Capítulo XX

A lareira da sala de estar dos Weasley emitiu um ruído peculiar avisando a chegada de alguém. Os olhos de todos os presentes se viraram naquela direção, vendo surgir em meio a fumaça uma menina ruiva com vestes azuis. Eles se colocaram de pé e com os olhares desconfiados se aproximaram calmamente da moça. A Sra. Weasley foi a primeira a falar refeita do susto inicial:

― Olá, querida – disse com calma. - Você deve ser...?

― Antoine Tressot – disse a moça com os olhos castanhos passeando pelos rostos a sua frente, na maioria eram ruivos que nem ela própria, e continuou: - Sou amiga de Luna Lovegood, e aluna de Beauxbatons.

― Oh, sim, claro – afirmou Molly, enquanto o resto da Ordem parecia se acalmar. - Nossa querida Luna, ela está bem?

Um novo estalido foi ouvido e um rapaz loiro surgiu no meio da sala. Todos agora rodearam a moça ruiva, que apressou em se explicar:

― Eu temo que ela não esteja tão bem quanto nós – disse com cuidado. - Nós viemos procurar ajuda... Belatriz a pegou.

Todos envolta dos dois se entreolharam enquanto mais um estalido era ouvido e Emile se juntava a eles. Foi Lupin que dessa vez indagou a moça.

― Como isso aconteceu?

― Fomos visitar meu pai no hospital, ele foi atacado por Comensais há dois dias e eu queira muito vê-lo – explicou tristemente. – Se eu soubesse quanto perigo corríamos provavelmente teria levado todos conosco.

― Todos? – perguntou intrigado.

― Sim, um grupo que formamos para aprender com Luna a nos defender – Antoine viu surpresa, os jovens que os olhavam sorrirem, deviam ser os membros da AD, e completou orgulhosa: – Ela nos chamou de "Les Maquis".

― Muito adequado – sorriu Lupin, e no momento mais um estalido se fez, uma menina loira apareceu e sucessivamente, os demais membros do Maquis começaram a sair de dentro da lareira. Sem dar muita importância a isso, ele prosseguiu: – A senhorita disse que Belatriz a pegou, chegou a ouvir alguma coisa do que disseram?

― Sim, ela disse que levaria Luna para desmascarar o Professor Snape – disse com firmeza enquanto o fitava intensamente. – Eu seria capaz de afirmar que ele corre mais perigo do que Luna.

Lupin devolveu-lhe o olhar com a mesma intensidade, e com um leve assentimento de cabeça, concordou com ela. Virou-se para os companheiros e falou:

― Acredito que não há mais o que esperar para o confronto. Ele já sabe da perda daquela Horcrux e quando confrontar Snape e Luna saberá de tudo. Esse é o momento, ainda temos o fator surpresa – e encarou Harry. – Você está pronto?

O menino de cabelos pretos e olhos verde brilhantes concordou enquanto segurava entre as suas a mão da menina ruiva ao seu lado. Lupin voltou a encarar os rostos das moças e rapazes que se perfilaram diante de seus olhos.

― Bom, eu agradeço a colaboração de vocês – disse com suavidade -, mas é melhor voltarem. Faremos tudo que estiver ao nosso alcance para salvar a senhorita Lovegood. Essa é uma batalha muito perigosa e eu ficaria mais tranqüilo se voltassem para sua escola e aguardassem lá o nosso contato.

Antoine o encarou, os olhos castanhos o analisaram por alguns instantes, e depois em francês, ela se dirigiu aos amigos. Cerca de quinze minutos depois só restavam na sala dos Weasley, ela, Pierre e Emile.

― Qual é o plano? – perguntou sem voltas.

― Plano? – surpreendeu-se Lupin.

― Sim – Antoine disse calmamente. – Nós vamos ficar e ajudar Luna.

― Eu não posso permitir isso, senhorita – rebateu solenemente.

