Capítulo XIX

Em pouco mais de duas semanas, os "Les Maquis" já dominavam até mesmo o feitiço do Patrono. Qualquer hora vaga era usada para aprimoramento, nem mesmo a proximidade dos exames do sexto ano os impedia de fazer tal dedicação. Era como se a guerra lá fora estivesse impregnada na pele deles, como se os portões e proteções mágicas já não impedissem que o mal assolasse seu sonhos e violentasse suas vidas. As notícias do "Le Monde Magique" eram cada vez mais aterradoras, e tal qual o Ministério da Magia inglês, o francês também se recusava a admitir a atuação de Comensais. Com isso, os dias se tornaram cada vez mais sombrios até ficarem totalmente imersos em escuridão.

O Ministério teve sua atuação enfraquecida e pulverizada pela quantidade de ocorrências novas que surgiam a cada dia. Os aurores franceses tiveram suas ações aniquiladas diante da organização dos ataques Comensais, e foi com grande pesar que numa dessas ofensivas, o pai de Antoine foi atacado junto com mais alguns amigos. Ele estava num estado de semi-inconsciência, no Centre Hospitalier de Saint-Brieuc pour l'acidents Magiques, e a angústia por notícias mais detalhadas sobre seu estado de saúde atormentava a moça. Luna resolveu interceder junto à Madame Maxime e tentar conseguir uma permissão para que elas visitassem o pai de Antoine. Não foi fácil convencer Madame Maxime a deixá-las ir, mas o fato de Antoine estar completamente transtornada diante do ataque ao pai fez com que a diretora acabasse permitindo uma breve visita ao hospital. Como o combinado, as duas usaram a lareira do escritório da diretora para se ausentarem de Beuaxbatons. Aparentemente o hospital era um lugar seguro, mantido em constante vigília por um grupo de aurores. As meninas deixaram a escola ao anoitecer, chegando ao hospital já à noite, percorreram os corredores indicados pela eficiente funcionária que as recebeu e se viram diante da enfermaria para ataques por Maldições Imperdoáveis.

Antoine respirou fundo antes de cruzar as portas duplas que as separavam dos pacientes, Luna a seguiu silenciosamente. O pai de Antoine estava com uma aparência serena e completamente imóvel, era como se dormisse um sono profundo. Ela puxou um banco para mais perto da cama do pai, sentando-se ao seu lado, enquanto Luna se manteve de pé. Afastou uns fios platinados de cabelo que encobriam a face e depositou um beijo terno na testa do pai. A mãe ainda não tinha ido ao hospital, estava completamente aturdida com a notícia, e os medibruxos preferiram mantê-la afastada. Luna sabia como era difícil para a amiga toda aquela situação e resolveu deixá-la sozinha por algum tempo. Foi para o corredor, cada vez mais vazio, do hospital e deixou-se cair numa cadeira, os olhos presos ao teto, se perguntando quanto tempo ainda duraria aquela guerra e quantas pessoas deveriam morrer para se colocar um fim àquela sanidade. As lágrimas escorreram... Severo... Precisava saber que ele estava bem... Onde, diabos, Hagrid se metera? Houve uma leve piscadela nas luzes, Luna se inquietou, segurando a varinha sobre as vestes. Colocou-se de pé e andou pacientemente até o final do corredor, não encontrou nada e voltou até a porta da enfermaria.

Nova piscadela, Luna agora se impacientou, colocou a cabeça dentro da enfermaria, encontrando os olhos castanhos de Antoine a fitá-la curiosamente. Voltou o olhar para o corredor, estava completamente deserto. Luna distinguiu barulho de passos ao longe, entrou na enfermaria, correu até Antoine a puxou para trás de um biombo encostado a um canto da parede. O barulho de passos se tornou mais próximo e a escuridão se fez num abrir e fechar de olhos. Tudo que as duas amigas podiam ver era o contorno de seus rostos. Luna pediu silêncio a Antoine e puxou-a para o chão. A porta da enfermaria foi aberta e um tropel de passos misturado ao farfalhar de capas foi ouvido se aproximando de onde elas estavam. Luna deslizou pelo chão até a ponta do biombo e pôde vê-los quando uma voz feminina ordenou:

― Lumus! – Seu tom foi um pouco mais alto quando continuou: - Ele nos viu, Jacques, não pode ficar vivo. Sei que ele devia ser seu colega no Ministério, mas o Lorde não gostaria disso, meu caro - sentenciou a voz. A pouca luz da ponta da varinha da mulher iluminava-lhe o rosto e o do homem ao seu lado. Luna, assombrada, reconheceu a mulher que se dirigia ao rapaz de pouco mais de vinte anos, e seus olhos azuis se tornaram escuros. Antoine colocara-se ao seu lado, mas não tinha acesso à cena do ângulo onde estava. Ela ia prosseguir, mas Luna a deteve, mantendo-a encoberta pelo imenso biombo enquanto o jovem apontava a varinha para o outro rapaz deitado inerte na cama.

