Capítulo XXIV

O Ministro estava na sua frente acompanhado de mais dois homens quando a venda foi lhe retirada dos olhos. Ele vestia penas a camisa branca, alargou o colarinho enquanto os dois homens se mantinham ao lado da porta. Rufo se sentou na beira da mesa e a encarou.

― Srta. Lovegood – sua voz soava como seda, mas seu olhar cortava como faca -, não quero ter que usar meios escusos para obter a informação que preciso, mas não quero, também, que duvide de que o farei se for necessário.

― Não ousaria fazê-lo, Ministro – sorriu -, não depois da sua demonstração de autoridade mais cedo.

― Estamos começando a nos entender – foi a vez dele sorrir.

― Eu não disse que iria colaborar com o senhor – disse calmamente -, só estou constatando o que já pensava, você não devia ocupar esse cargo.

― Escute aqui – rosnou para Luna com os olhos cintilantes -, você não está em posição de achar nada.

― Eu não vou colaborar com o Ministério - seus olhos azuis luziram -, não nesse caso.

― É uma pena que pense assim – voltou ao seu tom calmo e dissimulado -, seria bom que as coisas acontecessem por bem, mas já que insiste em manter essa posição – se colou de pé e num gesto rápido, empunhou sua varinha na direção dela.

― Vai me azarar, Ministro? – inquiriu Luna.

― Você sabia que sua mãe trabalhava para o Ministério, não é mesmo? – sorriu triunfante para a moça. – Era um trabalho sigiloso, importante e muito, muito perigoso. Ela era muito boa no que fazia, lidava muito bem com feitiços e desenvolveu certos tipos para as sessões de interrogatório de possíveis Comensais ou colaboradores de Voldemort – encarou Luna. – Há um que é tão potente quanto uma Cruciatus; outro, que me permite ter acesso a sua mente sem ser um excelente Legilimens, entretanto, o meu preferido é o que poderia deixá-la com seqüelas cerebrais permanentes, mas infelizmente, nesse caso eu não poderia usá-lo visto que não me permitiria arrancar de você o que quero.

Os olhos de Luna estavam fixos nos dele, um misto de horror e tristeza se apoderou de sua alma. Não conseguia acreditar que sua mãe concebera tais feitiços, mas sabia que ela era realmente muito boa em manuseá-los. Ela só cometera um erro em toda sua vida e lhe fora fatal. Afastou esses pensamentos, não a ajudariam em nada, tinha certeza que mãe não iria querer fazer mal a ninguém, apenas fez o que achava certo para colocar um fim à matança de Voldemort. Não a culparia, não podia, se fosse pensar em erros, Snape tinha cometido muitos, e ela fechara os olhos para eles, perdoando, o amava acima de tudo. Amava a criança que crescia dentro dela, e isso a fez temer, não pela sua vida, mas pela do bebê. Sentiu uma dor latente na cabeça, dobrou sobre seu corpo e rolou para o chão. Tinha que resistir, dizia para si mesma, tentando esvaziar a mente de qualquer coisa. A dor se foi, ela tentou se erguer, mas novamente a pontada surgiu, agora percorrendo a espinha, colidiu com o chão se contorcendo, as unhas cravando na pele clara. Uma hora depois, seu olhar estava perdido no infinito, o corpo ofegava sob as roupas rasgadas e um sorriso brincava no rosto de Scrimgeour. Ele a ergueu do chão como se fosse uma boneca de pano e amparando-a, disse para os dois homens:

― Vão imediatamente, eu quero essas cartas destruídas – os dois homens assentiram. – Não quero saber o que contém, quero apenas ter a certeza de que nenhum Comensal sairá impune; um a um, eu os farei servir de exemplo para que ninguém ouse se impor a mim. - Ele fitou Luna segurando-a pelo queixo, os olhos dela fecharam e ela perdeu os sentidos. Num gesto eloqüente, Rufo beijou-lhe os lábios.

Longe dali, Severo viu surgir na sua frente o Sr. Lovegood. Imediatamente seus olhos pretos caíram sobre ele, como uma ave de rapina a espreita da presa e com fúria, sibilou:

― Onde ela está? – viu o Sr. Lovegood se sobressaltar com sua postura, e notou sua aflição. – Vamos, homem, diga onde, diabos, Luna está?

― Eles a pegaram – respondeu o mais calmo possível. Procurava forças aonde não existia para enfrentar aquela situação e sabia que o homem a sua frente não a aceitaria facilmente.

― Se importaria de ser mais preciso? – rosnou, os olhos pretos agora cintilavam.

