Capítulo XXII

Quando acordou, sentiu que estava sozinha na cama, não havia nenhum sinal de Snape. A noite havia sido maravilhosa, os momentos que desfrutaram juntos foram tão intensos, que por um breve espaço de tempo, Luna achou que talvez eles estivessem a um passo de recuperar tudo que haviam vivido nos últimos oito meses. O tempo parecia tão relativo agora, quando pensava sobre eles, parecia que sempre haviam estado juntos de alguma forma, mas para Snape nada daquilo era real, sabia o quanto fora difícil para ele admitir isso uma vez. O que dirá uma segunda - suspirou. Seus olhos turvaram e ela agarrou o travesseiro, afundando seu rosto nele. Como algo tão bonito e especial podia se perder assim? Como ela conseguiria viver sem todo aquele sentimento que ele havia despertado?

Levantou o rosto para fitar os raios de sol que atravessavam o tecido fino das cortinas. Seria mais um dia, mais um dia que estaria ao seu lado sem realmente fazer parte de sua vida. Não queria pensar sobre isso, doía. Passou a mão sobre o rosto enxugando as lágrimas e obrigou-se a levantar. Não ia adiantar ficar deitada chorando, ou fingir que ele não estaria lá embaixo tentando simular para si mesmo que aquela noite não acontecera, conhecia Severo, e naquele momento, melhor do que ele próprio. Pôs-se de pé e arrumou-se para descer.

Desceu as escadas e entrou na pequena sala usada para as refeições, encontrou-o entretido com um leve lanche matinal. Dirigiu-se até a mesa, evitando fazer qualquer ruído, mas Snape disse em seu tom sério, sem levantar seus olhos para ela:

― Bom dia, srta. Lovegood.

― Bom dia, Severo – respondeu, dissimulando seu constrangimento, mas ao invés de sentar, girou nos pés e tomou a direção da porta.

― Não vai comer nada? – a voz dele a atingiu antes que ela cruzasse o portal, enquanto olhos pretos a fitavam intensamente.

― Estou sem fome, obrigada – evitou encará-lo e saiu.

Snape deixou-se ficar olhando, durante algum tempo, o lugar ocupado por ela, levantou-se e saiu para o corredor. Luna voltou para o quarto, o coração esmagado no fundo do estômago, os olhos inundados e uma vontade louca de gritar. Fechou a porta atrás de si e escorregou, apoiada nela, até o chão frio, encolhendo as pernas e afundando seu rosto entre os tecidos da veste. Do lado de fora, a mão de Snape pousou suavemente sobre a maçaneta, hesitante. Fitou durante algum tempo a madeira escura da porta, e recolheu sua mão, bufando. E assim como viera, retornou pelo corredor mancando, seus olhos baixos presos a algo que ele não sabia o que era.

Os dias passaram, Luna continuava com seus cuidados e atenção para com ele, mas no fundo ambos se mantinham a distância um do outro. Ela estava sentada, numa tarde um pouco mais quente, ao pé de uma árvore, quando um estalido a fez se erguer de um salto. Snape estava parado atrás dela, mas com o pulo que ela dera, se aproximou impedindo que Luna caísse.

― Não queira assustá-la – disse suave -, apenas achei que poderia lhe fazer companhia. A casa está vazia sem a sua presença. – completou tentando ser carinhoso e diminuir a distância que há dias existia entre eles. Talvez se fosse outro momento, ou outra pessoa, ele não agisse dessa forma. Entretanto, com Luna era diferente, desde que recobrara a consciência, sentia-se impelido a tratá-la com uma certa distinção, não poderia simplesmente ficar indiferente a tudo que ela fizera. Aqueles olhos azuis eram ternos e gentis, e sua dona, adorável.

― Eu já ia entrar – ela se desculpou sem saber exatamente por que, mas retirou-o totalmente de seus pensamentos. E desvencilhando-se das mãos dele, tomou a direção da trilha. Não havia dado um passo e o chão lhe sumiu sob os pés, ela cambaleou e sem notar se apoiou em Snape. Fechou os olhos, sorvendo o ar rapidamente, a palidez de seu rosto se tornou visível e ele a abraçou. Luna conseguiu se controlar e abrindo os olhos, encontrou pretos preocupados. - Desculpe-me – balbuciou, deixando novamente a quentura dos braços dele, mas desta vez seguiu direto pela trilha.