Sem que Luna percebesse, Antoine agilmente se colocara atrás dela e os olhos das duas presenciaram um jorro verde sair da ponta da varinha de Jacques e acertar seu colega na cama, no mesmo instante em que seus lábios murmuravam:

― Avada Quedrava!

Um som de grito abafado foi ouvido no mesmo instante em que a luz da varinha da Comensal se colocava sobre o biombo, revelando o rosto de Luna.

― Ora, ora – disse a mulher -, mas o que temos aqui? - Aproximou-se de Luna e ordenou: - Levante-se! – A varinha apontada para ela, qualquer tentativa de fuga seria facilmente rechaçada. Luna se colocou de pé, depois de fazer um leve sinal para que Antoine continuasse abaixada, e fitou a Comensal com seus olhos intensamente azuis. - Uma aluna de Beauxbatons! – gargalhou. – Veio visitar o papai? Ou seria um tio? – nova gargalhada. – Escolheu um péssimo dia para a visita, minha cara – debochou ao se aproximar mais de Luna, e estreitando seu olhar sobre ela, completou surpresa: - Eu a conheço... Você devia estar morta!

Seu companheiro a olhava, atônito, sem dizer uma palavra, mas com a varinha igualmente apontada para a moça. A Comensal circundou a garota e disse com ódio na voz:

― Isso me cheira a traição! – rosnou para Luna. - Eu praticamente a vi morrer, como pode isso? – Os olhos dela brilharam. – A não ser que...

Luna não se mexeu, apenas esperou que a mulher dissesse o que pretendia fazer com ela. Sabia que sua situação era delicada, e pior, sabia que colocara o disfarce de Snape em perigo.

― Snape! – gritou. – Ele foi o encarregado de dar um fim ao seu corpo – e com desdém acrescentou: -, talvez até tenha dado, mas não o fim que o Lorde esperava. - Segurou o queixo de Luna entre os dedos finos, apertando-o forte e fazendo-a encará-la. – Seja bem vinda de volta ao inferno, srta. Lovegood.

Luna continuou impassível, pedindo à Merlin que Antoine não se movesse e pusesse tudo a perder. O hálito quente de Belatriz soprou no seu rosto quando afirmou:

― Vai rever seus amiguinhos em breve, querida – gracejou –, inclusive um certo professor de Poções que estará muito encrencado com essa minha descoberta.

― Ele devia morrer, juntamente com você! – esbravejou Luna.

― É perda de tempo você tentar me convencer que Snape não está por trás disso – rebateu Bela.

― Não pretendo convencê-la de nada – retrucou –, acreditamos naquilo que queremos...

― Você tem razão - sorriu com malícia. - Só uma tola como você para acreditar no Snape.

― Só um lunático como Voldemort para achar que vai manipular o mundo.

― Cale-se - exigiu com varinha a centímetros do rosto de Luna. Jacques levou a mão ao antebraço, baixando por segundos a varinha, enquanto Bela fazia uma leve contratura no braço esquerdo.

― É um chamado – sussurrou o rapaz –, e pelo visto para todos. Temos que ir, Bela – e olhando com desprezo para Luna, acrescentou: - Ande com isso, se vai levá-la, é melhor nos apressarmos.

― Não ouse me dar ordens, seu pivete – falou rangendo os dentes. - É claro que a senhorita aluada aqui vai conosco. Eu não vou perder a chance de acabar com o joguinho do Snape.

Num gesto rápido, Bela desarmou Luna, que não ofereceu resistência, e com um simples murmúrio, atou seus braços com nós mágicos. Jacques saiu para o corredor, seguido por Luna e Bela, e em pouco tempo alcançavam a parte externa do hospital. Verificando que estavam seguros, aparataram em direção a Londres.

Ainda tentando absorver todas as imagens que estavam em sua cabeça, Antoine saiu de seu esconderijo, a luz voltava aos poucos, em passos rápidos chegou até seu pai, verificando que estava bem. Com as pernas ainda bambas, alcançou o corredor. Tinha que voltar para a escola e avisar Madame Maxime, não podia perder tempo. Um misto de apreensão e alegria revolveu seu estômago, enquanto se dirigia até a lareira por onde viera. Os corredores ainda estavam vazios, mas Antoine não teve dificuldade em achar o caminho até a sala do diretor do hospital.. Como era de se esperar, a sala estava vazia e o guarda na entrada, estuporado. A garota pegou um pouco de pó de Flu e atirou ao chão. Em pouco tempo sentia o calor da sala da diretora surgir a sua volta, o rosto familiar surgiu entre a fumaça esverdeada, a princípio sorridente, mas depois se contraiu numa expressão de preocupação.

Antoine deu um passo para fora da lareira e encarou Madame Maxime com uma expressão de pavor, dizendo prontamente:

― Eles pegaram Luna, Madame.