― O Ministro – respondeu curto, tentando impedir que uma tempestade caísse sobre eles.

― Tola – esbravejou – eu disse para ela me entregar!

― Ela não faria isso, Sr. Snape – retrucou o pai.

― O que, raios, acha que andou ensinando a ela? – perguntou ríspido, o ódio de si mesmo percorrendo suas veias. - A se envolver com homens mais velhos e assassinos?

― Ensinei-a a amar – ponderou o homem -, e acho que ela aprendeu isso da melhor maneira possível, não concorda?

Snape bufou deixando seus olhos baixarem ao chão, sentindo um peso enorme sobre os ombros.

― Eu deveria acabar com esse jogo que Luna articulou e ir até lá colocar um ponto final nisso – respirou fundo, passando os dedos longos pelos cabelos pretos. – Eles querem a mim.

― Sim – concordou o Sr. Lovegood -, mas se for atrás dela pode colocar tudo a perder. Não pode confiar que Rufo a libertará em troca de sua prisão, ele está completamente fora de si. Está disposto a qualquer coisa para provar ao mundo que o Ministério não é omisso.

― E mesmo sabendo disso não quer que eu me entregue? Que tipo de pai você é? – acusou-o. – Não vê que irão torturá-la até conseguirem o que querem?

― Eu amo minha filha, Sr. Snape, e daria minha vida pela dela nesse momento, e não vou permitir que arrisque a única chance que temos de vê-la livre num rompante de raiva – rebateu, azuis adquiriram um tom peculiar. – A srta. Weasley foi atrás das cartas e, peço a Merlin que a faça voltar em segurança. Eu acredito no que minha filha acredita, e ela acredita no senhor, então, não me faça achar que está errada.

Snape encarou-o em pretos fulminantes, não estava acostumado a se dirigirem a ele dessa forma, calou-se. O pai de Luna, entretanto, saiu pela porta da casa, deixando o ar frio penetrar na sala.

Gina retirou a capa ao entrar no escritório de Madame Maxime, não se lembrava de que a diretora fosse tão alta assim e surpreendeu-se. Pierre e Emile ao seu lado quando uma enorme coruja parda surgiu no parapeito. Madame lançou-lhes um olhar furtivo e se encaminhou até a janela deixando que a coruja lhe entregasse o envelope. Ela rompeu o lacre e correu os olhos pelo seu conteúdo, e depois dobrou-o novamente dando um longo suspiro. Os três pares de olhos a fitaram, curiosos, e depois de um muxoxo, disse:

― É do Ministério Inglês – fitou-os um a um -, eles conseguiram junto ao nosso, o direito de confiscar os pertences da srta. Lovegood. – Encarou Gina e acrescentou: - Eu sugiro que ande rápido, srta. Weasley, eles estarão aqui daqui a pouco. Emile irá ajudá-la.

― Obrigada, Madame – disse bondosamente Gina. – Só não entendo como o Ministério ficou sabendo das cartas... – um pensamento cruzou sua mente, e ela levou as mãos aos lábios, murmurando. – Luna, eles a pegaram!

― Não deve perder tempo – disse assentindo para Gina levemente -, se a descobrem aqui não poderemos ajudá-la em mais nada.

Gina concordou e saiu para o corredor junto com Pierre e Emile. Chegaram com rapidez ao dormitório do sexto ano. Emile entrou seguida por Gina e mostrou-lhe a cama onde Luna dormia. Elas se ajoelharam em frente ao malão e com muito cuidado retiraram algumas roupas de frio dobradas, que estavam por cima dos livros. Procuraram pelo livro oco que Luna mencionara, e com os olhos triunfantes, as duas recolocaram tudo de volta no seu devido lugar.

O barulho de passos próximos fez com que se sobressaltassem e com passos largos ganharam a peça contígua que servia de banheiro e ligação entre os dois dormitórios femininos. Ouviram vozes de homens e depois um barulho seco de algo atirado ao chão, provavelmente o malão de Luna. Com cuidado giraram a maçaneta e entraram no outro dormitório. Estava escuro e Emile foi à frente, abrindo a porta e olhando para a sala comunal pela fresta Não havia ninguém de guarda, e as duas deslizaram silenciosamente até a porta que dava para o corredor, e a liberdade. Sem maiores problemas alcançaram a estátua de Luís XV, onde Pierre as esperava, e com o rosto apreensivo, falou:

― Vamos logo, temos que tirar Gina daqui – os três assentiram juntos e desceram as escadas correndo.

