Capítulo XVII
A viagem até Beauxbatons correu tranqüila, entretanto, Luna notou que o clima esquentara um pouco devido a proximidade do Mediterrâneo. Aparentemente, os alunos já haviam se recolhido para seus dormitórios, Hagrid e ela foram recebidos por uma senhora de cabelos loiros com ar eficiente, que os conduziu por alguns corredores até o escritório de Madame Maxime. Luna pôde ver as estátuas de gelo que decoravam os corredores, eram mais bonitas do que imaginava. Minutos depois entravam na atmosfera acolhedora de uma sala imponente em todos os sentidos, desde a decoração até o tamanho avantajado de algumas peças de mobília. Atrás de uma bela peça de madeira em estilo Luis XV, estava a diretora, e Luna segurou a muito custo um longo suspiro de admiração, esquecera como Madame Maxime era alta e, digamos, estranha.
Antes de falar qualquer coisa, a diretora correu os olhos sobre Luna, e disfarçando um muxoxo, olhou sorridente para Hagrid. O meio gigante correspondeu ao sorriso, e a menina começou a se perguntar quanto tempo ainda ficaria parada ali entre os dois. Madame Máxime, no entanto, percebeu seu desespero e com sua voz grave começou a apresentação.
― Srta. Lovegood, eu poderia começar como uma longa explanação sobre como é nossa escola, mas creio que isso não se faz necessário. É claro que deve saber que internatos como este, em nosso país, são raros, o que deve refletir em nosso modo mais exigente de conduta – pigarreou antes de prosseguir e o fez ainda com os olhos fixos na figura da menina sua frente. – Não há motivos para a colocarmos em uma classe abaixo do que já estava em Hogwarts, tendo em vista que o sistema de ensino é praticamente o mesmo. Infelizmente, seus NOMs não poderão ser levados em consideração para os exames que os alunos prestam em seu sexto ano aqui. Acredito que não terá problemas em adaptação às regras da escola, e todos os seus pertences estão em seu dormitório na ala leste do castelo. Daquele lado ficam todos os dormitórios femininos, a Srta. Dupret irá conduzi-la aos aposentos do sexto ano.
A senhora de cabelos loiros tornou a aparecer por uma porta lateral à mesa de Madame Maxime, e assentiu com um leve aceno para Luna.
― Deve estar cansada da viagem, por isso não irei tomar mais seu tempo por hoje – deu-lhe o que parecia ser seu sorriso afável -, entretanto, amanhã gostaria de ter uma pequena entrevista com a senhorita antes do seu primeiro tempo de aula, está bem?
― Como queira, madame – respondeu Luna polidamente. Um sorriso mais aberto surgiu no rosto da diretora em aprovação a resposta dada, e Luna virou-se para Hagrid antes de seguir a Srta. Dupret, num gesto rápido. - Obrigado por tudo, Hagrid – e dizendo isso, saiu para o corredor.
Percorreram mais uma dúzia de corredores praticamente iguais ao que dava acesso ao escritório de Madame Maxime, e por fim chegaram à entrada do dormitório feminino do sexto ano. Era uma porta dupla de madeira entalhada com cavalos alados que se moviam, alçando vôo, e num breve gesto de varinha, e algumas palavras, a enorme porta deu lugar a uma ante-sala com grandes janelas cobertas por grossas cortinas de veludo azul. No centro havia dois sofás do mesmo tecido em forma de semicírculo dispostos um de frente para o outro e entre eles uma mesa redonda de uma madeira clara. O ambiente ainda era composto por vários quadros nas paredes e uma lareira, situada na parede à direita da porta de entrada. Na parede a esquerda havia duas portas que davam para os dois quartos do sexto ano. A Srta. Dupret falou com sua voz de contralto:
― O seu quarto é o da segunda porta, e a sua cama, a terceira a esquerda. – o sorriso era milimetricamente projetado em seu rosto e completou: - Espero que tenha uma boa noite, srta. Lovegood.
― Obrigada – deu-lhe um pequeno sorriso em resposta, e disse: - Boa noite, srta. Dupret.
A mulher de meia idade deixou-a, dando meia volta e saindo para o corredor. Luna deu um longo suspiro e tomou a direção do quarto. Abriu a porta e pôde ver um aposento amplo com uma dúzia de camas divididas em duas fileiras que corriam junto à extensão das paredes laterais a da porta. Luna correu os olhos pela fila da esquerda e identificou sua cama, havia um malão com brasão de Beauxbatons aos pés dela. Com passos medidos, se aproximou da cama e com cuidado, abriu o malão retirando alguns pertences e colocando-os na pequena cômoda ao lado de sua cama. Sentou-se na beira e calmamente retirou o chapéu de sua cabeça, deixando que os fios loiros dos penteados caíssem sobre seu rosto, e o pôs encima da cômoda. Foi até a porta ao fundo, em silêncio, e trocou de roupa na peça contígua que servia de banheiro. Quando se deitou na cama, fitando o teto, seu coração explodiu em pedaços, as lágrimas vieram e tudo o que conseguia pensar era em Severo. Apertou firmemente o anel em seu dedo.
