Capítulo XXIII

Luna se sentia completa nas últimas semanas, o fato de não carregar esse segredo e de ter Snape ao seu lado, a fazia se sentir forte e pronta para enfrentar o que estava por vir. Não quis assustá-lo, a maneira como via Snape ultimamente não era a mesma de cinco meses atrás. Ele estava fragilizado pela batalha, por mais que tentasse se manter sempre impassível e no controle da situação. Afinal, era humano, e sempre há um momento em que os fortes têm que se confrontar com a falta de imortalidade que acreditam possuir.

Ela sabia que o assunto com Harry não estava acabado, e que isso o magoava, apesar dele nunca tocar no assunto. Luna ia continuar com seu plano e ganhar tempo para que ele conseguisse provar a todos o que realmente fizera, principalmente para Harry. Isso a assustava, a possibilidade de que talvez aquelas cartas não o absolvessem da morte de Dumbledore diante do mundo que o cercava, mas ao menos fariam Harry admitir que Snape lutara até o final ao seu lado, impedindo que Voldemort triunfasse. Nenhuma palavra sobre isso havia sido dita até então, Snape era apenas citado nos jornais como um Comensal procurado, um assassino frio. Os primeiros dias subseqüentes à morte de Voldemort haviam sido os piores, Luna teve vontade de proclamar aos quatro ventos o que realmente acontecera. Cruel era o que os jornais, o Ministério e Harry faziam. Em breve, Luna cuidaria disso... Muito em breve. Sorriu.

Ela estava em pé no meio do cômodo, agora vazio e fitava a vidraça a sua frente, os tons alaranjados do pôr-do-sol enchiam os jardins. Seus olhos se perderam no horizonte e ela deslizou suavemente a mão pelo ventre. Era engraçado imaginar que em breve teria um par de olhos a fitando intrigados, que sentiria uma pequena mão tocar na sua. Mordeu o lábio inferior. Não pensara em ter um filho tão cedo, ambos haviam concordado com isso, mas o fato dele existir estava começando a alterar suas vidas. Um leve farfalhar de vestes a fez virar o rosto e encarar pretos que a fitavam absortos em sua imagem.

― Então? – sorriu sem que ele visse. – Conseguiu dar os primeiros passos sem a bengala?

― Bom, eu não posso dizer que foi realmente brilhante – crispou os lábios -, mas foi um feito enorme.

― Não duvidei que fosse tentar até cair de cara no chão – gracejou, e virou-se para ele encarando-o em azuis brilhantes.

― Não cheguei a tanto, Luna – disse cínico. – Como pode ver estou sem nenhum arranhão, e sem nada quebrado, mas livre daquele toco de madeira.

― Cinqüenta pontos para a Sonserina – riu ao mesmo tempo em que se inclinava para frente e beijava-lhe ternamente os lábios.

― É a primeira vez que tenho vontade de dar 200 pontos para Corvinal – acariciou-lhe o rosto, mas Luna viu seu olhar se tornar escuro. - Eu devo estar ficando insano depois de tantos anos vivendo no limite do bem e o mal. – e se calou.

Ela percebeu e se aninhou nos braços dele, enquanto sentia as mãos dele acariciarem seus cabelos. Snape olhou a sua volta e num murmúrio perguntou:

― O que havia aqui antes, Luna?

― Aqui era onde minha mãe fazia os experimentos dela com feitiços – a voz dela se tornou baixa e triste. – Foi aqui que ela morreu, e depois disso, papai se desfez de tudo. – Ela tentou se manter firme e completou: - Ela trabalhava para o Ministério sobre sigilo, por isso essa casa é imapeável e protegida pelo Fidelius, sendo mamãe o fiel do segredo, e com a morte dela, acho que nem o Ministério seria capaz de achar essa casa.

― Você está tentando me manter escondido do mundo, srta. Lovegood? – crispou os lábios.

― Não, apenas seguro – sua expressão se tornou séria e ela o enlaçou pela cintura aquietando seus pensamentos. - Severo, eu prometo que vou recuperar as cartas – disse firme, fitando-o em azuis ternos. – Você sabe que o julgamento será em breve, e a sua melhor chance é com essas cartas em seu poder.

― Como pode ter tanta certeza de que eles as aceitaram como provas? – disse sarcástico. – Todos querem minha cabeça, Luna – e completou: - Você devia ter me entregue e se livrado desse problema.

― E perder isso? – colocou a mão dele sobre sua barriga e sorriu. – Nunca!

Snape fitou-a com carinho, um brilho diferente passou por seus olhos, essa era uma das coisas que gostava em Luna: ela sabia fazê-lo acreditar no lado bom das coisas, dava-lhe esperança. Sim, estava começando a se lembrar... o sorriso, a paz... Luna. Snape a puxou para perto, capturando seus lábios num beijo apaixonado.