Snape apenas a acompanhou com os olhos até que sumisse pela entrada da casa. Na manhã seguinte, notou que ela mal tocara no seu café, e com uma desculpa qualquer se retirou da mesa. A perna ainda falhava e as malditas lembranças não voltavam a sua mente, mesmo que forçasse, mesmo que implorasse à Merlin. Tudo que conseguira de progresso era lembrar o que acontecera na noite em que Voldemort morrera, mas as coisas relacionadas à Luna, ainda lhe eram um completo mistério. Não que duvidasse das palavras dela, nem tampouco tinha dúvidas de que ela lhe despertara algo, afinal sentira-se imensamente atraído por ela naquela noite, talvez, por isso mesmo, precisasse mais do que nunca saber como tinha sido tudo até ali. Como aquela moça havia entrado em sua vida e despertado aquele sentimento que ele julgava morto e enterrado junto com outros fantasmas de seu passado. Queria poder afagá-la mais uma vez, como fizera, senti-la em seus braços, mas para isso tinha que estar completo. E ainda havia Potter. Era estranho o rapaz não ter vindo lhe aborrecer atrás de explicações, mas talvez ele preferisse fingir que o pai estava morto. Um brilho frio cruzou seu olhar e ele enterrou as mãos em seus cabelos pretos.

Dias depois, Thomas Lovegood entrou na confortável sala de estar de sua casa de Kerrier, com os olhos azuis intensamente brilhantes e uma ansiedade latente. Encontrou a filha sentada na saleta ao lado com um livro entre as mãos, e com seu sorriso costumeiro, saudou-a:

― Bom dia, querida – a voz era baixa, mas excitada,

― Papai – exclamou a Luna. Levantou-se e o abraçou carinhosamente. – Quantas saudades!

― Eu também senti, minha querida – afagou-a com suas mãos delgadas, mas rapidamente acrescentou: - Preciso lhe falar com urgência.

― Claro – sorriu. – Vamos dar uma volta no jardim.

O Sr. Lovegood assentiu em resposta e dando o braço à filha, retiraram-se pela porta da frente. Assim que tomaram uma distância segura da casa, ele voltou a falar:

― Luna, minha querida, Snape já foi citado pelo departamento de investigação do Ministério – e com um jeito agitado continuou: -, o cerco está se fechando.

― Eu preciso de mais algum tempo – rebateu -, ele ainda não está pronto para enfrentar um tribunal.

― Eu sei – concordou o pai -, mas não sei se poderá protelar isso por mais tempo...

― Por que diz isso? – ela o encarou em azuis escuros.

― Porque você também foi acusada, Luna – os olhos dele agora cintilavam de apreensão –, disseram que você encobriu deliberadamente um assassino.

― E como chegaram a essa conclusão? – olhou-o fixamente.

― Malfoy disse que a viu no cemitério ao lado de Snape – pigarreou -, e que depois que ele foi atingido e fugiu, você também sumiu.

― E? – indagou

― E? – repetiu o pai confuso. – Eles virão atrás de você e a levarão a julgamento, oras!

Os olhos de Luna vagaram pelo infinito e depois se fixaram na casa atrás dele, e firme, anunciou:

― Eu vou me apresentar.

― Você vai o que? – os olhos do sr. Lovegood saltaram. – Escute, se Snape se entregar, poderá esclarecer tudo o que aconteceu.

― Não – ela protestou. – Eu ainda preciso reaver as cartas que estão em Beauxbatons, mas não posso deixá-lo sozinho aqui, e se eu conseguir iludi-los, posso ganhar o tempo que preciso.

― Você vai mentir? – murmurou atônito o pai.

― Se isso fizer o pai de meu filho ficar longe de Azkaban, não tenha dúvidas de que o farei - os olhos de Luna brilharam.

― O que exatamente está querendo me dizer, Luna? – perguntou incrédulo. – Você está grávida?

― E... eu acho q... que sim – balbuciou, e depois firme exigiu: - Eu o proíbo de contar isso a quem quer que seja.

― Ele não sabe? – a surpresa dele era palpável.

― Não – ela andou de um lado para o outro. – Não o quero ao meu lado por causa disso, e pior ainda, isso poderia fazê-lo tomar alguma atitude precipitada. Definitivamente é segredo, o senhor entendeu, papai?