― Não estou pedindo sua permissão – retrucou a ruiva -, estou apenas informando nossa posição.

― Está sendo imprudente – ponderou Lupin. - Você não sabe onde está se metendo.

― Você também não – sorriu. – É melhor não perdemos tempo.

Lupin deu-lhe um pálido sorriso e dirigindo-se a todos os presentes, explicou a posição que cada um deveria assumir. Os dados haviam sido lançados.

Os olhos vermelhos encaravam os azuis, Luna tentou desviar o olhar mais era tarde demais. Uma dor fina atravessou sua cabeça, suas lembranças passavam como um filme colorido em sua mente. Tentou, sem sucesso, esconder as cenas com Snape, mas elas vieram com uma enxurrada, enquanto uma mão fria parecia vasculhar avidamente cada uma delas. Sentiu-se zonza, o ar começou a lhe faltar, e seu corpo tombou para frente, caindo de joelhos no chão frio. Ouviu vozes exasperadas, entre elas a de Voldemort sobressaía, exasperada e sibilante. Algo muito sério estava acontecendo, mas Luna era incapaz de compreender uma palavra sequer, ainda sentia a presença do Lord das Trevas em sua mente. Quando enfim sua consciência parecia voltar, foi atingida por um feitiço que a deixou imobilizada, e tudo o que ouviu a seguir foram passos se afastando rapidamente na direção oposta a dela. Algum tempo depois, sentiu que alguém entrava sorrateiramente no lugar. A dor ainda percorria-lhe o corpo quando vislumbrou um raio verde vindo em sua direção, perdeu o equilíbrio e bateu contra alguma coisa pontuda que acertou o olho e o nariz, fazendo um líquido quente escorrer pelo seu rosto, e depois colidiu com o chão frio da sala. A dor se tornara intensa, se espalhando por todo seu corpo, que se contraía involuntariamente. Ainda ofegava freneticamente quando foi atingida, mais uma vez novas contrações, as lágrimas escorreram misturando-se ao líquido viscoso, e ela sentiu-se fraca. Ouviu uma gargalhada estridente ao fundo e sem enxergar direito por causa do hematoma, gritou:

― Vamos, Bela – tentou se levantar, mais foi inútil –, acabe com isso! Voldemort já tem o que queria, mate-me!

― Matá-la? – gargalhou mais uma vez interrompendo o castigo. - Nunca! Agora que a batalha começou? Seus amiguinhos vieram salvá-la, ou será que vieram salvar o Snape? Ou será que o tolo do Potter se acha melhor que o grande Lorde das Trevas? – e seus olhos brilharam de satisfação. – Ele virá buscá-la, tenho certeza de que virá. Eu jamais perderia a chance de ver a expressão de pesar do rosto do Snape ao vê-la aqui.

― Não precisa esperar – a voz soou potente na sala. – O que a leva a crer Bela que eu me importaria com a moça?

― Pare de jogar, Snape – disse com desdém. – O Lorde já sabe de tudo!

― Sabe? – devolveu-lhe o escárnio. – Então, minha cara, elucide-me quanto a isso. O que o Lorde descobriu?

Bela o olhou com ódio latente, a varinha ainda apontada para o corpo de Luna, e com rapidez desviou-a para Snape.

― Você está enrascado! – a voz saia esganiçada. – Você a protegeu, a tirou daqui ainda com vida e não cumpriu suas ordens como deveria. Isso é traição! Assim que o Lorde voltar, ele terá prazer em lhe punir!

― Acredita mesmo nisso? – disse com voz de seda, e se aproximou do corpo no chão com cuidado. – Você acha que eu seria tão estúpido de me arriscar por tão pouco assim?

Bela parecia ponderar sobre o que era lhe dito; os olhos presos nos pretos a sua frente, o ódio percorrendo cada músculo de seu corpo. Snape, por sua vez, deixou escorregar um objeto pontudo por sob as pesadas roupas de Comensal que vestia, até o corpo ao seu lado, e se afastou calmamente em direção a Bela.

