Capítulo XVIII
Os dias logo se transformaram em semanas, e a Marca Negra não tardou a aparecer no céu da França. Era como se a peste assolasse mais uma vez as ruas do país, não havia aonde se esconder, chegaria a hora em que todos teriam que se envolver. Luna não havia recebido notícias da Inglaterra nas últimas três semanas, e Madame Maxime, ao que podia perceber, andava aflita demais pelo sumiço de Hagrid. O Ministério da magia francês parecia tão inapto a lidar com as ocorrências de ataques de Comensais quanto o inglês. Havia pessoas corrompidas pelo poder dentro da máquina administrativa ministerial, pessoas que se eximiam de comprometimento para que num determinado momento escolhessem o lado mais proveitoso da guerra.
Os alunos de Beauxbatons não tinham muito que fazer, a não ser aguardar impacientes, o desenrolar dos fatos; a cada dia chegavam mais pedidos de pais desesperados para que os filhos permanecessem na escola. A inquietação de Luna era cada vez mais visível, mas foi quando souberam do ataque aos pais de Emile que a realidade do mundo fora daquelas paredes atingiu um a um dos seus estudantes. De repente todos tomaram consciência de que o mal uma hora entraria pelos portões, ganharia os jardins e se instalaria em suas vidas.
Os pais de Emile sobreviveram ao ataque, já os de Pierre, não tiveram a mesma sorte. Pierre Velmont era um menino loiro de profundos olhos verdes, um jeito suave de falar e uma mente brilhante. Tornara-se amigo de Emile no segundo dia de aula quando entraram para a escola, e é claro, agora se tornara também, amigo de Luna. Seus pais eram trouxas e faleceram num ataque feito a um restaurante no dia em que comemoravam o aniversário de casamento. A última integrante do grupo de amigos de Luna era uma menina de cabelos ruivos, olhos castanhos, e que a fazia lembrar muito de Gina, Antoine Tressot. Seus pais eram bruxos puro sangue como os de Emile, mas não tinham muitas posses, apenas a propriedade herdada dos avós e o peso do nome da família.
Era um grupo pequeno, mas disposto a grandes feitos. Na semana seguinte à morte dos pais de Pierre, eles se reuniram na biblioteca O rapaz ainda se encontrava muito abatido, mas disposto a enfrentar a situação na qual todos se encontravam. Eles estavam justamente discutindo o rumo das coisas quando Luna lhes contou sobre a Armada de Dumbledore e tudo o que aprendera com Harry. Viu os olhos dos amigos se iluminarem como os dela quando foi aceita no grupo, e sorrindo para os amigos, propôs:
― Se quiserem posso ensinar-lhes as mesmas coisas que aprendi com Harry – disse calmamente. – Já que aqui, como em Hogwarts, não aprendemos os feitiços necessários para nos defendermos do mal que nos cerca.
― Aprendemos alguns feitiços de defesa – ponderou Pierre.
― Claro que sim – disse cinicamente Antoine, – Acho até que devíamos ir ao Ministério e nos candidatar às vagas de aurores abertas com essas mortes recentes.
Emile explodiu numa sonora gargalhada enquanto via Pierre bufar e fazer uma careta para Antoine.
― Ok, Luna. Entendi o básico – continuou a ruiva sem prestar atenção aos muxoxos do amigo -, mas como pretende nos ensinar essas coisas? Aqui, que eu saiba, não há nenhuma Sala Precisa.
― Há a antiga sala de reuniões dos professores no sexto andar que está desativada há anos – disse vagamente Emile. – Acho que seria um bom lugar.
― E se nos pegam? – retrucou o rapaz.
― Alegamos legítima defesa – gracejou Antoine, e continuou fitando sorridente o loiro: – Acorde, Mon Chére, esse é o nosso menor problema no momento.
― Se vocês souberem de mais alguém disposto a aprender – disse Luna -, eu acho que seria uma ótima oportunidade de aumentarmos o grupo.
― Você sabia que se Madame descobrir, pode ser expulsa, não? – argumentou Emile.
― Eu não vou ficar de braços cruzados vendo o que está acontecendo – retorquiu Luna. – Se eu posso ajudá-los a sobreviver, então é o que farei.
― Estamos formando a Resistência Francesa do mundo bruxo! – aplaudiu Antoine. – De Gaulle sentiria orgulho de nós!
― Então, eu acho que nada mais justo do que o nosso grupo se chamar "Les Maquis" – sugeriu Luna, fazendo com que os três pares de olhos grudassem nela. Sem se importar com isso perguntou: – Quando começamos?
― Hoje – respondeu Pierre -, às nove horas.
– Combinado! - disseram Antoine e Emile em uníssono. – Nos encontramos na estátua gelo de Robespierre, no sexto andar.
― Eu espero dar conta de tudo – sorriu Luna.