O pai de Luna estava na biblioteca quando um estalido o fez voltar seu rosto para a lareira, em questão de segundos, viu Luna surgir diante de seus olhos. Ele se levantou da cadeira e foi em direção a ela, abraçando-a carinhosamente.

― Por que usou a lareira? – disse baixo. – Não é o modo mais seguro, você sabe disso, minha querida.

― Precisava ser rápida, papai – rebateu Luna. – Tem que trazer Gina até aqui.

― Aqui? – ele a olhava estupefato.

― Sim – disse com calma. – Ela é a única pessoa em que eu confio, pelo menos aqui dentro de Londres. Se ao menos eu pudesse contatar Pierre ou Antoine, mas isso seria uma imprudência da minha parte, então voltamos ao ponto chamado Gina Weasley.

― Luna – ponderou o pai -, isso que quer fazer também é arriscado.

― Eu sei, mas é a única chance que tenho de recuperar aqueles documentos – protestou a filha. – Eu não vou vê-lo apodrecer em Azkaban com Harry ignorando-o e exibindo uma medalha no peito por bravura.

― Escute, Luna, eu entendo sua raiva – disse suave -, mas você mesmo disse que o rapaz nunca suportou o Severo. Não me surpreende nada que ele não se manifeste a respeito do ocorrido.

― A mim sim! – rebateu Luna irritada. – E o grande senso de justiça grifinório? E a defesa da verdade acima de tudo? – os olhos dela marejaram de ódio. – Ele não tinha esse direito!

― Há algo mais por trás disso, não há Luna? – o pai a encarou por segundos. Os olhos verdes tão intensos quanto o dela própria.

― Talvez... – desviou o assunto, recuperando parte de sua calma. – Fará o que lhe peço?

― Sim, minha querida – um sorriso se formou em seus lábios ao abraçá-la – Ela estará aqui de tarde, no que depender de mim – acariciou os cabelos loiros da filha. – Acho que nunca lhe disse isso, mas eu me orgulho de você. Muito – beijou-lhe a testa.

― Obrigada, papai – sorriu de volta -, eu o amo.

O Sr. Lovegood a viu sumir nas chamas esverdeadas da lareira, então se dirigiu para o cabideiro no canto da sala, retirando o chapéu e a capa ali pendurados. Seus cabelos, mais platinados com tudo o que ocorrera, sumiram debaixo do pequeno chapéu; vestiu a capa e tomou o mesmo lugar que Luna ocupara a pouco instantes. Lançou um olhar sobre a pequena biblioteca e sumiu.

Havia algum tempo que Gina andava de um lado para o outro da sala de estar do Sr. Lovegood, os dedos torciam levemente sobre as vestes, enquanto era observada pelo pai da amiga. Um leve farfalhar de vestes fez ambos se virarem na direção da porta da biblioteca e viram Luna aparecer. Os olhos das amigas se encontraram e um sorriso enorme aflorou no rosto de ambas. Luna se apressou até a moça ruiva que estava a sua frente e abraçou-a afetuosamente, sem impedir que as lágrimas viessem, era tão bom ver Gina de novo. Depois do longo tempo dedicado aos abraços e beijos, Luna tomou a palavra.

― Gina, eu queria lhe pedir um favor – disse com cuidado, haviam sentado no sofá e o Sr. Lovegood de retirara, deixando-as a sós. – Preciso que vá a Beauxbatons e pegue uma coisa para mim – os olhos azuis encaravam docemente a amiga -, mas não quero que Harry saiba de nada.

― Você sabe que a acusaram? – disse Gina com uma leve nota de preocupação na voz, vendo o assentimento curto de cabeça da amiga, e completou: – Por que ele não se entrega?

― Porque precisamos daquilo que você irá buscar para mim – o olhar dela parou sobre Gina. – Você vai, não vai?

― Luna, você percebe o que está fazendo? – murmurou.

― Estou tentando consertar as coisas que Harry fez – o olhar dela se tornou escuro -, ou melhor, que deixou acontecer.

― Não é ele que está acusando o Snape – rebateu Gina.

― Não, mas não fez nada para impedir que isso fosse feito – replicou Luna. – Ele viu, sabe tão bem quanto eu que quem o ajudou foi Severo, e foi incapaz de dizer isso para aqueles pulhas do Ministério! – esbravejou colocando-se de pé, mas sua mente rodopiou e num esforço supremo sorveu o ar rapidamente, segurando-se no espaldar da poltrona ao seu lado.

― O que foi? – perguntou Gina indo até a amiga.

― Nada, Gina – balbuciou -, eu apenas não me alimentei direito de manhã. Estava muito ansiosa com essa entrevista.