Madame Maxime sorriu ao vê-los entrar pelo escritório e com uma rapidez impressionante trancou a porta. Gina guardou as cartas dentro das vestes, bem escondidas e despediu-se de Pierre e Emile. Agradeceu mais uma vez à diretora e entrou na lareira. Antes de sumir nas chamas esverdeadas, entretanto afirmou:

― Eu os manterei informados, fiquem tranqüilos.

Snape estava apreensivo e irritado, não gostara da forma como o pai de Luna o tratara, mas não se sentia no direito de culpá-lo. O pobre homem devia estar tão desnorteado quanto ele. Snape sabia o que o Ministério poderia usar em seus interrogatórios, e pior, sabia também, que Rufo não teria problema em fazê-lo. A sua impaciência cresceu assustadoramente com chegada da noite e a falta de notícias. O Sr. Lovegood ainda não voltara, bufou. Ainda que tomado de uma angústia insuportável, e de uma total impotência diante do ocorrido, foi com os olhos brilhantes que viu a porta da frente se abrir e o Sr. Lovegood entrar seguido por uma moça ruiva. Crispou os lábios num sorriso contido ao ver o rosto de Gina Weasley surgir na sua frente.

― Boa noite, Srta. Weasley – disse impassível e com um gesto curto de cabeça, cumprimentou o pai de Luna.

― Boa noite, professor – retribuiu Gina. – Eu consegui recuperar suas cartas... Apesar do Ministério também estar interessado nelas.

― Eu agradeço o que fez – disse calmamente Snape, e continuou: - mas, srta. Weasley, eu preciso lhe pedir mais uma coisa, que convença o Potter de vir até aqui com você.

― Não posso garantir nada – disse Gina -, mas vou tentar, professor.

― Não há tempo para tentativas, senhorita, você tem que conseguir isso o mais rápido possível – disse seco, e virando-se para o pai de Luna, perguntou: - Descobriu para onde a levaram?

― Eu acredito que Luna continua dentro do Ministério – a voz do Sr. Lovegood embargou -, e temo, já que sabemos que o Ministro teve acesso a informações sobre as cartas, que ela não esteja nada bem. – Controlando-se continuou: - eu tentei de tudo para saber como Luna estava, mas eles foram categóricos em dizer que não sabiam do paradeiro de nenhuma srta. Lovegood. - O pobre homem estava muito abatido ao dizer isso. – Rufo está disposto a qualquer coisa para agarrá-lo.

― Aqueles malditos! – esbravejou Snape, cerrando os punhos, e minutos passaram até que retomasse seu controle e prossegui-se: – Srta. Weasley, sua amiga corre risco de morte, eu espero que seja tão boa em convencer o Potter quanto foi em trazer essas cartas em segurança. - Gina assentiu levemente com a cabeça. – Se Harry se posicionar abertamente sobre o caso, teremos uma chance mantê-la viva, entendeu?

― Sim. Imagino que se Harry tivesse admitido sua presença na batalha final ao seu lado, Rufo não iria agir dessa maneira, não no seu caso. – Gina deu um pálido sorriso. – O Ministro está ensandecido em cortar cabeças para provar que o Ministério não é incapaz de lidar com esse tipo problema – e baixo, completou: - papai anda decepcionado com a posição que Scrimgeour assumiu diante disso tudo.

― Concordamos nesse ponto, senhorita. Entretanto, o Ministro está infringindo a lei que ele mesmo quer fazer valer acima de tudo, isso é rapto. – As palavras dele saiam com facas cortando o ar. – O problema maior é que não temos prova de que ele está com Luna, e isso pesa contra nós, e coloca Rufo numa posição confortável. Ele pode simplesmente matá-la e nunca saberemos. – A última frase saiu baixa, triste. Snape virou-se para Gina e finalizou seco: - Estamos perdendo tempo, srta. Weasley. Existem duas pessoas lá dentro dependendo do que você conseguirá.

― Duas? – o fitou atônita.

― Sim – os olhos de Snape e Gina se encontraram, e ela pôde sentir a angústia do seu ex-professor quando ele completou:– Luna está grávida, srta. Weasley , e se algo acontecer aos dois, eu desço ao inferno e caço a alma de quem quer que seja o responsável por isso. Mesmo que depois eu pague o preço com a minha própria...

O pai de Luna estremeceu, mas Gina o fitou curiosa, era engraçado vê-lo externando seus sentimentos de forma tão humana. Não havia dúvidas de que amava Luna, e Gina não quis imaginar o que ele faria ao pobre infeliz que cruzasse seu caminho. Infeliz não corrigiu mentalmente seus pensamentos, Rufo Scrimgeour merecia a Maldição da Morte.