― Você espera? – disse Emile surpresa.
― Sim, eu não sou Harry Potter – ponderou Luna -, mas vou me esforçar.
― Não é, mas você já viveu essa guerra mais do que todos nós aqui dentro dessa escola – retrucou Antoine.
Eles viram o olhar de Luna pousar sobre o anel em seu dedo; ela fez o que sempre fazia, rodá-lo sobre ele. Um leve brilho passou por seus olhos azuis quando se lembrou de Severo o colocando ali, mas depois o vazio e a saudade tomaram o lugar daquela lembrança dentro de sua mente.
― Você deixou muitas pessoas queridas lá, não é mesmo? – perguntou Emile.
― Muitas... – respondeu curta, sua mente ainda fervilhando.
― Pessoas como essa que lhe deu o anel... – disse Pierre.- É uma jóia de família?
― No mínimo, da família de quem a pediu em casamento, Pierre – rebateu Antoine. – Isso é um anel de noivado.
― Você é noiva, Luna? – quis saber Emile.
― Sim... – respondeu distante. Os olhos azuis perdidos no infinito, a voz baixa. - E eu espero que ele esteja bem, e vivo – a voz embargou, os olhos turvaram.
― Você nunca nos falou a respeito disso, e eu sempre tive receio em perguntar – ponderou Antoine. – Ele deve ter lutado ao seu lado no Ministério, ou qualquer coisa assim.
― Na realidade não – falou Luna -, mas sem ele do nosso lado, as baixas seriam muito maiores, e não estaríamos perto de derrotar Voldemort.
― Ele deve ser um grande bruxo, não? – perguntou Pierre.
― Ele é notável – sorriu.
― Conta vai... – disse Antoine mordendo o lábio inferior. – Eu posso estar enganada, mas ele é mais velho do que você.
― Vocês estão querendo saber demais – argumentou Luna.
― Só preocupação de amigos – retorquiu Emile.
― Deixa ela – reclamou Pierre.
― Você é que vai deixá-la nos dar a volta mais uma vez, Pierre – protestou Antoine -, com essa sua proteção!
― Ela conta se quiser, Antoine – rebateu o rapaz.
― E se você deixar, oras – retrucou.
― Acreditem – interrompeu Luna -, eu adoraria poder falar mais sobre ele, mas existem uma série de coisas que nos envolvem e sobre as quais eu não posso revelar nada.
― Nossa... – disse Emile, e suspirou. – O homem por trás de uma máscara.
Luna a fitou com interesse, Snape era literalmente esse homem. Ela lembrou-se dele vestido de Comensal quando a salvara das mãos de Voldemort, e não pôde deixar de sentir um calafrio ao sentir o medo pela posição delicada que ele assumira. Afastou esses pensamentos e com um sorriso nos lábios, sugeriu:
― Para vencer os inimigos, necessitamos de audácia, cada vez mais audácia, e então o nosso mundo estará a salvo! – e completou: – Ajustando a frase de Danton a nossa realidade, acho que podemos dizer que não estamos muito longe dos ideais de Marat, Danton e Robespierre. Vive la Revolution!
Os quatro sorriram, reuniram os livros de estudo e saíram da biblioteca. A "Les Maquis" estava sendo fundada.
Às nove horas da noite, como combinado, um grupo formado por vinte pessoas esperava por Luna e Pierre. Os dois chegaram cerca de cinco minutos depois e os olhos de ambos se arregalaram ao ver o número de alunos aglomerados em frente a estátua. Luna sorriu para todos e seguiram o mais silenciosamente possível para a sala de reuniões. Emile e Antoine foram as primeiras a entrar e se certificarem de que tudo estava calmo lá dentro, e depois, os outros a seguiram. Quando o último aluno entrou fechando a porta atrás de si, Luna tomou a palavra:
― Bom, eu não esperava tanta gente, mas fico contente que vocês tenham se interessado em vir até aqui – e continuou: - Minha intenção é ensinar a todos a se defender desses ataques, e se por acaso, chegar um momento em que tenhamos que agir, nós teremos capacidade de combate. – Suspirou antes de finalizar: - Acredito que fraternidade é o sentimento de união que nos leva a estar aqui, juntos; igualdade é o que fortalece esse sentimento, não importando se somos puros, mestiços, ou qualquer outra coisa; liberdade é o nosso objetivo, porque enquanto Voldemort estiver vivo, não haverá lugar seguro no mundo para vivermos em paz. – Luna sorriu. – Ou nos posicionamos agora, ou será tarde demais para lutar por aquilo que acreditamos... Prontos?
Vinte pares de olhos a encaravam, e uma a uma as cabeças assentiram. "En Guarde!" - pensou ao tomar o centro da sala junto com Pierre, e se colocarem em posição de combate.
