me defende.

― Celibato está fora de questão – Luna deixou o sorriso aflorar -, e quanto a sua reputação de professor arrogante e irascível, bom, você pôs a perder no momento em que se permitiu ter um rompante amoroso – voltando o olhar para seu reflexo, prendeu o cabelo no alto da cabeça com o chapéu e analisou o efeito. Ainda mantendo um tom de escárnio, continuou: – E nada mais justo, do que a futura esposa de um espião concluir que já que ele sabe disfarçar tão bem suas emoções, saiba também se aproveitar desses méritos quando lhe for conveniente. – Virou-se para Snape e perguntou: – Que tal?

― Acho que lhe ensinei muita coisa que não devia – zombou dela. – Acredite, minha cara, minha reputação de amante não é tão boa quanto a de professor.

― Eu posso afirmar, apesar da pouca experiência que tenho – riu –, que não perdeu o jeito com as mulheres nesses anos todos de suposta reclusão – retrucou e voltou a se olhar no espelho, inclinando um pouco o chapéu.

― Decididamente não tenho defesa contra seus argumentos – deixou-se sentar na poltrona atrás dela - , mas era eu que deveria ter ciúmes de vê-la tão adorável nesse uniforme.

― E você está – afirmou voltando-se para encará-lo. – Só que eu estarei numa torre alta, e você estará solto numa cidade como essa... Um homem como você... – deu-lhe um sorriso capcioso.

― Um homem como eu? – repetiu incrédulo. – Um assassino, um comensal, um ranzinza...

― Não – rebateu suave, andando até ele com um sorriso malicioso nos lábios e parando em frente à poltrona onde Snape estava -, um homem inteligente, educado, corajoso, carinhoso quando quer, sexy...

― Sexy? – arqueou a sobrancelha, fitando-a curioso.

― E comprometido – completou sem dar ouvido à pergunta dele.

― Tenho que me lembrar disso da próxima que tentar usar meu poder de sedução – crispou os lábios puxando-a para seu colo, e completou: - Está tão linda quanto uma Veela. – Beijou-lhe. – Hagrid deve estar chegando a qualquer momento para buscá-la. – Colocou-a de pé e fez o mesmo, pegou a mão dela entre a sua e disse: – Venha, vamos esperá-lo lá fora.

O jardim estava mergulhado num luar prateado, e os dois atravessaram-no até chegarem à margem da Floresta Proibida. Snape parou virando-se para ela, os cabelos de Luna tremularam com a brisa, e azuis se encontraram com pretos.

― Foi aqui que nos beijamos a primeira vez – ela balbuciou.

― Foi aqui que eu percebi o quanto estava envolvido por você – murmurou Snape enquanto a abraçava.

― Isso é um adeus, não é? – disse enquanto o enlaçava pela cintura, abrigando-se entre seus braços, apertando-o forte contra seu corpo. – Eu tenho medo de nunca mais vê-lo, e isso me assusta tanto...

― Nunca é muito tempo – acariciou os cabelos dela que saíam por baixo do pequeno chapéu enquanto sussurrava-lhe ao ouvido – Não vou deixar que fique tanto tempo longe de mim...

Um barulho seco perto dali anunciou a chegada de alguém, e poucos minutos depois de separarem seus corpos, viram Hagrid surgir no jardim. O homenzarrão se aproximou rapidamente deles e com um sorriso enorme entre a barba desgrenhada, saudou-os:

― Boa noite, professor Snape – pigarreou, e desviando seu olhar para a menina, disse: - Boa noite, Luna.

― Boa noite, Hagrid – respondeu Luna. – Há muito tempo não nos vemos.

― Está tarde, Hagrid – interrompeu Snape na sua frieza habitual -, é melhor partirem. Quanto mais cedo chegarem Beauxbatons, melhor – e virando-se para Luna, completou: - Tudo o que precisará para a estadia na escola já está a sua disposição em seu dormitório, se houver algo a mais que necessite, Hagrid poderá providenciar para você. – Com seu olhar escuro e a voz mais indiferente possível, acrescentou: – Eu lhe desejo boa sorte, Srta. Lovegood.

Os olhos azuis encontraram os dele uma última vez antes dela atravessar os portões para aparatem. Assim que ouviu o estalido seco indicando a partida de ambos, a sombra negra se dirigiu para o castelo em silêncio, ouvindo apenas as batidas de metade de seu coração.

Você constrói e demole, não há razão para te seguir.

Você deixou a canção sem som,

abandonou a história que fiz para você.

Suavemente os anjos se curvam e choram na quietude da noite.

Nunca é muito tempo, adeus.

Sem respostas para a pergunta.

Está ao longo do tempo, adeus.

Sem piedade para a dor.

É por muito tempo, oh não vejo nenhuma luz para o abandonado.

Nunca é muito tempo, adeus.

Deixe passar a noite quando este sonho tiver chegado ao final.

Às vezes você sorri, às vezes você chora e sim, chorei por você.

Você me deixou cega no paraíso.

Você me deixou faminta pelo seu toque.

Anjos branco de neve correm e se escondem na escuridão da noite.

Nunca é muito tempo...o.

( Never is a long Time – Roxette )