― Eles quem? – disse a diretora com uma preocupação crescente.

― Comensais – retrucou Antoine. – Dois, para ser precisa, um deles era a mulher chamada Belatriz.

― Belatriz – repetiu Madame, analisando o que era lhe dito.

― Sim – confirmou a garota, e com o olhar atento sobre as reações da diretora continuou: - Ela disse que a levaria até o Lorde e que desmascararia o tal de Snape com isso.

― Snape? – disse a diretora. – Você tem certeza do que ouviu, Antoine?

― Ela disse isso com todas as letras, Madame - respondeu Antoine. – Esse não é o homem acusado de matar o diretor de Hogwarts? – E completou como se falasse para si mesma: - Ele era professor de lá... eu me lembro de ter lido algo a respeito – desviou o olhar para o rosto da diretora, que agora parecia mais abatido do que nunca. – Diga-me, senhora, afinal, quem é esse homem? Está do nosso lado ou do deles?

― É o que eu gostaria de saber – respondeu com calma a diretora -, mas sua amiga confiava nele, e o fato ao qual nós temos que nos prender é que ela está em perigo. Mesmo que ele esteja do nosso lado, isso não vai salvá-la, ele não estará numa posição muito cômoda quando Belatriz chegar com Luna viva.

― E porque não? – perguntou intrigada.

― Por que foi ele que salvou a srta. Lovegood de ser morta há dois meses atrás – respondeu a diretora, que não parecia contrariada em explicar a situação, mas sim cansada com tudo. – Foi ele também que a enviou para cá, tentando mantê-la segura... E eu falhei em protegê-la, pobre menina!

― Não tem como avisá-lo? – rebateu Antoine.

― Não... – respondeu tristemente. – Infelizmente, há dias que não vejo o sr. Hagrid, e começo a suspeitar que isso tem relação direta com o que aconteceu hoje. O cerco se fechou, acredito que a hora da batalha está próxima.

― E? – indagou perplexa com a passividade da diretora. – Nós vamos ficar aqui paradas enquanto tudo acontece? Enquanto Luna está em perigo?

― Eu não posso me ausentar da escola, srta. Tressot – retrucou firme. – Há alunos aqui que precisam de mim, e eu prometi aos pais deles que estariam seguros aqui dentro!

― Assim como prometeu manter Luna a salvo! – rebateu Antoine rispidamente, e continuou: - Há alunos aqui que podem ajudá-la, só preciso que a senhora autorize que eu os reúna.

― O que estará querendo me dizer? – o olhar brilhante da diretora caiu sobre ela.

― Luna nos treinou em segredo, ao todo somos vinte pobres almas – explicou a garota escondendo um sorriso de orgulho -, e nós devemos isso a ela. Podemos avisar a Ordem ou quem sabe o pai dela.

― Isso é contra as normas da escola! – criticou a diretora.

― Deixar uma aluna se expor ao perigo nessas circunstâncias também, Madame – disse firme Antoine. – Posso convocá-los?

― Eu não devia... – começou a falar.

― Obrigada, Madame – interrompeu. – Vou chamá-los imediatamente.

Saiu para o corredor e voltou cerca de meia hora depois com um grupo de dez pessoas, incluindo Pierre.

― Bom, Madame – disse com um sorriso triste -, nem todos tiveram coragem...

― Corrigindo – disse uma voz feminina atrás dela –, estamos todos aqui, Madame.

Emile entrava pela porta do escritório com mais um grupo de alunos, e se colocaram todos juntos. Madame Maxime os olhou incrédula, mas um leve sorriso aflorou em seus lábios. Era gratificante, apesar de tudo, ver seus alunos tão imbuídos de determinação e coragem. Emocionada, disse:

― Que Merlin me perdoe por mandá-los assim, mas se estão dispostos a ajudar a amiga de vocês, eu não vou impedi-los – e olhando-os carinhosamente, continuou: - Não posso mandá-los para a sede da Ordem, mas posso enviá-los para um lugar onde estarão seguros e entre amigos. Não sabemos como estão as coisas por lá, mas eu posso afirmar que todo cuidado será pouco e, principalmente, que enfrentarão o perigo cara a cara. O mal não escolhe a quem ataca, mas é implacável quando o faz... Tenham cuidado.

Os rostos a sua frente assentiram em uníssono, e um brilho percorreu o olhar de cada um.

― Antoine – chamou a diretora, e disse suavemente, sem, no entanto, conseguir disfarçar a apreensão na voz: – Vocês irão para a casa dos Weasley, lá encontraram ajuda necessária para salvarem Luna.

― Obrigada, Madame – sorriu e acrescentou: - Nós vamos voltar são e salvos, eu prometo.

A diretora assentiu levemente com a cabeça enquanto viu o grupo se dirigir para perto da lareira e Antoine tomar posição em seu interior. O pó foi ao chão e a fumaça verde encobriu-a.