― Sim, minha querida – assentiu contrafeito, mas prosseguiu dizendo: - Entretanto, eu ouso dizer que não poderá esconder isso durante muito tempo.

― Eu sei – ela o fitou com carinho -, por hora arranje alguém que possa me defender, está bem?

― O que dirá á ele a respeito disso? – indagou curioso.

― Absolutamente, nada – suspirou. – Eu quero meu noivo de volta.

O pai deu um sorriso meio sem jeito e a abraçou fortemente, murmurando:

― Vou ver o que consigo – sorriu -, mas prometa-me que vai se cuidar, está bem?

― Prometo – respondeu em azuis pálidos.

Num estalido ele sumiu nos gramados. Luna voltou calmamente para casa, e encontrou Snape esperando-a na sala.

― Vai me contar o que há de errado? – sibilou para ela.

― Errado? – disse sonsa.

― O que seu pai queira? – perguntou ríspido.

― Nada demais – olhou-o com desprezo -, somente saber como estávamos – e se dirigiu para as escadas, mas a mão dele a deteve.

― Acha que vou acreditar nisso? – rebateu mordaz.

― Deveria – encarou-o desafiadora -, ou está sugerindo que eu minto para você?

― E não mente? – retrucou.

― Não – disse, desviando os olhos dos dele.

― Sabe, srta. Lovegood – disse com voz de seda –, eu sempre admirei sua franqueza, apesar de as vezes ser deveras embaraçante ouvi-las. Entretanto, ouso dizer que a maturidade lhe roubou isso.

― Eu não sei do que está falando, Severo – disse nervosa -, mas está me machucando. – A mão dele continuava segurando-a pelo pulso e comprimindo-o forte.

― Tem certeza que não? – os olhos pretos mergulharam nos dela.

― Não – azuis se tornaram intensos.

― Não o que? – perguntou aflito. – Vamos, Luna, o que está acontecendo?

― Nada, Severo – disse irritada, puxando o braço com força.

― Eu não sei o que pensa que posso fazer... – trouxe-a mais perto, os olhos nos dela, a boca próxima -, mas a última coisa que faria seria magoá-la.

Luna o encarou, deixando de lutar contra os braços que a seguravam, e baixando os olhos, sussurrou:

― Eu não quero que pense que fiz isso propositalmente – azuis turvaram -, ou que espero qualquer coisa de você...

― Mas você espera – disse crispando os lábios –, e não é uma coisa qualquer, é um filho – encarou-a em pretos brilhantes. - Por que não ia me contar?

― Eu... - ela o fitou atônita, seus olhos percorreram os dele, indo de um para o outro.

A boca de Snape estava próxima a dela, e seus olhos ainda continuavam presos nos dele. Ele passou suavemente a mãos sobre o rosto dela e depois desceu as mãos para sua cintura, enlaçando-a, mantendo-a grudada ao seu corpo.

― Diga-me – disse baixo, os olhos intensos nos dela –, se você foi capaz de me fazer apaixonar por você uma vez, por que não o faria novamente?

Os olhos azuis dela brilharam e um sorriso aflorou em seus lábios. De repente todos os seus medos e incertezas se foram, ele estava ali novamente, entregue a ela, e como da primeira vez, se enrolando em seus próprios sentimentos. Snape a fitava com carinho, abandonando completamente seu jeito frio e distante.

― Não vou negar que é difícil conviver com a idéia de que já tivemos outros momentos juntos, e que a simples possibilidade deles ficarem esquecidos num passado tão próximo, me parece um absurdo – novamente ele passou os dedos sobre o rosto dela, tocando a pele macia e clara. - No entanto, pior é o martírio de viver sobre o mesmo teto que você, me enchendo dessa angústia dia após dia, e me obrigando a ficar longe com medo de feri-la. Eu já tenho a certeza que queria: a de que não coloquei esse anel em seu dedo a toa...

Luna não lhe deu tempo para completar a frase, enlaçou o pescoço dele, e trouxe-o até seu lábios. Snape não se opôs, mantinha-a presa entre seus braços, retribuindo-lhe os beijos, intensificando-os. Deixando que mãe e filho lhe tirassem toda sua razão.