Gina a fitou por algum tempo, sorriu e abraçou-a carinhosamente.

― Eu vou fazer o que me pede, Luna – sorriu. – Claro que sem papai ou mamãe ou Harry saberem – completou -, mas vou fazer. Dê-me apenas alguns dias, acho que até o final da semana terei uma resposta.

― Obrigada, Gina – disse Luna emocionada. – Não sabe como isso me deixa feliz.

― Você é como uma irmã para mim, Luna – enxugou as lágrimas da amiga. – Se você precisa de mim, eu vou lhe ajudar.

― Muito obrigada – abraçou-a. – Se por acaso ver Pierre, Emile ou Antoine, diga-lhes que mandei um beijo.

― Está bem – concordou, agora enxugando suas próprias lágrimas. – Eles tentaram ser ouvidos pelo Ministério, mas suas informações eram imprecisas e não obtiveram muito sucesso.

― Eu soube – assentiu baixo -, papai me contou.

― Vocês estão bem? – perguntou enfim Gina. – Quero dizer... Juntos. Você me entendeu, né?

― Sim – um sorriso iluminou o rosto de Luna. – Mais do que nunca, apesar dele não se lembrar de algumas coisas...

― Ele não lembra de algumas coisas? – perguntou surpresa. – Como o quê?

― Nós – respondeu. – Ele não se lembra de que ficamos noivos, e todo o resto, mas Madame Pomfrey disse que há chances dele se recuperar, e...

― E? – incentivou Gina encarando-a marota.

― Na realidade isso não importa muito, Gina – desviou seu olhos para as mãos -, porque nos amamos independente disso.

― Tem certeza que ele a ama? – indagou a ruiva.

― Claro – sorriu Luna, fechando os olhos e lembrando-se do que ele lhe dissera e da criança que crescia dentro de si.

― Ainda acho tudo isso uma loucura – rebateu Gina -, mas se estás feliz, é o que me importa.

― Você é a melhor irmã do mundo, sabia? - disse Luna

― Sei – sorriu a uiva -, mas também sei que já me demorei demais aqui. Podem desconfiar e seu pai não vai querer a casa dele revistada novamente.

Luna assentiu, tomaram a direção da biblioteca e lá chegando, deu um último abraço em Gina antes de vê-la desaparecer nas chamas da lareira. O Sr. Lovegood entrou naquele momento no aposento e com um suspiro, fitou a filha. Definitivamente não era mais a menina que corria pelos jardins ou entrava no vapor para Hogwarts, era sim, uma bela mulher de cabelos loiros e de uma determinação cega. Foi arrancado de seus pensamentos por um sibilo vindo da lareira. Luna deu alguns passos para trás se colocando ao lado pai, ele por sua vez, tomou a frente dela, mantendo as mãos da filha entre as suas.

Rufo Scrimgeour em pessoa surgiu na frente deles, e com um sorriso mordaz no rosto disse solenemente:

― Srta. Luna Lovegood, você está detida por acobertar o assassino Severo Snape - manteve seu sorriso, alargando-o –, e a não ser que queira colaborar com o andamento do processo sobre réu, sofrerá as penalidades impostas pela lei deste Ministério.

O Sr. Lovegood ficou totalmente sem ação, mas Luna saiu calmamente de trás do pai e encarou Rufo com seus intensos olhos azuis.

― Infelizmente eu desconheço o paradeiro do réu – disse suavemente -, mas mesmo que o soubesse eu não o faria.

― Sabe que isso é obstrução da justiça, senhorita? – ponderou o Ministro. – Isso pode implicá-la ainda mais no caso – e olhando-a friamente, completou: - Contudo existem maneiras de fazê-la falar.

― Isso é uma ameaça? – esbravejou o pai.

― No momento, não – rebateu frio Rufo –, mas pode vir a ser uma sentença.

― E vou me manifestar sobre esse abuso de autoridade, Ministro – ameaçou o Sr. Lovegood – Isso é inadmissível!

― Meu caro, senhor – retrucou o Ministro com sarcasmo –, acha mesmo que irão acreditar num semanário de quinta categoria que vive publicando mediocridades? – disse com desprezo vendo o olhar do homem a sua frente cintilar. - Além do mais, o que todos querem são resultados, não importa o meio que usemos para consegui-los, compreendeu?

― Isso não vai ficar assim, Rufo – rosnou o Sr. Lovegood.

― Faça-o se entregar, então – segurou Luna pelo braço, puxando-a para junto de si -, e com certeza sua bela filha estará livre de qualquer outro infortúnio... Adeus.

Num gesto rápido entrou na lareira com a moça e desapareceu, deixando o Sr. Lovegood atônito, escorregando as mãos finas sobre os cabelos.