O dia amanheceu com um sol mais claro do que o de Hogwarts, Luna se arrumou para o primeiro dia de aula. Nenhuma das outras meninas parecia achar sua presença ali estranha, mas uma delas se aproximou de Luna sorridente e estendeu-lhe a mão dizendo:
― Prazer, sou Emile Du Bois – Luna sorriu-lhe, apertando gentilmente a mão dela. - Você deve ser a aluna nova.
― Sim, prazer em conhecê-la, Emile – completou. – Luna Lovegood.
― Veio transferida, não é mesmo? – perguntou a menina de cabelos castanhos claros.
― Sim, infelizmente – respondeu curta.
― Espero que você goste daqui – e ainda com um sorriso nos lábios, finalizou: – Eu a ajudarei no que puder até que tenha se familiarizado com tudo.
― Obrigada – disse Luna.
― Sem problemas – disse Emile. – Nesse momento, no entanto, é melhor irmos para o salão onde será servido o café da manhã, Luna
― Preciso ir ver Madame Maxime – rebateu. – Ela me pediu que fosse até sua sala antes da primeira aula.
― Venha – disse Emile. – Não é bom enfrentar Madame sem o estômago forrado.
As duas tomaram a direção do salão principal. Ao contrário de Hogwarts, as mesas eram divididas pelos anos, ou seja, do primeiro ao sétimo. Elas se acomodaram na do sexto ano, os pratos servidos aos alunos não ostentavam a mesma opulência do que os de Hogwarts, mas eram igualmente deliciosos. Após a refeição, Luna despediu-se de sua nova amiga, Emile, e se dirigiu ao escritório de Madame Maxime. A menina sussurrou-lhe um "boa sorte" e a deixou no corredor que a levaria até a diretora.
Luna bateu a porta, que se abriu dando entrada ao ambiente caloroso da sala da diretora. Um cheiro adocicado chegou até Luna, um perfume que não estava lá na noite anterior, e que ela identificou como baunilha. Os olhos azuis percorreram toda a extensão da sala até pousarem sobre a figura imponente de Madame Maxime, que parecia meio borrada de rosa nos lábios e nas bochechas. Luna suprimiu um riso, provavelmente aquele era um efeito Hagrid sobre a mulher a sua frente, afinal o que isso tinha demais? Ela mesma sofria de um efeito Snape; resolveu deixar esses pensamentos de lado, era melhor mantê-los escondidos no fundo de sua mente.
― Srta. Lovegood – começou a diretora –, espero que tenha tido uma boa noite de sono, e que tenha apreciado seu desjejum.
― Sim, Madame – respondeu calmamente.
― Srta. Lovegood, evidentemente não a chamei aqui para discutir tais detalhes, mas para deixá-la ciente de alguns pontos sobre sua estadia nesta instituição. – Olympia agora a fitava atentamente, e continuou: - Nós aceitamos o pedido de transferência feito em nome de seu pai devido às circunstâncias que cercavam o seu caso em especial. Eu espero que diante disso tenha consciência de cada passo que dará aqui dentro e, também, fora destas paredes – viu Luna a encarar com seus olhos azuis. – Sabe, o Sr. Hagrid, tem motivos, desconhecidos por mim, para acreditar na inocência do professor Snape, e espero sinceramente que ele não esteja errado em acreditar nele – dando-lhe um novo olhar, um pouco mais severo, concluiu: - Saberemos disso em breve.
― Severo é um bom homem, Madame – rebateu Luna. – Tenho certeza que as coisas serão esclarecidas no momento oportuno.
― Professor Snape, srta. Lovegood – corrigiu a diretora. – Não permitimos certas liberdades entre alunos e professores.
― Eu não tive a intenção de ofender – retrucou. – É só que...
― Eu estou ciente dos últimos acontecimentos – disse com uma suavidade que não lhe parecia peculiar -, e talvez seja esse o motivo pelo qual eu tenha atendido ao pedido dele.
― Entendo – Luna sorriu -, e agradeço por tudo.
― Essa guerra ainda não nos atingiu diretamente, mas temo que não possamos permanecer assim por muito tempo – desviou seu olhar para a imensa janela atrás de si. – Uma hora ela chegará, e peço a Merlin que estejamos prontos para agir.
― Nunca se está realmente pronto para uma batalha, Madame – disse baixo Luna, não queria parecer ser rude, apenas honesta. – Porque não estamos preparados para sofrer perdas, mas acredito que a derrota do mal será nossa melhor lembrança.
― Tem tanta certeza de nossa vitória assim, srta. Lovegood? – voltou a fitá-la curiosa.
― Sim, acredito nas pessoas que estão envolvidas na batalha – encarou-a com a alma transparente. – São pessoas de bem, meus amigos, pessoas pelas quais vale a pena morrer.
― Dumbledore sempre soube ver o melhor das pessoas – murmurou -, era um grande bruxo...
As duas ficaram em silêncio entretidas com suas memórias, lembrando-se da figura altiva de barbas prateadas e olhar bondoso. Foi Madame Maxime que quebrou o silêncio.
― É melhor ir para sua aula – disse baixo.
― Claro, Madame – respondeu no mesmo tom, atravessou o escritório e saiu para o corredor.