― Quer brincar de duelo, Bela? – crispou os lábios, mantendo uma expressão de escárnio em seu rosto, enquanto circundava Bela e a colocava de costas para Luna. Podia sentir os músculos de Bela se contraírem diante de sua impassividade, e quando falou novamente, o fez num tom sério e frio: – Vamos logo com isso, então! Tenho uma guerra ainda para vencer.

― Seu... – a voz dela foi interrompida.

― Avada Kedavra! – a maldição ressoou pela sala enquanto os olhos pretos de Snape brilhavam de satisfação na direção da moça em pé atrás de Bela. O corpo da Comensal tombou no chão, deixando a visão do rosto inchado de Luna aparecer completamente diante dos olhos de Snape.

― Você demorou – disse seco, enquanto se aproximava dela.

― Se você tivesse um hematoma do tamanho de um tomate no rosto também demoraria – rebateu fria. – Como conseguiu minha varinha?

― Lembranças de sua amiga Antoine – respondeu se colocando em frente a ela. – Temos que sair logo daqui, deixe só eu dar um jeito nisso – disse apontando a varinha para o rosto dela e murmurando algumas palavras. O corte e o inchaço desapareceram completamente. Snape a fitou e num impulso tocou seu rosto com carinho, ela retribuiu o gesto tocando os lábios dele com os seus.

― Senti saudades – murmurou.

― Eu também – disse baixo -, mas agora temos que ir.

― Voldemort? – perguntou. – Onde ele está?

― Ainda não está morto, infelizmente – rebateu frio. – Vamos, tenho que ajudar Harry e colocá-la num lugar seguro.

― Não – protestou Luna. – Eu vou junto.

― Você vai sumir daqui, isso sim – olhou-a impassível.

― Nunca – ela manteve seu olhar no dele. – Eu fico.

Snape bufou enquanto Luna sorria, tomou a frente dela e saiu pela porta. Ela o imitou. No corredor da Mansão Riddle, Snape murmurou:

― Mantenha a varinha em posição de ataque – os olhos azuis encontraram os dele em assentimento. – Potter está lá fora e eu preciso chegar até ele, quando sairmos daqui vá ao encontro de seus amigos franceses, está me entendo, Luna?

― Eles estão aqui? – disse surpresa enquanto atravessavam mais um corredor.

― Sim – e num tom de escárnio completou: – Parece que alguém andou ensinando-lhes a duelar. Uma atitude imprudente de uma mulher irresponsável, eu diria.

― Sorte sua ela ser imprudente – brincou.

Snape parou de andar e encarou-a com pretos fuzilantes.

― Eu devia mantê-la amarrada em algum lugar aqui dentro – ponderou mordaz.

― Eu desataria os nós com facilidade – sorriu enquanto ele revirava os olhos e chegavam até uma porta. – Não me subestime – aconselhou-o.

― Nunca ousaria – crispou os lábios numa linha fina de sorriso. Apontou a varinha para a porta e encarando-a perguntou: - Pronta?

― Sim. – Os olhos azuis se arregalaram enquanto a porta se abria.

Os raios coloridos cruzavam sua cabeça enquanto atravessavam os gramados. Luna pôde ver seus amigos ao longe, duelavam com dois comensais, e ela foi à direção deles. Snape por sua vez tomou a direção oposta, indo para o lado do cemitério.

Antoine a saudou enquanto desviava de um feitiço do homem loiro, e depois foi a vez de Emile e Pierre. Minutos depois o homenzarrão de cabelos escuros caiu ao chão estuporado por Emile, e o loiro batia em retirada por entre as árvores. Luna foi ao seu encalço seguido pelos três amigos, quando conseguiu atingi-lo já estavam nas margens do cemitério. Os olhos de Luna procuraram por Snape e caíram num grupo mais adiante, onde reconheceu Harry, Voldemort, Snape e Malfoy. O professor lutava vigorosamente com Lúcio enquanto tentava se aproximar de Voldemort.

Luna deslizou pelo meio das lápides e com passos firmes foi em direção ao grupo. Não havia chegado à metade da distância que os separavam quando viu o corpo do loiro tombar ao chão e Snape se precipitar para cima de Voldemort e Harry. Luna apressou o passo, seus amigos não a seguiram. Harry lançara um feitiço contra Voldemort, mas as varinhas de ambos pareciam presas. Enquanto Luna se aproximava pôde ver Snape apontar a varinha para Voldemort, se colocando quase na frente de Harry e depois um clarão intenso surgiu ofuscando a visão de todos.

Sem parar ela continuou atravessando o cemitério até chegar perto de onde eles estavam, quando a intensidade da luz diminuiu, viu Harry ajoelhado no chão ao lado do corpo de Snape. Seus olhos piscaram várias vezes tentando assimilar a cena. O rapaz sacudia o corpo ao seu lado que parecia mais inerte do que os próprios cadáveres embaixo da terra. Luna chegou ofegante, olhou para Harry que parecia totalmente apavorado com o corpo do professor em seus braços e desviou o olhar para Snape. O rosto estava coberto de cortes, a respiração quase inexistente, o pulso fraco demais. Luna colocou as mãos entre as dele e sentiu um leve aperto dele sobre sua mão. Os olhos azuis nublaram rapidamente e encontraram os verdes atônitos de Harry.

― Solte-o Harry – disse tentando fazer o amigo abrir as mãos que seguravam Snape. – Eu preciso tirá-lo daqui e tentar salvar a vida dele... Por favor, Harry, solte-o.

― Ele deu sua vida por mim – balbuciou o rapaz, comprimindo os dedos sobre os ombros do professor que sorvia o ar rapidamente. – Eu não compreendo...

― Harry, existe muita coisa por trás disso tudo, mas essa não é a hora própria para lhe contar nada. – Com a voz embargada completou: - Nem eu sou a pessoa certa para fazer isso. Deixe-me levá-lo e se ele ficar bom, você terá suas respostas.

― Não – berrou Harry. – Ele tem que ser entregue ao Ministério! – as lágrimas escorreram pelo rosto sujo do sangue de Snape. – Ele tem que pagar pela morte de Dumbledore!

― Ele já saldou essa dívida – rebateu Luna ferozmente. – Agora me deixe tirá-lo daqui antes que seja tarde demais.

― Não! – rosnou Harry, as lágrimas corriam livremente pelo rosto dele. – Eu o quero morto!

― Não, Harry – protestou Luna seus olhos atentos sobre Snape que desmaiara. – Você não pode querer que seu pai morra!

― Meu o quê? – Os olhos verdes intensos sobre a amiga. – Não, você está louca!

― Eu não mentiria para você, nem para ninguém, Harry – rebateu, conseguindo fazer com que ele soltasse o corpo de Snape. – Preciso ajudá-lo, ele precisa sobreviver e ficar escondido até conseguir provar sua inocência.

― Ele não é inocente, Luna! – disse Harry frio.

― Talvez não de todo – disse irritada -, mas teve motivos para fazer o que fez, Harry. E eu vou salvá-lo, goste você ou não disso. Quer saber por quê?

O rapaz não disse nada apenas a fitou com os olhos verdes escuros.

― Porque eu o amo, Harry – Luna fitou o rosto de Snape lívido em seu colo. – Eu me apaixonei pelo homem por trás dessa máscara fria e impassível, e daria minha vida por ele. É esse homem que também o ama e que acabou de salvar sua vida.

Os olhos azuis dela encontraram os verdes de Harry, e numa permissão velada do amigo, ela aparatou abraçada ao corpo de Snape.